Antes que seja tarde

1 Prólogo - Março de 1992


Estava sentindo a leve brisa bater em meu rosto a cada impulso do balanço, quando avistei Marley vindo em minha direção com uma expressão estranha no rosto. Ultimamente ela andava agindo estranho, sempre calada, quando costumava ser extrovertida, e isto estava me preocupando. Alguma coisa havia acontecido, eu só não sabia o quê.

– Oi, Risa — ela tentou dar um sorriso ao me cumprimentar, mas falhou.

– Tudo bem, Mar? — Perguntei, já saindo do balanço. Sentia que Marley precisava conversar, e de modo sério.

– Será que nós poderíamos entrar? Eu não gostaria de ter esta conversa aqui — ela olhou nervosamente em torno do quintal da casa dos meus pais, como se temesse que alguém pudesse ouvi-la.

– Claro que sim — dei-lhe um sorriso tranquilizador — Vamos lá pro meu quarto.

De cabeça baixa, ela me seguiu enquanto entrávamos na minha casa. Mamãe ainda não terminara seu turno no hospital, onde era enfermeira, e só Deus sabia em que lugar papai poderia estar. Assim que chegamos ao meu quarto, no andar de cima, Mar começou a chorar e eu corri para abraçá-la.

– Vai ficar tudo bem, amiga – sussurrei. — Não importa o que esteja acontecendo. Eu tô aqui com você e vou te ajudar em qualquer coisa.

– Ah... Risa — Marley soluçou. — Eu tô tão assustada!

– Vem, senta aqui — acompanhei-a até a cama e me sentei ao seu lado, segurando sua mão. Meu coração ficava apertado vendo o sofrimento no rosto da minha melhor amiga, e tudo o que eu queria fazer era pegar o seu problema e resolvê-lo, só para vê-la sorrindo outra vez. — Me diz o que está acontecendo, Mar, porque você está me deixando assustada.

– Eu tô grávida! — Disse ela, em um sussurro estrangulado.

– O quê?! — Sobressaltei-me. Aquilo foi totalmente inesperado.

Eu pensei que ela estivesse novamente passando por problemas com o namorado, Marcus, já que os dois viviam terminando e voltando, e eu sabia como minha amiga ficava arrasada cada vez que o relacionamento deles era rompido. Mas, grávida? Meu Deus, aquilo era sério demais. Nós só tínhamos 15 anos, o que ela faria com um bebê nessa idade? Isto mudava tudo o que Marley sonhava para sua vida, e eu não queria nem pensar na reação da mãe dela. Aquela mulher era cruel, fria de uma de maneira que me dava calafrios, visava apenas manter as aparências, a qualquer custo; tudo tinha que ser perfeito, menos que isso ela não aceitava.

– O Marcus... Ele estava falando em terminar de novo, e eu acabei me entregando a ele. — Mar fungou. — Isto foi... foi há quase dois meses — ela soluçou novamente. — E ele vem sendo tão carinhoso desde então, mas não sei como vai reagir a isso! Ah, meu Deus! O que eu vou fazer agora?

– Calma, amiga — tentei tranquilizá-la. — Não importa o que aconteça, eu te ajudar a passar por isso.

Ela olhou para mim com seus olhos brilhando em lágrimas: — Você promete, Marisa?

– Prometo – falei, convicta. — Você sempre poderá contar comigo.

E eu sabia com cada grama de meu ser, que nunca havia dito nada mais verdadeiro na vida.

Notas finais
Esta história foi escrita para um desafio do projeto Tdkau