Another Day With You
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu me lembro muito bem de como tudo começou. Até porque tentar tirar da minha cabeça cada memória daquele dia era impossível. É o tipo de coisa que quando você mais quer esquecer, mais você lembra.
Eu tinha dezessete anos, estudava numa escola careta e tradicional da cidade. Todos os dias eu tinha que levantar cedo e colocar aquele maldito uniforme azul-marinho que eu odiava. Mas isso não era a única coisa pela qual eu tinha um ódio profundo... Os alunos eram muito “normais” e certinhos naquele lugar. Ou pelo menos aparentavam ser. Menos eu -é claro. E me excluíam por isso. Ninguém queria andar com o menino esquisito de cabelos negros até os ombros, pálido que nem um vampiro e que estava sempre com cara de poucos amigos.
O que era uma verdade pois eu não tinham grandes amizades além de Lindsey, Mikey -meu irmão- e Ray, que fazia parte da nossa banda. Sim, nós tínhamos uma. My Chemical Romance era o nome e ensaiávamos toda a sexta na nossa garagem. Era uma segunda-feira quando tudo aconteceu. Após um longo período de férias eu estava de volta à escola infernal que eu queria terminar o mais rápido possível. Aquele era meu último ano ali, finalmente. Como de costume cheguei com Mikey do meu lado, com a mesma cara de paisagem de sempre. No caminho de casa até aqui ele não havia falado uma palavra. Era sempre assim, ele nunca foi dos mais simpáticos, mas quando estava com sono era pior ainda. Assim que entramos fomos procurar Ray.
– E aí caras! — falou ele quando nos viu.
– Oi Ray. — eu disse.
Mikey se limitou apenas a acenar com a mão e se jogar sobre a mesa que havia no pátio encostando a cabeça na mochila.
– Que ânimo hein Mikey. — Ray falou, e eu ri.
– Vai á merda Ray, e você também Gerard, não foi nenhum pouco engraçado.
Eu comecei a rir mais alto ainda só para provocá-lo. Mas minha ceninha foi interrompida por um garoto que de repente parou na nossa frente, não era muito alto, e usava um cabelo despenteado e dois piercings, um no nariz e outro no lábio. Pude reparar isso mesmo ele ainda estando com a cabeça baixa olhando para um livro que segurava fortemente.
– Hm, com licença... — ele disse, parecia meio envergonhado, apertava os dedos com força ao redor do mesmo livro que eu havia notado antes, só que dessa vez reparei que suas unhas estavam pintadas com um esmalte preto que já estava saindo.
– Quem é você? — eu perguntei lançando um olhar intimidador, só pra deixá-lo mais nervoso ainda. Como sou uma pessoa má.
– Ah, desculpe, meu nome é Frank Iero. Ele levantou a cabeça olhando diretamente em meus olhos, e para minha surpresa sorriu. Seu sorriso era como o de uma criança. Me deu vontade de sorrir também ao vê-lo mas preferi manter a expressão séria.
– Gerard Way. — eu falei como quem não dava a mínima.
Em seguida olhei em volta, Ray nos observava tentando disfarçar enquanto procurava algo na sua mochila. Mikey nem havia se mexido. Mas resolvi os apresentar ao tal Frank.
– Este é Ray, e aquela coisa jogada ali no canto é meu irmão Mikey.
Ele riu do que eu falei. E de novo pude ver o mesmo sorriso infantil estampado no seu rosto. Desviei o olhar pro chão e resolvi emendar outro assunto qualquer.
– Então... Nunca te vi por aqui. Você é aluno novo?
Muito bem Gerard, conseguiu fazer uma pergunta idiota dessas.
– Sim, eu vim de outra cidade. — Ele corou por um instante.
– Hm. — murmurei baixo.
– Então eu vim perguntar pra vocês onde fica... O prédio A. Não achei até agora.
– É esse aqui da frente. O “A’’ que deveria estar ali está meio apagado há anos. Por isso que todo mundo se perde. — falei sem entusiasmo.
– Ah muito obrigado, Gerard.
Senti algo estranho ao ver ele pronunciar o meu nome. Por um momento fiquei parado sem saber o que dizer. O silêncio foi interrompido por ele dessa vez.
– Em que classe você está?
– Trezentos e doze. — eu falei perdido em pensamentos, não ele não podia estar na mesma turma que eu.
Ele pegou um papel que estava dentro do livro que ele segurava. De repente o virou pra mim, no papel havia um grande “turma 312” escrito.
– Ao que tudo indica seremos colegas. — ele disse, dando um sorriso tímido.
Eu só assenti com a cabeça e me sentei na mesa empurrando Mikey para o lado. Ele reclamou de algo mas eu nem lhe dei ouvidos. Estava meio perdido ainda, e com uma sensação estranha. Algo me dizia que aquele ano seria cheio de surpresas pela frente.
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