O meu nome é Obadiah Caine e sou um estudante de filosofia da Universidade de Nezca.
Nunca pensei que os conseguisse seguir durante tanto tempo. Mas eles viram-me. Viram-me e amaldiçoaram-me. Só estes papéis me ajudarão a lembrar de tudo. Anotarei tudo. Talvez eu acabe por encontrar o papel e me lembre.
Eles fazem-me esquecer de tudo. Esqueço-me sempre de tudo. Eles têm o livro. O Liber Ultima. Eles podem controlar o mundo com aquilo. Ninguém os vê a não ser eu: é porque o livro me afetou. Ele brinca-nos com a mente. Ele engana-nos e controla-nos. Dá-nos poder e enlouquece-nos. Ele retira poder do Grande Velho. Ele talvez seja o Grande Velho mas eu nunca vim a descobrir. Nem consigo, nem resulta. Vou acabar por esquecer. Nem sei ao certo se os meus inimigos são reais ou simples construtos da minha mente.
Tenho de ser rápido. Não sei quanto tempo tenho, é sempre distinto.
Tudo começou com um funcionário da universidade, um velho de barbas longas e emaranhadas que me saudava todos os dias. Sentia algo estranho no seu olhar mas, de início, não sabia dizer o que era. Um dia, foi-me ordenado que fosse à sala desse mesmo e único funcionário buscar a chave da porta que vai dar ao auditório. O velho não estava lá.
Era um cubículo apertado. Numerosos papéis e arquivos desordenados cobriam o solo. Era como se um furacão tivesse acabado de por lá passar. Chamei-o mas sem sinal. Decidi eu próprio ligar o pequeno candeeiro que estava na secretária, pois estava escuro, e procurar a chave com minhas próprias mãos.
Quando remexi as gavetas da secretária, o que encontrei não foi a chave que procurava mas sim a chave para um mistério maior. Uma intriga. Toda uma conspiração. O interior pouco se assemelhava a uma gaveta. Mais parecia o interior da garganta de um ser humano. Lá residia o livro a que chamo "Liber Ultima", pois o seu verdadeiro nome é para mim impossível de pronunciar e compreender sequer. Lá estava ele, banhado em mal-cheirosos sucos cuja presença naquela gaveta de cedro sou incapaz de justificar. Os meus olhos ardiam. Não conseguia acreditar neles. Nem sei ao certo como é a garganta humana mas sei pelo menos como é a de um quadrúpede e parecia-me semelhante. O terror tolda-me um pouco a memória e por isso peço desculpa.
Apesar do medo e do nojo, não resisti a pegar no livro. Um diário de perversidades, aquela constituição do Diabo e seu reino. Pegar no livro era como pegar num aglomerado de carne crua. Forrado em pele viva, senti que respirava. O manual parecia ser vivente, consciente. Ele reagiu ao toque. Começou a aquecer, tenho a certeza, como criança aconchegada nos braços de sua mãe. Vi o sangue circular através dos vasos sanguíneos salientes, observáveis graças à pele fina e sensível. Julgo que me perdi nesse momento. Perdi o meu objetivo, esqueci-o na totalidade. Só pensava no sangue, aquele sangue fulgurante. Tremo só de relembrar. Dá-me vómitos.
Abri-o porque já não me dominava. Movia-me por uma curiosidade que dificilmente defino. Abri-o numa página completamente aleatória e a visão bastou. Chegou para me levar ao limite psíquico. Era um desenho. Uma figura de aparência alienígena. Um bicho das trevas gerado pela semente de Lúcifer. Aqueles olhos amarelos, todos aqueles olhos e beiços, o musgo e as feridas de músculo apodrecido. O cheiro. Era falso, era ficção, mas eu sentia o cheiro. Chegava a saboreá-lo, aquela repugnância, aquele...
Lembro-me de sorrir muito. Perdi-me na realidade. Passei a mover-me por meras associações de irracionais ideias. Cantando e pulando que nem um louco. Literalmente enlouqueci por forças que ainda não entendo bem. Depois, desmaiei. Ali mesmo. Cedi aos desígnios de Hipno, temendo nunca mais acordar.
Quando abri os olhos, havia sido "movido". A sala onde estava era a mesma mas as paredes haviam sido trasmutadas em muros de carne viva. O teto desapareceu, revelando um firmamento bege, as nuvens pareciam líquidas, fluidos acastanhados que molhavam os céus. Um mar sobre a terra, sobre as nossas cabeças.
Assustei-me, mas ainda estava ligeiramente embriagado da loucura que antes me assolou. Logo, não me fez assim tanta diferença no início, no meu estado entorpecido. Ergui-me e contemplei os meus horizontes. As paredes de carne contraindo-se, dilatando-se e distendendo-se espasmodicamente. Abri a porta, movendo a maçaneta. A porta velha de madeira mantinha-se normal. Saí.
Como esperado, o exterior já não era o edifício que conhecia. Era todo um aglomerado de carne pútrida móvel e ciente. Cada pedaço de carne reagia ao toque afastando-se com ligeireza. Alunos já não percorriam os corredores. Agora eram abomináveis moluscos, criaturas gigantescas de um qualquer semi-fluido borbulhante, rastejando de um lado para o outro, pelo chão e as paredes, gorgolejando um discurso que tudo parecia menos composto por palavras.
Seria este um plano paralelo à nossa material realidade? Ou um sonho ou similar obra de delírio? Enchi meu peito de coragem e prossegui caminho, por entre abominações e seus muros de material vivente, através de arbustos tornados raízes que da terra saiam para se perder nos líquidos compostos do céu alienígena. Não conseguia perceber se era dia ou se era noite, escurecer ou alvorecer. Estado do tempo era para mim indefinível. A temperatura ambiente, também confusa, simulava o desconfortável calor das regiões equatoriais. A humidade também se assemelhava à de tais territórios, mais porque as paredes, de carne e pele, vida e sangue, pareciam suar e eram húmidas ao toque.
Uma parede enervou-me particularmente. Sendo todas compostas de pedaços, restos humanos, retalhados e colados ou sintetizados, quem sabe, uma delas apresentava uma boca, um extenso par de lábios capaz de produzir um discurso coerente. Vermelhos, aproximavam-se para se afastar depois, gerando um som, uma palavra em específico: "ajuda-me". Nada podia, de nada era capaz. Precisava de passar a parede pois aquela tapava o único percurso que eu podia tomar. No chão, um machado. Peguei-o com ambas as mãos. "Ela não tem olhos. Pelo menos não tem olhos."
Cada embate, cada corte, conduzia a um grito estridente, avassalador. Humano. Tendões desligavam-se ao sabor da fricção. Cada vez mais sangue jorrava, aquele gosto metálico cobrindo-me o rosto temeroso. Mas, resoluto, sabia não existir outra opção. Sobreviveria, nem que tal convocasse toda a frieza do meu ser. "Não é uma pessoa. Isto não é uma pessoa. É uma coisa. É uma coisa e mais nada."
Acabei por passar. Choroso, enojado com o mundo bem como comigo próprio, acabei por passar. E este foi só o começo.
Ao fundo do corredor, cuja forma já não me era familiar, estava ele, de costas. O idoso funcionário da instituição, o único que saberá libertar-me. Sua esfregona acariciava o solo com uma curiosa leveza e suavidade. Aproximei-me correndo, chamando-o. Depressa me vim a arrepender de tal ato. Com a distância mais curta, tive o vislumbre do interior do seu balde. Não era com água que ele embuía a esfregona para limpar. Só fui capaz de ver um fluido escuro, castanho, no qual boiava um objeto de enorme extensão, enrolado sobre si próprio. Demorei algum tempo a perceber que se tratava de um intestino. E aquele líquido, espesso e peganhento, parecia escoar das muitas fissuras que o órgão apresentava.
O velho virou-se. Seus olhos brilhando num amarelado fluorescente, borbulhas rebentando em tempo real sobre uma pele que parecia mais decomposta que viva. Na sua boca, entre os seus dentes sujos, repousava uma mão, a mão de uma pobre vítima. Facilmente se via o osso saliente, arrancando à força de uma pobre coitada. Digo "coitada" pois aquilo que pensava tratar-se de uma esfregona era na verdade uma lança e, na sua ponta afiada, a decepada cabeça de uma jovem loira.
Não tive qualquer tempo de reação. Aquele monstro pegou-me pelo ombro e obrigou-me a olhá-lo nos olhos. E então, esqueci. Acordei no mundo real, na sala do funcionário, como se nunca de lá tivesse saído. Ajudou-me a levantar o velho, fingindo-se amigável, dando-me a chave que tinha vindo procurar em primeiro lugar. Corrompeu-me as memórias. De nada de bizarro me lembrava. Fitei o relógio na parede. Nenhum tempo havia passado desde o segundo em que desmaiei. Passei vários dias sem me lembrar do caso. Vários dias passando pelo velho e dizendo-lhe "olá". Até que, um dia, o vi com outros.
Estavam todos na sua sala, ele e um grupo de cinco pessoas vestindo suspeitos mantos negros. A porta estava trancada mas eu era capaz de ouvir e até de observar através da fechadura. Ouvi-os falar numa língua estranha, ouvi-os recitar o conteúdo do livro amaldiçoado. Foi ao vê-lo que me lembrei de tudo. Recordei todos os momentos, todas as visões, o outro mundo...
O choque súbito de tantas memórias fez-me vomitar mesmo ali. Nesse instante, ouviu-se o trinco. A porta abriu. E, em frente a uma sala com cinco cadáveres bestialmente mutilados, estavam aqueles olhos fluorescentes. Acho que acordei em casa depois disso, novamente sem qualquer recordação do sucedido.
Há pouco tempo, consegui lembrar-me novamente. Tenho andado a investigá-los. Os cultistas, o velho, o livro. Mas pouca informação consigo. Eles escondem-se. Vivem escondidos diante dos nossos olhos e têm poderes inimagináveis. Estou de momento em minha casa, registando todos os conhecimentos que obtive, toda a minha experiência, para o caso de me lavarem novamente o cérebro. Não percebo o porquê de eu ainda estar vivo. Já várias vezes me detetaram mas nunca me magoam. É como se nunca nada tivesse acontecido.
Tenho andado medicado pois duvido que tudo isto seja produto de uma doença mental. Comecei a esquecer factos aleatórios de forma igualmente aleatória, um tipo de amnésia, talvez. Será que foi tudo falso? A imaginação de uma mente jovem? Nada disto parece fazer sentido. Devo estar mesmo louco.
Não sei quanto tempo levarei até me esquecer novamente de tudo mas este documento vai impedir que o meu relato se perca.
O tempo está tempestuoso lá fora. Ando cada vez mais paranóico, a ouvir barulhos onde estes não existem. Por vezes até sinto que alguém me persegue, mas nunca vejo ninguém, é só o pressentimento. Já nem sei se esses sintomas são da minha cabeça ou da medicação. Os ramos da macieira têm andado a bater na janela a noite toda. Tenho de ver se não será melhor cort


finis

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.