Antítese
1 Capítulo único
Notas iniciais
Querem saber de um segredo? Passa da uma da manhã, e eu estarei mentindo feio se disser que realmente sei o propósito de estar aqui. Não sei, e talvez esteja usando a vontade de escrever como pretexto para ficar mais e mais acordado, apenas por medo de nos meus sonhos ter que encarar a realidade dos fatos. Nós somos donos de nossa mente, é o que eu penso, toda hora que bloqueio o passado repleto de erros que poderiam ter sido facilmente evitados. Nossa mente é dona da gente, é o que eu concluo quando vejo-me cercado inconscientemente por todos esses fantasmas tenebrosos que criaram-se dentro de mim, e aproveitam meu momento de fraqueza para atormentar-me. Por isso evito o sono. Perigoso, irreversível.
Para tanto, corro o risco de arrastar-me pelos dias, um tanto sem vida, completamente sem peso para os que me rodeiam. Porém não é algo que faça muita diferença. Primeiro porque só uma pessoa de fato se importou com o que eu era, com o que eu pensava, bem, para resumir bem e poupar um tempo desnecessário (que eu provavelmente não tenho), foi o único que se quer encarou-me por além das aparências. E nem venha me dizer que isso é uma coisa comum, que acontece o tempo todo. O mundo está coberto de pessoas que tem um talento magnífico e digno de aplausos para mascarar-se de boas intenções, quando estão vazias, e ao mesmo tempo cheias de maldade. A vida é uma antítese. Não canso de pensar assim. Segundo (se você ainda se lembrar que havia um outro motivo) porque falar de sentimentos dói, cutucar feridas, se me permite a palavra de baixo calão, é uma merda. Porque, por mais que a gente se engane dizendo que é fácil esquecer, dizendo que conseguimos superar, e mesmo que possamos espiar o passado e nos proibir de qualquer reação negativa, sabemos que uma ferida aberta sempre vai machucar, não importa quanto tempo passe. E mesmo que um dia passar, ainda restará uma marca (talvez ingênua, e despercebida) que hora ou outra vai resultar naquele aperto descontrolável, sufocante e perturbador, que todos sentimos um dia, quando nos damos conta de que o tempo infelizmente não volta e, assim, temos que lidar de frente com a hipótese de que cometemos erros incorrigíveis, na maioria das vezes, e sendo eles dessa natureza, apenas vão causar incomodo, sem cura, sem remédios e por pior que pareça, sem alívios. Não quero voltar e reler tudo que escrevi até agora. Sei que a hora não ajuda em nada, além de que, a vida não nos permite voltar atrás. Eu não tive uma segunda chance. E o que mais me aborrece é o fato de ter sido alertado inúmeras vezes. Ele sabia. Sempre soube. Aquele menino tão perfeitamente doce e inocente, exalava uma tristeza quase impercetível para maus observadores, uma tristeza que refletia-se por seu olhar devastado, longínquo e desiludido.Convidavam qualquer um que os fitasse para viajar por todo seu ser, e quem sabe, espiar de leve seus sentimentos, talvez por que acreditasse que era assim que deveriam ser os relacionamentos entre pessoas. Honesto, transparente. Desconheço outra forma de colocá-lo em palavras se não for pela essência, já que o físico diz tão pouco, e o torna tão... semelhante à outros tantos. Ofende-me somente pensar na hipótese de um menino tão enigmático, de impossível leitura e compreensão, apesar da simplicidade e ingenuidade, ser confundido com outro qualquer. Não pretendo endeusar aquele menino, porque honestamente não acredito nessas besteiras. O que existe é o aqui, é o agora, é o momento, a ação, os homens, os erros, os defeitos, os pecados. E com todos seus defeitos inadmissíveis, quero dizer, toda aquela sua imperfeição gritante e exuberante faziam-me não duvidar o como ele era perfeitamente comum. Um garoto com medo de encarar as coisas de frente. Mas, as fugas que enxergava para a vida, os caminhos alternativos, seu esconderijo da maldade presente no mundo... É muito contrastante de minha parte, mas como já disse, a vida é uma antítese. Não iria ver beleza em um garoto surreal demais. Simplesmente por que não existe. A vida corre, rápida demais para que possamos acompanhar, porém na medida certa, para despertar em nós um interesse vital, que quando perdido, simplesmente não vemos saídas. Ele, para mim, era em uma dose maravilhosamente bem calculada: misterioso, ao mesmo tempo em que previsível demais. Inteligente, ao mesmo tempo em que imbecil demais. E por aí o seu caráter ia tecendo-se de uma forma inconfundível e encantadora: corajoso e covarde, amoroso e frio, inesgotávelmente interessante e supérfluo. Era assim, e me encantava assim. De nenhum outro jeito mais. Tudo em seu caráter prendia-me de um modo, que eu ansiava nunca mais sair de seus encantos. Egoísmo. Era bom demais para mim. E eu sabia apenas observá-lo, de canto, com medo de mostrar-lhe meus sentimentos, com medo de levar um tombo. Nós humanos, somos patéticos. Ele não. Seus olhos, me perdoem voltar em um assunto afundado. Falta pouco para às duas, já não tenho consciência do que escrevo, apenas deixo que meus dedos movam-se a comando de meu cérebro, inteligente demais para mim. Traidor demais. As feridas voltam aos poucos. Uma saudade perfeitamente assassina, provoca um descontrole inacreditável. Saudade para mim é a pior doença, é a que mais sentimos, é a que mais dói. O coração aperta de forma que chega a doer, e tentamos vomitar todo esse imenso e torturante desconforto, mas ele é tão grande, que não passa da garganta. E lá estamos nós, morrendo sufocados com a própria culpa. E os olhos ficam molhados, querendo de algum modo contribuir com a melhora. Francamente, a pior idiotice humana é acreditar que lágrimas fazem bem, que \"colocar para fora\" é um remédio. O que deixamos para trás, não tem lugar melhor do que no passado. É algo auto explicativo, sinto-me envergonhado por ter que repetir isso, mas... que saudade. Mesmo na escuridão de minha mente, quando aperto os olhos mais forte do que consigo, e sinto meus punhos fechados tentando liberar em atos o que os sentimentos gritam; vejo-me sozinho, e lembro-me de seu perfume, lembro-me do toque macio de sua pele quente. E o perfume. Ah, o perfume. O perfume que transformado em palavras, era o sinônimo de ardor. Não vejo outra palavra que descreva melhor seu aroma refrescante, e típico. E sou nocauteado pela saudade intensa, que não tem piedade. Agride-me, deixa-me indefeso. E tudo o que resta são as lembranças. Gosto de lembrar de quando o olhava por muito tempo, acompanhando seus traços desenhados de forma tão surreal, tão... precisa e preciosa. Gosto de lembrar de meus dedos contornando sua mandíbula firme e marcante, seguido por sua boca, tão única, tão delicada, tão tímida. Gosto de lembrar de suas sobrancelhas fazendo um perfeito arco, como se houvessem sido pinceladas por um desses pintores de excepcional talento. As lembranças são traídoras. Lembro-me de minhas mãos passeando carinhosamente por seu cabelo fino e macio, pouco comprido, e penso até sentir novamente o toque sedoso, meus dedos chegam a coçar de vontade. Levo a mão aos meus próprios cabelos, em um ato descontrolado, desesperado por afeto, desesperado de saudades. Meu coração é esfaqueado, mutilado, e então eu vejo-me novamente sozinho, em um vazio tão habitual, e ao mesmo tempo tão... angustiante. A vida é uma antítese. Quando olho para mim mesmo, agora, e percebo que ainda tenho características humanas apesar de tudo, surpreendo-me. E quando digo que me surpreendo, é porque a coisa realmente é séria. Porque, mesmo perdendo a respiração ao sentir meu coração ser dilacerado, e esquecendo de tornar a respirar, mesmo sufocado pelo caroço que cresce cada dia mais em minha garganta, mesmo que evite o sono, e evite até mesmo pensar muito; mesmo que evite a vida, ela não me evita. Não me deixa escapar. Então eu levo um banho de água fria e percebo que ainda posso caminhar, mesmo que com dificuldades. Sentimento nobre esse, e humano. 2:12. Estou ouvindo uma música alta. Temo ser coisa de minha cabeça, mas temo mais que não seja. Neste caso eu teria um sério problema. Continuo sem saber o que escrever, continuo com medo de relembrar a cena fatal. Sei que não posso evitar por muito mais tempo. Mas, tente me entender. Até mesmo quando se está acostumado com a dor em sua rotina, ela tem um jeito de mostrar-se mais competente. Algo me diz fervorosamente para voltar e corrigir os erros do que já escrevi, me recuso. Não quero pensar na idéia de ter que ler tudo o que meus dedos escreveram de forma inconsciente, e assim passar ao consciente. Ele já está com muitas dificuldades, tudo já é muito complicado e, ah, essa música. Essa maldita música. Essas malditas lembranças. Esse maldito Frank Iero. Frank. A imagem desenha-se novamente em minha mente, e novamente meus dedos coçam, desejosos. Um suspiro. Um silêncio. Um vazio. Não lembro de como chegou em minha vida, e francamente, não importa. Quando fecho os olhos, a impressão que tenho é que sempre esteve ali, com aquele seu sorriso bobo, alegre e cativante estampado em sua face, logo abaixo do olhar deprimido e distante. Nunca soube o porque de sua tristeza, a qual ele negava constantemente, sendo desmentido por seus olhos, que gritavam estar sim tristes, mas paravam por aí. Nunca soube o porque de não me contar. Se era por medo de lidar com as feridas, ou simplesmente por falta de confiança. Nunca soube muito mais de Frank além do que observava dia após dia, para ser mais exato. Frank tinha comportamentos engraçados, que davam-me a falsa idéia de conhecê-lo, quando na verdade não sabia nada sobre ele. Como por exemplo, seu tamborilar incansável com os dedos sobre qualquer superfície em sua frente, e com qualquer objeto que estivesse em mãos. Ou como seu modo característico de estar sempre movendo alguma parte do corpo e, quando não o fazia, era o índice certeiro de que havia algo errado. Frank também tinha mania de falar com a boca cheia, e limpar a mesma com as costas da mão, enquanto ria do meu olhar repreensivo por tal comportamento. Ele era de todo um moleque, com o mesmo entusiasmo, e a mesma vontade, e talvez até os mesmos anseios. Mas, nem de longe pensava como um. O menino era a frente, até para mim, apesar da diferença de idade. Tinha um pensamento tão distante, tão apreciável, ilustre e sublime; que simplesmente abandonava qualquer egoísmo, qualquer culpa. Definitivamente não tinha características humanas. Eu não sabia nada dele, mas, quanto menos sabia, mais me encantava. E gostava das coisas do modo como elas caminhavam. A vida é mesmo uma antítese. A dor no meu coração é forte, e minha voz procura sair em um berro desafinado e desajustado, louco por ajuda, ecoante pelos apartamentos, em busca de qualquer resposta, qualquer \"eu estou aqui\". Minha boca está travada, e eu continuo sem saber o propósito de estar aqui. Quinze para às três, e eu realmente estou ferrado (perdoem-me por novamente utilizar-me de um palavrão). Minhas olheiras já estão tão fortemente marcadas, e meu cansaço é tanto, que a única coisa que faço é arrastar-me, ou melhor, me deixar ser arrastado por minhas pernas, também cansadas. Então eu lembro das poucas vezes que senti o chão sob meus pés sumir, e é engraçado pensar que nessa época tudo era realmente muito mais leve, e mais fácil de levar, embora eu adorasse dizer o contrário. Gosto de lembrar de quando beijei Frank, pela primeira vez. Gosto de lembrar o longo tempo em que apenas permaneci com o toque dos lábios, querendo aproveitar o suficiente e não perder aquele contato nunca mais. Eu poderia morrer naquele momento, e minha vida teria valido a pena. Gosto de lembrar do seu sabor de bala de hortelã, sempre presente em sua boca tão bonitamente desenhada. Gosto de lembrar dos nossos lábios se roçando de forma violenta quando finalmente despi-me da vergonha, buscando intensamente expressar tudo o que sentia naquele momento tão envolvente e gostoso. Nossas línguas faziam uma perfeita sincronia, junto com as mãos, a respiração, os toques, os movimentos, a gente. Sei que não será preciso descrever minuciosamente cada movimento e sensação provocada naquele longo ato. Você sabe como é um beijo, você sabe como é um verdadeiro beijo. E sabe que tem diferença entre ambos. E um beijo descrito na forma carnal, torna-se apenas um beijo. E ponto. O que tive com Frank foram os sentimentos há tanto presos por medos estúpidos, e pelo orgulho idiota, libertarem-se com paixão, enquanto eram expressos por um ato que deixava-os a vontade, deixava-os do modo como queriam estar. O que acontece em um verdadeiro beijo é que você se deixa levar pelo seu inconsciente, e apenas aproveita o a deliciosa anestesia causada pelo mesmo. Com Frank tinha algo mais. Parecia que estando em meio aquele ato, eu podia desenvolver mais sentidos, mais formas de ver a vida. Era como se ele, ali, tão inocentemente exposto, estivesse me passando seus dons, tão injustamente desconhecidos. Frank Iero fazia-me sentir a vida, ao invés de tentar entendê-la. E ela tinha um toque tão cuidadoso, tão materno, e tão diferente do que eu estava acostumado. Estar com ele era simplesmente entrar em uma sala da vida onde não existia maldade, onde eu não poderia ser atingido por nenhum mal. Eu me sentia protegido, quando na realidade, estava em minha obrigação de protegê-lo. Não sei se felicidade realmente existe, e como ela é, mas, em meu humilde conhecimento, afirmo sem hesitação de que era ali com ele, nesse quarto afastado do resto do mundo que eu presenciava o ápice da felicidade. Era tudo muito distante da realidade, muito perigoso, muito longe do que eu sempre acreditei. Mas a vida é uma antítese. E era exatamente nesses momentos em que os olhos de Frank mais ansiavam por ajuda, gritavam silenciosamente, indignados por não serem compreendidos, indignados por não terem sua merecida ajuda. Exalavam tristeza, era possível senti-la de todas as formas (ainda mais com os sentidos aguçados, graças ao garoto) ela tinha o toque tão frio que queimava, áspera, e seu cheiro era amargo, enjoativo, e ao mesmo tempo comovente. O garoto rolava os olhos por tudo, com aquele seu rosto angelical morto, melancólico. E eu sentia-me insuficiente, e errôneo, por não saber o que se passava, não saber como agir com ele. Três e dez, meu corpo dói, e estou preocupado com o dia seguinte. A música voltou, e eu realmente estou assustado quanto a isso. Queria ter qualquer controle que fosse, de qualquer coisa, até de mim mesmo (principalmente de mim mesmo), mas é algo que foge de meu controle, o controle. Se é que me entende. Não aguento, vou subir e ler tudo o que escrevi, para ver se devo continuar. Não sei o que fazer, não sei o que escrever. Meus dedos estão dizendo-me que agora é por minha conta. Talvez já esteja na hora de assumir meus erros afinal. Se querem saber, o que o levou embora não foi ninguém menos que eu. Responsável pelos erros mais desprezíveis já cometidos em nossa relação. Levei 20 minutos para ler, a música vai e volta e a dor é tanta e me sufoca de um tanto que eu não vejo mais motivos para continuar com esse martírio. Minha ferida sangra, descontrolada, e sinto que logo terei uma hemorragia. Não tem mais volta. Estou com frio, com medo, e ansiando por proteção. Na escuridão de minha mente procuro por Frank, mas ele parece ter-se escondido de mim. Porque a vida tem que ser essa antítese? De todas as coisas boas, magníficas e relevantes que tivemos, tantas cenas dignas de ficarem fortemente gravadas em minha mente alucinada, a mais viva de todas é a que mais me mata por dentro. Detona, estraçalha. E droga, estou sem controle algum, meus dedos parecem máquinas digitando em uma perigosa velocidade, de modo que eu me vejo tendo que voltar atrás toda hora para corrigir os erros de digitação. Mas está errado. Erros são erros, deveriam permanecer desse modo. A vida não é essa fantasia egoísta presente em nossos sonhos e, aliás, nossos sonhos são a demonstração mais clara de que somos todos doentes, e precisamos todos de carinho, precisamos de atenção, de realização. Nosso coração grita por erros que foram nossos, e mesmo assim, queremos ser acolhidos, como se fôssemos vítimas indefesas. E quer saber? Talvez a gente realmente seja, mas, qualquer que seja o motivo de estarmos aqui, é contraditório. Não temos para onde correr, porque, apesar de nos falarem que no caminho existe uma bifurcação, a qual leva a resultados completamente opostos, você quer saber da verdade? É mentira. Não adianta para que lado corremos, continua sendo sempre o mesmo caminho, que leva para a mesma direção, e só. Fim. Essa é a vida, aplausos para a gente. Aplausos para o último olhar, e o aparto tão forte e desesperado, com sua mão trêmula, enquanto afogava-se em lágrimas, sobre meus braços. Vamos bater palmas para nossas últimas palavras e seu último suspiro, bater palmas para a cena que emoldurou-se naquele momento. Eu sentia sua vida sendo levada de mim, e aquilo era o pior sentimento do mundo, porque, é o mesmo que ver algo que gosta sendo roubado em sua frente, e não poder fazer nada, simplesmente por estar amarrado. Eu estava amarrado. Mais que isso. Acorrentado. Sua força em meu braço foi diminuindo gradativamente, e seus olhos ainda estavam mergulhados no mais profundo de minha alma. Exibiu um de seus sorrisos maravilhosos, encantadores, petrificantes. As lágrimas ainda eram intensas. Não poderíamos fazer nada, mas era simplesmente inútil tentar ignorar a dor que se formava em mim. Seus olhos, pela primeira vez em todos meus registros não exalavam tristeza. Estes estavam esbugalhados, vermelhos, dissimulados, mas apesar de tudo, eu tinha um talento especial de ver mais através deles do que Frank gostaria de mostrar, e lá no fundo eu enxergava uma gratidão encoberta por amor e certa saudade precoce. Era realmente muito injusto. Sua mão me largou, seu corpo caiu-se pelos meus braços, mole, pesado, assustador, e eu me senti enojado, angustiado e louco. Seus olhos continuaram fitando-me, e então eu vi a cena mais triste que jamais pensei presenciar um dia. Todo aquele brilho vívido presente em seu olhar cativante, mesmo que para o momento, apagou-se, em um instante, sumindo dali. E o que era antes, a janela para a alma de Frank, agora era apenas a porta para um lugar vazio, e abandonado. Eu o vi deixando seu corpo, senti sua vida escapando pelos meus braços, e aquelas malditas correntes, odiosas. Seus olhos permaneceram abertos, estáticos, amedrontadores, desumanos. E foi então que eu percebi que tudo tinha acabado, simples assim. Acabado. Fim. A vida é assim: enganosa, injusta, competente, pretensiosa, venenosa, rude, firme em sua decisão. Mas a vida também é bela, magnífica, assustadoramente bem planejada, apesar de precipitada. E quer saber o que acho disso tudo? Bem, são quatro da manhã, a música parou, e eu sangrei tanto que de certo modo sinto-me aliviado agora. Olho para meu coração em pedaços, minha face melada de inúteis lágrimas, olho para esse final patético como a vida. Frank voltou vívido a minha cabeça, e meus dedos ainda coçam, com saudades de tocar seus cabelos macios, saudades de senti-los enroscando-se em meus dedos. Saudade de seu sorriso infantil, e todo seu mistério, todo seu ser indecifrável, magnífico e encantador. O nó permanece em minha garganta, e minha ferida permanece aberta, e honestamente, nunca achei que fosse de fato fechar. E ainda dói, a saudade ainda judia de mim. Tudo permanece igual. Meus erros continuam no passado, minha vida continua no passado, Frank continua no passado. E a vida continua sendo uma antítese. Uma maravilhosa, indescritível, incalculável, e sofisticada antítese, que não cabe a nós tentar entender, apenas sentir. A vida para mim tem o cheiro forte e doce de Frank, seu jeito misterioso, seu sorriso alegre, e (mais marcante que todas as outras características) seus olhos transmitindo tristeza, vazio. E, do mesmo modo que não cabia a mim entendê-lo, o mesmo faço com ela, apenas me lembrando sempre que no fundo, a vida pode ter um toque cuidadoso, materno, e muito diferente do que eu estamos acostumados. Então eu prendo-me a essa ilusão, e sigo em frente, evitando viver, e evitando encarar de qualquer modo o passado. Evitando a bifurcação. Porque afinal... A vida é uma antítese. Não canso de pensar assim. ###
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