Antes do fim
4 A camada espelhada
Havia muito burburinho em todas as partes da cidade, as ruas estavam lotadas de pessoas que buscavam achar uma resposta. Algumas crianças choravam, outras corriam no meio das pessoas desafiando o escuro e quase todos os adolescentes de Baixa Estação se encontravam na calçada da casa do Bruno.
Ana se virou para trás procurando a voz que havia feito uma pergunta e deu de cara com Pedro, que aparentemente estava mais preocupado com ela do que qualquer outra coisa. A menina se encolheu e falou que também não entendeu o que estava acontecendo.
— Está tudo bem? — Pedro perguntou se aproximando ainda mais já que não conseguia enxerga-la muito bem naquele momento. — Você pareceu fugir de algo, vi que os meninos estavam te chamando e você não ouvia...
— Só precisei um pouco de ar. — A garota mentiu, se virando e tentando enganar ao máximo a crise de (um possível?) ciúme.
— Acho melhor irmos para casa. — Ele respondeu olhando para os carros detonados na sua frente. Por sorte, ninguém havia se ferido.
Ana apenas concordou e olhou para trás procurando por Guto e Clara, mas não conseguiu avista-los diante a multidão. A caminho do carro, a menina andava de cabeça baixa, meio envergonhada por ele ter notado que estava fugindo dele, mas de imediato, percebeu que haviam algumas gotas vermelhas próximas ao carro, basicamente um rastro de sangue de alguém machucado.
— Pedro. — Ela alertou pegando na mão do menino e o parando. — O que é isso?
O menino seguiu com os olhos o rastro ensanguentado no chão e percebeu que ele acabava exatamente por trás do seu carro. Ele olhou para a garota e fez sinal com que esperasse, em seguida, caminhou cautelosamente. Na medida em que ele se aproximava, um homem que usava algumas roupas velhas e rasgadas, barba grande e por fazer e uma aparência deplorável saiu correndo em desespero por trás do automóvel fazendo Ana gritar e Pedro cerrar os punhos.
O homem que mais parecia um mendigo, estava com medo em seus olhos e pendurado em seu pescoço tinha um pedaço de papelão preso em uma corda, rabiscado com um giz branco e alertando a todos a seguinte mensagem:
"O fim está próximo!"
Algumas pessoas olhavam o mendigo enquanto gritava. — Eu avisei! Eu avisei! O fim está mais próximo do que vocês possam imaginar! — Em seguida, ele desapareceu no meio da escuridão que predominava no fim da avenida.
Pedro caminhou até Ana, a protegeu em um abraço e a empurrou até o carro, abrindo a porta para que ela entrasse.
Enquanto voltava para casa, o garoto avistou Guto andando devagar e com sua atenção presa novamente a tela do celular. O amigo encostou o carro e buzinou para que ele olhasse. — Vem, eu te levo para casa.
Guto entrou no carro e se acomodou no banco de trás, perguntando como os amigos estavam.
— Parece que todo mundo enlouqueceu. Você viu aquele cara? — Ana perguntou se virando para trás.
— Não vi, mas na verdade, o que aconteceu com a energia, tem explicação. — Guto rebateu. — Estou lendo desde cedo uma matéria que alertava falta de energia em pelo menos mil e quinhentos quilômetros da capital até as cidades interiores.
— Então você sabia que a energia ia cair e você não avisou a ninguém? — Pedro o encarou pelo refletor.
— Na verdade, quem não sabia? Está em todos os jornais e foi alertado na tv. — O menino respondeu novamente. — Aparentemente acima de nós, no universo, foi gerado uma camada de energia solar composta com fragmentos magnéticos, o que ocasiono um impulso para a terra atingindo especificamente essa área toda do sul, fazendo com que a energia presente nessa atmosfera colidisse uma com a outra.
— Mas isso afeta nós, humanos, de alguma forma? — Ana perguntou.
— Não, eu acho que não. Foi descoberto de última hora, na verdade, um pouco antes de chegarmos a casa do Bruno, aparentemente existe uma camada densa causada por um buraco negro que gera um tipo de onda espelhada, fazendo com que uma parte do universo desapareça da vista dos astrônomos.
— Que loucura. — Ana sussurrou se virando para frente e observando a multidão que antes lotava o local estava voltando para as suas casas.
Após deixar Guto, Pedro e Ana voltaram para casa em silêncio, pensativos diante toda aquela situação estranha que estava acontecendo. O menino abraçou forte a amiga e destravou o carro, observando a menina se esvair no meio da multidão até pudesse ouvir o estalar da sua porta, percebendo de que a mesma havia entrado na residência.
Os faróis do carro estavam em frente ao portão da garagem que levantava devagar para que o menino pudesse estacionar o carro e subir para o seu quarto. Ao entrar em casa, percebeu que o pai não estava presente, provavelmente foi chamado para averiguar algumas das loucuras que aconteceram no fim daquela noite. Em seu quarto, o garoto puxou a sua cadeira de plástico vermelha e se sentou próximo a janela, observando a luz da lua clarear um pouco a vista a frente, e em questão de segundos, observou que Ana também estava fazendo o mesmo.
Ele fez barulho para que a menina olhasse, mas ela estava de fone de ouvidos, ouvindo alguma música enquanto encarava o céu acima. A falta de energia durou em torno de duas horas após o fim da festa, os meninos ainda estavam na janela quando a luz voltou iluminando toda a cidade e as casas ao redor.
Ana se assustou levemente e pareceu voltar a realidade, desplugando os fones de ouvido e vendo que Pedro estava a encarando da outra janela.
— Vai ficar tudo bem. — Ele sussurrou para que ela fizesse uma leitura labial.
— Vai ficar ficar tudo bem, sim. — Ela sussurrou de volta e em seguida se despediu, fechando a janela.
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