Antever

1 Antever


Notas iniciais
Oi... tem tempo que eu não apareço, eu sei. Provavelmente ninguém da minha época vai estar lendo isto.
Na verdade há tempos não me sentia falando sozinha aqui, e isso de certa modo me conforta, porque a verdade é que esta história tem muito de mim.
Boa leitura!

ANTEVER

As estrelas cintilavam, imponentes, no céu. Olhando-as, era impossível não notar a soberba que as dominava. Tão superiores, como se os problemas do mundo não passassem de uma mera blasfêmia perto de sua grandiosidade luminescente. Cecília poderia sentir raiva, se não as entendesse em parte: se todas as pessoas da terra recorressem a você com seus problemas, também não se sentiria superior a eles?

De toda forma, era fato que todos precisavam recorrer a alguém. Até mesmo as estrelas, dotadas de sua altivez, poderiam valer-se do brilho cálido da lua para suprimirem-se em sua tristeza e solidão. Cecília não conseguia, entretanto, ver como essa relação funcionava.

A princípio ela acreditou que ambos poderiam conversar. Afinal, pensava que esse era o melhor caminho para resolver um problema. Simplesmente se recusava a crer no conceito de “brigas”. Contudo, não sabia como, com os milhões de quilômetros que separam o brilho das estrelas do da lua, elas poderiam resolver tudo com palavras.

Mas ela não estava mais pensando no fulgor dos astros, estava?

Sempre foi do tipo de pessoa que achava que tudo poderia ser resolvido com conversa, fita adesiva e, no máximo, uma garrafa de vinho. Ultimamente, entretanto, descobriu estar errada: algumas pessoas não tomavam vinho; corações partidos não se juntavam com fita adesiva; e certas coisas simplesmente não adiantavam ser conversadas.

No momento, recorria às estrelas por conta da última questão. Aprendera da pior forma que afeição era algo que não se podia concertar de jeito nenhum, não importava o quanto tentasse conversar. Ou mesmo reconstruí-la com fita, mas isso seria mera colocação literária.

O ponto era simples: a afeição tem que ser sentida. Mesmo que já houvesse estado ali antes e se esvaído ao longo do tempo, não adiantava pedi-la de volta. Era um trem que partia sem estação.

Apesar de que Cecília não sabia ao certo o porquê estava pensando naquilo. Não era o caso, não é o mesmo? Sabia que ele se importava com ela. E muito. Era um fato tão palpável que quem o tivesse como apenas um mero vislumbre já estaria na linha tênue que separa a afeição da preocupação.

O problema, aparentemente, é que os dois se convergiam em um objetivo, mas divergiam no modo de fazê-lo. Ele estava tão absurdamente preocupado em fazê-la feliz, e ela em não o entristecer... Era quase engraçado o como as duas coisas pareciam ser o mesmo, mas se compunham de duas substâncias completamente diferentes. Duas receitas diferentes para um bolo.

Agora se via recorrendo àquelas que guiaram tantos navegadores, para que talvez lhe dessem uma direção: aquele era o tipo de questão que poderia ser conversada? Talvez resolvesse o problema, mas não sabia como dizer o que pensava.

“Você se coloca no meu lugar? Porque você faz de tudo pra me ver feliz, mas sinto que não percebe que suas atitudes às vezes me entristecem.”

Como poderia fazer isso com ele? Justo com quem mais a deixa feliz, mima como uma garotinha, a protege de todos os perigosos monstros dos filmes que assistem juntos. A única pessoa com quem poderia ser todas as camadas de si mesma sem sentir vergonha.

Como poderia magoar o dono dos seus sorrisos invejados pelo sol? Aquele que ligava para pedir que se cobrisse bem e abraçasse o travesseiro como se fosse ele, antes de dar o melhor dos “boa noite”. Como, conscientemente, chatearia alguém assim?

O que ele iria sentir? Não conseguia pensar na possibilidade de deixa-lo ansioso, de machucá-lo depois de tudo pelo que passou. A imagem de vê-lo se revirando na cama – com lágrimas nos olhos, talvez? – perdendo uma noite de sono por sua causa lhe abria um buraco na parede do peito.

Mas era aquilo o que Cecília sempre fazia, não era? Estava sempre pensando que determinada coisa poderia chateá-lo, e fazia de tudo para poupá-lo disso. E o problema era justamente esse: colocava-se tanto no lugar dele, para antever qualquer dor que pudesse sentir, que sem que pudesse perceber passou a justificar atos e “perdoá-lo” por atitudes que a machucavam.

“Você se coloca no meu lugar? Porque eu estou sempre fazendo isso por você:

“Eu tento não cobrar, porque entendo que se sinta desconfortável na sua casa, mas como se sentiria se fosse o contrário? Se você sempre estivesse me chamando, se sua casa estivesse de portas abertas para mim quando eu quisesse, se você cozinhasse para nós pela simples satisfação de ver o meu sorriso, e se você me desse toda a liberdade para fazer o que quisesse no seu lar. Como você se sentiria se, mesmo depois de tudo isso, eu nunca te chamasse para minha? E, se você me perguntasse se pode vir, eu desse um motivo para não o fazer a maioria das vezes?

“Eu tento não pressionar, porque sei que você fica nervoso com os seus pais, mas como se sentiria se fosse o contrário? Se os seus pais me adorassem tanto que me requisitassem para o almoço, e eu te privasse se conviver com os meus?

“Eu tento não ficar chateada, porque sei que seus pais vêm pouco para a cidade, mas como se sentiria se fosse o contrário? Se de repente os meus chegassem aqui e eu não te deixasse ter contado com eles, e passasse a te colocar em segundo plano. Se eu desmarcasse nossos encontros em cima da hora, ou fosse sempre atrasada, porque eles me pediram alguma coisa de imediato.

“Eu tento não me sentir em segundo plano, porque sei que são coisas que surgem e não são sua culpa, mas como se sentiria se fosse o contrário? Se quando você marcasse algo comigo e estivesse ansioso para me ver, com tudo planejado, eu mandasse uma mensagem dizendo que preciso resolver alguma coisa e não poderei ir mais.

“Eu tento não me sentir culpada, porque sei que é necessário falar sobre essas coisas, mas como você se sentiria se fosse o contrário? Se você tivesse que repetidas vezes me falar de algo que te incomoda (e, céus, uma coisa tão óbvia), mas eu continuasse a fazer o mesmo – ainda que seja porque é difícil para mim – até ter medo de se tornar uma cobrança que me desaponte.

“Eu sei que você tem justificativas para isso tudo, e que nada é algo intencional, feito para me machucar. E eu sempre me coloco no seu lugar pra entender, mas você já fez isso por mim?”

Seria pedir de mais que trocasse de lugar com estrelas, só por uma noite, para que pudesse dizer isso a ele sem olhar em seu rosto?

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Estou sempre aberta a sugestões e críticas, então desflorem caixinha dos comentários ou MPs.
Há muito tempo eu não escrevia assim, então me perdoem (e corrijam, obviamente) por qualquer coisa.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!