Antes que o Verão Acabe
6 Confusão em Woodstock
Notas iniciais

Os dias em Woodstock, como de costume, demoravam a passar, e a cada dia a certeza de que esse lugar não é pra mim se concretizava mais. Eu amo a minha avó, sim, não pense errado, mas o problema na verdade não é ela, muito menos a fazenda, o problema é o meu pai voltar aqui com outra mulher e fingir que não foi aqui que ele viveu os dias mais felizes da vida dele com o amor da vida dele.
Me levanto da cama barulhenta com esse pensamento e não querendo olhar pra cara de Katie Boss e nem de ninguém hoje, porém, infelizmente não tenho esse luxo, o dever me chama, e meu primeiro dia na escola também. Mal a água quentinha começa a relaxar meus músculos e já ouço meu pai me gritar lá em baixo:
— Rosie! Está atrasada. A professora não vai esperar por você! E eu também não, tenho coisas a fazer!
— Já estou indo! — grito de volta e ligo a música no celular.
Dez ou quinze minutos depois desço as escadas com meu fone de ouvido, uma camisa cinza, uma calça jeans e a famigerada bota.
— Onde está papai? — pergunto quando Vovó e Katie me olham dos pés a cabeça. Será que esqueci de pentear o cabelo ou passar um desodorante? Não, tenho certeza que não.
— Seu pai foi até o lago, a Maggie, a vaca, está prestes a parir. — Vovó disse entusiasmada, e fazendo questão de citar que Maggie era uma vaca, ela devia saber que uma vaca com esse nome não é difícil de se esquecer — Ele pediu que Kile fosse até a cidade chamar o veterinário e aproveitasse para levá-la a escola.
Revirei os olhos e peguei um pãozinho da cesta em cima da mesa antes de sair para encontrar Kile na caminhonete. Estava cedo, mas os raios de sol já brilhavam intensamente. Se eu fosse outra pessoa, até diria que o dia está lindo. Como já esperava, Kile não estava na caminhonete, mas mesmo assim abri a porta do carro e me sentei no banco da frente.
— Bom dia Flor do dia!
— Já te disse pra não me chamar assim. — corto Kile enquanto ele entra no carro e faz cara feia pra mim.
— Tá estressadinha porque tá atrasada pro primeiro dia de aula? — ele ironiza enquanto liga o carro e sai pelas porteiras da fazenda.
— Até parece que eu vou nessa aula né? — ele me olha espantado.
— Você tá de brincadeira. Não quer ficar aqui para sempre.
— Não, mas meu pai não precisa saber que não vou pra essa droga de escola, e se você contar, eu te mato e uso o seu corpo como espantalho. — digo séria, mas querendo rir da reação dele. — Onde vamos? O que vamos fazer?
— Como sei que nada vai fazer você mudar de ideia e que se eu discordar você é capaz até de pular do carro em movimento... Vamos comprar uns remédios de uso veterinário no mercado de pulgas em Willow Grove, falar com o veterinário na volta para que ele faça o parto de Maggie, e se você se comportar, podemos comprar uma torta de abóbora da Dona Agnes, afinal, pelo menos dessa torta você deve estar com saudade.
— Meu Deus Kile! Essa torta é muito boa! — digo entusiasmada ao me lembrar do gosto maravilhoso da torta mais famosa de Woodstock que eu comia com minha mãe e minha avó todos os domingos depois da igreja. — Sendo assim, acho que vou me comportar.
Ele ri e balança a cabeça para os lados. O bom de ter Kile me ajudando, é que posso fazer o que quiser, e ele não vai contar pro meu pai porque também quer me ver longe daqui. Isso é quase perfeito.
— Acho que quero dar uma volta na cidade. — falei assim que passamos por cima da linha ferroviária e entramos na cidade e ele me olhou curioso — Faça o que você tem que fazer e me encontra na lanchonete da dona Agnes quando terminar — continuei — levamos quase uma hora pra chegar aqui mesmo, mais umas três horas zanzando por aí e outros cinquenta minutos para chegar na fazenda papai não vai nem notar que faltei na escola. Só não esqueça de avisar a vovó que vai demorar e que vai aproveitar e me levar de volta pra casa depois da minha aula.
— Eu já te falei algum dia que você é o demônio? — ele diz um pouco impressionado. — Você tem um plano pra tudo.
— E você está com inveja por não saber fazer planos iguais. — falo caçoando. — Posso ficar aqui mesmo. — digo enquanto ele diminui a velocidade da caminhonete e para em frente a um brechó. — Ainda não esqueci da minha torta. — digo abrindo a porta do carro e saltando para fora.
— Não se meta em confusão. — ele diz antes de seguir para a cidade que fica tão perto que é praticamente parte de Woodstock. Sigo pela rua principal da cidade, passando por pequenas lojas, brechós com roupas bregas e uma livraria menor que o meu closet em Nova Iorque. Decido entrar na livraria e vejo que é muito fofa por dentro, prateleiras de livros em todas as paredes, a decoração rústica e o cheirinho de café ao fundo deixavam tudo muito aconchegante, a moça do balcão me olhava com um espanto que não dava nem para disfarçar, com certeza todos em Woodstock já sabiam da volta dos Crawford foragidos. Segui para a parte da livraria em que estavam coisas diversas, doces, canetas e... Filme para câmera polaroid! Sem acreditar que havia achado, peguei duas caixas de filmes para a antiga câmera da minha mãe (apenas para ter guardado para quando o filme que vovó me deu acabasse, já que aqui é o fim do mundo) e fui até o balcão. Depois de vários olhares estranhos da moça do caixa e do provável dono da loja, curiosos pra ver como está a neta de Mary Crawford, a moça pediu que eu digitasse novamente a senha do cartão de crédito, revirei os olhos, respirei fundo e digitei novamente a droga da senha.
— Desculpe senhorita, seu cartão foi recusado. — a moça falou com um sorrisinho amarelo.
— Eu gostaria de tentar novamente, isso não está certo. — falei enquanto colocava novamente o cartão na máquina, indignada com toda essa humilhação.
— Desculpe, mas aquela foi a sua última tentativa, seu cartão está bloqueado. — e aí eu entendi tudo, com certeza a ideia brilhante de bloquear o meu cartão fazia parte do plano infalível do meu pai de reformular a minha vida.
— Que seja! — falei rudemente e sai da loja pisando fundo.
Depois de andar por praticamente todas as lojas da cidade — que não são muitas inclusive — eu estava sentada numa das cadeiras em frente ao balcão da lanchonete da Dona Agnes com a pior cara do mundo, apesar de estar novamente em um dos meus lugares preferidos da infância eu nem me importei com a mudança da cor das paredes, apenas o cheiro desse lugar já me dava boas lembranças de minha mãe, mas eu só conseguia pensar em uma coisa: fui humilhada por uns caipiras bregas! Como o cartão de Rosie Crawford, a herdeira das empresas e da grande fazenda dos Crawford estaria bloqueado? Essa foi uma grande jogada do meu pai, ele pediu que eu pegasse leve, mas ele passou dos limites! Isso não se faz. Emburrada, humilhada e com fome, eu balançava a perna freneticamente, pois é isso que faço quando estou nervosa e com raiva. Kile estava demorando mais do que deveria, eu odeio esperar! Peguei o panfleto da escola, que eu não fui, e comecei a folhear, eles tinham clubes de tudo que se possa imaginar, as audições para cheerleader começariam essa semana, assim como para o time de futebol da escola, mas segundo Kile, os garotos de Woodstock não ligavam muito para futebol quando podiam participar de rodeios e montar em touros com seus chapéus e botas, e ainda riam e tiravam sarro de quem ousasse entrar no time e não escolher ser um cowboy. As garotas por outro lado adoravam sair por aí com as mini roupas de cheerleader, mas adoravam mais ainda ficar se esgoelando nas arquibancadas dos rodeios e disputando para ganhar o chapéu usado pelo idiota que ganhasse a competição. Puff, que povo brega. Guardo o panfleto da escola de volta na bolsa e começo a mexer no celular, abro o instagram e de cara vejo uma foto de Margot e Elliot, meus melhores amigos junto de Emma e Julian, as duas pessoas de Nova Iorque que mais me odeiam e que eu odeio também, a legenda dizia: "O esquadrão está livre" e o pior, todos os comentários da foto tinham a hashtag #ManhattanAgradeceARoça, meu queixo caiu e meu mundo desabou, quer dizer que todo esse tempo eu estava cercada de pessoas falsas que fingiam gostar de mim quando na verdade não viam a hora de se livrar da garota da roça? Tudo foi uma mentira. Eu não posso acreditar. Ou na verdade posso sim, éramos malvados, mesquinhos e falávamos mal de todo mundo do Upper East Side, só fiquei surpresa porque achei que Margot e Elliot eram meus amigos, já não bastava eu estar totalmente sem dinheiro, agora descobri que eu era um fardo para todos os que se diziam meus amigos, ótimo, o meu dia não podia ficar pior.
Na verdade podia sim, assim que o sininho pendurado na porta da lanchonete tocou e olhei para ver se era Kile, dou de cara com Carmen Williams, uma vadia que já era vadia na quinta série quando ninguém nem sabia o significado da palavra, enquanto ela entrava com seus dois zangões (Hilary e Ashley), os cabelos loiros que sempre pareciam ter acabado de sair de um salão de beleza se movimentavam com os passos dela, sua pele de porcelana parecia brilhar com a luz da lanchonete, quando seus olhos incrivelmente verdes cravaram em mim se passava um filme na minha cabeça; todas as vezes que ela quis competir comigo (e perdeu, claro), as vezes que tentava me sabotar para se sair melhor na escola, no coral da igreja, nas fantasias do halloween, nas peças teatrais da feira anual de Woodstock, Carmen sempre quis ser melhor e me fazer sentir inferior, mas convenhamos, ela nunca foi páreo para mim, com certeza dava pra ver o ódio em meus olhos pois ela me encarava com um sorriso sarcástico no rosto, um sorriso de uma criança que acaba de ganhar o brinquedo que tanto queria só por fazer tanta birra, o que ela provavelmente não se lembra é que naquela época eu era apenas uma garotinha assustada, e hoje eu sou uma garota com experiência melhor do que a de uma garota do interior, lidei com todo tipo de gente falsa e mesquinha em Nova Iorque e acabei de levar um tapa na cara dos meus dois "melhores amigos".
Não Carmen, você não vai querer se meter comigo. Pensei enquanto ela atravessava a lanchonete para falar comigo, ao mesmo tempo uma das filhas da dona Agnes veio até mim pela terceira vez e disse:
— Você não vai querer comer nada mesmo querida? — enquanto isso Carmen me olhava de cima a baixo prestando atenção na conversa.
— Por enquanto não, estou esperando um amigo. — desconversei, querendo ou não teria que esperar Kile, mesmo que eu quisesse comer algo, não tinha dinheiro. Sem dúvidas a pior humilhação que eu poderia passar.
— Ah, fale a verdade Crawford. — Carmen disse e eu congelei, será que aquela maldita moça já havia espalhado pela cidade que meu cartão foi recusado?
— Do que está falando? — perguntei.
— Todo mundo em Woodstock já sabe que sua família está falida e que seu pai voltou pra cá porque não conseguia mais bancar os seus luxos em Nova Iorque. — Carmen falou ríspida enquanto Hilary e Ashley davam risadinhas atrás dela, a garçonete filha da dona Agnes mexeu os lábios constrangida e voltou a sua atenção para o barulho de alguma coisa quebrando na cozinha, colocou um pedaço de torta para Carmen e saiu, enquanto isso minha mente tentava processar a informação, como assim falidos? As palavras falido e Crawford jamais poderiam estar na mesma frase. Carmen com certeza estava blefando.
— Você está completamente louca garota! — falei rindo.
— Acho que não querida Rosie. — ela disse em tom de deboche. — Agora mesmo meus pais estão em uma reunião com sua avó, ela está desesperada querendo vender tudo, eu já tenho até planos para quando comprarmos a sua fazenda, meu pai vai demolir tudo e transformar em um clube de campo, o lugar vai ficar com muito mais personalidade, sua família é tão cafona — eu não conseguia entender porque Carmen saberia de tudo aquilo e eu não sabia de nada. — Mas tudo bem pra você né? Afinal você não gosta de nada aqui mesmo, não vai se importar com aquela fazendinha de merda. — meu sangue ferveu quando ouvi aquelas palavras, ela não tinha o direito de falar assim do lugar em que eu cresci, do meu lugar preferido no mundo, do porto seguro da minha família, posso não ser mais uma garota do interior, mas eu não admito falar assim da minha família e do lugar que meus avós e meus pais tanto zelaram, sem pensar peguei o ketchup na minha frente e antes de espremê-lo com toda a minha força no rosto de Carmen o sininho da porta tocou e por uma fração de segundo vi Kile entrando e me lembrei de suas palavras no carro: "Não se meta em confusão." Mas já era tarde demais. O grito de Carmen preencheu todo o silêncio da lanchonete, e talvez até da cidade inteira. Com os olhos ardendo em chamas, Carmen pegou um pedaço da torta com a mão e jogou em meu rosto, enquanto isso seus zangões corriam para longe afim de não sujarem suas roupas bregas. Em meio a pedaços de torta, ketchup, mostarda e maionese voando por toda a lanchonete, Kile passa correndo e tenta me tirar de perto de Carmen, mas meus dedos estavam grudados em seus cabelos loiros agora completamente ensebados, as pessoas olhavam e tiraram fotos com seus celulares, mas a essa altura do campeonato eu estava concentrada demais em puxar os cabelos de Carmen e xingá-la por ter ofendido minhas raízes e a minha família, de repente o sininho toca novamente e quando olho para porta meu pai está entrando furioso na lanchonete.
— Que palhaçada é essa Rosie Crawford? — ele grita, extremamente irritado, automaticamente me afasto de Carmen e ela aproveita para sair de perto de mim.
— Isso não vai ficar assim. — ela diz antes de pegar a bolsa rosa no balcão e sair.
— Pai, eu posso explicar.
— Eu não quero ouvir uma palavra. — ele disse mantendo a calma para não explodir. — Para casa. Os dois. — ele falou e finalmente olhei para Kile, que estava com a cabeça baixa, eu juro que não queria estragar as coisas pra ele, a culpa é toda minha. Saímos da lanchonete e papai pegou as chaves da caminhonete com Kile. — Entra no carro Rosie. Kile, o veterinário vai te dar uma carona. — falou e Kile assentiu, sem nem ousar olhar para mim, eu estava tão envergonhada, queria me desculpar, mas não sabia quando poderia fazer isso.
— Como... Como você soube? — perguntei depois de dez minutos de silêncio.
— O banco me ligou avisando das suas tentativas falhas em usar o cartão que foi cancelado. — ele respondeu. — Eu te trouxe pra cá para te dar uma segunda chance Rosie, e você, como sempre, estraga tudo. Porque diabos não foi para a escola? Você é muito irresponsável. Eu não sei mais o que fazer com você. — ele diz em tom agressivo.
— Pera aí — comecei — Você não tem nenhum direito de brigar comigo, mentiu para mim esse tempo todo, não me trouxe pra cá apenas para me dar uma lição, me trouxe porque está pobre e não tinha mais para onde correr. Você não tinha o direito de me esconder isso. Eu merecia saber de outra forma.
— Cale a boca, você não sabe o que fala. — ele falou mais baixo — Sua avó e eu tentamos de todas as formas driblar a falência, mas você, você não ajudava, tudo ela luxo Rosie, festas, roupas de grife, eu tentei te controlar mas eu não pude, imagino se alguém poderia.
— A minha mãe poderia. — retruquei. — Se ela estivesse aqui você não teria virado as costas para mim e se isolado no seu mundinho.
Depois do que falei, ficamos em silêncio até chegarmos na fazenda. Desci do carro e fui direto para o meu quarto, entrei no banheiro e chorei durante o banho inteiro. Vovó foi até lá umas duas vezes tentar conversar mas eu não queria conversar sobre o que aconteceu, todos mentiram para mim, até mesmo a minha mãe quando disse que tudo ficaria bem, nada ficou bem, meus amigos me traíram, meu pai mentiu pra mim, minha avó mentiu pra mim, eu provavelmente havia estragado as coisas para Kile, tudo estava uma merda. Depois que me troquei e deitei na cama, ouvi duas batidas na porta, não respondi.
— Rosie, venha até a varanda. Quero falar com você. Agora. Não me faça entrar aí. — meu pai falou sério atrás da porta. Respirei fundo e desci as escadas. Na varanda junto de meu pai, estava Kile, ele tinha trocado de roupa e segurava o chapéu de couro junto ao peito. — Sei que a minha filha tem uma personalidade forte, e em todos esses dezessete anos a conheço o bastante para saber que você não seria capaz de fazê-la mudar de opinião Kile. — meu pai falou e eu fiquei aliviada por não ter arruinado as coisas para Kile. — Mas por tê-la acobertado, vai ajudá-la a pintar o celeiro, inteiro, todas as paredes externas. — Ok, meu pai estava certo em me castigar, mas pintar o celeiro de fora a fora? Ele só pode estar brincando. Antes que eu protestasse, meu pai virou as costas e saiu pisando forte. Olhei para Kile e ele me olhava de uma forma indecifrável.
— Me desculpe por ter deixado as coisas ruins pra você. — falei enquanto ele me olhava atentamente, ele apenas assentiu e colocou o chapéu enquanto seguíamos para o celeiro. As tintas, baldes, escadas e pinceis já estavam espalhados por todo canto. Inicialmente começamos a pintar sem nem olhar um pro outro, Kile com certeza estava chateado pelo que eu fiz, tudo o que eu tinha que fazer era não me meter em confusão, mas Carmen mereceu. — Não quero que as coisas fiquem estranhas entre a gente Kile, prometo que nunca mais vou deixar você levar nem um por cento da culpa das coisas que eu faço. — não sei porque mas sentia que devia isso a ele, afinal meu pai estava certo, eu sempre faço o que eu quero e ninguém pode mudar isso.
— Você fica tão patética se desculpando tanto — ele falou finalmente com o velho sorrisinho irônico no rosto. — Está tudo bem.
— Já me arrependi de ter ficado com pena de você. — falei enquanto espirrava a tinta do pincel na camisa branca dele.
— Você é louca. — ele disse jogando tinta em mim. — Para que diabos você tinha que jogar comida na garota?
— Ela que começou. — falei levantando as mãos em gesto de rendição e ele riu e me encarou. — Eu não sabia de nada sobre as condições financeiras da minha família. Foi a gota d'água quando ela ofendeu minha família e chamou minha casa de "sem personalidade".
— E olha que você não gosta daqui. — ele ironizou enquanto se apoiava na mesa e olhava diretamente pra mim rindo feito um idiota que acha que está sempre certo.
— Longe de mim ter começado a gostar de Woodstock e de morar aqui. — falei — A última coisa que eu preciso é ficar presa nesse fim de mundo com um caipira dando em cima de mim. — provoquei e ele deu uma gargalhada alta.
— Já que estamos falando do assunto. — ele disse sério e me olhando nos olhos. — Eu não estou flertando com você. — olhei pra ele com uma expressão que dizia "sério?". — É sério, eu estou noivo, vou me casar no final do ano.
Por um momento meu mundo parou, fiquei chocada, e sem nem saber porque, me sentia chateada em ouvir aquilo. No segundo seguinte Kile começa a rir descaradamente e sem pensar eu jogo nele o pincel que estava em minha mão.
— Você é um idiota. — digo.
— Desculpe. — ele fala ainda rindo de mim.
Passamos o dia e a noite pintando as paredes do celeiro, estava ficando uma droga, tudo colorido porque estávamos usando todas as sobras de tinta que achamos guardadas, mas era o que tinha e meu pai não podia exigir uma pintura profissional. Não sei como ou que horas aconteceu, mas adormeci deitada na grama atrás do celeiro com Kile do meu lado. Acordei abraçada com Kile, seus braços passavam pela minha cintura e seguravam forte. Entrei em pânico. Como ficamos abraçados durante a noite? Com os olhos arregalados comecei a me mexer devagar para tentar sair dos braços dele sem que ele acordasse, não queria ter o constrangimento de nós dois abraçados nos olhando sem entender o porquê daquilo, minha tentativa falha acordou Kile e com um pulo ele se distanciou e ficou com as bochechas incrivelmente vermelhas.
— O que você estava pensando? – pergunto irritada com a reação dele.
— Você que me abraçou primeiro. – ele justifica.
— Seu mentiroso. – retruco. – Nem em um milhão de anos eu faria isso. – Kile conseguia despertar o pior em mim, ele me deixa louca.
— Vamos apenas fingir que nada disso aconteceu. – ele falou e surpreendentemente eu fiquei magoada.
— Você é um idiota! – meu tom de voz saiu um tanto magoada demais — Está bem, vamos fingir que não aconteceu – falei enquanto tentava me levantar e ele puxou meu braço.
— Me desculpe. – ele falou me olhando nos olhos. – Mas você... Que droga Rosie você desperta o pior em mim, você me deixa louco. — meu coração palpitou, eu tinha acabado de pensar a mesma coisa.
— Não estou nem aí para como você se sente. – falei no meu melhor tom de desprezo e com a cara mais emburrada que pude fazer.
— Qual é Rosie, para de se fazer de difícil. — Kile disse atentamente e revirei os olhos pra ele. — Sério, você armou a maior confusão que essa cidade já viu em anos só para defender a sua família, você usa essas botas que nem gosta só para agradar a sua avó, vende biscoitos na feira para a caridade, esse estilo durona não está mais dando certo. — olho pra ele pensativa e ele ri suavemente.
— Vamos tentar de novo. — falei depois de vários segundos (que pareceram anos) pensando no que fazer, estendi a mão pra ele apertar. — Ontem foi divertido. – nós dois rimos e ele se levantou colocando o chapéu e indo em direção aos estábulos, com certeza para pegar um cavalo e ir para casa.
— Foi o melhor primeiro encontro da minha vida. – ele se vira e diz a uns dez metros de distância. Que garoto insuportável.
— Não foi um encontro!!! – grito convencida e ele ri. Honestamente, gritei convencida de que não foi um encontro em boa parte para tentar me convencer, que diabos Kile estava fazendo comigo?
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