Anything But Ordinary
4 Às vezes eu dirijo rápido só pra sentir o perigo
POR SORTE, NÃO BATO A BARRIGA.
Me levanto devagar detrás do sofá.
Um garoto dispara pela porta. Na cintura dele, um cinto de oncinha chacoalha. Quando ele se aproxima mais, o cheiro do xampu do meu banheiro se espalha pelo ar.
— Te achei, mano! Finalmente! — Ele respira fundo, se apoiando nos joelhos.
Suas bochechas são gordinhas, apesar do corpo magro e baixo. Sua pele tem um tom oliva. A camisa preta gola V do uniforme é uma viscose encorpada. A lapela grita “JIMIN” no mesmo tom dourado do Solaris.
— Ah! — sussurro. — É você!
Ele usa tantos anéis e pulseiras de prata que é difícil de acompanhar.
Nossa… ele também sabe costurar? A bainha dessa calça tá perfeita!
O pensamento me faz sorrir.
— Onde você foi parar ontem, Yoongi? — A voz do Jimin é meio aguda. Meio tremida. — Os franceses ficaram sem o Luxyz! Deram uma estrela pra gente no site!
Paro na frente dele. — Você é o Jimin?
Ele entreabre a boca. — Sim! Mas… pera aí! Essa roupa é da Alice! Você… você é… a Lali? A garota da facada?
Yoongi faz uma careta.
— D-Desculpa…
— Tudo bem! — Sorrio fraco.
— Mas você tá melhor?
— Tô… desculpa por ter feito vocês ganharem uma nota ruim… foi culpa minha!
— Culpa dos bandidos! — Yoongi afirma.
Minhas bochechas esquentam.
— Prazer! — Jimin estica a mão. Eu a aperto. É pequenininha. Macia.
Jimin fecha o último botão da camisa, descola o tecido do peito e sorri. Ele tem olhos de risquinhos. Lábios rosados e carnudos. Cheiro de coco no cabelo e menta na roupa.
— Como você é fofo, gato e cheiroso!
Jimin coça a nuca. — Brigado… Você também é a maior gata!
Gargalho. — Eu sei!
Rimos juntos.
Yoongi revira os olhos.
— Eu… eu posso tocar no seu cabelo, Lali?
Levanto uma sobrancelha, mas dou de ombros.
Jimin toca meu couro cabeludo com a ponta dos dedos. — Parece uma nuvem…
— É o condicionador do banheiro. Era muito cheiroso!
— Ah! Que bom que você gostou… Eu ainda tô aprendendo a fazer!
— Mentira! — Tapo a boca.
— Sim! Eu quero me formar em cosmetologia… e tô seguindo uns tutoriais!
— Que máximo! Você tem mais?
— Claro! Vem! Tem um monte de coisas que você vai gostar no meu quarto: máscara… perfume… até maquiagem!
Paro de caminhar. — Mas… você deixou a recepção sozinha? Eu não vou te atrapalhar?
— Não, Lali. Fica tranquila. O Yoongi não te mostrou esse botãozinho?
Jimin pressiona um botão preto na lapela. — Serve pra quando alguém apita o sininho, aí o sistema te avisa.
— Aqui é mesmo o máximo!
Jimin alarga o sorriso. — Vamo?
— Vamo!
Yoongi se joga no sofá e tira o caderninho do bolso. — Não demora, Lali. Vou te esperar na recepção duas em ponto.
Sacudo o braço de Jimin. — Que horas são agora?
— 12:14.
— Dá tempo de fazer alguma coisa legal?
— Claro!
Dobrando o corredor, chegamos no quarto dele. As paredes são caramelo e terracota. As lâmpadas, amareladas e fortes. As bancadas têm diversos frascos de vidro âmbar. Um milhão de aromas se misturam: um óleo quente que eu não conheço, talvez alguma coisa com ervas, lavanda e baunilha…
— U-a-u!
Jimin dá uma risadinha e me puxa pra sentar na cama, com uma bandeja no colo.
Passo os dedos pelo lençol. — Hm... Seda! Parece cara!
Jimin ri. — É. Minha mãe viaja direto pra Europa e sempre traz coisa nova. Acho que essa manta é da Itália.
Meu sorriso murcha.
A vontade de chorar me perturba.
— É… — aumento o tom. — Nossa! Tô me sentindo numa loja de maquiagem de filme! Que quarto bonito! E quanto produto, hein?
— Pera: cê nunca entrou numa loja de maquiagem antes? Como assim?
— Eu só podia ir pra escola e depois fazer aquelas aulas chatas de atletismo. Não podia ficar saindo. Então eu ficava pesquisando os nomes das maquiagens na internet, vendo dicas. Mas nunca entrei e só usava maquiagem quando tinha apresentação da escola!
Jimin sorri sem mostrar os dentes. — Foi mal, Lali… Eu devia ter percebido antes.
— Tudo bem! Eu que devia ter percebido que ia te atrapalhar… Desculpa de novo por te fazer dobrar o horário!
— Relaxa! Eu dou conta!
— Agora você vai poder me ensinar a me maquiar! Você tem quase uma loja aqui!
Ele ri. — Melhor você pedir pra Alice. Ela sabe fazer muito bem!
— Sério?
— Sim.
— Então tá bom! Tem quanto tempo que você faz esses produtos? — Abro um potinho que cheira à cereja. — Você deve passar o dia enfiado aqui dentro!
Ele molha meu rosto com o borrifador e seca com um paninho gelado.
— Desde os oito.
Congelo.
Oito.
Oito.
OITO!
Jimin mistura um óleo junto com um creme verde numa tigela e aplica nas minhas bochechas. Faz cosquinha.
— No começo, eu era horrível, sabe? Errava tudo. Um desastre. Você precisava ver!
Concordo com um sorriso.
Minhas mãos formigam. — Você… sabe por que o Yoongi não quer ir na feirinha?
— Ah! Ele é assim mesmo...
— Assim como? — Deixo a cabeça reta e prendo o riso. — Meio nerd, né?
Jimin ri também. — Por que? Você também é?
— Eu? Não! Eu era uma negação na escola!
— Ainda bem! Porque eu tô penando pra passar nesse vestibular. Agora tenho uma amiga que me entende!
— A-amiga? — Meus olhos umedecem. — Você também quer ser meu amigo?
— A gente vai trabalhar junto. Morar junto. Fora que eu sou maravilhoso, né? Você não vai conseguir esquecer da minha beleza. Só não pode se apaixonar, tá?
— Ih, ferrou! Já me apaixonei!
Gargalhamos juntos.
— Mas me conta: por que você quer ser… como se chama quem faz cosmetologia? Cosmético?
Jimin dá uma risadinha. — Cosmetólogo…
— Ah… entendi… Isso aí mesmo!
— Então… eu cresci vendo a minha mãe triste… ela teve que me criar sozinha, sabe?
— Sério?
— Sim. Meu pai foi visitar a minha família na Coreia quando eu era pequeno… e voltou doente de tanto trabalhar na fazenda do meu avô… aí teve um infarto…
Uma lágrima escapa pela minha bochecha. — Não sei nem o que te falar, Jimin… Agora eu tô triste por você!
— Agora tá tudo bem, Lali. Eu nem lembro mais!
Limpo as bochechas. — Você… nasceu aqui ou lá?
Jimin espalha a máscara pela minha testa. — Aqui.
— E os seus pais?
— Lá. Minha mãe veio pra cá quando era bebê. Meu pai já era adulto.
— E você falava em que língua com eles?
— Meus avós tinham medo da minha mãe não ir bem na escola, então não ensinaram coreano pra ela… mas o meu pai só falava em coreano comigo.
Paro de me mexer.
— Ele morreu quando eu tinha uns… 6 anos, então eu esqueci tudo que eu aprendi.
Engulo em seco. Meu rosto fica quente e molhado.
Tudo que eu aprendi.
Que eu aprendi.
Aprendi.
A fisgada no peito é tão forte que minhas mãos tremem.
Minha garganta emperra.
Meus olhos queimam.
Papà!
Papà!
PAPÀ!
Um soluço escapa de mim.
Jimin se torna um borrão.
Seu cabelo loiro se torna mais ondulado.
Mais dourado.
Seus olhos pretos viram azuis.
Ele fica mais pálido.
Mais velho.
Mais real.
E ao mesmo tempo… distante.
Como um flash.
Pisco forte.
— Calma, Lali! Isso já tem muito tempo, eu já aceitei!
Tento respirar fundo no meio de mais um soluço.
— D-Desculpa! — Me levanto e me escoro na parede.
Não! Não! Não!
Pressiono os lados da cabeça.
Abafo as lágrimas.
Os passos apressados do Jimin ecoam pelo quarto.
Minha língua fica cada vez mais salgada.
Meu peito continua subindo e descendo sem controle.
— Aqui, Lali! — Jimin me entrega um copo d’água.
— Desculpa… eu sou meio… sensível…
Bebo a água devagar.
— Tranquilo. Todo mundo fica assim uma hora, e você tá passando por uma fase difícil!
Aperto os olhos.
Chega, Lali!
— Pode… continuar a sua história… eu… prometo que… não vou chorar mais!
Jimin segura os potinhos e junta as sobrancelhas. — Tem certeza? Não quero te deixar triste!
— Sim… Pode falar…
— Tá… Depois disso… a minha mãe não se arrumava… não queria sair… e só pensava em mim…
Assinto, com o fôlego um pouco mais forte.
— Uma vez eu vi na televisão que produtos de beleza ajudam na autoestima das pessoas, principalmente das mulheres… Aí eu pensei que se eu pudesse ajudar a minha mãe… ganhar dinheiro e criar produtos pra deixar ela ainda mais linda, a gente ia ser feliz pra sempre!
Abro um sorriso. — Boa ideia! Ela é muito bonita mesmo! Inclusive… Quantos anos ela tem? Uns 39?
— 48.
— Nossa!
— Eu também vou ajudar pessoas que não têm dinheiro pra comprar cosméticos e abrir minha própria empresa algum dia. Acho que é a minha missão, sabe?
Suspiro. — Isso é muito lindo!
— Quero focar em skincare, mas quero ser bom em tudo: em cabelo, em maquiagem, em perfume… Preciso ser alguém importante. Quero ser o melhor cosmetólogo desse país!
— E você vai! — Bato de leve no ombro dele.
— É tudo bem caro… e têm produtos uns que não valem o preço que cobram, ou acabam rápido demais…
— Eu imagino!
Ai meu Deus! Você é gay!
Meu rosto esquenta enquanto Jimin continua falando e rindo alto, mexendo as mãos.
Gay?
Será?
Viro levemente a cabeça pro lado e fixo os olhos na bancada.
E se ele for?
Foda-se!
Para, Lali!
Nada a ver!
Por que você tá pensando isso? Só porque ele sabe fazer xampu? Que horror!
Eu sou uma ridícula! Uma pessoa horrível! Uma preconceituosa do caralho!
Balanço a cabeça. — É… é… quantos anos você tem, Jimin?
— 18.
— Eu também!
— É. Minha mãe falou. Mas… qual faculdade você quer fazer?
Minhas pernas congelam na cama. — É… é…
A fachada dourada com o meu nome brilha no topo. As sedas escorrem pelos meus dedos. Frias. Transparentes. O sol reflete nos manequins de vidro.
Controlo o impulso de chorar com um sorriso forçado.
— Deixa eu adivinhar: julgando por esse seu cabelo todo vermelho e verde… acho que o que mais se encaixa nesse seu estilo todo alternativo é… publicidade? Comunicação? Psicologia?
Quê? Alternativa? Eu sou alternativa?
— É — gaguejo —, depois do que aconteceu eu não tive tempo pra pensar em nada!
— Tranquilo. Desculpa por perguntar…
— Tudo bem… — Limpo o rosto. — Você… vai voltar pra recepção, né? Eu tava mesmo pensando em pintar meu cabelo… mas eu ainda não tenho dinheiro pra tinta. Você não pode fazer… sei lá… um milagre?
— Cê deu sorte, viu? Eu volto daqui a uma hora e a tinta que eu uso pra retocar o cabelo da minha mãe sobrou bastante! Seu cabelo é longo… então talvez não vai ficar perfeito… tá bom?
Ele tira uma caixa da gaveta.
— Loiro mel? Ai! Eu amei, Jimin! É bem parecido com o meu tom natural. Acho que vai ficar ótimo!
— Talvez não pegue muito, mas vai ficar tudo de uma cor só pelo menos… ou bem próximo! Agora falando a verdade: você vai ficar perfeita com o cabelo igual ao meu!
Caímos na risada.
Jimin separa os fios em camadas com presilhas coloridas.
— Além de tudo… você ainda é cabeleireiro. Tô ainda mais apaixonada!
— Você é muito sortuda por me conhecer.
A cada deslize da tinta gelada, Jimin fala algo engraçado. Não prendo as risadas. O tom dos meus fios se uniformiza aos poucos. Ele lava o meu cabelo. Condiciona. Hidrata. Passa creme pra pentear. Me maquia. Até minha sobrancelha ele faz. Tudo com uma rapidez e capricho que eu não conhecia. Em menos de quarenta minutos, estou pronta. Maquiada, com o cabelo seco e brilhante. E cheirando à baunilha, lavanda e óleo de coco.
Ele me vira de frente pra penteadeira.
— Agora eu tô pegável?
Jimin ri. — Tá. E muito! Agora eu que me apaixonei!
Rimos de novo.
— A gente podia tirar uma fot… — Jimin paralisa. — O Yoongi me falou que você tá sem celular… Esqueci. Me desculpa! Não quero te magoar!
— Tá bom. Você não magoou.
— Quando você receber seu salário, vou te levar pra comprar seu celular! Vou te mostrar cada lugar legal que você nem imagina!
— Promete?
Jimin confirma, chocando nossos punhos.
Meu sorriso se abre sozinho. — Você seria o namorado dos sonhos, sabia?
— Eu sei que sou incrível… — Jimin não disfarça o risinho. — Mas não é pra tanto…
— É sim! A pessoa que você namorar vai ser muito feliz!
— Sim… — O olhar dele se perde na janela. — Deve ser…
Vish… ele gosta de alguém? De quem?
Antes que eu mude de assunto, o sininho dele apita.
— O dever me chama! — ele faz um sinal de soldado. — Ai! Eu sempre quis dizer isso!
— Pena que você não vai na feirinha comigo… nem na balada!
— A gente vai outro dia! Hoje eu vou sair moído daqui! Aliás… toma cuidado, tá?
Fico vermelha. — Claro…
— Não te conheço direito, mas já me preocupo muito com você. Você parece eu, Lali… Confia em qualquer um. — Ele termina de guardar os potinhos.
Me levanto, à beira das lágrimas. — Ei! Confio nada!
Jimin cruza os braços e arqueia as sobrancelhas.
— É. Eu tô no seu quarto, né?
Jimin respira fundo.
— Não quero te assustar, mas… aqui tem muito gringo safado! — ele completa.
Minhas bochechas ardem.
— Tem um monte que vem pra cá só pra… se aproveitar. Se diverte, dança muito, mas promete que você não vai aceitar bebida de ninguém? Mesmo se o cara for bonito igual eu?
— Aí já é meio impossível, né?
Jimin finge jogar o cabelo pra trás. — É. Eu sei! Realmente… Mas… você entendeu, né? Tenho medo de acontecer aquilo de novo com você… O Yoongi me contou como você tava… acho que eu teria desmaiado no lugar dele… Deve ter sido o destino mesmo… Pelo menos agora você tá aqui! E tá bem!
Balanço a cabeça, a um fio de chorar. — Fica tranquilo… Isso não vai acontecer de novo! Eu prometo que vou ser esperta dessa vez! E… de novo: me desculpa por te fazer trabalhar demais!
— Ser filho da dona me dá benefícios… — Ele dá de ombros e o sininho apita de novo. — Fui, Lali!
— Tchau, Jimin!
O reflexo no espelho me faz sorrir.
Quando chego na recepção, Yoongi está de pé. Batucando os dedos no balcão e rindo ao lado do Jimin.
— Oi!
— Olha se não é a segunda garota mais gata do hostel! — Jimin exclama, fazendo um coraçãozinho com as mãos.
— Segunda? Como assim? A primeira é a sua mãe?
Jimin suspira e cora. — Não.
Yoongi prende o riso. — Bora, Lali.
O vento está gelado, mas o sol é agradável. As ondas se agitam atrás das pedras no final da rua, trazendo o cheiro da maresia.
— Quantos pratos eu posso comer?
Yoongi coloca as mãos no bolso. — Tudo que você quiser.
— Obrigada… eu prometo que te pago quando receber meu salário!
Yoongi nega com o indicador. — A Sra. Park faz questão.
Fico vermelha e mordo o lábio.
As plaquinhas neon ficam cada vez mais distantes, e o caminho, cada vez mais estreito e barulhento.
— Que árvores são essas, Yoongi?
— Aquelas ali são azaleias. — Ele aponta pra direita e pro centro. — E essas aqui são pinheiros.
— Que lindas!
Yoongi confirma.
Continuamos caminhando pela feira.
Bijuterias coloridas… frutas empilhadas em cestos… sorvetes queimados prontos na hora…
Até que uma barraca me faz paralisar.
Faço uma careta. — Sorvete de feijão? Isso é bom?
Yoongi dá de ombros. — Tem quem goste.
— E o que você vai comer?
Ele pronuncia um nome que me faz rir.
— Yaki…soba?
Yoongi confirma. — Isso mesmo.
Paramos na frente de uma barraca que eu não sei se é macarrão ou miojo. A lona é amarela como as outras, só a fila é cem vezes mais lotada e barulhenta. Os cozinheiros misturam cenoura, brócolis e cebola na chapa. Jogam carne. Um molho escuro.
Mesmo cheia do almoço, minha barriga ronca.
Depois de um ano na fila, Yoongi pede dois pratinhos e os paga.
Rapidamente, nos entregam. Caminhamos enquanto comemos.
— Você podia ter deixado eu pegar também! — Aponto pros palitos.
Yoongi continua comendo, sem falar nada.
— Yoongi…
Ele murmura “hum”, mastigando.
— Desculpa por não saber o nome das comidas…
Yoongi assente.
— Na verdade, eu não sei nada sobre aqui. Sempre quis ver série coreana e experimentar as comidas igual todo mundo, mas eles não deixavam!
— Que alívio pra você, então.
— Que azar! Imagina crescer comendo essas comidas? Morar perto da Praia dos Pescadores? Queria ter tido essa sorte!
Yoongi desvia o olhar pra uma barraca de pastel e caldo de cana.
— Yoongi…
— Sim.
— Por que você me ajudou?
Ele engasga com o ar. — Porque qualquer um faria isso.
Paraliso. — Nem todo mundo…
— Você… Tava mesmo dirigindo sem carteira?
— Sim! — Solto um risinho.
Ele tosse de leve. — C-Como? Você… você…
— Não, eu nunca tinha dirigido.
Yoongi arregala os olhos.
— Eu fiquei vários meses na Casa Jovem só pesquisando nomes de peças no computador, vendo vídeos de truques pra iniciantes e lendo fóruns.
Yoongi pisca com força.
— E aí — continuo —, quando a Juliana ligou o meu carro, eu fiquei olhando como ela freava, como apertava o botão e como mudava a marcha… Foi fácil… até o carro morrer do nada e parar na estrada onde você me achou.
Yoongi ainda está com os olhos arregalados. — Foi um milagre você não ter atropelado alguém.
— Eu aprendo rápido! Sou muito inteligente!
— Eu não diria inteligente, e sim imprudente.
Abro a boca. — Esse é o seu jeito nerd de me chamar de burra?
— Não falei isso.
— Enfim. — Dou de ombros. — Tenho certeza que você faria a mesma coisa se tivesse no meu lugar. Você nunca… se sentiu sufocado?
Yoongi morde o canto da boca. — Talvez eu teria feito isso… mas não desse jeito…
Termino a última garfada e o jogo o pratinho no lixo.
— Qual é a próxima comida?
Yoongi indica uma barraca de sorvete de melão do lado oposto, mas a vendinha da frente me distrai.
As panelas estão repletas de molho vermelho e repolhos dentro. As senhorinhas servem os clientes falando alto e sorrindo, mexendo na comida com luvas amarelas.
— Isso é… acho que é… kimchi, né? A Angeline disse que eu não podia comer porque tinha pimenta! É repolho, né?
— Sim, tem pimenta. É acelga.
— Posso comer? Finge que você não viu?
Yoongi assente, enfiando as mãos no bolso.
Ele compra um prato pra mim e um refrigerante de uva.
— Que refri bonitinho! Tão pequenininho! — Rompo o lacre e tomo um gole. — Docinho!
Yoongi respira fundo.
Dou uma garfada no kimchi. Meus olhos e língua queimam. Por pouco, eu não cuspo tudo.
— Puta que pariu! — Limpo a boca com o guardanapo. — Por que você não me avisou que essa merda era pimenta pura?
Yoongi estende as mãos. — A Sra. Park já tinha te avisado. Você que quis comer mesmo assim!
Não sei se xingo ele ou se peço socorro. Tento respirar fundo, mas a única coisa que faço é tomar mais um gole do refrigerante.
— Ah! — exclamo. Meus ombros e língua relaxam por alguns instantes.
— No Solaris tem Azizol.
— Quê?
— Remédio pra azia.
— Pra quê? Eu não vou precisar!
Yoongi mexe os ombros. — Tá bom.
Passos soam atrás de nós.
Duas garotas. Uma delas é loira e gorda, a outra morena e magra. As duas são baixinhas. Novinhas. Usam blusas de alcinha do Brasil, mesmo com o vento gelado. Cheiram à cerveja.
Penso em perguntar quantos anos elas têm pra estarem bebendo, mas elas soltam um grito tão agudo que eu estremeço.
— O… o quê? — tento repetir.
Me viro pra perguntar pro Yoongi. Ele está espremido entre elas, sorrindo forçado pras câmeras dos celulares e esfregando as mãos contra o suéter.
— Cazzo! — solto sem querer, quase sem som.
Yoongi mexe a cabeça e responde algo, acho que, em coreano pela entonação rápida.
Ele tá vermelho demais.
Tadinho!
Ele é… famoso?
Uma das garotas toca no ombro dele. Ele se afasta com um passo curto e responde algo num tom baixo. A garota loira faz um bico e grita de novo a palavra várias vezes.
Ela disse… Opa? Quê isso?
Antes que eu respire fundo, minha boca se abre sozinha.
— Ei, queridinhas! — Estalo os dedos. — Não tão me vendo aqui não? Ele tem namorada! Isso mesmo! Ah… vocês não entendem português, né?
Yoongi arqueia as sobrancelhas. As garotas se entreolham e soltam risadinhas.
— Como que é namorada em inglês mesmo, Yoongi? Grill…. Gri…
Ele sussurra uma palavra impossível de ser dita.
— É isso aí que ele falou! — Aponto pro meu peito e faço um sinal de “chispa” pra elas. — Me ouviram? Agora vaza daqui vocês duas! Anda! Vaza! Chispa!
Elas continuam sem entender e se aproximam ainda mais dele.
Cruzo os braços e bato os pés.
— Vocês não conhecem a palavra “namorada”? Fala de novo, Yoongi. Como que é mesmo?
Ele respira fundo, dando mais um passo pra trás.
A garota loira tenta mostrar algo no celular pra ele, acho que, uma cena de filme. A outra desliza os dedos pela câmera e mostra um sinalzinho de dedos que eu não entendo.
— Suas abusadas! Deixa o garoto respirar!
Pisco forte.
Puxo Yoongi pra longe. A mão dele sua tanto que mal dá pra apertar.
— Eu hein!
Afasto nossas mãos e paro na frente de uma barraca de temperos.
Minhas bochechas pegam fogo quando ele respira fundo e me olha, ainda mais vermelho.
— Agora eu entendi porque você não queria vir pra cá… É sempre assim, né?
— É. Agora a gente tá na moda.
Faço um bico. — Essas pirralhas! Ninguém merece!
Yoongi não esconde a risada.
— Desculpa mesmo! Se eu soubesse que era assim, não tinha vindo pra essa feira! Tinha dito pra Angeline que era melhor eu descansar no Solaris.
— Tranquilo.
— Você quer ir embora?
— Claro!
Quando chegamos ao Solaris, Jimin está mexendo no computador, assobiando a melodia do jazz que toca. As olheiras dele parecem mais fundas do que antes.
Meu peito aperta.
— Oi, gente! — Ele acena. — Como foi a feirinha?
— Oi! — digo. — Foi muito legal… quer dizer… mais ou menos…
Jimin franze a testa. — Por quê? É o que eu tô pensando?
Yoongi confirma com a cabeça e some pelo corredor.
Jimin abre um sorriso de canto.
Alice aparece no mesmo instante, com um celular dourado apontado pro rosto e uma sacola vermelha na outra mão.
— Tá, pai. Eu já sei que tenho que voltar cedo! Tchau! — Ela pisca forte.
Jimin corrige a postura. — O-oi, Alice!
— Oi, Jimin!
Ele se aproxima dela e olha pra câmera.
Alice desliga. — Tchau, pai!
— Alice, — Jimin exclama —, seu pai é negão de olho azul? Parece o Michael Ealy! E tava com a camisa do Fluminense, hein? Deve ter conquistado a sua mãe só com uma piscada!
Abro um sorrisinho.
Alice ri tanto que acaba dando um tapinha no braço dele. — É, Jimin! Cê adivinhou! Mas se ele escutar isso, vai se achar pra sempre! Então, ó: shh!
Jimin faz sinal de lacrar a boca. — Combinado. Mas não vou ficar quieto se for pra dizer que você é linda.
Arqueio a sobrancelha e mais um sorriso escapa de mim.
Alice entreabre a boca, sem piscar, mais corada do que antes.
Então é da Alice que o Jimin gosta?
E ela gosta do Yoongi?
Um triângulo amoroso…
Interessante!
— Vamos, Lali? — Ela me puxa pro quarto.
O vestido que ela me empresta é cheio de lantejoulas pretas. O dela é idêntico, num tom rosa choque. Ela me ajuda a cobrir a ferida e a colocar um cropped por baixo pra não machucar a barriga.
— Alice, você é perfeita! Ficou tão bonito que eu nem vou precisar dar uma pinça!
— Não é pra tanto!
— É sim! Eu nem sabia que você usava roupas assim! Achei que você só gostava de alpargata e calça de alfaiataria!
Alice ri. — É… esse é o meu vestido “de festa”. Minha mãe é sempre prevenida então mandou eu comprar dois iguais.
— É o destino! Era pra gente sair combinando! — ironizo e ela me dá um tapa de brincadeira no braço.
— Eu vou usar esse vestido na minha festa de formatura de meio advogada…
Entorto a cabeça. — Quê? Como assim? O rosa ou o preto?
— O rosa. É lindo, né?
— Lindo, mas… se é uma festa, você tem que ir com o vestido!
— Quem me dera. Não posso gastar meu dinheiro assim!
— Quem falou em gastar? Eu faço um pra você!
Alice congela. — Como assim… faz?
Mostro meus desenhos no balcão pra ela. — Não sei se é o seu estilo, mas eu posso tentar costurar. É só você conseguir o tecido. Não vou te cobrar nada!
Os olhos dela se enchem de lágrimas. — T-tá falando sério?
— Lógico!
Ela me abraça. — Obrigada!
— Não cria expectativa, tá? Eu só faço coisas simples.
— Isso aqui tem cara de chique. — Ela aponta pros desenhos.
— Só tem cara mesmo. Quando eu fizer, você vai ver que é bem simples.
— Quer retocar a make, Lali?
Assinto.
Alice desliza os pincéis com cuidado. Aos poucos, o cheiro de talco sobe e meu rosto ganha um brilho novo.
— Eu amei suas tranças, Lice! Como é o nome?
— Box braid.
Ela me explica detalhes. Fronhas e toucas de cetim, penteados e frizz. Fico boquiaberta.
— Uau! Você que fez em você mesma?
— Não. Minha mãe é trancista.
— Que legal! E o seu pai?
— Ele tem uma empresa de carros.
— Uau! Então você é rica!
Alice cora. — Eu não acho… minha mesada é pouca.
— V-você ganha mesada? Eu achava que isso só existia na televisão!
— Na televisão é bem mais legal! E é muito mais do que o que eu ganho.
— Então é por isso que cê trabalha aqui, né? Pra poder juntar mais dinheiro e ir na balada!
Alice gargalha. — Isso!
No canto, minha caixinha desperta memórias. Tento afastá-las, mas já estou com a garganta doendo.
— Alice… Como é… ter pais?
Ela trava. — É… é…
— Desculpa. Não quero estragar o clima. Sem querer, o Jimin me fez lembrar de algumas coisas hoje… Tô meio triste…
Alice agacha e me segura pelos ombros. — Tá tudo bem.
Seco o rosto. — Vai ficar!
Mil maquiagens depois, Alice penteia meu cabelo de lado. Me empresta um perfume de morango, alguns colares e um salto agulha vermelho.
Ergo o queixo e paro na frente do espelho. — Tô andando igual a uma pata, mas continuo gata. Isso que importa!
Alice ri baixinho. — Você é exagerada, hein?
— Bem que o Jimin falou que você sabia fazer maquiagem, Lice! Você arrasou! Profissional!
Ela fica vermelha. — O-obrigada!
— É verdade! Olha como eu tô linda! Argh! Eu preciso beijar algum gringo gato hoje! Já faz uns… 5 anos que eu não beijo ninguém, acredita? Tô tão enferrujada!
Alice revira os olhos. — Alguns são legais, mas nem são tudo isso que você tá pensando. Eu te juro!
As idiotas da feira voltam à minha mente. — Realmente. Tem uns bem imbecis.
Pegamos o metrô na Estação dos Pescadores. Em cinco minutos, o som dos carros se afasta. Descemos na Passione. Como sempre, as ruas do Centro estão mortas de noite, tirando as luzes das farmácias, hospitais e dos supermercados piscando.
O prédio da balada é marrom. Tem um segurança na porta indicando a entrada pras pessoas. A maioria delas usa chapéus de cowboy, cintos com strass e botas de franja.
Botas. De. Franja!
Faço uma careta. — Alice, misericórdia! Eu nunca vi tanta gente ca-fo-na na minha vida! Quem usa bota de franja em pleno 2025?
Ela ri. — É a nova tendência.
— Mas cadê os gringos? Não tem quase nenhum aqui!
Alice sorri fraco. — Desculpa não ter te avisado. Eles geralmente vêm no dia de funk ou pagode. Hoje é uma festa sertaneja.
— Entendi. Você queria vir num dia mais vazio, né?
— Isso.
— Dá pra dançar, pelo menos?
Alice diz sim com um aceno.
O som da viola fica mais alto. Uma banda canta sucessos que Alice chama de “modão” e de “sofrência”. Não é tão ruim quanto pensei. Sei que alguns já tocaram nas quadrilhas da escola.
As pessoas são mais bregas do que eu pensava. Além de botas de franja, também usam saias e coletes de franja e blusas xadrez com calças de bolinha.
Meus olhos doem. — A gente não tá em maio, Alice? Por que já tão fazendo festa junina?
— Tem gente que aproveita pra emendar.
O cheiro de caldo, feijão tropeiro e churrasco misturado no ar é divino. Me deixa salivando.
Bufo. — A única parte boa é a comida…
Nos aproximamos da pista de dança.
As luzes são amarelas, e os balcões enormes. Alice, ao invés de se frustrar, fica ainda mais empolgada ao ver que a pista está quase vazia.
— Essa é a melhor deles!
— Deles quem? Eles não tão fazendo cover?
— Sim. Mas essa é uma música do César Menotti & Fabiano.
— Você gosta muito de sertanejo, né? — Bocejo. — Eu nem tinha percebido!
Alice estende os braços e ri. — Culpa do meu pai!
Ela me conta sobre o passado do pai em Goiânia. Viagens de carro. Modão no último volume.
Fico tão feliz que até derramo lágrimas. — Deve ser muito legal viajar de carro com a família. Eu… eu tenho inveja de você por isso… desculpa… eu não queria…
Alice toca minhas bochechas e sorri fraco. — Eu te entendo, amiga. Eu também teria.
Quero chorar. Chorar muito.
Mas não.
Eu vim aqui pra dançar! Pra curtir! Beijar!
Cadê os gringos?
Pra desviar da dor, ando até a decoração da entrada. Penduro um chapéu cor de café na minha cabeça e entrego um caramelo pra Alice.
— Irrá! — Faço sinal de galope e Alice me acompanha.
Amarro a cordinha no queixo e danço com as palmas no ar, copiando os movimentos dela.
— Você se acostumou rápido com o salto! — Alice diz por cima da música.
— Dói, mas não mata! — grito de volta.
No meio da dança, um garçom passa servindo milho pra mesa ao fundo. Me dá água na boca.
Até que um olhar me paralisa. No meio da pista. Escuro. Com direito à piscadas.
O sorriso no rosto dele me faz sorrir.
— Valeu a pena ter vindo, Lice! Aquele ali é o cara mais gato do Solaris! — Solto um gritinho e continuo dançando.
Ela concorda com a cabeça. — É. Ele é muito bonito mesmo! Lembra o William Levy…
— Mas… será que ele se interessaria por mim?
— Óbvio que sim, Lali! Ele não se interessaria pormim.
— Como assim? — Faço um bico. — Você é bonita, inteligente, legal!
— Não é isso… Você não entenderia.
— Não mesmo! Você não tem espelho em casa? Não sabe que é a maior gata da cidade?
O sorriso dela se desmancha.
Alice me leva até o balcão. — Quer um refri? Eu pago pra você.
— Queria uma bebida. Bebida de verdade! Borbulhando!
Alice deixa a bolsa no balcão e se senta do meu lado. — Os médicos não falaram pra você não beber, Lali?
Dou de ombros. — Devem ter falado, mas eu não prestei atenção.
— Você é doida? E a sua barriga?
Alice me lança com um olhar arqueado enquanto eu peço uma dose de conhaque.
— Obrigada, mãe — ironizo.
Alice paralisa.
Eu paraliso.
— D-Desculpa — peço, tirando um cabelo da frente do olho. — Você é muito nova pra ser minha mãe… fora que… quem ia querer ter eu como filha, né?
Os olhos dela marejam. — Não fala assim, Lali!
— Pesei o clima. De novo. Pra variar! — resmungo. — Desculpa. Me… me fala de você! O Yoongi disse que você faz Direito, né? Como funciona?
Alice assente. — É. Eu tô indo pro 6º semestre, faço aula semipresencial na Universidade do Centro.
— Que legal! E é muito difícil?
— Sim.
— E você gosta?
Alice hesita. — Um pouco.
Mexo as sobrancelhas, e faço que sim com o polegar. — E como você aprendeu tantas línguas? Quais você fala?
— Além do português, russo, inglês e francês. Aprendi fazendo curso. Meus pais sempre insistiram muito nisso.
— Você é muito inteligente, Lice! Não sei se eu ia conseguir! É muita coisa pra gravar. Acho que eu vou ter dificuldade no Solaris!
— No começo é normal. Depois você pega os detalhes! Sempre que quiser, pode me perguntar!
— Obrigada. Eu não sei nada de inglês. Tô com medo da Angeline me mandar embora!
— Quê isso? A Sra. Park é um amor. Muito difícil ela fazer isso! A não ser que você seja irresponsável. Mas você não parece ser assim!
— Valeu…
— Mas se você quiser mesmo aprender, no computador da recepção tem várias atividades de todos os níveis de inglês e de espanhol. Pode usar a minha conta!
— Você é uma diva, Lice! — Puxo ela pra um abraço. Ela ri.
— Lice… tem uma coisa que eu queria te perguntar…
Alice dá um gole no refrigerante.
— Você… gosta do Yoongi?
Ela tosse. — Q-quê?
— É que… tá muito na cara.
Alice corrige a postura. — Tá, eu não vou mentir! Ele faz meu tipo: é organizado, estudioso, sabe o que quer da vida.
— Ahá! Eu sabia! Você… já se declarou pra ele?
— Não! Claro que não! Eu tô focada nos estudos!
Tapo a boca. — Ai. Meu. Deus! Você é nerd igual a ele?
— Ele é bem mais do que eu! Te juro! Enfim… eu tenho só um crushzinho, entende? Nada demais.
— Tem… o quê?
Alice acha graça. — Uma quedinha. Uma paixonite.
— Saquei. Então… tipo: se ele te der bola, você fica com ele?
— Não exatamente. Mas… você tá me perguntando isso… por quê?
— Nada… é só que eu fiquei curiosa… ele é meio quieto… quieto demais! Às vezes me irrita. E você é muito legal, Lice! Deve ter um monte de cara te querendo!
— Não tem ninguém atrás de mim. E mesmo se tivesse, eu não quero nada sério agora.
— Isso é muito triste. — Finjo uma cara de choro. — Porque eu ia te pedir pra namorar comigo!
— Ah, mas com você eu aceito, Lali!
— A gente vai ser o melhor casal de Costaré! — brinco e fazemos um soquinho. — As mais gatas!
Bebo um gole do conhaque da Alice. Queima meu nariz.
— Por que você não mora no Solaris de uma vez, Lice?
— Ah… Meus pais. Eles querem me proteger demais. Querem que eu saia de casa só depois que eu me formar e me casar.
— Entendi. Então eles são pais muito legais! Queria conhecer eles!
Alice engole a seco. — É… Vamo? Já são quase onze horas!
— Mas já? Eu nem dancei direito, Lice!
— Eu também queria ficar mais tempo! Mas eu moro perto da Vila Dorata.
— Perto dos riquinhos? — Reviro os olhos.
Alice ri. — Mais ou menos. Moro na Serra Dorata.
— Dá no mesmo!
— Para de enrolar, Lali! Vamos! Uma hora dessas o metrô já fechou, então eu vou ter que pegar ônibus.
Faço um bico. — Seus pais podiam vir te buscar.
— Eu não gosto de ficar incomodando eles com essas coisas…
— Com… você? — Entorto o pescoço.
Alice respira fundo. — Amanhã eu pego às 7 no Solaris, Lali. Vamos.
— Desculpa por te fazer trabalhar demais…
— Você não teve culpa de nada! E eu gosto de trabalhar.
Bufo. — Então tá bom, né? Já vi que não vai adiantar eu insistir!
Alice ajeita a bolsa no colo e se levanta.
Quando paramos na porta, uma voz corta o ar. Grave. Numa língua diferente. Pelo tom loiro quase platinado, chuto que o cara é da Holanda. Talvez da Suécia. Ele usa um terno de linho, branco como seu rosto. O tecido é de qualidade. Ele tem cheiro de vinho com uma pitada de açúcar queimado.
Mas…
A cara que ele faz… A. Cara. Que. Ele. Faz. Me obriga a recuar um passo.
Ele circula a taça e lambe os lábios, descendo o olhar pelo meu vestido.
E pelo vestido da Alice.
Travo o corpo.
Engulo a saliva.
— O que ele tá falando, Alice? Cê entendeu?
Ela respira fundo. — Melhor eu nem falar. Vamo embora!
— Isso… é russo, né? Você entendeu, não foi? Eu sei que entendeu. Me. Diz. Por. Favor!
— Ele… ele tá perguntando se… se a gente não… não quer… passar… a noite com ele por 100 reais… cada uma…
Meu sangue borbulha.
— Que cara nojento! — Mostro o dedo do meio pra ele.
Ele gargalha e joga um beijo no ar.
— Vamo embora, Lice! — Apresso os nossos passos na direção do ponto de ônibus.
Mas o cara ri. Ri alto. Alto demais. E dessa vez, ele rasga o ar com uma palavra em português.
Paro de andar. — Ele… chamou a gente de… de puta?
Alice firma os saltos no chão e me puxa pra atravessarmos a rua.
Tento segurar o calor que me atinge nas mãos. Juro que tento.
Mas não dá.
Antes de pararmos no sinal, o cara imita um barulho.
E aponta pra Alice.
Um barulho.
Barulho de animal.
Um.
Animal.
Silvestre.
Meu estômago embrulha.
Ele coloca as mãos na cabeça.
Meu corpo se impulsiona pra frente. Sozinho. Gelado e quente ao mesmo tempo.
Alice arregala os olhos.
Fecha os punhos contra o peito e fica sem ar.
— Eu ouvi direito? — ela grita, travando o maxilar.
Meu calcanhar roda sozinho.
Acho que vão sair faíscas pelo meu couro cabeludo.
As lágrimas da Alice pingam no forro do chapéu dela, que agora ela segura com os dedos trêmulos.
A cordinha do meu arrebenta.
— O que você falou, seu filha da puta? — Paro na frente do cara.
Ele solta mais uma gargalhada.
— Puta!
Dou um empurrão no ombro dele. — Vai! Repete o que você falou da minha amiga! Eu vou quebrar a sua cara, seu lixo! LIXO!
Sei que estou fazendo merda. Vou ferrar tudo. Tudo!
— NÃO! — A voz fina da Alice ecoa longe demais.
Mas meu corpo não me obedece.
Acerto um soco nele. Bem no meio do nariz.
— PARA!
Meus dedos ardem.
Corre, Lali!
Corre!
PARA!
Disparo outro.
— VEM!
Sai sangue.
Ele para de rir e cambaleia pra trás. Conserta o terno. E avança depressa.
Desvio, por puro reflexo.
— LALI! — Alice me puxa, antes que ele quebre a taça de vinho no meu pescoço.
— Ninguém aqui vai fazer nada? — berro, girando em torno da entrada. — Não tem nenhum funcionário aqui?
— LALI!
Continuo desviando dele, que avança outra vez. Vermelho. Com os punhos cerrados pra me socar. Tropeçando nos mocassins.
— Vocês não tão vendo o que ele falou pra minha amiga? Seus desgraçados!
— LALI!
— Tomara que essa balada desabe! E tomara que você morra, seu lixo!
— VAMO!
Minhas pernas bambeiam, mas Alice me mantém firme e me direciona pro outro lado da rua.
Alguém finalmente aparece e leva o cara pra dentro. A taça de vinho se estilhaça pelo chão, e o tom de vermelho gruda dentro da minha cabeça.
Alice e eu caminhamos até o ponto de ônibus. Devagar. Devagar demais. Chorando até soluçar.
Minhas mãos e respiração aos poucos se normalizam.
O mundo ainda é um borrão.
— Como eu vim parar aqui, Alice?
As lágrimas me cegam.
Ela me abraça de lado. — Você… você viu o sinal que ele fez pra você, Alice?
Ela respira fundo. — Eu… já tô acostumada.
— Não… não devia!
— Eu sei, mas é a realidade. E eu sei lidar com isso! Não gosto de confusão. É melhor ignorar gente assim!
— Você não quer ir na polícia?
Alice dá uma risadinha. — Nunca adianta de nada mesmo. Fora que só vai piorar tudo, sinceramente! E eu… acho que o último lugar que você ia querer ir agora seria na polícia, né?
Faço uma careta.
— É, você tá certa. Mas… — Minha voz falha. — Você vai ficar bem?
Alice se aproxima um pouco mais e toca de leve no meu braço. — Você tá bem? Não machucou a sua barriga?
— Ah, foda-se a minha barriga, Alice! Eu quero saber se você tá bem!
O queixo dela treme. O meu dói.
Nossos rostos se enchem de lágrimas.
O perfume de morango dela fica mais forte, e eu acomodo a cabeça na curva do pescoço dela, molhando seu vestido, e as minhas costas umedecem na mesma medida.
— Eu vou ficar bem, Lali. Eu sempre fico.
— Me desculpa, Lice. — Corto o abraço. — Eu estraguei a sua noite… não devia ter brigado com ele… devia ter te escutado e ido embora logo… assim você não teria que passar por isso!
Ela nega com a cabeça. — Tudo bem.
Os postes e as poucas pessoas dentro do ônibus são borrões de novo. O assento é gelado. Meu peito está quente. Quente. Pegando fogo. Minhas pernas são duas gelatinas ambulantes.
O álcool faz minha coluna arder, meu peito pulsar e minhas mãos pinicarem.
— Queria poder te perguntar se você vai dormir bem… te acompanhar, mas eu não posso, Lice! Se eu pelo menos tivesse um celular, eu juro que eu ia!
Ela diz “tudo bem” com o polegar e abafa um soluço.
O ponto dela chega e ela se levanta, ajeitando a bolsa no ombro e respirando fundo.
Meu coração arde. É uma dor insuportável.
— Até amanhã de manhã, Lice! — Tento sorrir. Sai só um ensaio.
Alice concorda com a cabeça e desce, fungando. Sem falar nada. Seus olhos escuros se transformam em dois pontos de luz.
20 minutos depois, reconheço as camélias amarelas do bairro.
Caminho sem qualquer direção.
Meu coração ainda bate forte. Minha cabeça roda. Eu ainda não respiro direito. Por sorte, entro no lugar certo. Ou acho que entro.
Até que um vulto passa atrás de mim.
— SOCORRO!
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