Anthem of The Lonely
1 Message of regret
Notas iniciais
Espero que gostem!
- Seijuuro.
O pequeno ruivo de apenas 7 anos de idade levantou o rosto do livro que estudava para encarar a sua mãe. Era uma mulher esbelta e nova, com longos cabelos loiros e suaves que contrastavam os vibrantes do pequeno. O menino ergueu-se da cadeira e correu até aos braços da progenitora, um largo sorriso exposto nos lábios.
- Diz, mamã.
- Queria te fazer uma pergunta, pequenino. — ela abaixou-se até ao nível do filho, acariciando o seu rosto confuso.
- Uma pergunta?
- Sim. Uma pergunta muito especial e que me vais ter de responder muito sinceramente. Prometes-me isso?
- ..hm, eu prometo sim. — Seijuuro acenou com a cabeça a concordar.
- De todos os lugares do mundo, onde tu mais queres ir? Onde tu mais queres estar? — o ruivo afrouxou o rosto em pensamento por uns segundos, como não entendendo a dimensão da questão. Mas depois abriu um sorriso.
- Isso é óbvio, mamã.
Eu quero estar onde tu estiveres.
-X-
- Akashi!
A cada dia que passava, a muralha à minha volta aprofundava-se. Não era normal? O mundo estava a preto e branco, não havia nada mais que enxergar. Não havia o porquê de não me separar deles.
No entanto, continuavam-me a puxar, como se fizesse alguma diferença. Que inútil. Quem era agora? As vozes não me faziam diferença, só o grito pelo meu nome chamava a minha tão desnecessária atenção. Virei as costas.
- O que foi, Aomine?
- O capitão está a chamar-te. Ele diz que quer discutir uns assuntos contigo junto do treinador.
O capitão. Nijimura. Aquele cobarde que eu tanto admirava. Aquele lutador que eu tanto evitava.
- Eu estou encarregado do trabalho de limpeza da minha sala. De momento, não posso ir até lá.
- Mas é importante. Eles próprios insistiram, como se soubessem que ias dizer isso. Akashi, tu realmente devias ir até lá. — o rosto um pouco preocupado de Daiki enojava-me. O que ele sabia que eu não? Devia estar a pensar em algo completamente insignificante porque tudo estava bem. Não entendia a forma como falava.
- Vou ver o que posso fazer. — E desde quando as imagens começaram a rachar e partir-se?
Quando foi que pararam de chamar pelo meu nome?
-X-
Pela primeira vez na vida, não consegui acordar às horas certas. Era como se um peso dominasse o meu corpo e por alguma razão, o meu relógio interno alterou-se e vi-me a correr para chegar ao horário certo da aula. As paredes limpas e imaculadas da Teiko não mereciam o eco de passos apressados nelas.
Quando avistei e abri a tão desejada porta, vi um rosto desconhecido na frente da turma. Um novo aluno, transferido, deduzia. Um tal de Nakamura Shinji. Não me importava realmente. Quando era para me dirigir ao professor, para que lhe pedisse desculpas pelo atraso, encarei o quadro. "25 de Janeiro". Mas como? O dia anterior havia sido 19 de Dezembro, uma data antes do meu aniversário.
- Onde o novo aluno se vai se sentar? A única mesa livre é a do Akashi—...
- Não digas esse nome...ainda não...
Porque estava um jarro com flores por cima da minha secretária?
-X-
- Nijimura-san.
Quando ele me encarou, recusei-me a olhá-lo. Chega de sorrisos, chega de mentiras. Chega de sentimentos como estes. Não posso ter mais nada.
Nada.
- Ah, Akashi. — quando ele se aproximou, confirmando que ninguém se encontrava por perto, tentou me beijar mas eu me afastei. A forma como o rosto dele se fechou fez o meu coração doer. — O que se passa?
- Ouvi dizer que me chamaste.
- Sim, chamei. — ele cruzou os braços. — Gostava de saber porque andas tão longínquo. Os professores também me comunicaram que estás muito mais distraído nas aulas e mesmo nos treinos, não pareces estar completamente concentrado.
- ...Não é nada de que te devas preocupar.
- Seijuuro. — senti-me ficar tenso ao ele mencionar o meu primeiro nome de forma tão séria e ele encostou-me à parede, agarrando o meu queixo para que o encarasse. — Diz-me o que se passa. Eu sou o teu namorado, porra. Se não confias em mim, então como vou puder te ajudar?
- Não há nada para que possas me ajudar. Agora larga-me.
- Não te vou largar. — ele agarrou os meus ombros com força. — Nunca te vou largar, eu amo-te, idiota!
O silêncio que permaneceu entre nós, coincidente aos olhares intensos que trocávamos, foi uma memória que nunca esqueci. O nó que atava a minha garganta também não.
- Já passaram três anos. Estou a ficar sem dias para riscar. — sorri-lhe amargamente. O olhar confuso que ele me lançou quebrou-me. — Mas se nem tu entendes, não há razão para falar.
Eu beijei-o. Pela última vez.
-X-
Corri pela escola. Os professores não me respondiam, as pessoas não se importavam comigo. Nunca me tinha importado com elas de qualquer forma, mas agora ignoravam-me como se fosse um recluso de quem todos tinham medo e com quem recusavam-se a interagir. O que havia eu feito?
Dirigi-me até ao ginásio onde o clube de basquete treinava e vi que Aomine saía exaltado da entrada. Atrás dele deixava uma Momoi à beira de lágrimas e Kuroko, que recusava-se a tirar os olhos do chão da quadra.
- Aomine!! — ele nem se atreveu a olhar para onde o chamava. Apenas continuou a andar, como se não fosse nada. — Não ouses escapar do treino e ainda ignorar-me!
Os meus passos furiosos não o intimidaram ou fizeram com que ele caminhasse mais lentamente. Algo de estranho acontecia. Onde estava todo o respeito que antes tinha por mim?
- Filho da puta. Ele sempre foi egoísta mas....filho da puta! — o azulado parou abruptamente e deu-me tempo para alcançá-lo. — Como nos pudeste deixar, Akashi?
Aí parei.
- O que estás a falar?! — pus-me à sua frente. — Aomine, olha para mim! — por mais que gritasse, ele não me encarava. — Aomine!
- Sempre a falar de como fugir era cobarde...isto faz te o quê, hã? — Daiki sorriu, as suas palavras um mero sussurro.
- Do que estás a falar, eu estou aqui! Olha para mim! Eu— eu vou te bater! Se não olhares para mim, eu vou te bater! — ergui o punho com força e quando este ia de encontro à sua cara, senti o meu corpo cair para a frente. Como estava agora atrás dele?
O que se estava a passar?
- Isto faz te o quê, hã, Akashi?! Espero que me estejas a ouvir, seu...! — ele agora gritava para os céus. — Seu egoísta! Pensava que eras forte, que ias cuidar da equipa! Mas deixaste-nos, não foi?! Seu fraco, seu cobarde, seu....!
- Eu estou aqui! Eu estou aqui! — a minha voz fraquejava, desesperadamente. — Por favor...
Olha para mim...
-X-
- Seijuuro.
Odiava interagir com o meu pai. Já desde pequeno, ele me tratava como se fosse um escravo, e me obrigava a fazer tudo o que ele mandava. Por isso a minha mãe era como uma porta para a liberdade. Ela ensinou-me tudo o que mais prezava hoje em dia.
Eu amava vê-la sorrir para mim.
Mas desde que ela adoeceu, apenas o pai comunicava com ela. Ele transformou-se na única forma de atingir aquilo que queria.
"Quando posso ir ver a mãe?"
"Outro dia. Agora vai estudar, Seijuuro."
- Pai, acha que hoje posso ir ver a mãe? — ergui um sorriso para ele. Pela primeira vez na vida, vi um cansaço inconfundível nos seus olhos. E a forma como ele me encarou não tinha rigidez, não me intimidava. Fiquei hesitante. — P...pai?
- Seijuuro. A tua mãe morreu.
E a primeira racha foi feita.
-X-
- Ei, Nijimura, os boatos são verdade? Estás mesmo a namorar com o Akashi-kun, do 2º B?
Enquanto passava pelo corredor, umas palavras vindas do banheiro masculino atraíram a minha atenção. Não que me importasse caso bisbilhotassem da minha vida nas costas, mas foi o facto de Nijimura estar envolvido que me levou a encostar o ouvido à porta para escutar.
O meu coração batia forte demais. Amar era tão ridículo.
- Ah bem, não é tão assim...
- Como assim? Não tenhas vergonha, a gente já sabe que tu também curtes homem. Somos teus amigos, não tem problemas. Mas...de todos, ele? Ele é tão arrogante e presunçoso, sempre a pensar que é o melhor do mundo. — senti-me encarar os meus sapatos.
- Ele tem razão, conseguias bem melhor. Não interajas com gente como aquela, olha que ainda é contagioso. — uns risos foram soltos e apenas uns momentos depois se ouviu a voz de Shuuzo. Distinguia-se tão bem, dentro da minha alma.
- Não é bem...namorar, como vocês estão a falar. Eu não gosto dele, tá? — uma pedra caiu dentro de mim e senti as minhas pernas sem forças, mas ainda usei a minha vontade para me afastar daquele local. Não havia mais que ouvir.
A segunda racha foi feita.
"- Não gostas dele? Ah, estás só a usá-lo?"
"- ...não. Eu não gosto dele. Eu amo-o. Como nunca pude amar ninguém. É diferente, entendem? Não é namorar por namorar, como todos falam. É realmente estar conectado a alguém."
-X-
O que aconteceu? Porque ninguém mais me via? Porque eu não me lembrava de nada? Os meus passos não tinham mais som e os meus gritos misturavam-se com o barulho ensurdecedor do tráfico nas ruas. As pessoas passavam por dentro de mim.
Nem os cães que sempre odiei me ladravam, nem os bebes arregalavam os olhos ao meu cabelo vibrante. O canto dos pássaros tornou-se uma melodia amaldiçoada que repetia-se nos meus ouvidos. Já não sabia mais onde estava — porque nunca tinha vindo até este lugar em Tóquio?
Deitei-me num banco do parque.
- Alguém me ouve?!
Nenhuma resposta.
- Por favor, alguém me ouve?!
Deixei a cabeça cair sobre o meu braço flexionado e fechei os olhos. Este local parecia abandonado, sendo tão solitário numa cidade tão movimentada como a que vivia. Apenas arregalei os olhos em desgosto quando uma folha de papel chocou contra o meu rosto.
- Mas que... — peguei na aparente página de jornal e li o título em letras garrafais. A data de edição era 20 de Dezembro do ano anterior.
"Estudante da prestigiosa Teikou comete suicídio em recinto escolar."
-X-
- Seijuuro. — a minha mãe acariciava o meu cabelo. Respeitando a rotina, ela levou-me até ao topo de um monte muito pacífico na cidade, onde se podia observar o pôr-do-sol mais bonito de sempre. Esta sempre foi uma das memórias que nunca me esqueci — ver como o sol ainda brilhava, mesmo nos últimos momentos da sua existência. — O mundo é aquilo que tu fazes dele. Então não te esqueças de olhar para ele até ao fim, entendes?
Tinha a certeza que a minha mãe brilhou até ao fim.
-X-
- Akashi, eu não aguento mais.
A voz de Aomine não estava arrogante como foi para Tetsuya durante o jogo, ou desolada como ouvira falar para Momoi. Era apenas vazia. Um vazio que não esperava de alguém como ele.
- Do que estás a falar? Queres então admitir que não vais querer mais ganhar? Que ganhar não tem importância? — lancei-lhe um olhar de desgosto.
- Não é mais isso. — ele suspirou, colocando as mãos nos bolsos. Sabia que tinha a carta de despedimento do clube escrita e pronta a ser entregue. Mas nunca a iria aceitar. — Eu estou farto de jogar para esmagar os meus adversários. Já nem isso tem significado.
- Então procura um novo "significado", qual a complicação?
- Não é assim que as coisas funcionam, Akashi. — a sua voz parecia agora um pouco irritada. Vi os seus punhos cerrarem-se.
- Eu não vou aceitar que desistas e fujas como um cobarde. Ordeno-te que fiques. É absoluto. — ergui os meus olhos, para encontrar-me num confronto. Mas foi ele quem desviou os olhos e sorriu, um tanto triste.
- Tu não vais puder controlar tudo para sempre, Akashi. Há coisas das quais não tens controle. Não à como as evitar. — quando ele me virou as costas, não viu o olhar desesperado deixado nos meus olhos.
A terceira racha foi feita.
A imagem partiu-se.
-X-
O som das bolas a embater no chão do ginásio não me indicava nada. Mal conseguia segurar numa quando me era passada então comecei a apenas observar os treinos de longe, a tentar analisar as falhas de cada jogador. Mas não me conseguia concentrar mais.
Estava finalmente no limite.
- Ah! Akashicchi! O treino ainda não acabou, onde vais? — Kise, que viu o meu desvio, perguntou a dirigir-se a mim, com um sorriso aberto.
- Eu vou para perto da minha mãe.
-X-
Na escuridão, sempre vi tudo o que necessitava. Lá estava o sorriso da minha mãe, que me dava esperança para estudar, para treinar, para preservar a pessoa que realmente era por dentro. Lá estava o meu primeiro amor, que embora tenha sido uma ilusão, era algo a que me apegava e valorizava as memórias em que pensei que Nijimura me amava. Lá estava os meus amigos e a capacidade de fazer os outros felizes, embora eles não vissem o quanto me esforçava para que todos conseguissem chegar a seus objetivos. Eles só me enxergavam como um tirano que os obrigava a puxar demasiado por si mesmos.
Mas não fazia mal. Eu, por dentro, acreditava que eles podiam gostar de mim.
Agora, no vazio, não sentia nada. Nada que me agradasse, apenas uma agonia desesperante, sufocante, da qual queria escapar. Não tinha vida. Não, eu estava morto. Ainda via os céus rosas a escurecer e o sol a baixar-se.
O sol sempre teve esperança para erguer-se um dia mais. Mas a minha esgotou-se. A saudade consumia-me a cada momento e não tinha mais porque viver. Ia buscar essa razão noutro sítio mais longe, mais perto dela.
Então encarei a cidade do topo do edifício mais alto da escola que foi a minha prisão, o meu paraíso e o meu purgatório.
"Agora, para nós dois."
Era como aquela frase do clássico francês. Mas eu não era Rastignac, e não tinha forças para lutar. Não mais. Essas já foram levadas com o vento.
O vento levou-me a mim também.
-X-
Chovia mas a água trespassava-me como se fosse uma ilusão. Tinham os céus parado de chorar ou eu era eu que não estava mais lá? Sorri.
Eu sabia a resposta.
E então, ironicamente, encontrei-me às portas do cemitério onde a minha mãe tinha sido enterrada. Quantas vezes havia visitado este local, procurando inutilmente algum conforto, uma segunda oportunidade de estar mais perto dela?
Foi a figura familiar da pessoa que amava que captou a minha atenção.
Ah, não.
Este batimento irregular do meu coração não.
Ainda tenho coração.
- Ei, Seijuuro. — viu-o acariciar a pedra onde estava cravado o meu nome e o meu tempo de vida. Eu estava morto. — Desculpa, sei como nunca gostaste mesmo que te chamasse assim...desculpa... — Nijimura sorriu tristemente. Os seus olhos estavam inchados e o seu lábio tremia.
Nunca antes o tinha visto vulnerável.
- Nijimura-san...
- Eu nunca te falei vezes suficientes o quanto te amava...fui egoísta, não fui? Devia ter te dado mais atenção, cuidado de ti....devia ter visto que estavas a sofrer... — vi lágrimas escorrerem dos seus olhos. — Eu devia te ter protegido. Porra...eu sou o teu namorado, ainda sou! E não consegui ver que estavas tão mal, não consegui evitar tudo isto, sou...tão inútil....
- Nijimura-san, eu ainda estou aqui! -ajoelhei-me atrás dele.
- Porque eu fui tão idiota?! Agora foste te embora para sempre...eu pensava que...nunca mais nos ias deixar...eu pensava que...me amavas também, mas...não, a culpa não foi tua... — ele sorriu, soluçando, tentando limpar o choro que escorria. — Tu não aguentaste mais...suportaste tudo e eu ainda te encarreguei de mais trabalho e de mais estudos e...fui egoísta, porque vi um suporte em ti e não pensei...que podias estar a sofrer...
- Eu ainda estou aqui! Por favor, ouve-me...pelo menos, tu...por favor, ouve-me! Apenas ouve-me! Apenas vê-me! — encostei a cabeça nas suas costas, sentindo-me desabar por completo.
Não havia mais nada que esconder. Não havia quem me enxergasse.
- Eu falhei por completo...eu falhei em evitar isto...e agora tu...tu estás morto, Seijuuro... — os seus soluços aprofundaram-se e eu agarrei-me com todas as forças a ele. Esperava que pelo menos sentisse que estava a seu lado. — Eu espero que consigas chegar até ela...
O meu coração parou e levantei o rosto.
- Sim, tu tinhas me dito uma vez...a coisa que mais querias no mundo era estar de novo com a tua mãe...a t-tua falecida mãe, não é verdade...? — ele encarou os céus. — Por favor, chega até ela, Seijuuro. Eu vou sempre te amar incondicionalmente...mas mais que tudo, quero que tu sejas feliz...e tu não serias feliz sem teres isso...então por favor, vai e sorri uma ultima vez para mim... — ele sorriu e virou as costas do túmulo, como se me conseguisse ver ali.
Desolado, destruído...totalmente exposto.
Eu vou sempre sorrir para ti.
-X-
Uns dias depois, a direção da escola diz ter encontrado uma carta dirigida a Nijimura que não lhe puderam entregar antes devido a estar na posse do progenitor da vítima. De Akashi.
Era uma folha grande, com pequenos caracteres no centro da folha numa escrita limpa e impecável. Típica de Akashi, sorriu Nijimura. Aquela seria a última vez que choraria.
"Se alguma vez eu puder renascer, queria encontrar-me contigo de novo."
Notas finais
Por favor, digam-me o que acharam.
Até à próxima!
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