Ante Mortem / Post Mortem - Interativa
18 Capítulo 18 - Os Últimos de Nós III
Notas iniciais
A neve que caíra durante toda a madrugada passada, recobriu boa parte do asfalto com uma camada de cerca de quatro centímetros, na verdade, apenas as partes abaixo de cada veículo escaparam do tapete branco que se formara. A nevasca cedeu, apenas os seus cortantes ventos persistiram em prosseguir por ali, fazendo com que a sensação térmica diminuísse em pelo menos cinco ou seis graus, e podemos dizer que isso é algo considerável. O trailer permanecera no mesmo local, ficou decidido que O’Donnell tentaria descobrir se o veículo apresenta algum problema mecânico, já que o mesmo era quem mais entendia do assunto, apesar de se resumir basicamente a motocicletas antigas.
Benjamin e James saíram logo cedo e passaram a fuçar todos os carros abandonados atrás de gasolina, o combustível seria essencial para que seguissem viagem, já que o furgão acabara sendo abandonado há poucos dias. Emily levara a eles a ideia de seguir junto a O’Donnell e Matt rumo a gravação ouvida no radio de um táxi, talvez Green Bay reservasse a eles uma sorte maior do que permanecer congelados no meio da estrada. No inicio Ben a refutou, não parecia minimamente sensato seguir viagem com três estranhos rumo a um lugar irreal, porém o tempo de desconfiança e avaliação da humanidade já passara, o grupo ganhara uma crosta, e o líder sabe que os novos ‘companheiros’ não representam uma real ameaça contra eles, principalmente desarmados. Talvez seguir a gravação lhes dê algo que a muito se encontrava perdido, a esperança.
̶ Vejo que você tá mudando alguns conceitos... – Diz James, ele está de pé, segura um galão enquanto Benjamin suga o combustível que ainda resta em um sedan.
̶ Tá falando do que? – Indaga Benjamin sem parecer se importar muito.
̶ Concordou sem fazer nenhuma guerra... Não houve nenhuma discussão, você simplesmente concordou em seguir os caras...
̶ Eu continuo o mesmo puto de sempre... – Responde ele após colocar a pequena mangueira no galão – Só estou com mais cabelo...
James dá um breve sorriso, vira eu rosto em direção ao horizonte e observa as muitas milhas de estrada que ainda terão que percorrer até chegar ao objetivo final.
̶ Juliet sempre falou sobre esse momento... – Suspira James – Ela sempre insistiu que encontraríamos um lugar seguro, um lugar em que pudéssemos tocar nossas vidas... Recomeçar...
̶ Ela era uma boa mulher... – Diz Ben, James faz um sinal de positivo com a cabeça – Porém, não acho que ela estava correta...
James o olha com espanto, ele prossegue:
̶ Estamos a cinco meses... Cinco meses! Não há como existir uma resistência ao vírus! Oras, não dá nem para saber se essa porra é mesmo um vírus! Essa doença, praga ou seja lá o que essa porcaria toda for, nos devastou! A humanidade toda foi destruída em cinco meses! – Ele olha fixo para James – No galpão eu também achava que nós éramos uma resistência ao vírus...
̶ Qual o motivo de estar nos levado para lá então? – Questiona James intriga enquanto fecha o primeiro galão já cheio de combustível.
̶ Se todos começarem a pensar como eu penso, talvez já tivéssemos tido alguns suicídios... Eles precisam disso, uma nova motivação todos os dias para não enfiarem uma bala na própria cabeça! Quando Green Bay se mostrar uma furada, haverá outra nova motivação, e assim todos irão levando... Eu estou dando a todos o que todos precisam... Essa vadia dessa esperança!
̶ Já acabaram com a resenha? – Indaga uma voz mais ao fundo. Deschen se aproxima dos dois a curtos passos.
̶ Se um dia tivermos que sacrificar alguém, me lembre que ela é a primeira da lista! – Diz Ben a James, os dois riem.
Deschen se aproxima dos dois, seu corpo escondido embaixo dos tecidos que a protegem do frio, parece muito bem, sua evolução desde o incidente na caçada é muito perceptível. Sua adaptação ao seu novo estado físico também se deu de forma gradiente, a mesma não trata mais a si mesma como um fardo ou alguém imputável, sua habilidade em eliminar mordedores com apenas uma mão se mostrara eficaz quando preciso.
̶ O grandão estranho disso que o trailer não tem nenhum problema mecânico... – Diz ela – Na verdade ele falou um bla bla bla sobre correias, mas resolveu a questão!
̶ Conseguimos dois galões! – James aponta para os mesmos – Vamos ter que dirigir devagar e parar na próxima cidade, mas com o que temos poderemos seguir viagem!
̶ Que bom... – Volta a falar Deschen – A filha do outro carinha tá lá dentro com a Emily, a Kate a Roxanne estão se pegando em algum lugar no meio da neve...
̶ Não seja tão cruel! – Diz James com um breve sorriso no rosto.
̶ Longe de mim... – Diz Deschen se virando e seguindo de volta para o trailer.
Deschen nasceu em Florença, Itália, filha de um casal de advogados, viu os pais se separarem quando tinha seis anos, desde esse momento, percebeu que sua infância não seria como a da maioria das meninas do colegial. Talvez pela ausência familiar, a garota passara a se interessar muito pelos livros, praticamente devorando os romances e os contos clássicos franceses. Tornou-se fluente na língua inglesa aos quinze anos e logo se mudou para Nashville, Tennessee junto ao pai quando o mesmo montara um escritório de advocacia na cidade. Na América acabou seguindo os passos de seu progenitor e adentrando a faculdade de Direito, foi lá que ela presenciou o ‘fim do mundo’. Havia acabado de deixar uma de suas muitas aulas diárias, quando acabou ficando presa no local, foi no mesmo instante de um grande apagão que assolou boa parte dos Estados Unidos. Milhares de alunos tiveram suas vidas comprometidas ao serem obrigados a permanecer na faculdade, o local que era afastado do centro foi desolado após o ataque de uma horda, seus melhores amigos e professores foram dizimados na sua frente. Não há um momento, antes de fechar os olhos para dormir, que Deschen não se lembre desses acontecimentos perturbadores.
Ela caminhara de volta ao trailer com muita tranquilidade, apenas observando O’Donnell e Matt que discutiam sobre algo a frente do veículo. Não querendo se meter nos problemas alheios, ela apenas seguiu o caminho para dentro do trailer sem nada dizer.
̶ Acredito que eles são boas pessoas, assim como nós já passaram por muito coisa! – Argumenta Matt.
O’Donnell dá uma tragada no charuto que fuma, solta a fumaça lentamente e diz olhando para Matt:
̶ Você já comeu ela?
̶ O que?
̶ A grávida!
̶ Não! – Responde Matt um pouco assustado.
̶ Então aproveita essas últimas semanas... Depois do parto ela vai ficar um bom tempo sem poder dar uma fodinha!
Matt encontra-se extremamente embaraçado, não sabe o que responder ao truculento homem que cospe tais palavras na maior naturalidade.
̶ Eu entendi você! – Matt aponta para o homem – Está achando que eu só estou ajudando eles porque quero transar com a Emily...
̶ E não quer?
Matt faz uma breve pausa e volta a falar:
̶ Isso não vem ao caso! – Desconversa – Se você acha que seria melhor seguirmos sozinhos, porque você não segue sozinho? Tem o seu próprio veículo, porque não faz o que acha que é melhor pra você?!
O’Donnell traga o charuto mais uma vez, solta a fumaça no rosto de Matt e responde:
̶ A única coisa que me prende a você Matt, é a pequena Lisa... Acho que ela é a única pessoa que eu já me importei na vida!
̶ Matt! – Uma voz vinda de dentro do trailer chama por ele.
̶ Sua vadia tá chamando! – Diz O’Donnell.
Matt nada diz, apenas segue o seu caminho adentrando o veículo, ainda tenta captar as palavras de O’Donnell, os dois nunca estiveram na mesma sintonia, mesmo após passarem tanto tempo vagando juntos. Seus passos sobem as escadas que levam ao interior do trailer calmamente, ao adentrá-lo, vê Emily sentada à mesa com Lisa nos braços, a garotinha parece estar desfalecida.
̶ O que aconteceu?! – Indaga ele extremamente assustado se dirigindo rapidamente até sua sobrinha.
̶ Parece ser uma reação alérgica, não tenho certeza...
Matt vira o rosto da menina e vê que o mesmo se encontra completamente inchado e arroxeado, suas feições estão quase irreconhecíveis.
̶ Eu não sabia que ela tinha alergia – Ele coça a cabeça – O que vamos fazer?
Deschen que se encontrava ao lado dos dois, diz após analisar toda a situação:
̶ Ela comeu um pacotinho de amendoins pela manhã... Talvez ela seja alérgica a esses componentes, precisamos de um medicamento específico... Estamos perto de algum vilarejo?
̶ Então precisamos ir! Temos que chamar todos! Precisamos ir! – Exclama Matt.
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