Ante Mortem / Post Mortem - Interativa
17 Capítulo 17 - Os Últimos de Nós II
Notas iniciais
Todos pareciam impassíveis diante do ocorrido, Benjamin era quem empunhara o rifle, surpreendendo os invasores, nenhum passo ou palavra fora ouvida por pelo menos dez segundos, todos se mantiveram na mesma posição, aguardando o próximo movimento, como em um jogo de xadrez. A escuridão só os deixava ver o contorno das pessoas ali presentes, não podendo identificar o que ou quem realmente poderia vir a ser uma ameaça.
Uma luz se acende, o homem maior que arrombara o trailer liga uma lanterna, iluminando o rosto de Ben, que mantém-se sério e firme em sua posição de protetor. A luz é direcionada a todos ali, o homem calmamente observa o rosto de todos que se encontram atrás de Benjamin, que permanece com sua mira no rosto do tal homem.
̶ Nem mais um movimento! – Exclama Ben novamente, suas mãos tremem por conta do frio, mas sua postura ainda é firme e decidida.
O homem volta a iluminar o rosto de Benjamin, praticamente ignorando as suas ameaças, ele parecer ler todos que ali se encontram, como se estivesse traçando o perfil de cada um a partir de suas feições. O homem menor, com a criança nos braços, resolve manifestar-se após toda a tensão que se instaurara ali dentro:
̶ Não precisamos disso... – Sua voz é serena e não tão forte quanto a do outro – Achamos que o lugar estava vazio, foi só isso...
̶ Se enganaram, o lugar é nosso! – Responde Ben ainda mantendo sua posição.
̶ Quer mesmo seguir a lei do “quem achar primeiro é o dono”? – Diz o homem que segura a lanterna.
̶ Não, eu quero seguir a lei do “quem tem uma arma é o dono”!
̶ O’Donnell, abaixa essa luz... – Diz o homem menor – Eu só quero um lugar para passar a noite com a minha sobrinha, se ficarmos lá fora ela morrerá, a nevasca tá muito forte!
Benjamin olha para a silhueta da criança nos braços do homem, ela encolhe-se em seu peito, tentando ampliar sua proteção contra o frio extremo.
̶ E o grandão aí é o guarda-costas? – Indaga Benjamin.
̶ Não se preocupe, ele não é perigoso...
̶ Sou sim! – Responde aquele que o outro chamara de O’Donnell.
̶ Ninguém aqui quer problemas... – Diz o homem menor em um tom apaziguador – Me chamo Matt, essa é minha sobrinha Lisa e o ‘grandão’ é o O’Donnell...
Benjamin não se manifesta, apenas imagina o que esses dois caras estariam fazendo juntos, seus perfis aparentemente são muito diferentes, ao mesmo tempo ele também passa a analisar se o grupo correria algum risco deixando que os três ficassem.
̶ Vocês tem comida? – Pergunta James dando um passo a frente.
̶ Temos sim! – Matt parece entusiasmar-se com a indagação vinda de James, Benjamin apenas observa – Comida, água... Temos até alguns doces e... Bacon em tiras! Está fora da validade, mas ainda assim são gostosos!
̶ Podemos fazer uma troca, vocês passam a noite aqui e dividimos a comida! – Volta a falar James.
̶ Feito! Faço qualquer coisa para não voltar pra aquele inferno branco! – Exclama Matt.
Benjamin não se intrometeu na negociação, mesmo que tivesse todos os poderes e direitos para tal. Pensando bem, ele percebera que a decisão ali tomada era a mais correta apesar da falta de confiança que todos adquiram em estranhos com o passar do tempo. O seu grupo estava definhando sem água e comida, e com o frio que fazia, não iriam suportar da maneira que estavam por muito tempo. James ligara sua lanterna e agora o rosto de todos pode ser visto apesar da cobertura por tecidos e mais tecidos.
Matt deve estar na casa nos vinte e oito anos, beirando os trinta, tem cabelos loiros que com o passar do tempo se mostram bem volumosos, barba rala e os olhos claros em uma tonalidade acinzentada. A garotinha em seus braços tem quatro anos, é magra e um pouco pequena para a sua idade, seus cabelos escondidos dentro do chapéu dos Leafs são castanhos e lisos, e no momento ela parece bastante assustada com tudo a seu redor.
O’Donnell é grande por natureza, impõe-se apenas com o seu tamanho, sem nada falar ele já é intimidador. Seus cabelos são lisos, grisalhos e jogados para trás, um tanto compridos, os mesmo já começam a se rebelar e a cair para os lados. Sua barba é igualmente grisalha e já toma boa parte de seu rosto, suas grossas sobrancelhas delineiam muito bem os seus olhos, deixando uma permanente ‘cara de mau’. Com aparentes cinquenta anos, talvez um pouco mais ou um pouco menos, e uma .38 na cintura, ele mostra que não está ali para brincadeira.
̶ Entreguem as armas e podem ficar! – Diz Benjamin disposto a aceitar o acordo previamente estabelecido.
Matt que segurava um machado em uma das mãos, revelado apenas quando James ligara sua lanterna, entrega-o imediatamente nas mãos de Benjamin, que aguarda por O’Donnell. Ele permanece parado, apenas encarando Ben, suas mãos deslizam até a cintura e ele retira uma carteira de cigarros, acendendo um em seguida.
̶ O’Donnel, por favor... – Pede Matt.
O homem então finalmente retira da cintura sua .38, entregando-a a Benjamin, que em seguia abaixa o seu rifle.
̶ Estamos entendidos então! – Diz James, colocando um ponto final na questão.
Todos se acomodam da maneira que lhes é conveniente, tentando aconchegar-se e de alguma maneira inútil afastar o frio. O termômetro marca 21°F, a madrugada promete ser bem difícil e desconfortável. O’Donnel recosta-se em um canto do trailer, parece mais preocupado em curtir o seu cigarro, como se ele estivesse apenas relaxando naquele momento. Matt sentara-se a mesa com Lisa ainda nos braços, aquecendo-a, após alguns minutos a garotinha pegara no sono. Benjamin e James permaneceram alertas o tempo todo, ambos empunhando suas armas, prontos para qualquer movimentação hostil. James inclusive começa a pensar qual foi a última vez que dormira tranquilo, na verdade ele preferira permanecer acordado a dormir e acabar tendo um inevitável pesadelo com sua esposa morta.
Emily que sentara-se ao lado de Matt, passou o tempo todo observando a garotinha em seus braços, seu lado maternal parecia aflorar-se naquele momento. Ela não compartilhava os seus pensamentos com ninguém, na verdade, talvez ela fosse a mais reservada de todas, todavia, Emily já pensara em não ter a criança que espera, já imaginou se não seria melhor perder o bebê a ter que criar uma criança em meio a tanta morte e sofrimento, em um ambiente em que ela cresceria sem saber o real significado da palavra paz. Olhando para Lisa, viva, protegida, seus pensamentos de outrora começam a parecer burrice, talvez uma vida inocente como a do bebê que ela espera, possa sim sobreviver em meio ao caos, talvez ela só precise de amor, assim como Lisa parece estar recebendo.
̶ Ela tem quantos anos? – Pergunta Emily a Matt, em um tom de voz que não acorde a criança.
̶ Quatro, ela é linda não é? – Matt sorri e Emily concorda, ele parece exalar simpatia.
̶ O que estavam fazendo no meio da nevasca? – Indaga ela novamente.
̶ Eu e Lisa viemos de Boston... – Ele suspira – Já passamos por tanta coisa... Encontramos o O’Donnell em Baltimore, ele nos salvou quando estávamos condenados... Rodamos quase toda a América, acabamos parando aqui apenas na moto dele...
̶ Nós tínhamos um acampamento, mas sofremos uma invasão, perdemos algumas pessoas... Aos poucos fomos ficando sem água e comida... Acho que todos já passamos por poucas e boas! – Diz Emily.
̶ Antes desse inverno maluco – Matt volta a falar – Estávamos em um taxi que conseguimos quando... Bom, não importa. Estávamos em um taxi, desses com rádio e acabamos captando uma transmissão...
̶ Uma transmissão? – Surpreende-se Emily.
̶ Sim! – Prossegue Matt – Uma voz dizia que há uma resistência ao vírus em Green Bay, um lugar seguro... Isso nos moveu a seguir na estrada!
̶ Um... Um lugar seguro? – Indaga Emily ainda engolindo e digerindo as palavras ditas.
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