Os raios de luz que entravam sorrateiramente pelas brechas da janela, iam até Ana iluminando o rosto da menina parcialmente. A brisa da manhã rondava o quarto fazendo com que ela se agarrasse mais forte envolta do cobertor ao mesmo tempo em que ia se acordando aos poucos.

Ana abriu os olhos lentamente e encarou o despertador de cor fúscia que ficava em cima da sua escrivaninha. Eram sete e meia da manhã de uma segunda-feira, ou seja, o primeiro dia das férias de dezembro e um sinal de que em breve, ela estaria no último ano do ensino médio e finalmente poderia sair daquela cidade tão monótona e cursar a faculdade de língua inglesa em uma grande capital.

Sem demandas em suas costas, a menina se levantou vagarosamente e após tomar um banho demorado e escovado os dentes, desceu para cozinha onde se encontrava sozinha em casa. Ana morava com seus pais, era filha única e devido aos horários de trabalho, mal os avistava em casa a não ser nos fins de semana, especialmente no domingo, onde os dois folgavam.

Sua mãe era secretária do prefeito em seu segundo mandato e seu pai gerente do GrandBank, único banco financeiro da cidade.

Baixa Estação por sua vez era uma cidade pequena com cerca de dez mil habitantes, localizada a três horas e meia do Rio Grande do Sul, capital de Porto Alegre, conhecida por ter um rio que curiosamente possuía uma água azul, mais cristalina do que alguns mares do Cancún e por sua famosa hospedagem dos moradores, também conhecidos como calorosos e receptivos.

Ana se colocou a mesa e tomou o café da manhã despreocupada enquanto observa o Jornal na TV, ação que já fazia parte da rotina de todos os dias. Após terminar a sua refeição, a menina se pôs próximo a janela e encarou a sua rua. O dia lá fora estava totalmente iluminado, com um calor que aumentava gradativamente e que se tornava insuportável em alguns momentos. Ela se questionava ultimamente o que estava acontecendo com aquela cidade, mas como ninguém se perguntava o mesmo, preferiu colocar a culpa no aquecimento global e seguir com a vida.

Enquanto a manhã se passava, a garota aproveitou para conhecer algumas séries e botar os filmes em dia, já que tinha resolvido curtir ao máximo os próximos trinta dias de repouso para que finalmente pudesse voltar com tudo e prestar o vestibular.

Na medida em que o dia se passava, a menina rolava em sua cama, sempre procurando algo para fazer. Os cabelos bagunçados e o pijama abarrotado davam a ela uma sensação de liberdade, mas sempre se lembrava que na casa ao lado, bem em frente a sua janela, estava a janela do seu melhor amigo, o garoto que ela era perdidamente apaixonada desde os seus doze anos e que agora aos dezessete, continuava com o segredo deixando que o mesmo nunca notasse.

Ao dirigir o olhar a sua janela, Ana pôde vislumbrar o chegar de Pedro ao quarto, colocando sua mochila atrás da porta e jogando seus sapatos ao alto enquanto se deitava na cama desarrumada com o forro do Homem-Aranha. Ela se lembrou de que também era o primeiro dia de férias do menino, fazendo com que pegasse no celular e enviasse uma mensagem para ele o convidando para fazer algo no fim da tarde.

"Sorvete ao fim da tarde! Que tal?"

"Bruno ficou de chamar geral para beber mais na tarde na casa dele, parece que os pais viajaram. Você vai?"

"Ele ainda não me convidou, mas vou querer uma carona"

"Te vejo mais tarde, granger!"

Pedro levantou o olhar para a janela e observou a menina deitada em sua cama lhe lançando um sorriso meio envergonhado e após isso, afirmou com a cabeça, sorriu e puxou a sua cortina, fechando a janela para dar a ela um pouco de privacidade. Granger era um apelido que o garoto havia ligado a Ana, insinuando de que a menina era tão inteligente quanto a famosa bruxa de Harry Potter chamada Hermione Granger.

O garoto aproveitou para tirar o resto das suas roupas e dar início ao culto de férias, evento que ele mesmo havia criado, onde havia programado várias atividades para fazer nos próximos dias até que pudesse ir a prisão novamente, o que ele ocasionalmente chamava de escola. Pedro era de longe, um dos alunos mais inteligentes da turma, sábio ao ponto de saber que o ensino médio era só uma fase e que mesmo que um ser humano se saísse mal nos anos letivos, não significava que ele seria burro, apenas não havia o que gosta. A adolescência é de fato uma das piores fases da vida. Tudo é tão chato, parado, questionável...

No mais tardar, ás seis horas da noite, o menino estava aproveitando para se arrumar e encontrar os amigos enquanto Sweet Child O' Mine da Guns N' Roses estava tocando em sua caixa de som. Os cabelos pretos, lisos e caídos sobre seus olhos combinavam com seu tom de pele, que era tão branco que chegava a destacar mais sobre todas as suas roupas pretas que usava.

Pedro sacou o celular do bolso, espirrou um pouco do seu perfume em seu pescoço e aproveitou para falar com Ana, informando que estava prestes a sair.

"Cinco minutos no portão, beleza?"

"Você se esqueceu que demora bem mais do que eu para se arrumar, né? Estou te esperando faz uns quarenta minutos."

Pedro sorriu ao ver a mensagem e aproveitou para buscar as chaves do carro com seu pai, que liberava o automóvel pro menino por confiar plenamente nele e que se acontecesse algo, sempre falava que o delegado resolveria sem problemas. Piada com trocadilho que havia perdido a graça havia um tempo justamente por o delegado ser o seu próprio pai.

Ana já estava esperando o menino encostada na BMW preta que brilhava como um diamante. Ao perceber que o carro havia sido aberto, olhou para trás e notou Pedro diante a sua frente com um sorriso que lhe causava um terremoto por dentro.

— Você não tem hora pra chegar, tem? — Ele se sentou ao banco e pôs o cinto, esperando que a menina fizesse o mesmo.

Ana se acomodou e também pôs os cintos, dirigindo o olhar ao menino que estava incrivelmente bonito naquela luz baixa dentro do carro. — Quero aproveitar os próximos dias como se fossem os últimos da minha vida.