Anything But Ordinary

7 Rir até dormir é a minha canção de ninar


ACORDO ANTES DO SOL NA SEXTA-FEIRA. O céu brilha num tom violeta, com pouquíssimas nuvens. Deve ser quase 5 da manhã.

Salto da cama e abro a janela.

O vento arrepia meus pelos e traz o cheiro do mar. O frescor vem junto com o som das ondas… das árvores balançando… dos beija-flores brincando com as camélias…

Lágrimas escapam pelas minhas bochechas.

Acordei às 5 da manhã e o céu tá roxo. ROXO! Isso só pode ser um sinal!

Mais lágrimas.

— Mas qual?

Isso não vai durar, Lali!

Você vai embora!

Não devia se empolgar!

Já devia estar com todos os documentos andando!

An-dan-do!

Soluço baixinho, me apoiando na bancada da janela.

Você não sabe nem por onde começar!

Você é uma palhaça, Lali.

Uma pa-lha-ça!

Vai ficar presa em Costaré! PRESA!

Enxugo as bochechas e fungo, levantando o queixo. — CHEGA!

Tomo um banho, passo bastante gloss e arrumo o cabelo.

Estendo o uniforme sobre a bancada e passo o ferro no tecido. Perco a noção do tempo ao colar as pedrinhas, ajeitar as correntes e costurar a bainha de oncinha.

Entro na recepção às 6:50. As luzes amarelas estão mais fortes do que o comum e o ar mais gelado.

— Tô gata, Yoongi? — Eu giro. — O Jimin me deixou customizar o uniforme!

Yoongi para de piscar.

— Nem precisa dizer! — Dou uma gargalhada.

Ele pigarreia. — Tá pronta?

Faço que sim com a cabeça, sorrindo forçado.

Toda vez que o sino toca, meu coração acelera.

Os idiomas se misturam.

Os hóspedes sorriem, lendo os mapas.

Yoongi me ajuda a responder as perguntas que eu ainda não sei.

Eu quase não me sento.

Yoongi reveza entre dormir e repassar os detalhes das estadias comigo.

Os hóspedes enchem a recepção com cheiro de protetor solar, guaraná e coxinha. Alguns falam alto, e outros são quietos demais.

Às vezes eu esqueço de voltar pra recepção, envolvida nas conversas e no cheiro de macarrão da cozinha.

Apelo pra mímica na maioria das interações: braçadas pra falar da Praia dos Pescadores, garfadas pros pratos típicos do Brasil e ronronadas pra dizer que algum hóspede é gatinho. Nem sei se existe isso na língua deles, mas eles piscam de volta.

Yoongi não me flagra. Por pouco. Por sorte. E eu sou obrigada a mentir que tenho namorado.

AFF!

Meu coração aperta ao esbarrar no Yoongi todo torto no balcão a cada duas horas.

O sino toca.

As chaves sacodem.

Eu mal tenho tempo pra respirar.

Tento me distrair com a divulgação no computador. Quebro a cabeça com as planilhas.

E tudo se repete.

18:50 no relógio.

Finalmente!

Minha garganta e pés ardem. As costas estão tão duras que nem deitar no chão gelado aliviaria a dor.

Preciso de uma massagem. De um comprimido. Ou de um docinho.

De álcool.

Só de pensar, meu estômago queima.

Que saco! Nem posso exagerar! Não quero ter que me entupir de Azizol de novo!

— Desculpa por te fazer dobrar o horário só pra me treinar, Yoongi — atropelo as palavras, me abanando.

Ele boceja antes de sair. — Tranquilo. Agora eu só preciso dormir por umas 30 horas.

Nem tenho tempo de rir. Jimin surge com o uniforme impecável, uma xícara de café numa mão e um envelope azul na outra, cheirando à xampu de coco.

Meus olhos se acendem.

— Boa noite, Lali! Assina aqui que você recebeu o pagamento.

Seguro a caneta, tremendo. — Vocês… já vão me pagar??

— Sim. Minha mãe pediu pra adiantar o dia de hoje. Afinal, esse momento é histórico! Pode ficar tranquila: todos os benefícios tão incluídos!

Meu nome brilha na luz.

Desdobro o papel e conto as cédulas depressa.

150 reais. Cento. E. Cinquenta!

Choro de verdade.

— Você arrasou, Lali! Bom trabalho! Tô muito feliz por você!

Eu o abraço. Ele devolve o gesto, alisando meu cabelo e me provocando cócegas.

— Você… — Me afasto dele, apoiando o cotovelo no balcão. — Sabe se tem algum brechó ou armarinho aqui perto?

— Tem um bazar na igrejinha que eu ia. Mas… você vai sair agora? Não vai descansar?

— Claro que não! Preciso de roupa e de comida! Onde fica esse bazar?

— Já que você tá com pique, fica na Rua Aurora. Atrás da Principal. E tem uma lojinha de conveniência barata do lado. Até hortifruti! Mas corre porque tudo fecha às dez e geralmente lota!

— Valeu, Jimin! Aurora… Principal…

Guardo o dinheiro no bolso e saio.

Cada passo dispara uma pontada diferente nos meus pés, mas eu continuo caminhando, caminhando e caminhando.

“IGREJA PRESBITERIANA DA CAMÉLIA” grita num tom cinza debaixo das letras em coreano. As janelas são altas e tem vários andares.

— Uau!

Um leve cheiro de química se espalha pelo ar e eu farejo ao redor. Tem crianças queimando copos descartáveis nas luzes verdes das moitas.

Dou risada, a um passo de me juntar ao grupo.

Endireito a postura.

Ao ler “BAZAR” na portinha, minha dor nos ombros diminui.

O cheiro de tecido velho sobe com força. Franzo o nariz. Sorrio ao deslizar os dedos pelas araras, com os olhos brilhando. O peito quente. As pernas bambas.

Alguns vestidos são bem longos e ultrapassados, mas a maioria tem potencial.

Vestidos por 8 reais. Shortinhos por 10. Retalhos por 5.

Meus olhos se iluminam ao tocar numa sandália meia pata dourada.

Encho o carinho com incontáveis itens e me aproximo da dona do bazar.

— Deu 150.

Viro pedra. Se eu gastar tudo agora, eu vou ficar zerada até chegar o dia 30! Aff!

Acabo levando só metade.

Arrasto a sacola na direção da loja de conveniência.

O ar aquece a pele. Rodas rangem. Os clientes cochicham.

A mini seção de frutas me deixa com ainda mais fome, mas eu passo direto pra parte das guloseimas.

Banana milk… 13 reais?

— Um refrigerantezinho desses por 22 reais? Que assalto!

Uma embalagem marrom me chama atenção no compartimento de cima. — Ahn… bala de café? Promoção de 5 reais? Encho o carrinho com umas 10 unidades do doce. — Vai que faz efeito, né? Vou precisar disso no domingo!

Na próxima seção, meus olhos lacrimejam.

— O biscoito da televisão! — Empurro vários pacotes pra dentro do carrinho.

Mexo no carrinho.

Chocolate.

Biscoito recheado.

Leite.

Mais biscoito.

Eu devia comprar alguma coisa mais… adulta, né? Acho que vou no hortifruti!

Na caixa, o senhorzinho na minha frente está comprando a loja inteira. Revista, fruta, iogurte e cigarro. Bato os pés devagar, respirando fundo.

Até que um par de mãos tocam a minha cintura. Meu primeiro impulso é dar uma cotovelada na pessoa, mas o perfume no ar me arrepia.

— Mateo?

Suas pulseiras de couro balançam quando ele acena pra mim. O corpo malhado sob o conjunto de linho branco me arrancam um suspiro.

— Você ficou queimado de sol… nesse frio? Mas tá lindo mesmo assim todo vermelito!

As covinhas dele aparecem. — Oi, garotiña.

Quase tropeço. — T-Tudo bem?

— Sim, eu ia no outro catcha, mas vi você aqui… tudo bemhoje?

Sorrio. — Tô toda suada. Acabei de sair do trabalho.

Ele coloca meu cabelo atrás da orelha e ajeita os próprios cachos. Congelo, tentando esconder o tremor nas mãos.

O senhorzinho continua empilhando as embalagens de iogurte na esteira. A atendente murmura algo em coreano, revirando os olhos e pressionando os botões com rapidez.

— Linda, gatiña! — Mateo exclama por cima dos bips. — Só vim acá pra disser que estoy indo embora!

Um bico escapa de mim. — Mas já?

Sí. Pra Sum Paulo numa conferência de la empresa.

Seguro a risada. — Quando cê volta?

No sé. Mas se eu voltar, quiero ver você. Pero no puedo prometerte nada!

Forço um sorriso. — Claro! É melhor não prometer nada mesmo! Mas foi legal te conhecer, gatiño!

Ele me dá um abraço e espalha perfume de canela pelo meu braço, andando na direção do outro caixa.

A esteira engasga com meus itens por dois segundos.

Abandono quase todos os produtos.

Respiro fundo.

Termino de pagar e saio.

Pelo vidro do outro lado da rua, senhorinhas escolhem tomates e os senhorzinhos separam quiabos no hortifruti.

O preço do quilo dispara meu coração.

— 25 reais? Melhor eu continuar sendo criança mesmo! Que troço caro do caramba! Eu hein!

Dou meia volta, correndo na direção do hostel.

Queria chegar com sacolas maiores do que eu, a ponto de machucar meus dedos de tão pesadas. As poucas que eu seguro são tão leves que eu quase choro.

A recepção me recebe com o ar gelado e o relógio marca 21:12.

— Nossa, Jimin! — Jogo as compras na mesinha do centro.

Estico as pernas, limpando o suor da testa.

— Cê tá bem? — Jimin prende o riso ao se aproximar.

— Tô assustada! Desde quando tudo é tão caro assim?

— Vida adulta! A gente ainda tem sorte de não pagar aluguel, sabia?

Abro uma das sacolas e pego a bala de café. — Toma! Eu trouxe uma pra você, mas não conta pros outros!

Jimin fica vermelho. — P-Pra mim? Obrigado…

— Eu ia comprar comida pra todo mundo… mas o dinheiro não ia dar…

— N-Não precisa se preocupar comigo, Lali! Se preocupa com você! Inclusive… já era pra você tá dormindo a uma hora dessas!

— Eu sei! Mas eu preciso começar as aulas de inglês no computador! — Bocejo. — Posso usar? Ou você tá ocupado?

— Se eu tava, não tô mais! Não fala pra ninguém, mas… eu odeio fazer planilha!

— Eu também! — Trocamos um soquinho.

Tropeço logo na primeira lição, mas ele não se importa de tirar minhas dúvidas e até canta a música do alfabeto, dizendo que isso o ajudou a memorizar tudo rápido. Tento aprender saudações. Despedidas. Frases pra usar no check-in e no checkout.

Meu cérebro não acompanha nada direito, mas eu rio toda hora.

Permaneço na recepção até os meus olhos quase colarem um no outro de tantos borrões.

Jimin me leva até o quarto e se despede de mim com um beijo na testa. Agradeço, tranco a porta e apago.

Acordo sábado de manhã, com os músculos tremendo. Meu pé triplicou de tamanho.

Me levanto de uma vez pra exterminar o sofrimento, e acabo só aumentando as fisgadas.

Separo meu primeiro projeto. O retalho é cor de chama.

Apago rabiscos. Crio outros.

Babadinhos na saia do vestido… decote de gota frontal… duas fendas na cintura…

— Melhor mais embaixo. Vai que mostra a cicatriz, né?

Fecho os punhos. — Bandidos filhas da puta! Me deixaram sem carro! Sem dinheiro! E sem poder arrasar!

Seguro a vontade de chorar.

Volto a desenhar.

Miçangas vermelhas nas fendas…

Mais babadinhos…

— Isso! — Bato palmas. — Vai ficar perfeito!

Deixo o lápis cair.

Com as roupas na sacola, ando até a lavanderia.

Minha dor nas costas apaga o mundo. Os hóspedes não estão conversando, minhas mãos não estão sujas de sabão em pó e eu não estou com sono.

— Complicado, né? — Yoongi boceja, pressionando alguns botões.

A máquina ronca e roda rápido.

Coro. — Nem tinha te visto, desculpa…

Yoongi bagunça o cabelo.

— Desculpa. Eu… eu… nunca tinha visto tantos botões… a máquina da Casa Jovem era velha e pequenininha… Não me acha burra, tá? Por favor!

— Pronto. Depois é só você colocar na secadora e apertar aquele botão ali. Quando parar de se mexer, é só tirar.

Fico mais vermelha ainda. — É… Obrigada… Você é um ótimo amigo!

Yoongi ri pelo nariz antes de sumir. — Você ainda tá nessa?

— Argh! Garoto insuportável!

Depois de finalizar, volto pro quarto.

Meu coração bate forte.

Cada vez que eu seguro a linha, meus dedos tremem.

As pernas congelam na cadeira.

A garganta trava.

Lado errado.

Tento de novo. De novo. E mais uma vez.

Os dias correm uma maratona.

Fiapos de linhas no chão.

Dedos machucados.

Agulhas enferrujadas.

Costuro de manhã, à tarde, de madrugada.

Sobrevivo entre os turnos com balas de café horríveis, 6 horas de sono e o bulgogi da Angeline.

Na quarta-feira de manhã, finalizo.

— Lali! — Alice bate na porta. — Faz tempo que eu não te vejo!

— Oi, Lice, foi mal! — Limpo o suor da testa. — Eu tinha que focar… se não você já sabe, né?

Ela prende a risada. — Você não ia sair da balada!

Concordo com a cabeça, grunhindo. — Nem me fale! Já tô quase endoidando! Preciso ver gente!

Me ponho de pé e estico o tule. A estampa floral parece queimada na luz, mas as tirinhas estão mal coladas. Eu não compraria isso nem se fosse de graça!

Alice tapa a boca. — Uau! Que vestido lindo, Lali!

— Lindo? Passei uma semana tentando mexer nele e não ficou igual eu queria! Tá meio torto na barra. Cê não tá vendo?

Ela cruza os braços. — Nem parece que você fez isso tudo na mão. Valeu a pena, Lali! Tá perfeito!

— S-Sério? Você não tá falando isso só porque é minha amiga?

Alice chacoalha a cabeça.

Meus olhos ardem. — É-é… a primeira vez que alguém não me diz que isso “é uma perda de tempo.”

Alice me abraça e seu cheiro de morango me arranca lágrimas. — Tá incrível, Lali!

— Brigada…

— É o seu sonho, né?

Faço que sim com os polegares.

— Então… por que você não investe nele?

— Como assim?

— Esse monte de tecido que você tem na maleta… — Ela aponta pra minha caixa. — Parece chique. Por que você não usa? Não que seja ruim usar tecido barato, mas se você tem, podia usar!

— É que… eu não sei se eu devo!

— Mas é seu, né? Tem o seu sobrenome escrito!

Antes que eu responda que é uma longa história, o botão da lapela da Alice apita.

— Tchau, Lali! Depois a gente se vê.

Deslizo os olhos pelas roupas na cama. Droga, não vou conseguir terminar tudo!

Seguro o vestido. — Vou ter que te usar mesmo assim, né, querido?

A água quente tira a tensão da minha pele aos poucos. Meu cabelo fica lindo com a trança lateral e o gloss ressalta meus lábios.

Ajeito o vestido.

Não tá tão curto como eu queria!

Eu o ajeito de novo.

Tá com cara de roupa de dez reais.

— Mas eu continuo gata! — Jogo os fios de lado.

Paro na porta da recepção.

Yoongi dobra uma perna e anota algo no caderninho. A blusa azul petróleo desenha seus braços.

Hum… Tênis de couro branco. Calça jeans clara. Cabelo penteado de lado. Que homem lindo, misericórdia!

Engulo a seco e dou um oizinho pra Alice antes de me aproximar do Yoongi.

Seu perfume de caramelo me arrepia.

Mordo o lábio inferior.

Raspo a garganta.

Yoongi finalmente levanta a cabeça.

— Cê tá mais gato que o normal hoje, hein? Vai sair, por acaso?

— Vou não.

— Tá querendo fazer eu me apaixonar por você? Eu não posso ser demitida, esqueceu?

Ele tenta abafar a risadinha. — Você não consegue conversar com ninguém por dois segundos sem flertar?

Arrá!

Estendo as mãos. — Flertar? Mas eu só te elogiei!

Yoongi bufa.

— Ah, Yoongi, foi só um comentário! — Engrosso o timbre. — Mas relaxa! Se eu estivesse flertando com você, você saberia.

Ele congela.

Me levanto. — Você pode ir comigo no Centro?

— No Centro?

— É… pra… pra tirar os pontos…

Yoongi ergue as sobrancelhas.

— A Doutora Michele me disse pra voltar hoje…

— Foi mal. — Ele coça a bochecha. — Eu esqueci mesmo.

— É. Você sumiu depois que me treinou…. Mas… você pode ir?

Ele para de piscar.

— É que… eu tô com medo de passar mal se tiver ficado cicatriz…

— Você não viu ainda?

Meu rosto esquenta. — Tô fazendo de tudo pra não olhar. Mas… se você tiver que estudar… eu entendo, tá? Vou ver com o Jimin se ele pode ir comigo.

Yoongi permanece em silêncio por alguns segundos antes de se levantar, com as mãos nos bolsos, encarando a porta.

— Que horas, Lali?

— Se você não estiver ocupado, eu tô saindo agora. Tá vendo? Costurei esse vestido ba-fô-ni-co! E hoje eu vou ser descosturada. Que coincidência!

Yoongi dá uma risadinha e balança a cabeça.

Pisamos nos ladrilhos da calçada. As pétalas amarelas das camélias voando nos acompanham. O cheiro do mar se intensifica, e as águas cor de esmeralda surgem no final da rua do Solaris. As gaivotas chiam no ritmo das ondas. O vento é geladinho.

— Olha que lindo, Yoongi! — Aponto.

As lojinhas estão lotadas de gente, manequins, sacolas cheias de produtos de beleza e comida. Cheiro de café. Pão. Cimento quente.

Me viro, e o Yoongi me estende um capacete roxo.

— Pera! — digo, consertando a alça da ecobag no ombro.

— Que foi?

— Cê acha mesmo que eu vou de vestido na garupa?

Yoongi respira fundo. — Cê vai andando até o Centro? Papo de 40 minutos.

— Claro que não! A gente vai de ônibus!

Tiro o cartão da bolsa e o chacoalho no vento.

— De metrô é muito mais rápido, Lali

— Sim, mas o ônibus é mais barato e eu já até comprei o passe! Vou estrear ele hoje com você. E vou pagar tudo!

— Não prec—

— Vamo! Vamo! Eu faço questão!

Chegamos na hora exata em que o Centro-Camélia-Circular para na Principal.

Sinalizo.

Entro.

Dentro do ônibus, o cheiro de suor é forte. Tem crinças vandalizando cadeiras no fundo, riscando os assentos azuis e pichando as barras amarelas.

Faço uma careta, mas aceno pro motorista. — Bom dia, moço!

Ele acena de volta, girando o volante. Yoongi dobra o corpo de leve e para do meu lado na frente da catraca.

As senhorinhas da entrada me olham feio. Não sei se estão criticando as aberturas na costura ou o decote no meio do vestido, mas eu mantenho o queixo erguido, como se não estivesse tremendo.

Aproximo o cartão.

Depois do bip, eu cruzo o caminho.

Repito.

Yoongi atravessa a catraca e se senta do meu lado no banco mais alto.

Meu coração dispara. — Não acredito! Eu paguei pra alguém andar comigo de ônibus! Nunca imaginei que isso fosse acontecer e nem que eu ia gostar tanto de me sentir assim!

Yoongi abre um sorriso de canto. — Isso é legal.

Passamos pelo viaduto. As camélias amarelas somem, e os prédios antigos aparecem. O céu se enche de nuvens claras, e a luz azul reflete nas janelas e nas fachadas do Shopping Costarenho.

— Ah! — Bato no vidro com a ponta dos dedos. — Que saudades que eu tava de ver tanta gente!

— O Solaris tá sempre lotado, Lali!

— Mas tanto assim? — Toco na janela.

— É… lá não tem tantas abelhas…

Solto uma gargalhada. — Você é muito engraçado, Yoongi!

Ele se escora nos braços da cadeira, bufando.

Os carros se aglomeram nas avenidas, buzinando sem parar e jogando poeira pra cima, subindo até o Palácio Central.

— Que cantores você escuta? — Quebro o silêncio.

— Ah… de tudo um pouco: Kendrick, Lana, Cazuza… Qualquer coisa que me faça refletir.

— Entendi. Mas cê não vai me perguntar de volta, não?

— E precisa? Eu já sei que você gosta de rock.

— Como você sabe?

— Semana passada você colocou um álbum inteirinho do Paramore pra tocar na recepção.

— É. Você tem um ponto.

— E você tava escutando uma música da Avril Lavigne dentro do Celta… lá… naquele dia…

Meu estômago embrulha. Então… Foi mesmo o destino? O Jimin não tava exagerando?

— E-Então você me viu antes deles pegarem o meu carro?

— Sim. Escutei uma música chata tocando e pensei “como alguém deixa o carro no meio de uma estrada vazia a uma hora dessas? Só uma fã da Avril Lavigne mesmo”!

— Ei, para! Eu amo ela! Eu ficava o tempo todo na Casa Jovem escutando as músicas dela, sabia? Achei que fosse me ajudar a aprender inglês, mas… cê já viu como eu sou fluente, né? — finalizo com uma risadinha.

Yoongi estreita os olhos, como se dissesse “tô nem aí”.

— Mas — continuo, — eu também gosto de música brasileira: Melim, Péricles, Liniker… E pelo que eu vi… você não gosta muito de música coreana, né?

— Você gosta de tudo que vem da Itália?

— Não. Não gosto de ópera, de café forte e nem de jeans.

— Exato. Eu também não gosto de tudo que vem da Coreia.

Dou de ombros. — Eu só ligo pra batida das músicas, mesmo se eu não souber a letra!

Yoongi se espreguiça. — É o próximo ponto, Lali.

O ônibus freia devagar.

Dobramos a esquina.

O pronto-socorro me dá um calafrio. As paredes são mais claras do que eu me lembrava, cheias de azulejos azuis e corredores com cheiro de álcool e de soro.

O ar é congelante.

Entro na salinha e espremo os olhos.

O suor escorre pela minha testa.

Sacudo os pés.

O enfermeiro puxa os fios de um jeito rápido. Por um milagre, é só uma fisgadinha.

— Se continuar doendo, pode tomar dipirona ou paracetamol. Tá liberada.

Abro um meio sorriso. — F-Ficou marca?

— Uma das cicatrizes ficou bem mais nítida que a outra, mas ainda assim bastante suave.

Tento não descer o olhar. — O-Obrigada…

Saio, com o peito apertado e a respiração entrecortada.

— Cê tá bem? — Yoongi toca meu ombro. — Tá pálida.

Meus olhos se enchem d’água. — Eu vou ficar… Só não posso ficar pensando nisso. Você… você… quer ir comigo no… Como é o nome mesmo? Ah! Museu das Sementes?

Yoongi abraça os cotovelos. — Mas cê não achava chato?

— Quando eu ia com a escola, sim, mas com você vai ser legal, né?

Ele congela e eu acho graça, limpando o rosto.

O Museu das Sementes aparece no meio dos pinheiros. Paredes de tom verde militar antigas, pôsteres com regras de uso e filas em ziguezague.

Yoongi anda devagar, com as mãos nos bolsos.

— Vamos? — Toco seu punho. Ele mantém a expressão séria e me acompanha.

Uma mapa indica onde existem os maiores territórios de maracujá no mundo. Turistas cochicham ao redor dele. Estudantes copiam nomes no caderno, enquanto um professor explica sobre as sementes. Eu finjo entender cada detalhe sobre irrigação, solo e temperatura adequadas, camuflada entre as crianças.

— Bora, Yoongi! — Eu o apresso de novo. — Vai ser legal!

Ele concorda com a cabeça, desviando o olhar.

No canto do corredor, tem um jogo rápido chamado “TOQUE E ADVINHE”. As caixas são de papelão preto, pintadas com imagens de uva, cacau, café e limão e cobertas por uma lona opaca. Três acertos equivale a um brinde.

Coloco a mão dentro da caixa. Fico sem ideia. — Laranja?

A próxima semente é seca e me deixa na dúvida entre cacau e café. — Cacau!

A última me faz cócegas de tão lisa. — Melancia? Melão? Mamão?

No final, acabo acertando. O prêmio é um adesivo de Costaré com o brasão e o lema da cidade. Escondo a careta e agradeço ao atendente.

Yoongi prende o riso. — Parabéns, cidadã.

— Valeu a pena. Eu amo morar aqui! — minto sem querer, ficando vermelha.

— Tô vendo.

Na sala sensorial, o cheiro cítrico é forte. Sons de vento, de pássaros e de pessoas plantando sementes, regando e colhendo frutas.

As sementes parecem pedrinhas beges nos tubos.

Crianças pintam frutas com tinta nos quadros e os deixam registrados em murais.

Me aproximo das luvas verdes nos suportes.

— A gente precisa pintar, Yoongi! — Dou uma cotovelada de brincadeira nas costelas dele.

— Cê tá me zoando, né?

— Por favor, por favor! Vamos! Diz que sim!

Num impulso, espalho tinta rosa pelo nariz dele.

Seus olhos se arregalam.

Sua boca se abre.

Um risinho escapa de mim. Hum… Nervoso?

Não disfarço que também estou vermelha.

— D-desculpa… — Recuo um passo.

Yoongi esfrega um paninho no nariz e sai sem dizer nada.

— Estraga-prazeres!

As escadarias e rampas são enormes. Fitas impedem que as pessoas cheguem perto das estátuas douradas dos pescadores segurando os maracujás.

Vitrines de vidro. Portas pesadas. Luzes brancas.

— Você não tá achando legal, Yoongi?

— Tô. É só que é… informação demais!

— É por isso que é tão legal! Olha só o teto! Que máximo! É aberto!

— Sim. São claraboias.

— Você entende, né? Tinha esquecido!

— Um pouco.

No final do corredor, o chão é mais escorregadio. O burburinho em línguas estrangeiras aumenta e as luzes amarelas pipocam.

— Isso é uma feira? — debocho.

Yoongi faz uma careta engraçada.

A moldura de maracujá brilha de longe. “SEJA UMA SEMENTE: FAÇA O FUTURO GERMINAR” grita em amarelo. Tem dois buracos cor de limão e casca roxa.

O maracujá é tão áspero que quase fura os dedos.

Enfio o rosto em um dos buracos, com a língua pra fora.

— Tira uma foto pra mim, Yoongi?

Ele gargalha. — Tá de sacanagem, né? Isso é a coisa mais ridícula que eu já vi na minha vida!

Bufo. — Por isso que é perfeito.

Ele tira o celular do bolso, balançando a cabeça. O canto da boca dele treme com aquele sorrisinho fofo meio escondido. Os flashes aceleram na minha direção. Faço careta. O sinal do rock’n roll. Paz e amor. Dedo do meio.

— Agora vem! — Puxo a mão do Yoongi.

Ele não esconde a expressão irritada e força um sorriso.

Um adolescente tira as fotos pra gente.

Uma foto.

Duas.

Três!

— Eu amei!

— Eu odiei!

Gargalho, atravessando o corredor.

O cheiro cítrico acerta minhas narinas outra vez, misturado com açúcar, café e chocolate.

A fila da degustação faz o meu estômago roncar: gelatina, geleia, mousse, torta, pudim… Tudo de maracujá. Provo um pouco de cada, lambendo os beiços. É azedo. Doce. Cremoso. Gelado.

Na medida certa.

— Nossa! Que delícia essas comidas, moça! Posso pegar mais?

Yoongi solta um chiado, mordendo um bocado de gelatina.

A atendente ri. — À vontade, querida.

— De nada, tá, gatinho?

Ele semicerra os olhos. Dou mais uma colherada no mousse, suspirando.

No canto, tem maracujazinhos de crochê. Hum… Cabe no bolso… É fofo… Colorido… Ele vai amar!

— Me vê dois desses, moça? E essa caixinha de brigadeiro de maracujá também, por favor! — Estendo a nota de 20 reais pra ela.

A atendente sorri e coloca os chaveirinhos numa sacolinha.

— Por você ter aceitado vir aqui comigo, gatinho!

Yoongi levanta as sobrancelhas, mas guarda o chaveirinho no bolso da frente.

— Chaveirinhos combinando! — A atendente bate palmas. — Own! Que casal lindo!

— Que nada, moça! Esse garoto é mais azedo que esses maracujás aqui! Nunca vai me dar bola!

Ela ri baixinho.

Yoongi fica vermelho finge não ter me escutado, comendo um casadinho de goiabada.

— Yoongi…

Ele me olha.

— Tá sujo.

Ao indicar o canto da boca dele, roço nossos braços sem querer. Ele está mais quente do que antes.

E mais arrepiado.

Fixo o olhar no piso. — É… você quer ir na Central?

Yoongi limpa a boca com o guardanapo. — T-Tudo bem…

A Biblioteca Central é cem vezes maior do que o Museu das Sementes. Os aromas do café, de papel velho e da cera do piso se misturam, subindo até o teto aberto.

— Olha, Yoongi! Aqui também tem claraboias!

Ele sorri de canto. — Sim. Tem.

Eu sorrio junto, relaxando os ombros.

As estantes se inclinam como se fossem cair na minha cabeça a qualquer momento de tantos livros que tem. Marrom e verde. Velhas. Tenebrosas.

— Quantos livros você já leu?

Yoongi põe uma mão na cintura. — Acho que uns 50. E você?

— Calma! — Massageio a testa. — Deixa eu me recuperar! Como que você não endoidou? Minha cabeça dói só de pensar numa coisa dessas!

Yoongi acha graça. — Eu enlouqueci sim. Só que eu aprendi a disfarçar.

Ele pega um livro marrom da estante de Clássicos e folheia as páginas depressa.

— Cê também acha que ela traiu ele?

— Ela quem?

Yoongi vira a capa.

Faço uma careta. — Dom Casmurro? Até hoje não entendi nem porque esse livro tem esse nome! Quem dirá a história!

— É por causa do protagonista.

— Na escola me fizeram ler isso. Eu queria morrer. Eu só fingia.

Yoongi solta um riso curto. — Pra mim também foi um trauma. Até hoje, se eu pegar pra ler, preciso de um dicionário em várias partes. Mas é muito bom!

Coloco uma mão no queixo. — Então você não é tão nerd quanto eu pensava…

— Acertou.

Mostro as figuras do livro da seção à esquerda pra ele, com corações, borboletas e arco-íris.

— Muito mais legal!

— Isso não é da seção infantil?

— Não é infantil só porque tem figura! — rebato. — É mil vezes mais interessante porque tem coisa pra ver, não só ler!

— A graça é justamente essa, Lali: ler, imaginar e pensar!

Dou de ombros. — Quem falou que eu quero ficar pensando? Isso é muito sem graça!

Soltamos risadas ao mesmo tempo.

Yoongi fecha o Dom Casmurro. — Você vai comprar algum livro ou vai ficar só olhando mesmo?

Nego com a cabeça. — Não. Eu vim aqui só pra você se divertir.

— Então eu vou te contar a minha teoria da Capitu.

Compro um matchá e o Yoongi um macchiato.

Me sento de frente pra ele. Yoongi segura o livro e me explica sua teoria do porquê não foi uma traição, se inclinando e tocando meu joelho de leve.

O vapor da xícara me distrai por um segundo, até meus olhos pararem na boca dele.

Minha respiração acelera.

Cê não cansa de ser bonito? Aff!

Meu coração para. Dispara. Para. Dispara.

Para de deixar tudo tão na cara, Lali! Assim ele vai fugir!

Desvio o olhar pro chá verde, sem disfarçar a risada.

— …entendeu?

— Aham… claro que sim! Também acho!

Depois de mil explicações que eu finjo entender, finalmente saímos da Central.

— Pra onde a gente tá indo agora?

Ele não me responde.

Dou de ombros e o sigo.

Minha respiração falha quando curvamos a esquina.

Meus pés reconhecem o caminho antes da minha mente. As folhas escuras brincam com o vento, e as casinhas de tijolos aparecem sob o céu nublado.

A sensação de calor do asfalto desaparece.

E o frio me acerta.

— B-Brigada… — Minha voz quase some.

Daqui do topo, as pessoas estão realmente parecendo abelhas no Centro. Solto uma risada baixa.

Passo os olhos por todos os cantos: pela Vila Dorata, pela Serra, e paro na Camélia. Tem poucas pessoas na Praia dos Pescadores, e a Pedra Haru bem lá no fundo está mais azul do que o normal. As camélias são pontinhos de luz amarelos.

Não dá pra ver o Solaris, o que me deixa triste por um segundo.

Cada vez mais longe do barulho, atravesso o corrimão. Os postes ao nosso redor se mantêm apagados.

Minha respiração falha. — Y-Yoongi…

Não termino a frase.

Talvez eu nem ia dizer nada.

Talvez era só a vontade dele olhar pra mim.

E ele olha.

— Que foi? — Yoongi indica o chão da calçada, se senta do meu lado e abre um sorriso pequeno.

Um suspiro me escapa.

— Quer um brigadeiro? — pergunto, puxando o zíper da bolsa.

— Por favor.

Mastigo em silêncio. O maracujá gruda no céu da boca, meio azedo, meio doce, mas irresistível.

Alterno o olhar entre as orlas das praias da Camélia, do Centro e da Vila Dorata.

— Cê já foi lá?

Yoongi vira a cabeça. — Lá onde?

— Na Vila Dorata.

— Só passei. Você já foi?

— Sim. No passeio da escola. Eles levavam a gente naquela Fábrica de chocolate e no Exército… só tinha gente rica e metida lá! Quem me dera ter ido na Camélia naquela época! Devia ser bem melhor! Como era a Camélia?

Yoongi para de mastigar.

— Eu sou chata, né? Desculpa… Não precisa falar!

— Tranquilo… É… Doeu?

— Os pontos? Foi de boas… Eu só não tenho coragem de olhar ainda… Acho que vou morrer… Você vai precisar me segurar!

Yoongi revira os olhos.

Vai ficar tudo pra trás. TUDO!

Controlo o impulso de chorar que me toma, tossindo forte.

— Yoongi — sussuro.

— Fala.

— Por que você quer tanto ser arquiteto?

— Porque eu gosto de planejar as coisa e quero ter meu dinheiro.

Desço o olhar até as mãos dele. — Cês também ficam com a mão assim… toda cheia de calo?

— É de um jeito diferente.

— Eu também quero ter meu próprio dinheiro, mas eu não… tenho muita paciência pra planejar nada não, sabe? Só as minhas roupas…

Yoongi solta um risinho. — Percebi.

Minhas bochechas ardem com a vontade de que me dá de abraçar ele.

PARA!

Entrelaço os dedos na frente do vestido, travando o olhar nos prédios outra vez. — Cê também quer abrir uma empresa igual o Jimin pra ajudar a sua mãe?

— Quero abrir um escritório em casa.

— Entendi… Cê quer saber como eu descobri esse lugar?

Yoongi assente.

— Foi com o Leo.

— Quem?

— É… — Minha garganta seca. — Foi no dia que eu perdi tudo: o BV… a virgindade… e o meu único amigo.

— Ahn?

— Eu fugia direto da Casa Jovem… Você com certeza já deve imaginar isso… pelo jeito que eu sou…

— Lógico! — Ele ri. Eu rio junto, com o nariz ardendo e as lágrimas embargando a minha voz.

As memórias me invadem sem piedade.

— Eu sempre dava um jeito de pular o muro sem saber pra onde ir. Na primeira vez, eu devia ter uns… 8 anos! Me acharam no meio do Shopping Costarenho! Eu tava tentando achar o banheiro e me acusaram de roubo. Aí a Juliana me deixou de castigo…

Respiro fundo.

— Mas — diminuo o tom —, eu continuei fugindo… Eu precisava respirar ar puro. Tendeu?

Yoongi abraça os joelhos. — Tendi.

— Tava ficando cada vez mais insuportável morar lá. Aguentei por muito tempo. Até que… o Leo entrou no abrigo… Ele tinha perdido os pais num acidente de moto… e era uma criança quieta…

As imagens passam na frente dos meus olhos. Seu hálito de pasta de dente de uva. Seus cachos da mesma cor da pele. Dourados demais. Macios demais. Suas mãos suadas. Tremendo ao tocar na minha cintura. Nossas bochechas fervendo depois de eu gritar “Eca! Você beija muito mal, seu pirralho!” e ele me responder “Você também, sua feiosa”!

Nossos uniformes sujos de grama de tanto disputar corrida… O queixo doendo de tanto rir…

A última vez que a gente veio aqui…

— Ele era a única criança da Casa Jovem que não me chamava de chata. Que gostava de ficar perto de mim. A gente devia ter uns… 14 anos na época quando combinou de fugir junto pra assistir o pôr do sol no dia meu aniversário.

Yoongi põe as mãos no queixo. — 13 de maio, né? O dia que eu te conheci.

Confirmo, comprimindo os lábios.

— O Leo veio primeiro. E eu dei um jeito de pular o muro. A gente se encontrou na frente do Museu das Sementes. Ele disse que queria me mostrar um lugar onde o pôr do sol era da cor do meu cabelo, dos meus olhos, da minha pele, e bonito igual o meu sorriso.

“Eu sabia que gostava dele e… alguma coisa me dizia que ele também gostava de mim. E naquele dia, a gente se declarou um pro outro, se beijou, bateu o dente e começou a rir. Fomos tentando de novo, e acabou ficando junto.

“A gente prometeu que ia embora quando fizesse 18. Íamos juntar dinheiro. Ele ia virar piloto. Mesmo tendo medo de altura… porque ele queria me levar pra andar de avião. Pilotar pra mim. Só pra mim. Foi… foi uma… uma promessa…”

Solto outro soluço e enxugo o rosto. — Ele queria me levar pra Itália… ia vestir as roupas que eu ia costurar. Ele mal sabia como funcionava pra ser aprovado no aeroporto, e eu nem sabia direito como funcionava a faculdade de moda. Mas a gente ia dar um jeito. A gente tava junto. Junto!

Yoongi coça as bochechas. — Moda? Cê quer estudar moda? Ah! Então é por isso que você vai pra Itália? Pra… pra fazer faculdade?

— Não quero falar disso agora.

Yoongi diz “sim” com um aceno.

— Aquela foi… a primeira vez que eu planejei alguma coisa. Que eu sonhei com alguma coisa impossível. E eu quebrei a cara!

Tiro alguns segundos pra respirar. — A gente não podia ficar saindo. Quando o Leo começou a ganhar roupa nova do nada, eu percebi que tinha alguma coisa muito estranha. A Juliana até deixava ele sair! Eu não sabia com quem, mas eu sentia ciúme. Ele não conversava mais comigo no refeitório. Nem me abraçava. Tinha virado outra pessoa.

“Aí quando eu descobri pelas tias do refeitório que ele ia ser adotado… tudo… tudo desmoronou… Bom… pelo menos ele teve um final feliz, né? Até porque nesse final não tinha eu então como ia ser diferente?

Yoongi engole em seco.

— Não vou mentir: pouca criança era adotada e eu me senti horrível por invejar logo ele, mas não consegui me segurar!

Yoongi encara os próprios pés. — Quer ir embora?

— Não.

Soltamos o ar ao mesmo tempo.

— Se você tivesse me conhecido de outro jeito… talvez quando a gente era criança… será que… você seria meu amigo hoje em dia?

— Depende.

— Do quê?

Yoongi dá de ombros. — De muita coisa, ué!

— Ia ser mais difícil do que agora então — brinco. — Você tem cara de que era um garoto mimado.

— Talvez.

— A gente ia pular o muro junto e vir aqui — digo.

Yoongi desliza os dedos pelas bochechas, completamente vermelho.

— Se eu tivesse conhecido vocês naquela época… teria sido muito mais fácil… Eu… eu não teria ficado tão sozinha…

Yoongi abraça os cotovelos, prendendo o olhar nas nuvens.

— Também te chamavam de chato na escola?

— Não.

— Deviam te chamar de esquisito então.

Yoongi abre um meio sorriso. — É…

Passo uma mão pelo cabelo. — Se a gente continuar se falando daqui a uns 10 anos… cê pode desenhar uma casa pra mim? Talvez até chegar lá eu vou ter dinheiro pra te pagar.

Yoongi ri baixinho. — Do nada isso? Você inventa cada coisa! Mas… me… me conta mais dessa ideia…

— Ué! Quando chegar o dia, você desenha!

— Preciso ter uma noção do que você gosta, né?

— Eu sou fácil de agradar. A casa só precisa ter um espaço pra eu costurar. Ah! E tem que ter uma pista de dança, claro! E… e uma cozinha bem grande! Enorme!

— Acho que falta uma biblioteca! E muitos Clássicos! De preferência todos do Machado de Assis!

— Cê tá demitido!

Soltamos risadas baixas ao mesmo tempo.

— E você… já pensou em como seria a sua própria casa?

— Já.

Faço uma careta. — Com certeza teria uma biblioteca, muito café e um guarda-roupa cheio de mocassins cafonas.

Yoongi ri pelo nariz. — Mais ou menos isso. Perto da praia. Sem muito luxo, mas espaçosa o suficiente pra eu relaxar.

— Quantos quartos?

— Dois tá bom.

— Na minha tem que ter pelo menos 10!

— 10? — Yoongi ri.

— É. Pra eu levar meus amigos!

— Eu não pretendo ter esse monte de amigo, fora que eles não precisam dormir na minha casa. Existe hotel pra isso.

Balanço a cabeça. — Você pode até não ser meu amigo, mas… deve ter algum tipo de consideração por mim… de colega de trabalho, né? Podia me dar uns… 10% de desconto!

— 8%. É pegar ou largar!

— Fechado. — Dou um soquinho na mão dele.

Ele encara os prédios e coça a nuca.

— Yoongi, se você fosse sempre assim, seria muito mais fácil conviver com você.

Ele cora. — D-Digo o mesmo!

Relaxo a cabeça no ombro dele.

Ele se ajeita de leve e congela os ombros, murmurando algo que eu não entendo.

— Se eu não fosse embora… eu… eu ia gostar de ficar aqui… com o Jimin… com a Alice… e com você… principalmente com você, Yoongi…

— E se você não fosse embora, a gente tinha... acho que… 1% de chance de ser amigo…

Bocejo. — Só isso?

— Tá… 10%.

Sorrio de lado. Mentiroso.

— Mesmo com a correria do dia a dia, você sempre me ajuda, Yoongi…

Ele murmura algo de novo.

— Que é? Quer… ir embora?

— Eu não disse nada, Lali.

— Seria legal passar o dia assim com você mais vezes. Obrigada por ter vindo comigo, gatinho emburrado.

— D-De nada…

O céu entra em chamas. É o degradê mais lindo do mundo. Cor de cobre. Vermelho dourado. Sol morno. Vento gelado. O mar é uma pintura viva.

Meu coração acelera.

Tem algum significado por trás desse momento. Ou pelo menos… eu queria que tivesse.

Busco algo que faça sentido.

Nada me vem à mente.

O Yoongi ainda está aqui. Colado. Colado em mim. Fervendo.

Penso em jogar uma piada sobre o risco de acabarmos nos apaixonando um pelo outro.

Que besteira! Você vai embora, Lali! Não delira!

A voz que grita dentro da minha cabeça ecoa pela paisagem:

— Amigo!

— Amigo!

— Amigo!

Os calos nas mãos dele são a última coisa que eu vejo antes de apagar.