Ante Mortem / Post Mortem - Interativa
24 Capítulo 24 - Planos Interrompidos VI
Notas iniciais
O corpo de Kate se debatia no solo, clamando em silêncio por um socorro que em hipótese alguma chegaria. Suas mãos singelas seguravam com toda a força as de Roxanne, espremendo-as entre os dedos, enquanto sua garota apenas se debulhava vendo-a deixar de existir. O mordedor caíra por sobre o seu corpo, ainda se aproveitando de sua carne, enquanto Roxy tentava levantar-se pra ajudar, para fazer algo que pudesse remediar tamanha dor, em vão.
As costas de Kate começam a ser dilaceradas, ela entra em choque e seu corpo não responde mais por si, seus olhos arregalados ainda fitam Roxanne, como se ainda pudesse haver salvação. Sua boca se abre e o sangue começa a escorrer por entre os lábios que há segundos atrás tocavam os de sua amada, a força começa a deixar o seu corpo, sua mão se amolece, seu corpo se rende, os olhos se fecham e o sofrimento se cessa.
Roxanne consegue desvencilhar a sua mão da de Kate, erguendo o corpo de súbito logo em seguida. Ela olha para o chão e vê sua companheira sendo devorada pela criatura horrenda que as surpreenderam. Sua respiração está dispneica, seu coração parece que irá saltar pela boca e as lágrimas escorrendo por seu rosto mais parecem dois rios paralelos. Roxy olha para trás, tenta enxergar algo em meio a toda a escuridão, afasta-se alguns passos do local do incidente e percebe que o mordedor ainda se alimenta de Kate, não dando atenção a sua presença.
Ela pensa em correr, pensa em lutar, não sabe o que fazer ou como fazer. Ainda é muito cedo para raciocinar ou mesurar o que acabara de ocorrer, em sua mente, Roxanne ainda torce para que tudo não passe de um terrível pesadelo, um horrendo e lúcido pesadelo. Outro barulho é ouvido, seguido de mais grunhidos, sua cabeça gira para todos os lados desviando a sua visão na tentativa de enxergar algo. As ruas ao redor da agência dos correios são estreitas, não podendo ser perceptíveis na escuridão. Roxy respira fundo, tenta controlar-se, suas mãos e pernas tremem e as mesmas parecem estar pregadas ao solo frio. Uma fumaça gélida sai por seus lábios enquanto a mesma respira e inspira fundo.
Um latão de lixo é derrubado, seguido de um som seco bem perto de seu ouvido. Um podre cheiro toma conta de todo o lugar, um terrível aviso de que em meio à escuridão, diversos mordedores se aproximam. Mas como tudo pode acontecer tão rápido? Como podemos ter sido atacadas de uma maneira tão estúpida? Como não percebemos a aproximação desse mordedor? Tais perguntas rodeiam a mente de Roxanne que segue insistindo para si mesma: “Isso não pode ser real, essa droga não pode ser real...”.
Os sons provenientes das gargantas podres dos monstros se tornam mais altos e quase uníssonos, como uma orquestra do nono nível do inferno. Roxanne finalmente toma uma atitude, vira o corpo para a esquerda e começa a correr, na tentativa de chegar até a rua principal que fica há algumas centenas de metros dali, lá ela teria a iluminação ao seu favor e poderia se esconder em algum lugar. Antes que pudesse deixar o local, ela sente algo muito próximo, uma mão encostar em seu casaco, por trás. Roxy grita e tenta fugir, porém a mão rija a segura, tentando puxá-la para o solo, um mordedor tentando fazer dela sua presa. Desesperada ela abre o zíper do casaco, deixando-o para trás e acelerando ainda mais o passo. Ela novamente é impedida, dessa vez esbarra em mais mordedores, dois, que bloqueavam sua passagem. Só agora Roxanne percebe que aquilo não era um sonho ou ilusão, só agora ela percebe que está cercada pela morte.
Uma mão podre toca os seus cabelos, tentando cravar suas garras em seu couro cabeludo, outra mão a segura pelo braço. O cheiro do bafo do mordedor é sentido bem próximo a suas narinas, seu estômago se revira, se ela tivesse comido algo com toda a certeza vomitaria naquele mesmo instante. Roxanne usa os braços para tentar escapar, tudo somado a chutes e empurrões, além disso, os seus gritos também se tornam mais altos e desesperados. Ela sente um ardor em seu ombro, a adrenalina está muito alta para ela identificar o que se trata. Outro ardor é sentido em seu antebraço, dessa vez ela consegue perceber o sangue escorrendo, e em grande quantidade.
Ela segue chorando enquanto toma uma decisão desesperada. Sendo segura por pelo menos três mordedores, Roxy joga todo o peso do corpo por sobre eles, caindo ao solo em uma arriscada e imprudente manobra. Um dos monstros a abraça, cravando suas unhas em seu cóccix. Ela grita ainda mais enquanto desfere cabeçadas a esmo nos corpos podres dos ‘cabeças ocas’, conseguindo ser largada por um deles. Roxanne sente uma mordida em sua mão esquerda, a criatura cravara seus dentes lá como se fosse o mais precioso pedaço de carne.
Em um bruto movimento, ela consegue retirar sua mão da boca do mordedor, mas não a tempo de impedir a mordida que quase arrancara pelo menos três de seus dedos. Roxanne consegue se levantar, porém o terror ainda não havia terminado. Um dos mordedores consegue agarrar o seu tornozelo esquerdo, mordendo-o com ferocidade. Ela grita de dor, mas se vira e desfere um chute com o outro pé, conseguindo livrar-se novamente.
Mancando e extremamente ferida, a professora de literatura começa a correr arrastando a sua perna machucada, tentando desesperadamente se afastar do perigo. Ela segue em linha reta, tomando um beco que se mostrou ser a única rota de fuga plausível. O lugar ainda é escuro, porém, uma luz no fim do mesmo sinaliza que a rua principal será alcançada logo logo. Roxanne caminha praticamente sem respirar, sente sua garganta arder, tamanho cansaço. Seu corpo todo parece estremecer enquanto sua visão começa a se embaçar lentamente, seus movimentos parecem estar cada vez mais e mais lentos, enquanto ela pede a Deus que o fim do beco chegue logo.
Seu caminho é concluído, ela chega à rua principal, que ainda tinha a maioria de seus postes preservados e acesos apesar do grande apagão que tomara à costa e o meio oeste logo que o caos se instaurou. Os pequenos prédios comerciais de dois andares eram as construções mais típicas daquele lugar, todos abandonados e vazios. Roxanne sente que não irá aguentar andar muitas distâncias, além dos ferimentos, há o frio que a mesma ainda sente, principalmente após perder o seu casaco. Como uma luz no final de um túnel, Roxy avista uma padaria, um lugarzinho amistoso e intimista, com algumas mesas à frente, uma cópia barata dos restaurantes parisienses.
A rua é atravessada, seus piedosos passos a fazem se aproximar do estabelecimento. Ela se depara com a porta, gira a maçaneta e para a sua surpresa, a mesma se abre. Roxanne adentra o estabelecimento, fechando a porta logo em seguida e sentando-se ao solo. Ela está encostada no que já fora o balcão de atendimento, o lugar está entregue as moscas, há pães jogados ao solo, assim como alguns quilos de farinha de trigo estragados, amontoados a beira da entrada.
Roxanne fecha os olhos e tenta controlar sua respiração. Ainda muito trêmula, ela ergue o braço verificando o que ocorrera, e assim pode constatar que há um grande arranhão em seu antebraço, de pelo menos sete centímetros, assim como uma grande mordida em sua mão, onde grande parte da carne de suas falanges ficou como aperitivo para um dos mordedores que a atacara. Sua outra mão se direciona a seu ombro, onde também há sangue escorrendo, ela não pode ver, mas com certeza há um grande arranhão naquela região. Por último, Roxanne observa o último de seus ferimentos, o último e o maior. Uma enorme mordida em seu tornozelo, onda ainda é possível ver as marcas dos dentes da criatura, um grande pedaço de tecido fora arrancado.
Sua pele queima, ela sente como se um maçarico aceso estivesse em contado com seus ferimentos o tempo todo. Uma grande fraqueza passa a tomar conta de seu corpo, além de sua respiração começar a diminuir gradativamente; ela está entrando em colapso. Sua visão fica turva e ela começa a ter alguns desmaios que duram poucos segundos, como se o seu cérebro fosse ligado e desligado diversas vezes seguidas, mais parecendo um interruptor.
A dor segue latente, a infecção já se torna presente e tudo o que ela pode fazer é chorar, não consegue juntar forças para mais nada. Ainda lúcida, Roxy tenta se prender aos pensamentos felizes de sua vida nesse momento tão cruel, talvez isso sirva como uma anestesia, ou uma injeção letal. Ela então começa a se lembrar da infância no Kansas, de como tudo era simples quando apenas os adultos tinham grandes preocupações, de como sua adolescência fora turbulenta e até da sensação da primeira e única vez que experimentara um cigarro de maconha. Na vida adulta, prendia-se aos momentos felizes em Stanford, durante sua formação acadêmica.
Sua cabeça cai para o lado, ela está fraca demais para manter-se alinhada, ao mesmo tempo em que calafrios começam a tomar conta de si, um horrível misto de frio cortante e calor infernal. O seu cérebro parece apagar-se lentamente, como luzes de natal. Primeiro ela para de sentir as pernas, em seguida sua vista fica escura, e então as alucinações começam a surgir. Roxanne começa a ouvir vozes, todas ao mesmo tempo, como se brigassem por espaço para falar.
̶ Olá! – Uma dessas vozes se destaca em meio às outras, Roxanne tenta enxergar algo, mas tudo permanece enegrecido. A voz prossegue – Eu não tive tempo de te responder meu amor, mas eu também te amo! – Roxanne reconhece a voz em sua mente como a de Kate, porém ela nada pode fazer, nem sequer responder – Me desculpa por ter feito isso... Eu sei que o que ocorreu nessa madrugada foi minha culpa! Eu só queria que ficássemos juntas, juntas para sempre! – Roxanne tenta novamente se mexer, porém o seu corpo não a responde mais. A voz ilusória de Kate conclui – Não precisa mais lutar meu bem, chegou a hora... Chegou a hora Roxy!
Seu coração para de bater, sua respiração se cessa e seus olhos se cerram, a vida a deixa como uma fumaça que desponta em uma fogueira. O corpo de Roxanne se entrega de uma vez a avassaladora infecção que a tomara conta, o sofrimento finalmente chegara ao fim.
Duas horas se passam, o corpo recostado a lateral do balcão de atendimento do recinto permanece na mesma posição. O sangue de seus ferimentos se espalhou pelo chão engordurado da padaria. A pele de Roxanne encontra-se branca como uma vela, suas veias despontam arroxeadas e tomam conta de seu rosto. Um fino som pode ser ouvido, como um chiado perpétuo. Os dedos da mão esquerda de Roxanne começam a se mexer como em um espasmo. Um filete de ar sopra por suas narinas, e os dedos dos seus pés começam a responder aos estímulos de seu cérebro recém-religado. Como em uma sincronia, os olhos de Roxy se abrem, simultaneamente, leitosos e totalmente esbranquiçados. Sua mandíbula passa a ser aberta enquanto um grunhido começa a ser soado por seus lábios. Ela acabara de se tornar um mordedor, acabara de se tornar o que mais temia.
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O dia está claro, diferente das outras manhãs desde que o inverno se estabelecera. O sol segue as escondidas, preguiçoso, porém a temperatura que ultimamente andava baixíssima, passou ao nível de apenas baixa. O nível de neve no asfalto com certeza aumentou alguns milímetros, porém a sensação térmica não condiz com a nevasca que caíra na última madrugada, talvez uma das mais rigorosas.
Dois pares de botas caminham sobre toda a neve que tomara cota do asfalto do pequeno condado. Benjamin e O’Donnell se movimentam com destreza e cuidado, ao mesmo tempo em que prestam bastante atenção a qualquer movimento que seja. O primeiro cobre-se com um casaco com capuz e luvas, nas mãos carrega um facão, na cintura uma pistola e nas costas uma mochila. O segundo parece não se incomodar tanto com o frio, está sem luvas e sem gorro, apenas cobre-se com um casaco, não tão suntuoso quanto o de seu companheiro, apenas o suficiente para não morrer congelado. Em suas mãos O’Donnell carrega a inseparável machete e assim como Ben ele também trás uma mochila.
Os dois saíram pela manhã e decidiram vasculhar alguns estabelecimentos em busca dos mantimentos que o último grupo não conseguira coletar. A moto de Lance fora deixada algumas vielas atrás, onde a dupla decidiu seguir a pé. Seria mais fácil já que a Davidson costuma derrapar bastante nessas condições.
̶ O que pegou na última lojinha? – Pergunta Benjamin.
̶ Cê sabe... Cigarros, plaboy’s... Só o indispensável! – Responde O’Donnell.
̶ Vamos tentar não nos distanciarmos muito do trailer, a neve nos deixa mais lentos e não podemos nem pensar em nos perdemos! – Avisa Ben redirecionando o assunto.
̶ Não se preocupa, ninguém lá vai nos deixar para trás! – Responde Lance secamente.
Benjamin percebe o tom de crítica na frase do motoqueiro, sua cabeça ainda está muito cheia para ouvir certos tipos de insinuações. Ele vira-se na direção de O’Donnell e o encarando, indaga:
̶ Tá querendo dizer alguma coisa?
O’Donnell devolve o olhar e responde sem pestanejar:
̶ Eu não fui claro o suficiente?
Benjamin dá dois passos na direção do motoqueiro, ficando cara a cara com o mesmo. Sua cabeça parece estar a ponto de explodir.
̶ Você e o Matt nunca fizeram parte desse grupo... Assim como o James também não! Se algo na minha maneira de pensar não o agrada – Ele aponta para o horizonte – Pega a porra da tua moto e cai fora! Ninguém vai sentir tua falta!
Lance dá um breve sorriso, sua mão se dirige ao cabo da machete, ele parece se preparar para empunhá-la. Ao mesmo tempo Benjamin também toma nas mãos o facão, segurando-o com firmeza, pronto para qualquer contragolpe que possa surgir.
̶ Quer mesmo atestar quem é o mais rápido? – Indaga O’Donnell.
Benjamin ainda o encara, os dois estão frente a frente, com suas armas em mãos, prontos para um duelo, como nos filmes de ‘bang-bang’. Um grunhido interrompe a possível luta, um mordedor que estava na ‘plateia’, resolve se juntar ao show. Uma criatura tão desprezível e deteriorada que mal se podia identificar o seu sexo. Trapos sujos de sangue e corrimento escorrendo pelo abdome aberto formam um dos mordedores mais nojentos que os dois já presenciaram, o seu odor pode ser sentido a jardas de distância.
Um sinal de cabeça dado por Ben sinaliza a proximidade da criatura. Lance olha para o lado e ao avistar o mordedor, ergue sua machadinha e se dirige até o mesmo para eliminá-lo. Benjamin apenas o observa, a passos tranquilos, se aproximar do monstro horrendo calmamente e desferir sobre o crânio do mesmo um forte golpe, atingindo o seu lóbulo temporal direito e fazendo jorrar fluido cerebral por todo o asfalto.
Benjamin observou atentamente os movimentos de O’Donnell, analisando friamente os seus modos em ‘batalha’. É perfeitamente notável que Lance é o mais habilidoso do grupo em eliminar mordedores, e Benjamin já começa a pensar que talvez não seja muito saudável virar inimigo de um homem desses. Apesar de ter um certo cuidado com o motoqueiro, Ben também tem em sua mente, alguns fatos muito bem definidos, um deles é: “Se alguém me desafiar, passarei por cima”. Ele não se imagina perdendo o cargo de liderança, e se por um acaso vier a se sentir ameaçado, fará de tudo para afastar tal ‘mal’.
O’Donnell faz um sinal para Ben enquanto o mesmo ainda viajava em seus pensamentos.
̶ Ô ‘Don Corleone’, chega aqui!
Benjamin caminha lentamente na direção do motoqueiro. Ao se aproximar avista uma grande mancha de sangue sobre a neve, que pela consistência, ainda deve ser recente.
̶ O que acha que foi isso? – Pergunta Ben olhando seriamente para o solo manchado.
O’Donnell se abaixa, toca a mão direita coberta pela luva sobre o sangue e tenta medir a sua consistência.
̶ Eu acho que isso aqui é sangue humano... – Ele cheira o próprio dedo – Talvez seja recente...
Kate e Roxanne são as primeiras pessoas a virem nos pensamentos de Benjamin após escutar tal constatação. Ele começa a imaginar que talvez as duas tenham sucumbido após terem saído tão bruscamente do trailer.
̶ Droga! – Exclama Benjamin.
Ele olha para a sua direita e se depara como uma cena que ele com certeza iria preferir não ter visto. A imagem horrenda se tratava de um corpo dilacerado jazido sobre a neve, o intestino espalhado para fora por uma abertura em seu abdome. As pernas inteiramente devoradas, restando os ossos e alguns resquícios dos músculos. O rosto também se encontra semi dilacerado, tornando difícil a identificação.
̶ Que merda é essa? – Indaga Lance enojado ao se deparar com o corpo.
Dessa vez é Benjamim quem se aproxima, ele se abaixa e toca o corpo delicadamente com a ponta dos dedos. Ao realizar tal ato, o corpo começa a estremecer-se, soltando um fino grunhido pela boca.
̶ Deus! – Exclama Ben ao levantar-se de súbito.
O corpo dilacerado que se tornara um mordedor tenta esticar os braços na direção dos que se encontram de pé a sua frente, porém não há condição alguma que aquele emaranhado de carnes consiga se mexer. Benjamin começa a olhar atentamente para o mordedor, tal criatura, apesar de toda a deformidade, parece trazer em si algo que ele conhece, alguma semelhança.
̶ Não... Não... – Benjamin pareceu ter tido um ‘click’ em sua mente, olhou bem para o mordedor que inutilmente tentava fazer dos dois suas presas, e conseguiu reconhecê-lo. Sim, se tratava de Kate.
̶ O que foi cara, quer eu acabe com esse cabeça oca? – Questiona Lance sem entender o motivo do espanto de seu ‘parceiro’.
̶ Esse cabeça oca é a Kate! Essa merda... – O militar passa as mãos nos cabelos e dá dois passos para trás – Ela foi pega! Foi comida... Se transformou nisso! Eu disse para aquela filha da puta não deixar o trailer! Eu disse que ninguém podia deixar o trailer! – Completa ele exaltado.
O’Donnell se dirige até o corpo de Kate, empunha firmemente sua machadinha nas mãos e a atinge com apenas um golpe, entre os olhos, acabando pela segunda vez com a sua existência.
̶ Acabou! Ela já era agora! – Manifesta-se O’Donnell.
Benjamin começa a olhar para o solo ao seu redor, parece farejar o chão, como se estivesse procurando por pistas de algo. Ele começa a vasculhar a neve com as mãos, até se deparar com mais um rastro de sangue, um mais fino e que tem sua trajetória muito bem delineada. Uma mancha de sangue que se desloca pela rua, pingos quase tracejados que os levam até outra viela.
̶ Se aquela era a Kate, isso seria...
O’Donnell é interrompido:
̶ Roxanne! – Responde Ben, que prossegue – Elas devem ter sido atacadas aqui, Kate foi pega, mais a Roxy conseguiu fugir... – Dessa vez é O’Donnell quem se intromete:
̶ Se esse rastro é dela, ela se feriu de alguma forma... – Diz ele olhando para o sangue sobre a neve – E se elas foram atacadas juntas, então a outra ‘sapata’ deve ter sido mordida!
Ben se atenta novamente as palavras de O’Donnell, e raciocina naquele mesmo instante que o motoqueiro tem razão. Ele se desloca a frente seguindo o rastro, Lance começa a caminhar logo atrás. A mancha de sangue adentra uma viela mais soturna, que mesmo de dia parece bem perigosa. O caminho segue até a rua principal, no fim do beco, perto de alguns blocos de pequenos prédios. Os dois sacam as suas armas e com leves passos se deslocam tentando encontrar o que pode vir a ser Roxanne. Ao chegarem à rua principal, Lance exclama:
̶ Caralho!
Os dois retornam para a viela rapidamente. A visão na rua causou espanto em Lance por um simples motivo: Cerca de trinta – ou mais – mordedores se encontravam vagando pela pequena avenida, deixando o lugar intransponível. Os monstros devem ter sido atraídos pelo ataque a Kate e Roxy na madrugada. Por sorte, nenhum dos dois fora percebido pelas criaturas.
̶ Não dá para passar! – Exclama Benjamin ofegante pelo susto.
̶ Sem chance... Será suicídio seguir a porra desse rastro! – Concorda O’Donnell – Vamos ter que voltar! – Completa.
Benjamin começa a pensar nas implicações que tal atitude pode causar, porém depois de ter encontrado Kate em tal situação, era muito plausível acreditar que Roxanne também acabara tendo o mesmo destino.
̶ Eu não gosto de você e você não gosta de mim... Isso é um fato! – Ele olha para Lance – Apesar disso eu tenho que te pedir uma coisa... Vamos deixar essa história da Kate e da Roxy somente entre nós, ninguém no trailer precisa saber disso!
̶ Porque? – Indaga Lance – Porque não conta a eles que elas morreram? Iria aliviar a tua barra...
̶ Eles já tiveram muitas perdas... Prefiro que pensem que simplesmente as deixei para trás do que dizer que elas estão mortas! É melhor eles manterem um pouco de esperança...
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̶ Ainda pensando na noite passada?
Matt pergunta a Emily que se encontra a frente o trailer, do lado de fora. Ela e sua filha apreciam a vista deserta da abandonada cidade.
̶ Foi um dia e tanto... Não tenho nem palavras para tudo o que aconteceu... – Responde ela, porém sua face não condiz com suas palavras.
̶ Não parece tão contente assim... – Diz Matt se aproximando dela ainda mais.
̶ Eu não sei se estamos seguindo o caminho certo... Eu... Eu só penso na minha filha agora! Não quero acabar em uma vala sem comida! Eu sei que o Benjamin só quer nos proteger, mas eu não sei ele está tomando todas as decisões corretas...
Matt coloca a sua mão direita no ombro que Emily e diz:
̶ Eu entendo você completamente... Eu só tenho olhos para minha sobrinha! Não conseguiria viver sem ela... Eu, sei lá! Sinto que as coisas vão começar a mudar para melhor agora!
Emily dá um breve sorriso e olhando nos olhos de Matt diz:
̶ Espero que esteja certo... Obrigada! Obrigada por tentar melhorar a minha manhã.
Matt olha para Lillyan e faz um pedido a mãe da menininha:
̶ Eu posso segurá-la um pouco?
Emily acena positivamente com a cabeça e em seguida entrega delicadamente sua bebê nos braços de Matt. Ele a segura no colo e começa levemente a ninar a pequena criança.
̶ Que linda que você é! – Sussurra ele para Lillyan – Puxou a sua mamãe!
Emily apenas sorri, olha novamente para Matt e indaga-o:
̶ A Lisa está com a Des?
Sem tirar os olhos da recém-nascida, Matt responde:
̶ Bom, as duas estão dentro do trailer... – Ele faz uma breve pausa – Foi muito brutal o que aconteceu com ela... Em um mundo organizado as pessoas demoram a se recuperar desses traumas, imagina então em uma merda como essa? Eu não sei se ela um dia ‘voltará ao normal’! E o pior é que...
̶ O que foi? – Pergunta Emily intrigada.
̶ Eu me sinto culpado... Fui covarde, não consegui agir, eu só queria sair daquele lugar... Só queira que aquele inferno terminasse!
̶ Você não teve culpa alguma! Foi uma fatalidade... Foi só uma fatalidade. – Ela se aproxima do rosto de Matt, toca o seu queixo com as pontas dos dedos e em seguida lhe dá um breve beijo na boca – Essas coisas acontecem...
̶ Tio Matt! – Uma exclamação vinda de dentro do trailer interrompe o momento, Lisa passa a chamar por seu tio.
̶ Eu tenho que ir ali... Eu... Depois nos falamos! – Diz ele um tanto desconcertado. Emily sorri e acena com a cabeça, tomando sua filha nos braços logo em seguida. Matt se encaminha e adentra o trailer.
Emily permaneceu do lado de fora, ninando sua filha, pesando em tudo o que ocorrera e no que ainda poderia ocorrer. Já fazia um bom período de tempo que ela não avistava um mordedor, e por isso ela começa a pensar de maneira mais otimista. Talvez Matt estivesse certo, talvez as coisas fossem realmente melhorar.
A moto de Lance O’Donnell começa a se aproximar do trailer, ele e Benjamin estão voltando após uma manhã de coleta de suprimentos. Os dois estacionam e descem do veículo de duas rodas logo em seguida, suas mochilas estão aparentemente cheias. Eles passam a caminhar na direção do trailer, Emily olha para os dois e pergunta:
̶ Conseguiram muitas coisas?
̶ Sim madame! – Exclama O’Donnell que se dirige diretamente para o trailer, adentrando-o.
Benjamin aproveita a deixa e se dirige até Emily, para diante dela e com a cabeça um pouco abaixada, começa a falar:
̶ Eu sei que você ainda deve estar se perguntando o motivo de eu ter feito aquilo com o James...
̶ Olha Ben, não precisa se explicar pra mim... Sei que teve os seus motivos, só não consigo compreendê-los!
Ben toca o braço de Emily e prossegue:
̶ Ele acabou se tornando uma ameaça... Não conseguiríamos seguir em frente se ele continuasse no grupo... – Ele parece refutar – Ele confessou para mim que matou o Kanato!
Emily se espanta e dá um passo para trás.
̶ O que? Mas ele disse que o Kanato havia sido pego pelos mordedores! Porque ele mataria o garoto?
̶ Eu não sei... – Ben engole a seco a própria mentira – Ele estava completamente transtornado! Acho que não aguentou a pressão desse ‘novo mundo’!
Emily respira fundo, ainda tenta mensurar o que acabara de escutar, ouvir que um de seus companheiros de jornada matara alguém a sangue frio, principalmente um garoto como o Kanato, é algo muito pesado. Ela começa a pensar se realmente conhecia o James que a salvara em um posto de gasolina, se aquele homem bondoso um dia realmente existiu.
̶ É por isso que temos que partir... Mesmo sem Kate e Roxanne! Elas saíram pelo condado, eu e O’Donnell procuramos por elas... Só o que encontramos foram mordedores... Para a nossa segurança e principalmente para a segurança da pequena Lillyan, nós precisamos partir agora, você me entende?
Emily o olha nos olhos e balança a cabeça positivamente, Benjamin ainda prossegue:
̶ Você não sabe o quanto é difícil estar na minha posição... – Ele começa a levemente passar sua mão nos ombro de Emily – Eu só queria poder diminuir essa pressão sobre mim... – As mãos de Benjamin começam a passear pelo corpo de Emily, chegando até sua cintura. Ela fecha os olhos enquanto ele a fita – Você entende o que quero dizer não é?
Um suspiro dado por Emily era resposta que Benjamin queria, ele se aproxima ainda mais da estudante de enfermagem e toca os seus lábios nos dela, gerando desse contato um caloroso e ardente beijo. Emily lhe dá um breve empurrão, cessando o beijo:
̶ Não Ben, assim não... – Ela segue ofegante – Eu to com a minha filha no braço, eu... Eu preciso entrar, tá frio aqui fora! – Exclama Emily trêmula e visivelmente assustada. Benjamin apenas a observa enquanto a mesma se dirige com as pernas bambas até a parte de dentro do veículo do grupo.
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O grupo se organizara e na tarde daquele mesmo dia resolveram partir de volta a estrada. Ninguém tocara mais no assunto ‘Green Bay’, apesar de ser o único plano que despontara para eles desde que saíram do galpão. O frio diminuía a cada dia, e com ele as nevascas também se mostravam menos presente. O clima dentro do trailer era bem pesado, Deschen seguia falando muito pouco, se assemelhava muito a sua situação quando perdeu o braço. O’Donnell em sua moto só queria saber de fumar, de cara para o vento e pegando a estrada, ele com certeza era quem melhor se sentia naquele momento. Matt passou a se aproximar mais ainda da sobrinha, lendo alguns livros velhos que encontrou dentro do trailer, além disso, ele também seguia pensando muito em Emily, principalmente por conta do beijo antes de partirem. Emily é claro, passava noventa por cento do seu tempo com sua garotinha, dando de mamar e brincando com ela, ao mesmo tempo em que também pensava bastante sobre sua vida; sobre o beijo dado em Matt e o recebido por Ben, sobre James, Kate e Roxanne que foram deixados para trás, enfim, sua mente viajava bastante. Benjamin, bom, Ben seguia com suas perturbações diárias, sempre tendo em mente algum plano ou pensando em algum lugar para o grupo se deslocar; ele sabia que era sua tarefa tomar essas decisões e isso lhe caía muito bem.
Foram quatro dias seguindo a interestadual, dormindo na beira da estrada, vagando por milhas e milhas sem encontrar um ‘viva alma’ sequer. Na cabeça de todos ali, o futuro será esse permanentemente, sempre tendo que procurar um novo local para dormir, se preocupando sempre em conseguir o básico para sobreviver. Uma ‘vida cachorra’ para todos eles que durante anos se acostumaram ao mundo como ele era, com todas as suas privações e luxos, um mundo que já era sujo e se fez ainda mais após ser assolado por esse apocalipse. Talvez Lillyan seja quem melhor irá se adaptar a essa nova condição, a garotinha não conheceu o ‘passado’, e o seu presente e futuro irá se resumir a busca constante pela sobrevivência; seja o que for, custe o que custar.
Na tarde do quarto dia, aproximadamente às quatro da tarde, o trailer seguia o seu caminho pela grande estrada. Benjamin já dirigia a mais de três horas seguidas, e o cansaço pregara quase todos ali dentro em um merecido sono, apenas Matt seguia acordado. Diferente dos outros dias, a neve voltara a aparecer, fraca, porém constante. Um cuidado a mais para Ben já que assim o asfalto se torna uma pista de hockey de tão escorregadio.
̶ O que tá acontecendo aí atrás? – Pergunta Benjamin ao ver Matt se aproximando, ele segue ao volante e está visivelmente esgotado.
̶ A Deschen segue dormindo lá atrás, e bom... Ela não sai de lá mesmo! – Ele dá um sorriso – Acho que a Emily também cochilou, a Lillyan tava chorando muito... Acho que a duas ‘desmaiaram’!
̶ Sorte nossa estarmos na estrada! – Diz Ben. Matt o olha intrigado e questiona-o:
̶ Não entendi...
̶ A Lillyan, ela tem chorado bastante... Imagina se estivéssemos em um abrigo, ou parados em alguma cidade... Ela seria um imã para mordedores!
̶ Verdade, mas isso é uma coisa que não podemos controlar! – Volta a dizer Matt.
̶ É... Não podemos...
Benjamin começa a olhar para o painel do trailer, ele verifica os dados, tentando descobrir se tudo corre normalmente. É nesse momento que ele comete um erro, os segundos de desatenção ao tirar os olhos do caminho, lhe custa uma colisão, uma grande colisão. O trailer bate de frente com uma fila de carros que se encontravam atravessados na estrada, como se posicionados para interditá-la, de um lado a outro da pista, bloqueando inteiramente o caminho. O impacto causa um grande barulho, todos caem quando a colisão ocorre, o veículo perde o controle e sai da pista, parando em uma árvore a cerca de vinte jardas do local da batida.
Fumaça começa a sair do motor que provavelmente deve ter ‘estourado’. Benjamin abre os olhos, olha para os lados tentando se reposicionar, o impacto causara nele uma grande dor de cabeça, e, além disso, ele ainda não compreende o que aconteceu. Seu cinto é desafivelado e ele olha para trás tentando mensurar o estado dos outros passageiros. Emily estava assustadíssima, por sorte nada ocorrera a ela e sua filha, que apenas passou a chorar por conta do susto. Matt caíra no chão do trailer, mas já estava levantando-se e se dirigindo rapidamente na direção de Lisa. Deschen sofrera um pequeno corte na testa, porém se encontra lúcida e aparentemente bem.
O som da moto de O’Donnell se aproximando é escutado, ele fora o único que não se envolveu no acidente, já que seguia o trailer e pode ver a barreira de carros antes da colisão. O motoqueiro para do lado do veículo e começa a bater na lateral do mesmo, gritando:
̶ Saiam daí! Vocês tem que sair daí!
Matt se levanta e olha pela janela do trailer, arregala os olhos e também exclama:
̶ Merda! Merda! Olha isso Ben!
Benjamin se dirige até o local indicado e também olha pela janela, ao por os olhos na estrada, ele pode ver que a barreira de carros bloqueava o sentido principal da interestadual e também uma entrada a direita, entrada essa que leva a uma pequena cidade, mais um dos muitos condados de beira de estrada. Porém, o que os assusta é o fato de que a barreira protege a entrada da cidadezinha de mais de uma centena de mordedores, que por conta de sua falta racionalidade, encontravam-se amontoados e barrados pelos carros. Essa quantidade enorme de mordedores começa a se aproximar rapidamente do trailer do grupo.
̶ Temos que sair daqui... Vamos! Vamos! Deschen! Emily! Agora! – Vocifera Benjamin se deslocando até a porta do trailer.
̶ Precisamos pegar alguma coisa? – Indaga Emily.
̶ Não! Vamos deixar tudo para trás... Só temos que sair agora ou estaremos mais fudidos do que já estamos! – Responde Benjamin.
̶ Segura na minha mão querida, não me solta por nada! – Diz Matt se dirigindo a sua sobrinha, ela está visivelmente assustada com o acidente e a fuga inesperada.
Ben abre a porta do veículo, ele já posiciona nas mãos o seu facão, pronto para agir. Matt, Lisa, Deschen, Emily e Lillyan saem do trailer, seguidos logo atrás pelo líder.
̶ O’Donnell! Me ajuda na cobertura! – Exclama Benjamin já se preparando para o primeiro ataque.
O motoqueiro desce de sua Davidson, toma a machete nas mãos e se posiciona ao lado de Benjamin, prontos para cobrirem o grupo que tenta fugir. Muitos dos mordedores já se aproximaram, uma quantidade absurda que parece aumentar cada vez mais. O grande grupo se deslocou de uma vez depois do acidente, suas atenções estavam votadas ao ‘povo’ de Benjamin, talvez caíssem bem como o lanche daquela tarde.
O’Donnell atinge um dos mordedores com um golpe de machete, eliminando-o ao partir sua deteriorada cabeça em duas. Benjamin acertara mais dois, todos os golpes igualmente certeiros.
̶ Pra onde vamos?! – Indaga Emily extremamente assustada, ela abraça fortemente sua filha.
̶ Temos que chegar até o outro lado da barreira de carros, isso vai atrasá-los e poderemos ir até a cidade! – Responde Benjamin apontando para o outro lado.
Deschen, que também carregava uma faca, passou a eliminar ferozmente um número razoável de mordedores, ela parecia descarregar toda a sua raiva naqueles rápidos e certeiros golpes.
O grupo seguiu se deslocando entre os mordedores, a manobra era muito perigosa, porém não havia outra solução em mente. Eles não podiam encarar todas aquelas criaturas, mas podiam eliminar o suficiente para abrir caminho para uma fuga segura, ou pelo menos era o que eles imaginavam. Todos conseguiram avançar até a frente da barreira de carros, porém ainda haviam muitos mordedores com os quais se preocupar, um deles quase arranhou a perna de Deschen, que foi salva pela calça um tanto larga que usava. Porém a pequena Lisa não pode gozar desse mesmo privilégio, seu tio Matt, ao subir no capô de um dos carros, faltando somente pular para o outro lado para se ver em segurança, acabou não conseguindo puxar a sobrinha pelos braços de uma única vez. Um mordedor aproveitador conseguiu segurar a perna da menininha, dando-lhe uma mordida na tíbia.
Lisa gritou bastante, a dor era quase insuportável, Matt puxou-a com força pelos braços e os dois caíram do outro lado da barreira, do lado onde os mordedores não podiam chegar. Os outros integrantes conseguiram realizar o mesmo ato sem sustos e foram rapidamente na direção dos dois.
̶ Meu Deus! Lisa! Não... – Matt já chorava abundantemente enquanto verificava o ferimento na perna da menina.
O ferimento fora profundo, os dentes da criatura quase a atravessara e uma lado a outro, o sangue passou a jorrar com bastante intensidade enquanto Matt seguia sem ação, sem ter ideia do que fazer. Emily entregou sua criança nos braços de O’Donnell, que a tomou nos braços de supetão. Ela se agachou onde a menina estava deitada e passou a olhar a mordida.
̶ Matt, presta atenção! – Exclama Emily, Matt olha para ela – Tem um jeito de salvá-la, eu só quero saber se você permite...
As lágrimas escorrem com grande congruência por seu rosto, ele olha para a face da menininha, e bastante nervoso e apavorado, acena positivamente com a cabeça. Emily retira do pescoço o cachecol que usava e amarra na perna de Lisa, um pouco acima da mordida, como um torniquete. Benjamin olha para toda a cena e já imagina o seu final, respira fundo, olha para O’Donnell e diz:
̶ A machete...
O’Donnell entende o porquê do seu pedido, olha para a machete que acabara de guardar na cintura, olha novamente para Benjamin e responde:
̶ Segura a bebê... Eu faço isso!
Benjamin concorda e passa carregar a pequena Lillyan, que nem imagina o quão grave é a situação do presente momento. Ele se abaixa ao lado de Matt e Emily, retira o seu casaco e fala se dirigindo a estudante de enfermagem:
̶ Toma! Sei que vai ser preciso para estancar o sangue que vai vir... – Ele olha para Matt – Não olha cara! Não olha...
Matt fecha os olhos e segura a pequena e delicada mão de sua Lisa, a menina está variando ente o seu estado de consciência, a dor causou-a um choque imensurável. Lance respira fundo algumas vezes, ergue a mão que segura a machete, olha mais uma vez para o rosto da menina, e também fechando os olhos, desfere um único golpe na perna direita de Lisa, amputando-a de uma vez.
O sangue começa a jorrar por seus vasos, Emily comprime o coto com o casaco de Lance, enquanto o motoqueiro larga a machadinha no asfalto e aperta um pouco mais o torniquete. Matt chora ainda mais, nunca se imaginou presenciando algo tão cruel, apesar de necessário. Ver ao vivo a amputação de um membro de uma criança, é algo que só o caos poderia trazer ao bombeiro iniciante.
̶ Que merda é essa caralho! – Exclama Benjamin virando um pouco o rosto.
̶ Temos que elevar a perna dela! – Grita Emily – Ela não pode entrar em choque, não vamos poder cuidar dela assim! Temos que achar suprimentos médicos... O que tínhamos ficou no trailer...
̶ Estamos perto de uma cidade... É por isso que a porra dessa barreira foi colocada aqui... Pra proteger a merda dessa cidade! – Manifesta-se Lance abalado.
O’Donnell passa a carregar Lisa nos braços enquanto todos começam a correr pela pequena rua fechada pelos carros, a cidade correspondente não se encontra muito longe dali. O caminho se dá em linha reta, ninguém ali consegue raciocinar direito, principalmente Matt e Lance, os mais próximos da pequena que agora vê sua vida por um fio. Alguns metros de corrida se passam e eles avistam o primeiro estabelecimento, um posto de gasolina, assim como todos os outros condados, este também se encontra silencioso e vazio. Porém, como algumas constantes podem sempre variar, a do pequeno condado também se fez mutável. Assim que chegaram à frente do posto de gasolina, a primeira coisa que puderam avistar foram duas pessoas, duas mulheres paradas a frente de um bar, há cerca de trinta metros do posto.
A primeira mulher é magra, tem claros traços latinos, e é jovem, provavelmente vinte anos. Seus cabelos são negros, compridos e ondulados, seus olhos também são negros e amendoados; sua pele é levemente morena. A segunda mulher é negra, deve ter cinquenta anos e têm cabelos negros, lisos e curtos, ela é baixa e seus olhos são pequenos e negros.
̶ Ei! Precisamos de ajuda! Temos uma criança ferida! Por favor! – Grita Emily assim que avista as duas, que parecem estar abismadas com o que veem.
A primeira delas, boquiaberta chama a atenção da mais velha:
̶ O quê que é isso? – Ela faz uma breve pausa -- Precisamos do Brian... – A mulher olha para trás e exclama – Brian! Brian!
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