Lia
O suor pingava de sua testa. As mãos, geladas, tremiam e tornavam um desafio para ela abotoar a camisa. Como ela deixara chegar nesse ponto? Como não havia percebido que seu estoque estava acabando? Nenhuma dessas perguntas de fato brotaram naquilo que um dia Lia chamou de "mente", pois naquele instante ela não conseguia pensar em nada. Suas emoções eram gritantes e intensas e ela não sabia descrever o que sentia.

Como um furacão, ela pegou uma mochila e desceu os degraus de dois em dois, ignorando quando a tia perguntou se estava tudo bem. Bateu a porta com força e entrou no carro, tentando parar de tremer para conseguir enfiar a chave na ignição. Percebendo que todas as tentativas seriam inúteis, ela apoiou os punhos sobre o volante e baixou a cabeça pelo que pareceram alguns minutos, mas foram apenas 3 segundos. Guardando a chave, Lia saiu do carro e andou na direção da casa de Luke. Com passos cada vez mais largos e acelerados, a caminhada se transformou numa corrida e, em menos de 10 minutos, ela tocou a campainha e apoiou-se no portal da sacada, ofegante.

–Meu deus, o que aconteceu com você, Lia?- disse Luke ao abrir a porta.

–Pode me dar um copo d'água?

–Claro, senta aqui.

Dito isso, Lia entrou e jogou-se no confortável sofá da sala de estar, e precisou da ajuda de Luke para não derramar a água. Ele sentou-se na mesa de centro em frente a ela e apoiou o queixo sobre os punhos, esperando pacientemente ela terminar de beber e se recompor.

–Você é a única pessoa que eu sei que não vai me julgar e vai me ajudar no que eu precisar.- ela começou- Eu sou dependente química.

Luke respirou profundamente e seus ombros subiram e desceram lentamente. Ele deu uma piscada demorada e ela continuou, praticamente cuspindo as palavras.

–É por isso que eu me mudei, meus pais não sabiam como lidar e me jogaram pra minha tia. O problema é que agora tudo que eu tinha acabou, e eu não faço ideia de como conseguir mais. Pelo amor de Deus, Luke, você tem que me prometer que não vai contar nada pro Brandon.

–Quanto a isso você pode ficar tranquila.

–Obrigada, Luke. Olha, eu sei que não nos conhecemos há muito tempo, mas por algum motivo eu sei que posso confiar em você.

–Lia, eu estou dizendo que não vou contar pro Brandon,- ele a encarava, sério- não que vou cooperar com isso. Eu não quero você nesse mundo, Lia. Você acha que é só diversão, que está tudo sob controle, mas não está. Sabia que você pode morrer?- ela nunca havia visto seus olhos tão azuis. Não conseguia distinguir os sentimentos que ali se formavam, mas nenhum deles demonstravam indiferença.

Isso era algo totalmente novo para ela. Essa preocupação, essa dedicação sem pedir nada em troca. Por toda sua vida sempre esperavam algo dela, e era extremamente prazeroso ter esse cuidado gratuito. Ela baixou os olhos e respondeu:

–Eu não queria ser assim. Nunca quis nem experimentar nada, sabe?- ela o encarou firme, e seus olhos eram bolas de gude de cor indefinida, que pairava entre o azul e o verde. Como o mar ao ser iluminado pelo pôr do sol.- Mas eu quero parar. Eu realmente quero, Luke. Quero voltar a ser quem era antes, uma menina feliz e cheia de amigos. Mas eu não posso fazer isso sozinha e aqui, nessa cidade nova, eu não tenho ninguém pra me apoiar- ela segurou a mão dele- só você. Eu preciso da sua ajuda, Luke.

Há essa altura, as lágrimas já escorriam sem paradeiro. Salgadas e ligeiras, elas corriam enfileiradas pelo rosto de Lia, mas esta não se importava. Pelo que pareceu uma eternidade, Luke manteve-se quieto, mas depois esboçou um sorriso no canto da boca e disse:

–Eu sempre soube que você correria pro papai aqui.

Lia riu e enxugou as lágrimas, empurrando o ombro de Luke em resposta. Mas, sorrateiramente, ele segurou seus braços e a deixou de frente para ele. Lia sentiu-se um pouco tonta pela velocidade dos movimentos, mas focou ao deparar-se com o rosto de Luke sério de novo.

–Eu vou te ajudar a sair dessa, Lia. Não vai ser fácil, prepare-se, mas eu não vou parar até que você esteja bem de novo. Não adianta você espernear ou me implorar, eu não vou desistir de você, me entendeu?- Ela apenas acenou com a cabeça, o que fez as feições dele relaxarem de novo, exibindo um sorriso excepcionalmente branco.- Vem cá, garota!

Os dois sorriram e se abraçaram, e Lia não pôde evitar comparar a amizade dele com a de Sue e Mary.