Notas iniciais
É uma short fic angst

Kyo não sabia ao certo o que ainda fazia naquele vestiário úmido e frio, especialmente sentado em um canto de forma solitária como nunca foi.

Após tomar seu banho apenas trajava a calça jeans desbotada, os pés descalços, um ao chão e outro ao banco fazendo sua perna flexionar de maneira que pudesse usar o joelho como apoio para seu rosto pálido.

Seu olhar era semelhante à névoa abafada que pairava.

Não é que não estivesse bem, só que estava nostálgico demais para ficar perto das pessoas. Usava de sua solidão para tentar consumir a nostalgia.

Não queria ser visto, porém era um banheiro público masculino do ginásio. Eventualmente alguém apareceria, e por mais importuno que seja, a pessoa certa apareceu.

- O que faz aí, Kusanagi?

Os olhos de Kyo que fitavam o chão brilharam e se ergueram para olhar aquela pessoa que na verdade queria muito ver. – Yagami...

Os dois se olharam e Iori percebeu a estranheza de Kyo, embora nunca ligasse para o que o rapaz pensava.

-... Eu tive um sonho estranho... Parecia tão real....

O comunicado mais pareceu um desabafo, e a voz especialmente baixa e lenta denunciava que não era um sonho comum. O ruivo o fitou de cima enquanto desabotoava sua camisa, e com escarno virou suas costas andando até sua mochila disposta ao banco de madeira. – E eu com isso...?

-... Era com você.

Ele conseguiu roubar sua atenção, porém o tom jocoso e riso de canto ainda insistiam na idéia de arrogância e indiferença. – Você sonha comigo?

- Essa noite sonhei...

- Não quero saber, Kyo. – Apesar disso, estava curioso não pelo sonho e sim pelo motivo que levou Kyo a contar que sonhou com seu maior inimigo. Mesmo porque soa muito estranho, embora o rapaz tenha grandes motivos para ter pesadelos com Yagami.

As roupas suadas eram colocadas amarrotadas mesmo em sua mochila enquanto pensava em tudo isso, até sentir uma mão sob seu ombro o virando de forma rude e apressada. Em seguida, seu rosto entre duas mãos quentes, e sua boca ocupada por outra.

Não durou cinco segundos, e o corpo do rapaz que investiu fora lançado contra o espelho do local provocando um estridente barulho, e transformando-o em uma grande depressão trincada enquanto ele caia sentado ao chão.

- Isso estava em seu sonho também, seu desgraçado? – Limpava a boca com a costa de sua mão, como se Kusangi fosse contagioso, nojento e repugnante.

O de olhos castanhos nostálgicos se levantou com cuidado para não se cortar nos pequenos estilhaços no chão. Após um suspiro, revelou ainda de voz baixa assim como o olhar. – Não...... Mas é um começo. Antes que algo aconteça, eu prefiro que saiba a verdade sobre como me sinto por você...

Depois desse dia, o choque de Iori fora tão grande que tinha asco de seu inimigo, e jamais o desafiou e o procurou novamente.

O rapaz moreno não tomou mais parte também, e gradativamente fechava-se mais e mais, ao ponto de as pessoas notarem que estava tão profundamente cego em seus próprios problemas. Sabia que isso aconteceria com Iori, e não tinha arrependimentos.

Perturbador mesmo era aquela frase de Kyo que por muitas noites lhe tirara o sono. O que ele queria dizer com ‘antes que aconteça algo’ estava misterioso para si. Todavia, era praticamente gritante que algo aconteceria consigo, levando em consideração que tinha um sangue amaldiçoado correndo por suas veias. Era como se Kyo tivesse desvendado seus próximos dias, porém o dia certo ele não disse. Talvez, a morte de Iori estaria mais próxima do que se imagina, e se pegava desconfiado de tudo em sua volta, desejando que nada lhe acarretasse a revolta de sangue.

Yagami tinha certeza que algo iria acontecer consigo, mas ele errou. Kyo nunca disse que algo aconteceria com ele.

Era com Kyo.

Três meses depois do beijo, Yagami soube do trágico e estúpido acidente envolvendo sua moto, uma ultrapassagem e um caminhão, que levou a vida de seu maior inimigo. Foi a primeira vez que sentiu que seu mundo e vida estavam sem base, e a princípio não acreditou. Ele já havia escapado muitas vezes da morte.

Só quando viu o jarro de madeira entalhado carregado por sua mãe em luto contendo as cinzas de Kusanagi é que sua ficha caiu, e finalmente soube que ele não estava mais nesse mundo e nunca mais veria seu sorrisinho irritante.

Por onde vagava agora o motivo de sua existência? O motivo por ter se tornado o lutador que se tornou, a fim de enfrentar o homem que é o inverso de si? Para onde vai escoar todo seu ódio?

Escoava por seu rosto enquanto quebrava boa parte de seu apartamento inconformado por ele ter partido de uma forma que não fosse por suas mãos, e quanto mais o ódio escoava mais parecia aumentar, até começar a escoar em forma de sangue pela sua garganta, anunciando a entidade que deveria levar sua vida como ele premeditou. Era sua vida que deveria ir embora, não a de Kyo.

Nessa noite o sangue teimou em fluir, e mesmo com os olhos vítreos amarelos e brilhantes da entidade, Iori imaginava que talvez isso fosse o melhor a acontecer e pela primeira vez não teve medo de ser possuído e ter a chance de ser levado de uma vez, porque talvez em algum lugar encontraria Kyo para mais uma batalha e muitos esclarecimentos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!