Anything But Ordinary
3 Nós damos nossa revanche
Notas iniciais
Algumas pessoas dizem que a destruição é bonita. Nunca havia entendido essa expressão até então. Pra mim quem diz isso é louco, mas no final acho que depois de tudo que eu já presenciei essa noite estou me transformando louca também, por que de alguma forma, a explosão a minha frente é linda. Mortal e sombria, mas também linda.
Por mais que eu esteja sendo jogada para trás eu dou um jeito de continuar observando os tons de vermelho vivo a minha frente. Eles dançam em um ritmo sedutor e perigoso, do mesmo jeito que eu sempre imaginei que seria a personificação do fogo – caso existisse uma-.
Apesar de não ter sido jogada muito longe, um metro para trás talvez, a minha cabeça bate no solo com força e eu solto um gemido de dor. Parece que estou levando um choque, com alfinetadas doídas se espalhando por todo o corpo, surgindo na cabeça, se demorando um pouco nas costelas e parando nos pés. Eu quero virar minha cabeça e ver se os irmãos estão bem, quero virar minha cabeça e ver o que aconteceu com Rebecca Taker, e mesmo que me sinta estranha por isso quero virar minha cabeça e voltar a ver a explosão.
Quando finalmente consigo me levantar, meio tonta e cambaleante, descubro que tanto Will quanto Alyss estão desacordados. Isso me dá um peso no coração porque isso significa que eu estou sozinha de novo, e também porque isso também significa que nós estamos literamente mortos. Seja lá quem foi que explodiu a parede bloqueou a única saída com fogo, e Rebecca já estava se levantando — parecendo menos atordoada do que eu-.
_ Isso está ficando chamativo demais para meu gosto – Ela resmunga, encarando o fogo que já se espalhava para o pequeno mezanino encontrado ao lado da porta.
Eu não sei exatamente o que eu devo encarar, mas meu olhar se foca na porta quando um pouco da fumaça se dissipa; revelando dois vultos. Eles caminham em nossa direção com calma, quase que rebolando. Se isso fosse um teatro, eu provavelmente riria eternamente da cena, mas aqui, na vida real – se é que isso não é um sonho – rir nesse momento me parece aterrorizante demais.
A fumaça finalmente se esvai por completo, e o que sai do meio dela me faz soltar um gritinho de surpresa. Isso estraga o momento, por que todos – menos a dupla Walyss é claro – passam a me encarar, mas como eu poderia não ficar surpresa nesse momento? A dupla Mary Ann se encontra em minha frente, mas não são somente Mary Ann. É uma Ann segurando uma pistola, exibindo um sorriso confiante – quase como se estivesse feliz por finalmente estar nessa situação — apesar do olhar sério que exibia no rosto, e uma Mary que tinha o olhar semicerrado de sempre, mas que carregava um extintor nas mãos e duas adagas presas ao laço do vestido. Se eu fosse descrever a cena em outras palavras, diria que era como se elas realmente fossem uma dessas heroínas das histórias que as pessoas gostam de contar para as crianças.
_ Gostou da nossa entrada triunfal? – Ann pronuncia, o sorriso ainda esticado em sua cara. Eu não sei se ela diz isso para provocar Rebecca, ou se diz para se exibir pra mim.
_ Ann exigiu que jogássemos a bomba primeiro, ela disse que se nós simplesmente entrássemos iria ficar chato de mais – Bufa Mary, destruindo todo o ar de tensão do ar.
_ Ora, ora, ora. Pessoas sem importância como vocês realmente acham que conseguirão me deter? – Rebecca solta um riso irônico e abre as mãos em um gesto convidativo e desafiador. Ao ver que tanto Mary quanto Ann continuam firmes, ela simplesmente cerra os olhos, suspira e depois avança.
O movimento é tão rápido que meus olhos mal conseguem acompanhar, e eu ouço o tilintar das garras de Rebecca atingirem a pistola de Ann antes mesmo de localizar as duas. Por incrível que pareça a arma não é cortada ao meio. A face de Ann finalmente exibe um ar de concentração total, e ela consegue abaixar um pouco o cano da arma, deixando a mira bem em cima de Rebecca. Ann atira, mas Rebecca consegue se mover rápido o suficiente para a bala acertar o ombro dela, não o coração. Por causa do impacto do tiro Ann é forçada a dar um passo para trás, e Rebecca urra de dor, levando a mão ao ombro enquanto o mesmo está sangrando.
_ Bronze Celestial – Ela range, exibindo um olhar de puro ódio. – Vocês não são tão inúteis quanto eu achei que seriam. Onde acharam isso?
Ann não responde, ela está ocupada recarregando a pistola. Quanto a Mary... Onde está Mary?
Olho ao redor, finalmente lembrando que eu não era só uma expectadora. Eu realmente estava ali. Mas Will não. Alyss também não. E certamente não tinha mais fogo, só fumaça e móveis queimados.
Uma mão toca meu ombro. É Mary.
_ Kells, nós não vamos conseguir segurar a Empousa por muito tempo – Ela fala soltando as palavras muito rápido, de um jeito meio nervoso e impaciente. É um gesto incomum para ela, o que só demonstra ainda mais o quão estranho tudo isso está ficando. – Nós precisamos que você fuja daqui. Leve aqueles dois juntos com você.
_ Esposa? É isso que ela é? Casar é tão ruim assim? – Indago, aliviada por saber que os irmãos estão bem.
_ O que? É Empousa Kells, empousa. – Ela fala pesando cada sílaba, quase que soletrando. A ruiva sacode a cabeça, depois segura meus ombros. – Olha, é sério. Pegue mantimentos e vão para Londres. Eles estão na sala comum. Certo? Certo. Agora vá, eu preciso... Preciso ajudar Ann. – Ela me empurra para frente, lançando-me um ultimo olhar preocupado depois correndo para a luta que ainda se desenrolava.
Hesitando um momento antes de correr, dou uma olhada nas três mulheres a minha frente. Mary já havia dado um jeito de entrar na briga, e desferia golpes certeiros na empousa que mesmo estando sozinha dava um jeito de ganhar vantagem, se defendendo e atacando com as suas garras. Ann havia perdido a sua pistola no chão, e agora usava um punhal – que eu não tinha a mínima ideia de onde ela havia tirado –. Ela tinha um ferimento horrível na perna, mas ainda assim se mantém em pé, tentando ao máximo ferir Rebecca. A coisa tinha levado bastante dano – havia pelo menos cinco tiros daquele tal bronze celestial incrustados em sua pele – e Mary tinha conseguido de alguma forma ferir a parte esquerda de sua costela, mas ela aparentava estar mais fadigada do que despedaçada.
Esticando as pernas para longe dali, tudo que podia fazer era desejar com todo meu coração que elas ficassem bem.
“Mudança de Planos” Pensei, enquanto corria o mais rápido que podia entre o labirinto que é o castelo. “Encontrar Walyss e convencê-los a pegar mantimentos e fugir.” Eu já conseguia avistar o salão comum de onde estava, e um Will agora acordado tentava sem sucesso acordar Alyss. Será que era impossível demais pedir que eles ficassem acordados ao mesmo tempo? Bufei. “Ultimo passo: Voltar e ajudar Mary Ann”
Will tinha me notado, e agora em vez de dar pequenos tapinhas na face de Alyss o loiro me encarava.
_ Mary... Ann... Elas estão... Contendo... A Esposa... Empousa... – Comuniquei, ofegante. As palmas de minhas mãos estavam suadas, e cansada, apoiei as mesmas nos joelhos. – Vocês... Fugir...
_ Alyss não está acordando. Acho que juntando a pancada que ela levou na cabeça e todo o pavor que ela juntou até agora ela desmaiou legal. – A face de Will estava preocupada, cansada, e também exalava dor. Sigo meu olhar pelos seus ombros, até lembrar e perceber novamente seu ferimento. Três marcas de garras se espalham em um espaço de mais ou menos cinco centímetros – Ou seriam dez? Ah, quem sou eu para saber fazer medidas só com o olho? – e apesar da maioria do sangue já estar seco, o liquido ainda pingava e escorria pelo que restou de sua camisa, que a essa altura já estava toda manchada.
_ Como... Como você está de pé? – Pronunciei, parte do cansaço esquecido por causa do pavor instantâneo que o seu ferimento me proporcionou. Eu tinha que segurar todo meu estomago para não vomitar ali mesmo.
_ Isso não é importante. Primeiro nós temos que dar um jeito de acordar Alyss. Aí nós ajudaremos as irmãs lá e aí nós pensaremos nisso aqui. – Ele informou, a face tentando se manter séria e corajosa, mas o rosto já demonstrando certa palidez. Eu acho que meu rosto também estava ficando pálido.
_ Vamos inverter a ordem disso. Vou procurar alguém para te ajudar.
_ O castelo foi evacuado por causa da explosão, eles acham que algum tipo de ataque por sequestro ou coisa assim, a cavalaria já deve de estar chegando.
Cavalaria? Certo, temos de ser mais rápidos do que eu pensava.
_ Não me interessa se não tem ninguém aqui. Se for assim, cuido de você eu mesma. – E dirigindo-lhe um ultimo olhar teimoso, ponho-me de volta a correr.
********
De algum jeito eu consigo achar uma bandagem e alguns panos limpos. Quantos minutos será que já se passaram desde que deixei Mary e Ann lutando contra Rebecca? Cinco minutos? Dez? Vinte? O pensamento tira o sorriso orgulhoso de meu rosto e me faz correr mais rápido. Tento nem pensar mais no cansaço, ele não me ajuda em nada mesmo.
De onde estou consigo ouvir toda a gritaria lá embaixo. Por um instante, me pergunto se meu pai está preocupado comigo, mas logo tiro o pensamento esperançoso da cabeça, quase que ficando com nojo de mim mesma.
Quando volto a alcançar a Sala Comum, Alyss está acordada, encarando o irmão e chorando. Não sei se é por ela mesma, se é por medo, ou se é pelo irmão. A essa altura eu também não importo. Eu mesma só não estou chorando por que eu não quero gastar minhas lagrimas à toa. Já pensou? Gastar todas elas por coisas inúteis, e depois, quando realmente se precisar delas não ter como chorar? Definitivamente é uma coisa que não vou deixar acontecer comigo.
_ Alyss, pegue aquele jarro de água. – Ordeno, tentando manter a voz o mais firme possível e apontando para a vasilha que se encontrava em cima do mezanino – logo ao lado do sofá onde eles estavam –. Ela ergue a cabeça e nossos olhares se encontram. Ela para de chorar e agarra a jarra, levantando do sofá para dar mais espaço para Will.
_ Certo. Tire esse... Esse resto de pano que está aí no seu corpo. – Eu estou me dirigindo a Will, embora eu não esteja olhando para ele. A frase foi estranha demais para eu conseguir pronuncia-la enquanto olhava para ele. Entrego um dos panos a Alyss, e como se já tivesse feito isso antes milhares de vezes, ela os enfia dentro da jarra e depois os torce levemente, para tirar o excesso de água. A rosada se vira para me entregar o pano, mas acho que meu olhar parecia tão desconcertado enquanto alternava meu olhar para ela e para Will que ela prosseguiu com a operação ela mesmo. Minha vontade era dar um gigante Glória a Deus, porque céus, eu realmente não estava a fim de tentar ser médica por um dia.
As mãos de Will agarram firmemente a borda do sofá, o rosto contorcido em dor, mas Alyss continua firme com os movimentos suaves sobre o seu peito, limpando o mais delicadamente possível o ferimento.
Certo, é hora de buscar ajuda. Mas onde? Se eu descer, vão me forçar a ficar lá; Se eu esperar a Cavalaria, pode ser tarde demais. Eu devo ajuda-las por mim mesma? Por mais que isso em meu pensamento seja inútil, é melhor do que ficar aqui sem fazer nada.
Dou um toque no ombro da Rosada, e quando o olhar dela se manifesta para o meu, indico com a cabeça o corredor que vai para os quartos. Ela nem se dá ao trabalho de assentir com a cabeça.
E então, pela terceira vez hoje, eu desato a correr.
********
Antes mesmo de chegar à porta, eu sei que algo ruim aconteceu. É como se algo dentro de meu coração tivesse se partido naquele exato momento. E eu acho que se partiu mesmo; Eu realmente acho que se partiu porque a imagem de Ann com as garras de Rebecca enfiada em seu coração é de fato a imagem mais aterrorizante que eu já vi na vida. Ela está de joelhos, as mãos agarradas inutilmente sobre as armas mortíferas da Esposa. Tem sangue por todo o lado. No chão, nas suas roupas... Em seu rosto.
Em algum lugar de meu subconsciente, por cima de meu grito excruciante, eu ouço uma gargalhada maléfica. Eu ouço um outro grito, carregado de dor. Eu ouço um choro misturado a esse grito. Mas a coisa que mais se destaca em meio a todo esse caos da minha mente e da realidade é o baque que Ann faz quando cai ao chão, é o ultimo grito sufocado que ela dá.
Eu percebo que eu também estou de joelhos, as mãos agarradas firmemente à cabeça e puxando os cabelos sem dó. Eu percebo que mesmo sem fôlego, eu ainda estou gritando. Eu percebo... Percebo que nunca mais vou ouvir a voz doce de Ann me acordando, percebo que nunca mais vou ver suas caretas por trás da blusa bufante do Sr. Mittford, percebo que eu nunca mais verei Ann, pelo menos não aqui neste mundo. É isso que dá o rasgo final em meu coração: saber que nunca vou ver ou falar com Ann novamente.
Eu corro até o corpo sem vida de Ann e tomo o Punhal de sua mão. O peso não é estranho em minhas mãos; é quase que natural. Meu olhar se vaga para o resto do quarto, procurando por Mary e Rebecca. A irmã que restava lutava com a face desolada em terror, mas obviamente em desvantagem. Rebecca não parecia ter sofrido nenhum dano a mais desde que eu saí do quarto, e Mary... Bom, Mary estava acabada. Um corte feio no ombro, um arranhão profundo no rosto e apenas uma das adagas em mão. A outra havia sumido.
Rebecca bloqueia um dos golpes de Mary e chuta sua barriga, fazendo à ruiva se desequilibrar e cair. Eu prevejo a cena que vem a seguir: O golpe final.
Eu corro para tentar ajudar, mas já é tarde demais. Rebecca enfia as garras no meio das costelas de Mary.
Eu perdi as duas únicas integrantes da minha verdadeira família em um dia. Rebecca conseguiu estragar meu dia em apenas Duas horas.
Eu grito novamente, e continuo a corrida que antes estava percorrendo. Eu não sei se devo atacar diretamente – De frente – ou usar a Adaga como uma foice e atacar de lado. Acabo seguindo meus próprios instintos e traço um arco da esquerda para direita. A ação pega a Esposa de surpresa e ela não tem tempo de reagir, recebendo o corte em cheio. A sensação de cortar a carne é estranha, mas matar pessoas também era estranho e Rebecca fazia isso mesmo assim.
Ela recua um instante depois volta a atacar – somente com uma das mãos porque a outra está sobre o ferimento que acabei de lhe dar — e eu de alguma forma consigo bloquear.
Eu tento atacar novamente, mas ela bloqueia facilmente. A vantagem que eu tinha conseguido foi embora, e eu me concentro em tentar seguir seus movimentos e escapar de suas garras, recuando sempre que possível. Ela se prepara para dar o golpe final, e eu fecho os olhos, não querendo ver minha própria morte chegando. Não querendo morrer.
Eu sinto algo gelado passar pelo meu corpo. Será que isso são as suas garras me penetrando? Será que ela me atingiu com tanta força que eu nem estou sentindo dor? Mas de alguma forma eu sei que não é isso. Eu sinto algo escorregar pelo meu corpo. Ou tudo está demorando muito ou o tempo está passando muito devagar. Eu ainda estou consciente. Não sinto dor. Isto é morrer?
Sem conter um pouco de irritação, abro os olhos. “Ora, se for para me matar que me mate logo! Essa expectativa é horrível sabia?” O que eu encontro a minha frente não é realmente nada do que eu esperava. Rebecca está a minha frente com uma cara de realmente de espanto, encarando minha barriga, por onde suas garras deviam de estar alojadas. Eu uso deviam por que elas de fato não estão lá. Quer dizer, na verdade elas estão. O que não está lá é meu corpo. Quer dizer, ele está lá, mas não está exatamente lá. Argh, isso é confuso demais.
Tudo que eu vejo ao olhar para baixo é o forro de meu vestido – o que por si só já é extremamente estranho, já que eu tinha certeza que estava com minha roupa completa ao entrar na sala – e um contorno levemente azul em torno de meus braços a mostra. Localizo o vestido aos meus pés, e percebo que foi isso que escorregou de minha pele agora a pouco.
A garra da Esposa atravessava meu corpo, mas não por dentro dele, mas sim direto por ele. É quase como se eu tivesse perdido minha matéria e apenas minha consciência tivesse ficado ali. Eu devo de estar alucinando. Ou então tudo isso deve de ser um sonho. Sim, eu vou acordar com a voz de Ann amanhã me chamando docemente para tomar o café da manhã. As garras de Rebecca saem do lugar, pousando ao lado de seu corpo. Ela parece em transe.
Eu solto um risinho agudo. Isso é tudo um sonho! Como eu não percebi antes?
A resposta a minha pergunta vem sem eu de fato querer saber dela. Uma lamina passa direto pelo coração de Rebecca, espirrando sangue por toda a minha face. E aquilo me traz de volta a realidade, por que a textura sombria e quente do sangue que escorre pela minha face certamente é real.
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