Antigo novo amor

46 Capítulo 46 - B.F.C



Encontrar um lugar para o bolo acabou se tornando mais difícil do que deveria. Principalmente porque ele era muito maior do que Vitor imaginava.


Paula o ajudou a reorganizar parte da mesa enquanto Maria acompanhava tudo de perto, supervisionando como se fosse responsável pelo evento inteiro.


Depois de alguns ajustes, o bolo finalmente ficou no lugar. Maria observou o resultado satisfeita.

Então olhou para Paula. Depois para o pai. E franziu a testa.


— Você não vai se arrumar?


Vitor olhou para a própria roupa.


Camiseta preta.

Calça jeans.

Chinelo.


— Eu já estou pronto.


Maria soltou um suspiro dramático.


— Pai…


— O quê?


— Você está com a mesma blusa preta de sempre.


Paula precisou abaixar a cabeça para esconder o sorriso.


— É um jantar em casa, Maria.


— É seu aniversário.


A menina apontou para ele como se aquilo encerrasse qualquer discussão.


— Você precisa colocar outra roupa. E tomar banho de novo.


Vitor arqueou uma sobrancelha.


— Está dizendo que eu estou fedendo?


— Não.


Ela respondeu rapidamente.


— Mas você está cheirando temperos.


Dessa vez Paula riu. Vitor balançou a cabeça.


— Eu estou cheirando temperos porque passei a tarde inteira fazendo o jantar.


— Justamente.


Maria respondeu.


— Vai se arrumar, por favor!


Depois lançou um olhar para Paula.


— Nós já estamos prontas.


Paula sorriu.


— Ela não está errada...


— Claro que vocês fizeram uma aliança.


— Nós só estamos certas.


Maria abriu um sorriso vitorioso.


— Quando eu aprender a cozinhar, faço seu jantar de aniversário.


— Vou cobrar isso.


— Pode cobrar.


Então ela apontou novamente para a escada.


— Agora vai.


Vitor observou as duas por um instante. Maria claramente decidida. Paula tentando parecer neutra e falhando completamente. Acabou rindo.


— Certo. Eu me rendi.


Maria comemorou imediatamente enquanto ele começava a subir as escadas.


— E coloca uma roupa bonita!


— Sim, senhora.


Vitor subiu ainda ouvindo Maria reclamar da sua falta de compromisso com a própria aparência.


Quando fechou a porta do quarto atrás de si, acabou sorrindo sozinho porque, no fundo, ela tinha razão. Entrou no banheiro e tomou outro banho, rápido dessa vez, apenas para tirar o cheiro dos temperos e da cozinha.


Depois seguiu para o closet. Parou diante das araras por alguns segundos ou talvez por alguns minutos. Mais tempo do que gostaria de admitir.

Passou os olhos pelas camisas escuras. Pelas camisetas. Pelos casacos. Até finalmente puxar uma camisa branca.


Vestiu uma calça social preta, dobrou as mangas da camisa até os antebraços e calçou uma das botinas que costumava usar nos shows.


Terminou penteando o cabelo para trás e passou perfume.


Quando se observou rapidamente no espelho, balançou a cabeça. Tudo aquilo porque uma menina de dez anos decidiu que ele precisava estar apresentável para comer bolo.


Desceu a escada alguns minutos depois. Maria foi a primeira a vê-lo. Ela estava passando pela sala quando levantou os olhos e imediatamente abriu um sorriso enorme.


— Agora sim!


A voz atravessou a casa inteira.


— Agora podemos continuar o seu aniversário.


Vitor começou a rir enquanto terminava de descer os últimos degraus.


— Eu já estava ótimo!


— Você estava parecendo que ia abastecer o carro.


Corrigiu ela.


— Agora parece aniversariante.


Aquilo fez ele balançar a cabeça, derrotado.


Na mesa, Paula conversava com João sobre alguma coisa relacionada à lista de animais da bebê. Estava de costas para a escada, mas a movimentação da Maria chamou sua atenção. Ela virou o rosto distraidamente e então viu. O ar simplesmente desapareceu dos pulmões dela por um segundo. Talvez dois. Talvez mais.


Fazia tempo que ela não o via daquele jeito. A camisa branca destacava ainda mais os traços dele, o cabelo penteado para trás deixava o rosto mais marcado e as mangas dobradas revelavam os antebraços. Mas não era aquilo. Ou pelo menos não era só aquilo. O problema era a sensação.


A mesma sensação. Exatamente a mesma. Aquela que ela sentiu quando o viu pela primeira vez na vida. As borboletas no estômago. O frio inexplicável no peito.


Aquela impressão absurda de que o mundo diminuía ao redor e que, por algum motivo, ela só conseguia enxergar ele.


Paula ficou olhando por um segundo a mais do que deveria e isso a assustou. Porque anos tinham passado. Muita coisa tinha acontecido. Eles tinham se perdido, se reencontrado, construído outras histórias e colecionado cicatrizes pelo caminho. Mas aquela sensação permanecia intacta… Como se o tempo nunca tivesse conseguido alcançá-la.


Vitor caminhava na direção deles quando percebeu o olhar dela. Percebeu imediatamente. Os olhos dos dois se encontraram e, por um instante, nenhum deles desviou.


Então o canto da boca dele subiu devagar. Pequeno. Satisfeito. Porque conhecia aquele olhar.


Paula desviou os olhos primeiro, mas já era tarde. Ele tinha visto e, pelo brilho discreto que surgiu nos olhos dele, ela teve a certeza de que ele sabia exatamente o que tinha acabado de acontecer.


Maria seguiu até a mesa parecendo completamente satisfeita com o resultado da própria intervenção estética. Sentou-se ao lado de João e imediatamente começou a organizar os guardanapos outra vez, como se a missão ainda não estivesse concluída.


Vitor caminhou até a adega enquanto as crianças discutiam qual deles tinha ajudado mais na organização do jantar.


Poucos segundos depois, retornou com duas garrafas. Paula observou curiosa enquanto ele servia primeiro a própria taça e depois a dela.


— Calma.


Ele comentou ao perceber a expressão dela.


— Esse é sem álcool.


Paula piscou surpresa antes de olhar a garrafa.


— Você comprou vinho sem álcool?


— Comprei.


Ela pegou a taça ainda um pouco surpresa.


— Achei que você gostaria de participar do brinde.


Aquilo aqueceu alguma coisa dentro dela porque era exatamente o tipo de detalhe que ele fazia sem anunciar. Sem esperar reconhecimento. Só porque tinha pensado nela.


Paula sorriu e ergueu a taça levemente.


— Obrigada.


O olhar dele encontrou o dela por um instante curto.


— De nada.


Em seguida serviu um pouco de refrigerante nos copos dos filhos. O suficiente para deixá-los felizes.


— Hoje pode?


João perguntou imediatamente.


— Hoje pode.


Respondeu Vitor. Maria abriu um sorriso vitorioso.


— Melhor aniversário de todos.


— O aniversário é amanhã.


— Já começou.


Ela rebateu sem hesitar. Vitor apenas riu e levou a garrafa de volta para a bancada.


Depois retornou com a panela de risoto. O aroma tomou a sala imediatamente.


— Meu Deus.


João foi o primeiro a comentar.


— Isso está cheirando muito bem.


— Finalmente alguém reconhece meu talento.


Vitor respondeu enquanto apoiava a panela no centro da mesa. Maria ergueu uma sobrancelha.


— Eu reconheço.


— Depois de me obrigar a tomar dois banhos?


— Uma coisa não tem nada a ver com a outra.


Paula precisou esconder o sorriso atrás da taça.


Vitor começou a servir primeiro as crianças. João observava atentamente cada colherada como se estivesse avaliando um prato de competição culinária. Maria já se inclinava para frente ansiosa para começar. Só depois de servir os dois ele pegou o prato de Paula.


— Muito?


Perguntou.


— Normal.


Ela respondeu.


— Isso significa pouco ou muito?


— Significa normal.


Vitor lançou um olhar divertido para ela enquanto colocava o risoto no prato.


— Informação extremamente objetiva.


Paula riu. E, por alguns segundos, tudo pareceu absurdamente simples.


O jantar seguiu exatamente como o restante daquele dia. Sem silêncios constrangedores. Sem esforço.


As crianças preenchiam qualquer espaço vazio com perguntas, histórias ou teorias improváveis. João passou vários minutos explicando por que capivaras eram subestimadas pela sociedade enquanto Maria tentava convencê-los de que um dia teria uma marca de roupas. Vitor implicava com os dois sempre que podia, Paula ria, participava das conversas e, quando percebia, já estava contando histórias também.


Os assuntos simplesmente surgiam. Mudavam.

Voltavam. Se misturavam.


Em determinado momento, João perguntou qual era o animal mais inteligente do mundo. Cinco minutos depois estavam discutindo golfinhos, polvos e seres humanos. Logo depois Maria já tinha mudado completamente o rumo da conversa perguntando qual tinha sido o show mais difícil da carreira de Paula.


Tudo parecia leve. Natural. Como se ninguém precisasse pensar para estar ali.


Paula levou mais uma garfada do risoto à boca e fechou os olhos por um instante.


— Isso está muito bom.


A sinceridade da voz dela fez Vitor sorrir imediatamente.


— Muito bom mesmo.


Ela apontou o garfo na direção dele.


— Sem falsa modéstia. Está excelente.


— Ouviu isso?


Ele perguntou para os filhos.


— Testemunhas.


Maria revirou os olhos.


— Pai, você cozinha bem.


— Eu sei.


— Então para de fingir surpresa.


Paula começou a rir. Foi quando Vitor abaixou os olhos para pegar a taça e viu… O anel. Por um segundo, o restante da conversa desapareceu.


A voz das crianças ficou distante. O barulho dos talheres. Tudo. Porque aquele não era qualquer anel. Era o anel. O que ele tinha desenhado.

Pensado. Escolhido.


A peça que tinha colocado nas mãos dela quando a pediu em namoro.


A luz da sala refletia discretamente na pedra enquanto Paula gesticulava durante alguma explicação para João.


Ela usava o anel com a naturalidade de quem não tinha percebido que estava usando. Como se ele simplesmente pertencesse ali.


O peito dele apertou. Forte. Porque aquilo dizia muito mais do que qualquer conversa que eles ainda não tinham tido.


Paula então percebeu o olhar dele.


— O que foi?


Perguntou, interrompendo a própria frase. Vitor ergueu os olhos lentamente até os dela. Depois olhou de volta para a mão dela. Foi só então que Paula entendeu. Instintivamente baixou os olhos também e encontrou o anel. O coração tropeçou no peito porque ela não tinha colocado aquilo para causar efeito. Nem para passar mensagem.


Na verdade, tinha colocado de manhã sem pensar. Como fazia tantas vezes e talvez justamente por isso o significado fosse ainda maior.


Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Até Maria olhar de um para o outro.


— Vocês estão estranhos.


A observação fez Paula soltar uma risada imediata enquanto Vitor desviava os olhos e pegava a própria taça e o momento se dissolveu de volta na conversa. Mas não antes de ele guardar aquela imagem em algum lugar muito específico dentro de si… O anel ainda no dedo dela. Como se nunca tivesse saído dali.


Quando os pratos finalmente ficaram vazios, Maria olhou para o irmão e os dois trocaram aquele tipo de olhar que pais aprendem a reconhecer imediatamente.


O olhar de quem estava escondendo alguma coisa.


— O quê? — perguntou Vitor.


— Nada.


Respondeu Maria rápido demais.


— Maria Vitória…


— Já voltamos.


João foi o primeiro a levantar.


— Não saiam daí.


— Estou começando a achar que perdi completamente o controle desta casa.


Comentou Vitor enquanto os dois desapareciam escada acima. Paula riu baixinho.


— Acho que você perdeu faz tempo.


Os dois começaram a recolher a mesa enquanto as vozes das crianças ecoavam pelo segundo andar. Ela juntava os pratos. Ele organizava a lava-louças. Movimentos simples. Naturais. Até que o silêncio foi quebrado pelo som de alguma coisa caindo lá em cima.


— Está tudo bem? — gritou Vitor.


— Está!


A resposta veio imediatamente. Segundos depois:


— Não era pra você ter mostrado!


— Foi sem querer!


Paula e Vitor se entreolharam.


— Definitivamente estão aprontando alguma coisa.


Comentou ela.


— Concordo.


Mas havia um sorriso no rosto dele porque conhecia aqueles dois e conhecia aquele tom.


Pouco depois ouviram passos correndo pela escada. Maria apareceu primeiro segurando uma embalagem retangular cuidadosamente embrulhada. João vinha logo atrás carregando algo que claramente tinha sido embrulhado por ele mesmo, considerando a quantidade impressionante de fita adesiva.


Os dois pararam diante do pai com expressões tão orgulhosas que Vitor sentiu o coração apertar antes mesmo de saber o que era.


— Agora pode começar o aniversário.


Anunciou Maria.


E, naquele instante, Paula teve a sensação de que nenhum presente comprado em loja teria metade do valor daqueles que os dois carregavam nas mãos.


Vitor sorriu no instante em que viu os dois surgirem carregando os embrulhos.


Não era nem pelos presentes. Era pela animação.

Pelo orgulho estampado nos rostos dos dois.


Maria foi a primeira a chegar até ele. Segurava a embalagem contra o peito como se estivesse carregando algo extremamente precioso.


— Nós fizemos com muito carinho.


Começou a explicar imediatamente.


— Muito mesmo.


Vitor sorriu.


— Eu acredito, filha!


— E porque eu amo você.


A frase saiu simples. Natural. Como se fosse a coisa mais fácil do mundo dizer. Maria então continuou:


— E porque você é incrível.


Aquilo atingiu Vitor de forma completamente desarmada. O sorriso dele diminuiu. Os olhos brilharam discretamente. E, por um instante, ele precisou respirar antes de responder.


Então puxou a filha para perto e beijou sua testa demoradamente.


— Eu amo você também, meu amor.


Maria sorriu satisfeita e entregou o embrulho para ele.


Antes que pudesse abrir, João apareceu ao lado da irmã segurando o próprio presente. Ou melhor, a quantidade absurda de fita adesiva que protegia o presente.


— Esse é o meu.


Vitor recebeu o embrulho com cuidado.


— Obrigado, filho.


João assentiu. Depois acrescentou, com toda a sinceridade do mundo:


— Eu também amo você!


O coração de Vitor apertou imediatamente, mas João ainda não tinha terminado.


— E quero que você viva muito ainda!


O sorriso começou a surgir no rosto de Vitor.


— Que bom!


— Mesmo sendo um pouco velho...


O silêncio durou exatamente um segundo. Depois a sala inteira explodiu em risadas. Paula levou a mão à boca. Maria praticamente se dobrou sobre a mesa. Vitor fechou os olhos e balançou a cabeça.


— Um pouco velho?


— É.


João respondeu com absoluta tranquilidade.


— Mas ainda está funcionando bem.


Aquilo fez as risadas aumentarem ainda mais. Até Vitor começou a rir. Então puxou o filho para perto e depositou um beijo em sua cabeça.


— Obrigado pela confiança na minha durabilidade, amo muito você!


— Disponha.


Respondeu João. Como se estivesse prestando um serviço público.


Ainda sorrindo, Vitor acomodou os dois embrulhos sobre o mesa e se sentou.


Maria imediatamente sentou de um lado. João do outro. Os dois observando cada movimento dele com expectativa.


Paula permaneceu em pé, encostada na pia, observando a cena em silêncio. E, enquanto via aqueles três juntos, tão próximos, tão conectados, sentiu o peito aquecer de novo porque existia algo profundamente bonito em ser amado daquela forma e bastava olhar para os filhos para entender que, apesar de todos os defeitos que Vitor acreditava ter, ele devia estar fazendo alguma coisa muito certa e aquilo tranquilizava ela, porque no ano seguinte teria mais alguém para comemorar esse dia.


Vitor decidiu começar pelo presente de João… Ou pelo menos tentou porque a quantidade de fita adesiva usada na embalagem era completamente incompatível com qualquer necessidade real.


— Filho…


Ele observou o embrulho por alguns segundos.


— Você tentou proteger isso de ladrões ou de um desastre natural?


João pareceu ofendido.


— Eu queria garantir que não abrisse.


— Missão cumprida.


Comentou Paula, já rindo.


Maria também se aproximou para ajudar e, depois de alguns minutos lutando contra a fita adesiva, eles finalmente conseguiram abrir o pacote.


Quando Vitor retirou o presente, o sorriso apareceu imediatamente. Era um porta-retrato de madeira com uma capivara desenhada e pintada por João. No centro, uma fotografia antiga. Vitor sentado na grama com João pequeno no colo. Ao fundo, a fazenda de Uberlândia.


Por alguns segundos ele apenas olhou. Absorvendo. Reconhecendo. Então o sorriso se tornou ainda mais suave.


— Meu Deus…


Os dedos dele passaram pela borda do porta-retrato.


— Eu lembro exatamente desse dia.


João abriu um sorriso.


— Lembra mesmo?


— Claro que lembro.


A voz saiu baixa.


— Foi lá na fazenda.


Ele observou a foto mais uma vez.


— Você não queria sair do meu colo naquele dia.


João pareceu satisfeito com a confirmação.


— Eu era pequeno.


— Era mesmo.


Vitor sorriu.


— E passava o dia inteiro atrás de mim.


Vitor então puxou o filho para perto e beijou sua cabeça.


— Obrigado, filho.


A voz saiu mais emocionada dessa vez.


— Eu adorei.


João abriu um sorriso orgulhoso. Missão cumprida.


Em seguida, Vitor pegou o presente da Maria. Dessa vez a embalagem foi aberta rapidamente. Quando retirou o conteúdo, Vitor encontrou um pequeno álbum. Feito à mão.


A capa tinha o nome dele desenhado pela Maria em letras cuidadosamente decoradas.bEle abriu a primeira página e ficou em silêncio.


Não havia apenas fotografias. Havia desenhos.

Anotações. Recortes. Pequenas lembranças organizadas em ordem. Momentos deles dois.

Momentos dos três. Momentos da família.


Uma página mostrava um desenho dele segurando a bicicleta dela. Outra tinha uma fotografia antiga dos dois durante uma viagem.


Na página seguinte, um desenho da casa. Depois uma foto dos irmãos ainda pequenos e ao lado de cada imagem, pequenos textos escritos pela própria Maria.


Lembranças. Datas. Frases. Coisas que ela nunca tinha esquecido.


Paula acabou se aproximando sem perceber. Parou atrás de Vitor para enxergar melhor e logo estava folheando junto com ele.


— Meu Deus, Maria…


A voz saiu emocionada. A menina sorriu, feliz pela reação.


Vitor continuava virando as páginas devagar. Demorando em algumas. Voltando em outras. Como se estivesse revisitando a própria vida através dos olhos da filha.


Até chegar numa página em que Maria havia desenhado os três sentados na sala de casa.


O desenho infantil já tinha evoluído muito, mas ela manteve aquele porque tinha sido feito anos antes.


Embaixo, uma frase simples:


“Meu lugar favorito sempre foi onde meu pai estava.”


Vitor parou. Completamente. Paula levou a mão à boca. Maria imediatamente pareceu preocupada.


— Você gostou?


Vitor ergueu os olhos para ela. Então fechou o álbum com cuidado e abriu os braços. Maria praticamente se jogou neles.


— Eu amei.


A voz saiu rouca. Sincera.


— Mais do que você imagina.


Paula sentiu os próprios olhos marejarem enquanto observava os dois abraçados. Porque existia algo profundamente bonito em ver uma filha mostrar ao pai, página por página, que cada momento vivido ao lado dele tinha sido importante. E, pela expressão de Vitor, ele estava percebendo isso também.


O abraço entre eles demorou alguns segundos. Os suficientes para que ele respirasse fundo antes de se afastar dela.


Ainda segurava o álbum nas mãos quando voltou a olhar algumas páginas. João observava tudo, balançando as pernas sem a menor cerimônia.


Foi então que ele olhou para Paula.


— E você?


Ela ergueu uma sobrancelha.


— Eu o quê?


— Não fez presente nenhum?


Aquilo fez Vitor começar a rir imediatamente.


— João…


— O quê?


— Nem todo mundo precisa fazer um presente.


O menino pareceu refletir sobre aquilo por um instante.


— Mas ela ajudou a organizar seu aniversário.


Maria concordou imediatamente.


— É verdade.


Paula acabou rindo.


— Acho que isso já conta como presente. Não é?


— Conta?


Perguntou João.


— Claro que conta!


Respondeu Vitor. O menino pareceu satisfeito com a resposta e o assunto morreu ali.


Maria já voltava a mostrar algumas páginas do álbum que o pai ainda não tinha visto enquanto João explicava por que o desenho da capivara no porta-retrato era artisticamente superior ao restante da decoração.


Paula observava os três novamente. Os irmãos falando ao mesmo tempo. Vitor tentando acompanhar os dois e pensou que, talvez, aquele tivesse sido o melhor presente que ele recebeu naquela noite mesmo sem perceber.


Os filhos ao lado dele. Felizes. Orgulhosos. E completamente certos de que o pai merecia ser celebrado.


As emoções dos presentes ainda pairavam pela sala quando Maria finalmente decidiu que já tinham esperado tempo demais.


— Agora o bolo.


Anunciou, levantando-se.


— Finalmente.


Concordou João.


— Eu estava começando a achar que nunca chegaria essa parte.


Vitor balançou a cabeça, rindo, enquanto todos seguiam envolta do bolo, agora no centro da mesa.


O bolo ocupava seu lugar de destaque como uma verdadeira obra de engenharia. Maria parecia orgulhosa cada vez que alguém olhava para ele.


— Ficou lindo.


Comentou Paula.


— Eu sei.


Respondeu a menina imediatamente. Aquilo fez todos rirem.


Vitor acendeu as velas enquanto João apagava metade delas sem querer ao passar perto demais.


Depois de alguns ajustes e reclamações da irmã, finalmente tudo ficou pronto.


As luzes foram diminuídas e então começaram a cantar. Não era um parabéns perfeito. João cantava mais alto que todos. Maria acelerava partes da música. Paula ria no meio da letra e Vitor observava aquela cena tentando gravá-la inteira na memória.


Quando terminaram, as crianças praticamente gritaram:


— Faz o pedido!


— Já fiz.


Respondeu ele.


— Mentira. Foi muito rápido.


— Sou eficiente.


Aquilo rendeu mais uma rodada de risadas antes dele apagar as velas.


As palmas ainda ecoavam quando Maria apontou imediatamente para o bolo.


— Espera.


Todos olharam para ela.


— O primeiro andar está sem chocolate.


Paula franziu a testa.


— Por quê?


Maria pareceu genuinamente confusa com a pergunta.


— Porque você não pode!


O coração de Paula simplesmente derreteu. Porque ela tinha esquecido completamente daquela conversa. Mas Maria sempre lembrava.

Até no pedido do bolo. Até nos detalhes.


Paula olhou para ela emocionada.


— Você pensou nisso?


A menina deu de ombros como se fosse óbvio.


— Claro.


A garganta de Paula apertou imediatamente.


— Meu Deus…


Ela acabou puxando Maria para um abraço rápido.


— Você é muito especial.


Maria sorriu satisfeita.


— Eu sei.


Aquilo fez Vitor rir enquanto pegava a faca.


— Certo. Antes que a aniversariante honorária chore, vamos cortar esse bolo.


— Você que está fazendo aniversário.


Observou João.


— Não parece.


Retrucou Vitor. Ele fez o primeiro corte sob o olhar atento das crianças. Então retirou cuidadosamente a primeira fatia.


— Pra quem vai?


Perguntou Maria. João já parecia pronto para defender seus interesses. Mas Vitor apenas observou o pedaço por um instante. Depois sorriu e dividiu a fatia em três partes.


— Pai?


Perguntou Maria, confusa. Ele entregou o primeiro pedaço para ela. O segundo para João e então pegou o terceiro virando-se para Paula.


— Esse é da bebê.


Paula sentiu o coração tropeçar imediatamente.


Ao redor deles, aquilo pareceu a coisa mais natural do mundo. Mas o jeito que ele falou.

O jeito que olhou para ela. Fez alguma coisa apertar dentro do peito.


Ela recebeu o pratinho devagar.


— Obrigada.


Vitor apenas sorriu.


— Ela também participou da festa.


João concordou imediatamente.


— Verdade.


Paula baixou os olhos para o bolo tentando esconder o sorriso emocionado. Mas já era tarde.

Porque, naquele instante, ela teve a sensação de que aquela menina ainda nem tinha nascido… E já era profundamente amada por todos naquela casa.


O bolo foi um sucesso absoluto. Ou um problema absoluto, dependendo do ponto de vista. Porque depois do primeiro pedaço veio o segundo.


Depois alguém decidiu experimentar o outro andar. Depois Maria concluiu que aniversário permitia exceções. E quando João começou a negociar uma terceira fatia, Vitor finalmente resolveu encerrar a discussão.


— Chega.


Anunciou, apoiando o garfo no prato.


— Vocês já passaram do limite há uns vinte minutos.


As crianças protestaram por obrigação, mas acabaram aceitando.


A conversa continuou por mais algum tempo. Sem pressa. Falando da escola, da fazenda, da bebê, dos planos para os próximos dias. O relógio avançou quase sem que percebessem. Até que os bocejos começaram a aparecer. Primeiro em Maria. Depois em João.


Vitor observou os dois por alguns segundos antes de se levantar.


— Vamos.


Os irmãos se levantaram também e seguiram escada acima.


Paula permaneceu na sala recolhendo os pratos enquanto escutava, ao longe, a movimentação do segundo andar. A voz de Vitor. As respostas das crianças. O som de portas abrindo e fechando. Era uma rotina simples. Mas existia algo profundamente bonito nela.


Enquanto isso, ela levou os pratos para a cozinha. A lava-louças ainda estava ocupada com o restante do jantar, então resolveu adiantar algumas coisas na pia.


Lavou os pratos do bolo. As taças. Os talheres. A casa já estava quase silenciosa quando ouviu passos descendo a escada.


Vitor apareceu alguns segundos depois. As mangas da camisa ainda dobradas. O cabelo um pouco desalinhado agora. E aquela expressão que sempre surgia depois que colocava os filhos para dormir. Mais tranquila. Mais leve.


Ele caminhou até a cozinha e parou ao lado da bancada. Paula terminava de enxaguar uma das taças quando percebeu a presença dele.


— Eles dormiram?


— Dormiram.


A resposta veio acompanhada de um pequeno sorriso.


— O João tentou me convencer que podia ficar acordado mais uma hora porque amanhã é sábado.


Paula riu.


— E funcionou?


— Não.


— Coitado.


— Nenhum dos dois estava conseguindo manter os olhos abertos.


O silêncio confortável voltou por alguns segundos. Então Vitor observou ela secando as mãos na toalha e perguntou:


— Você está bem?


Paula soltou uma risada leve.


— Estou ótima.


Ele arqueou uma sobrancelha.


— Ótima?


— Ótima.


Ela apoiou o quadril na bancada.


— Depois de risoto, bolo, mais bolo e vinho sem álcool, eu estou vivendo meu melhor momento.


Aquilo fez ele rir. Pegou algumas das coisas que ainda estavam sobre a pia e começou a ajudá-la a organizar. Guardou algumas travessas, enxaguou outras e então comentou, como quem se lembrava de algo importante:


— Eu estava pensando numa coisa.


Paula ergueu os olhos.


— Hm?


— Sobre aquela consulta com o médico das células-tronco.


Ela já sabia qual era o assunto antes mesmo dele terminar.


— O que tem?


— Talvez dê para adiantar enquanto você está aqui em Campinas.


O tom dele era prático. Organizado. O mesmo tom que usava quando estava tentando resolver alguma coisa.


Paula ficou alguns segundos olhando para ele. Depois sorriu.


— Ok.


Vitor aguardou o restante.


— Mas nós realmente não precisamos falar disso agora.


O sorriso dela aumentou.


— Eu sobrevivo até amanhã.


Ele sustentou o olhar dela por um instante antes de assentir.


— É justo.


Então simplesmente deixou o assunto morrer. Pegou a garrafa sobre a bancada e serviu mais um pouco de vinho para si.


Paula observou a cena em silêncio por alguns segundos. Depois resolveu mudar completamente de direção.


— Você está aprimorando demais os seus dotes culinários.


Vitor olhou para ela por cima da taça.


— É mesmo?


— Estou falando sério.


Ela cruzou os braços.


— O risoto estava muito bom.


— Você já me disse isso umas três vezes.


— Porque merece ser dito.


Ele acabou sorrindo. Paula continuou:


— Daqui a pouco você vai começar a ficar insuportável.


— Por cozinhar bem?


— Por cozinhar bem, fazer chá bom, cuidar de criança, ter uma horta…


Ela começou a enumerar nos dedos.


— Vai ficar difícil para o restante da população masculina competir.


A risada dele veio baixa. Daquelas sinceras.


— Coitado do restante da população masculina.


— Exatamente.


Ela respondeu com a mesma naturalidade e por alguns segundos os dois permaneceram ali. Encostados na bancada. Conversando sobre nada importante. Mas talvez fosse justamente aquilo que tornava o momento tão bom.


Vitor acabou servindo mais um pouco de vinho para si quando terminaram de organizar a cozinha. Depois abriu a geladeira, pegou o bolo e cortou mais uma fatia. Paula observou a cena e começou a rir.


— Você acabou de dar uma aula inteira sobre limites para os seus filhos.


Ele voltou para a mesa com o prato na mão.


— Exatamente.


Sentou-se.


— E por isso mesmo eu não podia comer o terceiro pedaço na frente deles.


— Entendi.


— Seria injusto.


— Claro.


— Agora eles estão dormindo.


A lógica era tão absurda que ela não conseguiu segurar a risada. Vitor sorriu satisfeito consigo mesmo e levou mais uma garfada à boca.


Ela balançou a cabeça enquanto prendia o cabelo num coque despretensioso. Depois puxou uma cadeira e sentou-se de frente para ele.


Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. A casa estava silenciosa. Só o som ocasional dos talheres e do vento do lado de fora.


Vitor tomou mais um gole de vinho e então percebeu que Paula estava longe. Pensando demais. Olhando para algum lugar que só existia dentro da própria cabeça.


Aquilo fez um sorriso surgir no canto da boca dele.


— Volta pra Terra.


Paula ergueu os olhos imediatamente e reconheceu a frase na mesma hora. O sorriso apareceu involuntário. Pequeno. Quase sem graça.


Ela baixou os olhos por um instante. Quando voltou a encará-lo, havia algo diferente em sua expressão. Mais séria. Mais vulnerável. Como se tivesse tomado uma decisão.


— Vitor…


Ele apoiou o braço na mesa e prestou atenção imediatamente.


— Hm?


Paula respirou fundo. Sentindo o coração acelerar. Porque vinha adiando aquela conversa desde a chácara. Desde Campinas. Desde o aeroporto. Talvez desde muito antes.


Então finalmente disse:


— A gente precisa conversar.


Vitor parou a garfada no meio do caminho. Não imediatamente. Mas devagar. Como quem já tinha entendido pelo tom dela que aquilo não seria uma conversa qualquer.


Largou o garfo no prato, pegou a taça e tomou um gole de vinho antes de responder.


— Você não quer deixar pra amanhã?


A pergunta saiu tranquila, mas Paula conhecia ele bem demais. Conhecia o suficiente para perceber a cautela. O receio. Como se uma parte dele estivesse se preparando para ouvir algo que não queria ouvir.


Ela balançou a cabeça.


— Não.


A resposta veio firme.


— Acho que a gente precisa conversar o quanto antes.


Vitor sustentou o olhar dela por alguns segundos. Depois assentiu devagar.


— Certo.


O silêncio caiu brevemente entre os dois. Paula respirou fundo. Sentiu o coração acelerar outra vez. Mas dessa vez não recuou.


— Primeiro…


Ela sorriu pequeno.


— A gente precisa conversar sobre o nome da bebê.


A surpresa apareceu imediatamente no rosto dele.


— O nome?


Paula assentiu.


— Eu já decidi.


Aquilo fez Vitor piscar algumas vezes antes de soltar uma risada baixa. Uma risada genuína. Leve.


— Finalmente.


Passou a mão pela barba curta.


— Vamos parar de chamar a bebê de “bebê”.


Paula começou a rir também.


— Pois é.


— Eu estava começando a achar que ela nasceria e a gente ainda estaria falando “passa a bebê”, “pega a bebê”, “a bebê está dormindo”.


— Não exagera.


— Eu estou falando sério.


O sorriso dele aumentou.


— Ela já merece uma identidade.


Paula observou a reação dele por alguns segundos. A expectativa. A curiosidade. E, de repente, todo o nervosismo que tinha sentido ao longo do dia voltou. Porque aquilo importava. Importava muito.


Ela apoiou os braços sobre a mesa.


— Eu pensei bastante.


Vitor percebeu imediatamente a mudança no tom dela. A forma como o sorriso diminuiu. Como a voz ficou mais cuidadosa. E então ficou em silêncio. Esperando.


Paula respirou fundo.


— Eu quero que ela se chame Beatriz!


A frase saiu mais baixa do que Paula imaginava. Talvez porque, no fundo, aquela decisão tivesse crescido silenciosamente dentro dela por semanas. Talvez porque, naquele instante, dizer o nome em voz alta para ele tornasse tudo real.


Vitor não respondeu. O sorriso que existia em seu rosto diminuiu devagar e ele apenas ficou olhando para ela. Sem pressa. Sem interromper. Como se estivesse absorvendo cada sílaba.


Paula sentiu o coração acelerar.


— Eu comecei a pesquisar sobre sua avó depois que você falou dela.


A voz dela saiu mais suave agora.


— Fui procurar vídeos, entrevistas, poesias… queria entender melhor quem ela tinha sido.


Vitor continuava em silêncio.


— E eu não sei explicar exatamente o que aconteceu.


Ela soltou uma pequena risada sem graça.


— Mas eu gostei dela.


Os olhos dele baixaram por um instante para a taça de vinho sobre a mesa.


— Gostei da forma como ela falava. Da inteligência. Da sensibilidade. Da forma como ela parecia enxergar o mundo.


Paula rodava o anel no dedo.


— Tinha alguma coisa muito bonita nela. Uma delicadeza que não era fragilidade. Uma força que não precisava ser barulhenta.


Ela sorriu pequeno.


— E, quanto mais eu lia, mais aquele nome ficava na minha cabeça.


Do outro lado da mesa, Vitor já não estava mais ali… Ou pelo menos uma parte dele não estava. Porque as palavras dela abriram uma porta que ele não atravessava havia muito tempo.


Ele voltou a ser menino. Voltou a sentir o cheiro da terra molhada na fazenda. A ouvir os pássaros no fim da tarde. A correr pelos caminhos de terra vermelha enquanto a avó observava tudo da varanda.


Lembrou dos livros espalhados pela casa. Das folhas de papel com versos escritos à mão. Da voz dela declamando poemas como se estivesse conversando com alguém.


Das tardes longas em que sentava ao lado dela sem entender metade das palavras, mas entendendo perfeitamente a sensação de estar perto de alguém especial.


Lembrou do jeito como ela fazia qualquer lugar parecer mais bonito apenas por estar ali.


E, sem perceber, as lembranças começaram a se misturar com outra imagem.


Uma menina. Pequena. Correndo pela grama.

Os cabelos bagunçados pelo vento. Os olhos curiosos. Perguntando coisas sem parar. Rindo.

Descobrindo o mundo.


Beatriz.


Não era apenas um nome. De repente, parecia uma história inteira. Parecia arte. Parecia natureza. Parecia poesia. Parecia tudo aquilo que ele gostaria que a filha carregasse dentro de si.


Quando percebeu, estava emocionado. A garganta apertada. O peito pesado daquele jeito bom e dolorido ao mesmo tempo.


Foi só então que Paula interrompeu a própria explicação. Porque viu. Viu o brilho diferente nos olhos dele. Viu o jeito como ele permanecia imóvel, olhando para algum lugar distante. Viu as lembranças atravessando seu rosto sem que ele precisasse dizer uma única palavra.


O silêncio se instalou entre eles. Não desconfortável. Não vazio. Cheio. Cheio de memória. Cheio de significado.


Cheio daquela menina que ainda nem tinha nascido e que, de alguma forma, já estava sentada entre os dois naquela mesa.


— Vitor…


Ela chamou baixinho.


Ele piscou algumas vezes antes de voltar para o presente.bRespirou fundo. Passou a mão lentamente pelos lábios. Tentando se recompor.

Tentando organizar tudo aquilo. Mas não conseguiu.


Porque, pela primeira vez desde que descobriu que seria pai novamente, a filha tinha deixado de ser apenas uma ideia distante.


Ela tinha um rosto imaginado. Uma história.

Um nome. E aquele nome parecia pertencer a ela desde sempre.


Vitor abaixou os olhos por um instante, balançou a cabeça quase imperceptivelmente e soltou uma pequena risada emocionada.


— Beatriz…


A palavra saiu rouca. Baixa. Como se ele estivesse conhecendo alguém.


Quando voltou a olhar para Paula, os olhos ainda brilhavam.


— Eu consigo ver ela.


A confissão escapou antes que pudesse impedir. Ele sorriu. Daquele jeito raro. Completamente desarmado.


— É estranho… mas eu consigo.


Paula sentiu o próprio coração apertar.


Vitor desviou os olhos por um segundo, tentando conter a emoção.


— Eu estava ouvindo você falar da minha avó…


Ele respirou fundo.


— E comecei a pensar nela correndo pela fazenda. Fazendo perguntas. Mexendo nos livros. Descobrindo tudo pela primeira vez.


A voz vacilou numa sinceridade que ele normalmente escondia.


— E ela era a Beatriz… não a minha avó, mas a nossa filha.


Paula sentiu os próprios olhos marejarem ao ouvir aquilo. Porque era exatamente o que tinha acontecido com ela também.


Desde que escolhera o nome, a bebê tinha deixado de ser apenas uma ideia distante. Tinha deixado de ser um conjunto de exames, consultas e planos para o futuro.


Ela era Beatriz.


E isso mudava tudo.


O sorriso apareceu devagar em seus lábios. Sem dizer nada, ela estendeu a mão sobre a mesa.


Vitor olhou para o gesto por um instante. Depois segurou. Naturalmente. Como se aquele fosse exatamente o lugar onde mão dele deveria estar.


Os dedos se entrelaçaram e os dois permaneceram assim por alguns segundos. Em silêncio. Compartilhando a mesma emoção.


Então Paula acabou soltando uma pequena risada no meio das lágrimas que ameaçavam aparecer. Vitor riu junto.


— O que foi?


Ela balançou a cabeça.


— Nada…


O sorriso continuava ali.


— Quer dizer… tudo isso.


Os olhos dela baixaram para as mãos unidas sobre a mesa.


— É engraçado.


Vitor esperou.


— Porque ao mesmo tempo que isso tudo é incrível…


Ela respirou fundo.


— Também dá um pouco de medo.


O sorriso dele suavizou. Paula voltou a encará-lo.


— As coisas vão ganhando forma.


A voz saiu mais baixa. Mais vulnerável.


— Antes era só a gravidez. Depois os exames. Depois o quarto, as roupinhas, os brincos…


Ela soltou uma pequena risada.


— Agora ela tem um nome.


Os dedos dela apertaram os dele sem perceber.


— E parece que cada vez que uma dessas coisas acontece, ela fica mais real.


Vitor sustentou o olhar dela. Sem interromper. Sem tentar resolver.


Então Paula continuou:


— Eu acho que passei meses pensando na gravidez.


Mas agora… O sorriso vacilou.


— Agora eu fico pensando na Beatriz.


Aquilo atingiu ele em cheio. Porque entendia perfeitamente.


Ela não estava falando de medo ruim. Estava falando daquele medo inevitável que nasce quando algo se torna importante demais. Quando existe amor suficiente para existir risco.


Vitor passou o polegar lentamente sobre a mão dela.


— Eu sei.


A voz saiu baixa. Paula sorriu.


— Sabe?


Ele assentiu. Os olhos também tinham ficado mais emocionados.


— Porque eu estava pensando exatamente a mesma coisa.


Ela soltou uma pequena risada.


— Claro que estava.


— Estava.


Vitor olhou rapidamente para as mãos deles antes de voltar para ela.


— Acho que até agora eu estava me preparando para ser pai de novo.


A garganta apertou.


— Mas hoje…


Ele sorriu pequeno.


— Hoje pareceu que eu conheci minha filha.


O coração de Paula simplesmente derreteu. E por alguns segundos nenhum dos dois falou nada.

Porque não havia muito o que dizer. Apenas sentir.


Apenas deixar existir aquela felicidade estranha, enorme e um pouco assustadora.


A felicidade de perceber que Beatriz já estava ocupando espaço na vida deles muito antes de nascer.