Ante Mortem / Post Mortem - Interativa
12 Capítulo 12 - Dias de Agonia III
Notas iniciais
̶ Rápido me entrega isso! – Exclama Emily, sinalizando com o indicador para que Kate lhe entregasse alguns dos materiais coletados na clínica.
A estudante de enfermagem toma nas mãos uma agulha e começa a puncionar o braço esquerdo de Des.
̶ James, você tá pronto?
James senta-se ao lado da cama de Des, ele próprio limpa o braço com álcool, preparando-se para a transfusão. Emily executa seus movimentos com muita rapidez, ao acabar de puncionar um dos braços, começa a diluir alguns frascos de medicamentos na bolsa do soro.
̶ Você trouxe um arsenal! – Exclama Emily dirigindo-se a Kate.
̶ Não tivemos tempo para procurar pelo correto...
O medicamento diluído já começa a ser introduzido no organismo de Deschen. Emily agora se concentra na transfusão, passando a puncionar o outro braço da garota doente.
̶ Juliet! – Grita Emily – Pega esse cilindro e conecta no respirador, rápido!
Em meio a todo o nervosismo da situação, Juliet atende a ordem imposta por Emily, deixando o oxigênio no ponto de ser dado a Deschen. Emily conecta o acesso na veia da garota deitada a cama e no braço de James, que sente um pequeno incômodo quando a transfusão se inicia. Ela se dirige até o cilindro e leva o respirador, colocando no rosto da doente.
̶ E agora? Ela vai ficar bem? – Indaga Kate após respirar fundo.
Emily visivelmente aliviada, senta-se em uma das camas e responde:
̶ Vamos acompanhar... As chances agora são grandes!
.
.
.
.
̶ De quem você está falando Kanato? – Pergunta Roxanne docilmente após sentar-se ao lado do garoto.
Ele mantém o seu olhar fixo na floresta, seu rosto ainda exprime uma reação espantosa, mesmo já tendo ocorrido alguns surtos, esse provavelmente é o pior que Kanato já tivera.
̶ Vamos meu bem, é melhor você entrar... – O garoto nada responde – Vem comigo Kanato, já tá tarde, algum mordedor pode aparecer...
Kanato puxa uma faca da cintura e após emitir um grito, ataca Roxanne, golpeando-a no braço. O ataque não sai com muita intensidade, ela cai para o lado e o garoto então, ensandecido, começa a tentar perfurá-la com a pequena arma branca. Roxanne segura os seus braços, protegendo-se:
̶ Para com isso! Sou eu, a Roxanne!
O garoto parece não reconhecê-la, apenas a ataca, aproximando a faca cada vez mais de seu rosto. Um ódio pode ser visto em seu rosto, a imagem de um doce e inocente garoto, passa ao largo desse agressivo Kanato que conhecemos agora.
Um disparo é ouvido, a faca cai das mãos de Kanato, que começa a gritar e contorcer-se de dor, o garoto acabara de levar um tiro no ombro. A poucos metros dali, saindo da escuridão da floresta, é possível ver Benjamin, com sua arma na mão, ao seu lado está Nae, cabisbaixo.
̶ O que você fez? – Roxanne vai até Kanato, que chora de dor – Você o matou!
Benjamin caminha na direção dos dois e responde com rispidez:
̶ Eu salvei a sua vida! Coisa que tenho feito muito ultimamente!
Kate e Issa aparecem correndo na entrada do galpão, as duas trazem facões nas mãos, aparentam estar espantadas.
̶ O que aconteceu? Ouvimos um tiro! – Exclama Issa.
̶ O Ben atirou no Kanato! Precisamos de ajuda! – Vocifera Roxanne.
̶ Eu vou chamar a Emily... – Diz Issa que começa a se deslocar de volta aos dormitórios, porém é interrompida por Benjamin.
̶ Ninguém vai chamar ninguém! Eu cuido dele!
Benjamin retira sem cerimônia Roxanne de perto do garoto, puxando-a pelos ombros. Pega Kanato pelos braços e começa a arrastá-lo para dentro do galpão.
̶ O que você está fazendo?! Que merda você está fazendo?! – Grita histericamente Roxanne, sendo ignorada pelo ex-militar.
Ao ser puxado pelos braços, Kanato grita ainda mais alto, já que o ferimento a bala começa a ser esticado e bruscamente movimentado. Kate observa a tudo pasma, sem ação, sem saber o que fazer ou dizer. Issa coloca as mãos por sobre os lábios, a mesma também não consegue agir naquele momento de extrema loucura.
Benjamin segue puxando Kanato pelas dependências da moradia do grupo, os gritos de dor do garoto podem ser ouvidos por toda a parte. Roxanne segue logo atrás, cuspindo palavras odiosas:
̶ Solta ele, seu filho da puta! Larga ele! O que você vai fazer?! Ele não ia me fazer nenhum mal! Ele é doente!
A passos largos, a fila indiana que se formara avança pelo corredor até chegar a porta de uma sala, um escritório que não era utilizado até então pelo grupo. Benjamin abre a porta, arremessa Kanato lá dentro e a fecha, trancando-a.
̶ Ele estava com uma faca na mão, ia enfiá-la no seu rosto! Se EU não tivesse aparecido, você estaria morta agora! – Exclama Benjamin com veemência.
̶ E o que você vai fazer? Trancá-lo aí e o deixar morrer de infecção? – Indaga Issa.
Benjamin encara a todos que o olham, as pessoas ali presentes parecem estar amedrontadas, assustadas com essa nova figura que se mostra diante delas. Ele então aproveita o momento para vomitar diversas coisas que estavam presas em seu interior:
̶ Acabou o conto de fadas! Acabou a fábula de que vamos viver em paz e que podemos tomar todas as decisões em conjunto... Não, nós não podemos! Quando o Loui fez o que fez na estrada, vocês vieram até mim perguntar o que fazer! Quando o Nagatomo foi mordido, um pouco antes de acharmos esse lugar, fui eu quem teve que dar um tiro nele... Eu! Talvez eu não quisesse todo esse peso pra mim, mas eu acabei ganhando esse fardo... As piores decisões são sempre tomadas por mim! Quem tem a consciência suja nesse lugar? EU! Eu tive que fazer coisas horríveis, que eu nunca pensei na minha vida, para nos mantermos vivos! EU sou o único que pensa na segurança do grupo acima de qualquer coisa... Acima de qualquer moral... EU matei o Rich agora a pouco na floresta! EU atirei no Kanato, porque se não o fizesse, você estaria morta agora! – Todos permanecem pasmos, ele prossegue – Ele pode ser louco ou o caralho que for! Ainda assim vai pagar por tentar ferir um dos nossos! Vocês ainda sonham em viver numa República? Sinto muito, pois acabaram de ganhar um Déspota! EU vou passar a liderar essa merda como sempre deveria ter feito, ou então tudo vai pelos ares!
̶ Benjamin... – Suspira Kate, inteiramente confusa. Ben retoma seu discurso:
̶ Ou podemos brincar de casinha como vocês costumam fazer e realizar uma votação! – Ele abre os braços em sinal de ironia – Alguém se candidata? Alguém quer o meu cargo? Quer ter que se preocupar todos os dias se esse dia não será o último? Ter que decidir quem vive ou quem morre? Ter que matar alguém se for preciso? – Todos permanecem em silêncio – Pois bem, como eu imaginei! Se ninguém tem coragem de mergulhar na merda como eu faço, deixem então essa piscina pra mim!
Benjamin verifica a porta da sala onde jogara Kanato, coloca as chaves no bolso e sai do corredor, caminhando lentamente em direção à saída do galpão. Todos que presenciaram tais atos ainda estão estupefatos. Ninguém ali tem o que dizer, ou argumentar após o discurso de Benjamin. As palavras do líder soaram a todos como um choque de realidade, talvez, até esse momento, ele fosse o único que realmente entendera como mundo mudou, e como as pessoas que nele se encontram devem seguir essa mudança.
.
.
.
.
Roxanne, Issa e Nae adentram os dormitórios, ambos prosseguem calados, preferem não se manifestar sobre o que acabara de ocorrer no corredor há poucos instantes. Juliet, que segura as mãos de James enquanto o mesmo doa o seu sangue, pergunta já imaginando que algo grave ocorrera:
̶ O que aconteceu lá fora? Ouvimos uma gritaria...
Roxanne passa as mãos nos cabelos, respira fundo e diz, evitando responder o questionamento feito por Juliet:
̶ Você poderia ver isso pra mim? – Indaga dirigindo-se a Emily e mostrando o corte no antebraço.
Emily levanta-se trazendo consigo um kit básico para tratar o corte, toca o braço de Roxanne, que refuta um pouco por conta da dor.
̶ Foi bem feio...
̶ Por favor, não me pergunte nada sobre isso, eu não estou a fim de falar... – Adianta-se Roxanne de forma seca.
̶ Já dá pra saber se ela está melhorando? – Pergunta Issa tentando mudar o clima e foco que perdura sobre eles.
̶ Sim! – Responde Emily sorrindo enquanto ainda limpa o ferimento de Roxanne – Os batimentos melhoraram, a respiração está se estabilizando... Tenho que dizer, isso mais parece um milagre! Ainda não acredito que ela está realmente se recuperando...
̶ Milagres não existem! – Exclama Roxanne – Nem Deus e nem a porra da esperança, nada disso existe, nunca existiu...
.
.
.
.
Após discursar e colocar para fora tudo o que pensava, Benjamin dirigiu-se até a saída do galpão, sentando-se do lado de fora, próximo a porta. Colocou sua pistola no solo a seu lado e passou a focalizar a floresta com sua lanterna, parecia esperar por algo.
Apesar de ter se utilizado de palavras duras e verdades que talvez não tivessem que ter sido ditas, Ben sentia-se bem mais aliviado. Sua mente mostrava-se centrada e pela primeira vez ele se via como um líder, com todas as nuanças necessárias. As decisões que tomara, todas, segundo ele, foram para proteger aqueles que se tornaram, após tanto tempo de convivência, sua família. Para Benjamin, família se protege acima de qualquer coisa, e se utilizando de quaisquer modos.
Em meio a seus devaneios, ele não percebe a aproximação de Kate, que se senta ao seu lado, nas mãos ela carrega uma garrafa de uísque falsificado.
̶ Dia longo? – Pergunta ela de forma amistosa entregando-lhe a garrafa.
Benjamin dá um longo gole, deixa escorrer um pouco da bebida e enxuga a boca com as mãos, antes de responder:
̶ Cheio... – Ele olha para ela e prossegue – Deve estar achando que eu sou um monstro, não é mesmo?
Desta vez é Kate quem dá um longo gole, antes de responder:
̶ Estou sim, mas nunca tive medo deles... Filme de terror não me assusta! – Benjamin dá um breve sorriso, balança um pouco a cabeça e diz:
̶ Você sabe que se não fosse lésbica eu já teria te comido, não é?
Kate sorri e responde mais uma vez:
̶ Não me leva a mal, mas eu prefiro um par de peitos! – Os dois riem e revezam os goles na garrafa de uísque. Kate faz uma breve pausa e em seguida retorna a falar, agora em um tom mais sério – Acho que você não deveria ter matado o Rich...
̶ Kate, esse assunto não... – Benjamin a interrompe, ela retoma:
̶ Essa é uma decisão que deveria caber a todos nós...
̶ Kate, por favor... – Refuta novamente Ben.
̶ Nós podemos... – Benjamin levanta, atira a garrafa de uísque longe e vocifera:
̶ Kate eu já disse que não! Porra!
Fale com o autor