Ante Mortem / Post Mortem - Interativa
8 Capítulo 8 - O que Fomos e o que Somos II
Notas iniciais
̶ Pra onde vamos Roxanne? Qual o melhor lugar? – Indaga Kate enquanto pisa fundo no acelerador do furgão, as duas estão em meio à autoestrada.
̶ Espera... Eu to pensando... – Roxanne está com as duas mãos no rosto, parece extremamente nervosa.
̶ Essa é a interestadual? Estamos perto de algum lugar?! – Pergunta novamente Kate, dessa vez com mais ferocidade na voz.
̶ Calma! – Exclama Roxanne – Nós sabemos que aqui perto tem o condado de Notts Forest, mas lá não tem quase nada, já saqueamos milhares de vez...
̶ E qual a nossa próxima opção?
̶ Old Cardiff, mas nunca estivemos lá antes, podem ter muitos mordedores! – Diz Roxanne aparentemente menos nervosa.
̶ Trouxemos as armas pra isso... Vamos ter que arriscar! – Exclama Kate.
̶ Tem um pequeno centro médico lá... Se não estiver totalmente tomado, podemos entrar e buscar tudo o que a Emily disse...
O carro segue a quase cem por hora, levantando poeira por toda a grande reta que percorre. Ao redor da desértica rodovia, o mato cada vez mais crescente destaca-se em meio a carro e caminhões tombados, reflexo do apocalipse que se instaurara sobre todos.
Uma brusca curva é feita por Kate, assim que o carro avista uma placa, um tanto enferrujada, com os dizeres: “Old Cardiff a duas milhas”. O furgão segue por uma estradinha estreita, de um asfalto de baixa qualidade, a suspensão do veículo sente a diferença de solo, e, para evitar algum acidente inesperado, Kate diminui a velocidade.
Apenas alguns minutos na pequena estradinha, é já se pode ver ao fundo a cidade que as duas procuram, um lugar nem um pouco suntuoso, mas talvez de lá saia o necessário para salvar a vida de Deschen.
O furgão estaciona bem próximo ao outdoor de boas vindas: “Bem vindos a Old Cardiff, a cidade do Alho”, um título que talvez não deixasse sua população muito orgulhosa.
Kate e Roxanne descem do veículo, ambas muito bem armadas e de prontidão, o lugar é desconhecido para elas, portanto a cautela deve estar em níveis astronômicos, qualquer erro pode resultar na morte de uma delas ou das duas.
̶ Vamos a pé daqui, deixamos o furgão de prontidão... – Diz Kate que conclui – Vamos procurar esse centro médico, temos que ser rápidas!
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Benjamin está sentado ao lado da cama de Des, apenas observando-a, ela segue inconsciente e sua respiração continua fraca. Do seu lado senta-se Emily, acompanhando de perto o desenvolvimento do estado crítico de Deschen.
̶ Ela tem alguma chance? – Pergunta Ben, em sua voz a um peso até então desconhecido.
̶ Se suas amigas forem rápidas... Talvez... – Responde Emily.
Benjamin suspira, fecha os olhos e puxa o ar em direção aos pulmões de forma forte, parece por demais incomodado. Em sua mente, repete inúmeras vezes: “Como isso foi acontecer? Como isso foi acontecer?”.
Issa adentra o dormitório trazendo uma bandeja com algumas tigelas cotendo comida, ela preparara o cervo de forma rápida, apenas para que todos ali pudessem comer algo. Benjamin, Emily, Juliet e James agradecem, porém, o clima ali é perceptivelmente pesado. Os últimos dias tem sido cruéis com eles.
̶ Eu sei que não é a hora... – Diz James a Benjamin enquanto segura a mão de sua esposa – Mas acho que temos que resolver ‘aquele’ problema!
̶ Sim, nós vamos... Só me deixe pensar...
Benjamin se levanta e deixa o dormitório visivelmente transtornado, ele com certeza foi o mais afetado por tudo o que ocorrera. Juliet, muito confusa, pergunta a James assim que o ‘líder’ sai do local:
̶ O que aconteceu lá fora? Você saiu amarrado e agora já está falando com ele sobre resolver problemas? – Emily também o olha, aguardando uma resposta.
̶ Ele é um homem bom... Está tentando ser justo... Nós conversamos, e eu o convenci a falar com o Rich, antes de tomar qualquer decisão.
̶ Então nós não somos mais prisioneiros deles? – Pergunta Emily.
̶ Não... Ele sabe que não temos nada a ver com a morte do Dave! E agora com essa ajuda que você está dando... Tudo vai dar certo! – Responde James com um ar de otimismo na voz.
Juliet o beija, parece feliz com as palavras do marido, ou pelo menos aliviada. Após o beijo, ela o olha nos olhos e volta a indagar:
̶ E quanto ao Rich?
̶ Querida, se ele realmente matou o Dave, ou se pelo menos não conseguir provar sua inocência... Bom, ele vai morrer...
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Os passos largos, firmes e formando quase um semicírculo executado por Benjamin, chegam a fazer pequenos estrondos no chão de terra batida, do lado de fora do galpão. Ele, que segurava nas mãos a tigela com a carne de cervo mal passada, lança a mesma longe enquanto exprime um alto e irritado: “Caralho!”.
Ele se agacha, coloca as mãos sobre os joelhos, em sua mente, mil coisas se passam naquele instante, sem saber nem ao certo o motivo, uma lágrima escorre de seu olho direito. Talvez tenha sido por Dave, talvez por Deschen, só o que ele sabe é que naquele instante, seu coração está desmontado, e sua mente estraçalhada.
Issa aparece ao fundo, aproxima-se devagar do confuso líder, se agacha atrás dele, e, após colocar a mão direita sobre o ombro de Ben, diz tentando consolá-lo:
̶ Você não precisa carregar o mundo nas costas...
̶ Tudo isso foi culpa minha... – Lamenta ele com a voz embargada e enxugando as lágrimas – O Dave, a Des... Foram decisões erradas tomadas por mim...
̶ Você não tem que se culpar... Tudo o que você fez até hoje só nos trouxe o bem... Você nos conduziu até esse galpão! Só Deus sabe o que teria acontecido se ainda estivéssemos na estrada...
̶ Tem sido difícil pra mim... – Issa o interrompe:
̶ Eu sei, todos nós sabemos! Mas ainda assim, precisamos muito de você... Eu preciso de você... – Issa passa a mão no rosto de Ben, que vira-se e diz encarando-a:
̶ Você disse que aquela noite não tinha passado de carência, que não iria se repetir...
̶ Eu acho que não precisamos mais das cerimônias de antigamente, não é mesmo? O mundo acabou, as convenções se foram junto com ele...
Issa se aproxima ainda mais de Ben e, segurando sua mão, leva a mesma até um de seus seios, fazendo com ele a tocasse com firmeza.
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̶ Esse pode ser um bom lugar para buscar suprimentos... – Observa Roxanne – As lojas parecem bem cheias, acho que não foram muito saqueadas...
̶ Foco Roxanne! – Exclama Kate – Precisamos nos manter no nosso objetivo... Temos que ser rápidas!
As duas acabam de passar por um beco, não há como constatar, mas pelo que observam, devem estar no centro comercial do lugar. As ruas são mais largas e a quantidade de carros abandonados e tombados é maior, ao redor há algumas lojas de mantimentos e eletrodomésticos, assim como salões de beleza e outros estabelecimentos. Porém, ainda não encontraram nenhum centro médico ou clínica.
Um barulho é ouvido, uma lata de lixo acabara de ser derrubada. Roxanne olha para a sua direita e vê um mordedor se aproximando, um homem, cerca de cinquenta anos de idade, cambaleante já que uma de suas pernas encontra-se dilacerada, ele estica os braços enquanto grunhe e tenta acelerar os passos na direção de suas presas.
̶ Mordedor! – Sussurra Roxanne chamando a atenção de Kate.
̶ É melhor deixarmos as armas para uma possível emergência! – Diz Kate puxando uma faca da cintura e tomando a atitude de eliminar o mordedor.
̶ Eu vou! – Diz Roxanne segurando Kate levemente pelo braço, a mesma para e entrega a faca a ela.
Roxanne caminha na direção do mordedor, que parece alvoroçar-se ao sentir com maior proximidade o doce e fresco cheiro de Roxanne. Ela se aproxima empunhando a faca, ergue-a com as duas mãos, e em um rápido movimento, crava-a entre os parietais da criatura, desligando-o para sempre.
O mordedor cai ao solo, Roxanne arranca a faca do crânio do monstro e a limpa em sua blusa, guardando a mesma na cintura logo em seguida. Kate olha paro os lados segurando rifle, parece atenta a qualquer movimento, aos mínimos e imperceptíveis detalhes, pois toda essa atenção pode valer sua sobrevivência.
̶ Seguimos para onde agora? – Pergunta Kate.
̶ Acho melhor olhar pra cá! – Diz Roxanne que mantém o seu olhar fixo em algo.
Kate se desloca até onde ela se encontra e passa a olhar na direção em que os olhos de Roxanne apontam. Um breve sorriso toma conta de seu rosto, pois as duas acabam de encontrar um Centro de Pronto Atendimento.
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̶ É melhor eu voltar... O Nae e o Kanato podem fazer algum alarde achando que eu sumi! – Diz Issa, ela acaba de se levantar do lado de Benjamin, os dois transaram no meio da mata, um pouco distante do galpão para não serem percebidos. Ben, que ainda se encontra deitado, observa o belo corpo nu de Issa, que começa a vestir-se. Ela volta a falar:
̶ Se sente melhor?
̶ Uma trepada é sempre animadora! – Exclama ele, Issa lhe dá um olhar de reprovação e em seguida os dois riem. Benjamin prossegue – Eu ainda me sinto perturbado... Mas não se preocupe, isso não vai prejudicar o meu senso de decisão! Ainda prezo por esse grupo e vou continuar fazendo o que for necessário para mantê-lo seguro e unido!
̶ Inclusive virando amigo do James? Eu vi que ele voltou sem as amarras e parece se sentir a vontade... – Diz Issa em uma tonalidade mais séria enquanto veste o sutiã.
̶ Aqueles três são tão perigosos quantos ratos! Eles não tem nada a ver com a morte do Dave.
̶ Você tem certeza? O Rich estava todo esse tempo com eles e... – Benjamin a interrompe:
̶ Issa, eu sei o que estou fazendo!
Ela o olha, termina de vestir sua roupa e começa a caminhar, sem nada dizer, rumando de volta ao galpão. Ben ainda exclama mesmo sem obter resposta:
̶ Se alguém perguntar por mim invente alguma coisa...
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̶ Com toda certeza esse é o lugar que vai ter tudo o que a grávida falou! – Exclama Kate enquanto sobe as escadas que dão de frente a entrada principal da clínica.
̶ Vamos entrar, pegar tudo e sair o mais rápido que pudermos, aquele pode não ser o único mordedor por aqui! – Diz Roxanne.
A beira da escadaria, uma ambulância encontra-se batida, ao lado dela é possível ver algumas macas jogadas, além de corpos cobertos por lençóis, o cheiro é muito forte. A partir do momento em que vão ultrapassando os degraus, o cheiro podre vai se ampliando e as marcas de sangue e tiro por toda a parte também.
Após subirem os degraus as duas se encontram de fronte a porta principal, que está presa por algumas correntes e cadeados. Kate oberva e segura as correntes, atestando que as mesmas são extremamente intransponíveis.
̶ E agora, como vamos entrar? – Indaga Kate.
Kate solta as correntes que ao baterem na porta provocam um leve som, som esse que se propaga e gera o início de uma movimentação do lado de dentro da clínica.
̶ Ouviu isso? – Pergunta Kate.
Grunhidos e passos começam a serem ouvidos, todos em grande quantidade, o som que agora se torna alto e grave, se aproxima da porta pelo lado de dentro, a mesma passa a se mexer e a ser golpeada. É notório que há uma quantidade grande de mordedores do lado de dentro da clínica.
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