Ano 2021
1 O ínicio ou o fim?
Começo de outono em Londres, o colorido das folhas das árvores encobre todo o chão da cidade. Mas ao contrário dos dias normais, nada e nem ninguém passa por essas ruas quietas e tranquilas. O vento sopra varrendo as folhas do chão – o silêncio ainda domina — apenas o barulho das folhas voando. Ainda se pode ouvir as badaladas do antigo relógio da cidade batendo ao meio dia. Apesar do outono todo colorido a cidade tem uma aparência de destruição, como se todos tivessem partido e deixado apenas os restos para trás. Os parques que eram cheios de crianças e namorados agora está vazio. Uma paisagem triste.
Nada se sabe sobre o que aconteceu naquela noite de 25 de Outubro. O frio caía sobre a cidade, longos casacos protegiam as pessoas, e como se numa fração de segundo o mal tivesse invadido toda cidade apenas para separar os filhos de suas mães, os maridos de suas mulheres. A cena era horrível, vultos negros levando as pessoas dali, mutilando as pessoas ali, destruindo os sonhos ali. Agora só restou a dor e a morte sobre toda a cidade.
Meu nome é Ethan e segundo as minhas anotações hoje é dia 6 de Novembro, daqui a doze dias seria aniversário de Alexia -minha primeira e única namorada- se aquelas coisas com rostos tomados por ódio não tivessem a levado para longe. No momento meu coração está tomado por desespero e ódio, parece que estou vivendo um pesadelo ou alguma história de filme, nada parece real. Não se vê ninguém, a única água e comida são as que restaram nas lojas destruídas. Carros militares estão espalhados pelas ruas, sem donos, como se fosse um filme.
A barba já tomava conta de todo o meu rosto, minhas pernas estavam cansadas de tanto caminhar por aquela cidade toda destruída. Londres, aquela linda cidade, estava irreconhecível, completamente em ruínas. Apesar de todo o cansaço, fome e sede, algum sentimento dentro de mim me dava forças para continuar a procurar por Alexia.
Alexia morava em Dover, uma cidade na costa de Londres com muitos campos em volta. Mas como eu chegaria até lá? Pergunto a mim mesmo. Veículos era o que não faltavam nas ruas. Subo em uma moto e verifico o tanque de gasolina pra ver se estava cheio e, ao lado da moto, havia um corpo todo destruído, provavelmente o dono, mas eu já estava acostumado a ver aquilo espalhado pela cidade. Corpos e mais corpos. E, eram esses corpos que aterrorizavam meus sonhos nas noites frias e vazias.
Mas só uma coisa me aterrorizava mais do que isso: Alexia. Será que vou encontrá-la do mesmo jeito que encontro essas pessoas?
A noite e o frio começam a pairar sobre a cidade. Levo a moto comigo até uma casa vazia, um pouco menos destruída do que as outras. Ali seria o melhor lugar para esperar o amanhecer e dirigir até Dover.
Os olhos pesavam e ali estava eu, dirigindo por aquelas estradas vazias. Não demoraria até chegar a Dover e finalmente encontrar Alexia. Eu tinha uma certeza de que a encontraria viva, me esperando.
Havia uma pequena loja, junto a um posto de gasolina no acostamento da estrada, parei para encher o tanque e pegar algumas coisas. Eu não sabia quanto mais de comida eu encontraria, afinal, estava tudo destruído. Peguei o máximo que pude. Enquanto procurava coisas úteis naquela loja abandonada, percebi uma movimentação lá fora, um homem com uma cicatriz assustadora no olho e empunhado de uma faca tentando levar minha moto. Corri até ele, eu não podia deixar aquilo acontecer, pois, o jeito mais rápido de chegar até Alexia era com a moto. O homem se aproximou dizendo:
-É melhor você me passar as chaves, amigo...
O homem apontava aquela faca em minha direção. E em meio a essas ameaças eu não via mais saída, teria que entregar as chaves. De repente, alguma coisa puxou aquele homem de aparência assustadora, pra dentro da mata. Não pude ver o que era e nem ficaria ali para descobrir. O silêncio foi quebrado pelos gritos assustadores... Gritos de agonia e dor. Imediatamente subi em minha moto, peguei minha mochila e dirigi o mais rápido possível em direção a Dover.
Finalmente depois de duas horas na estrada chego ao meu destino. Agora só me restava procurar a antiga casa de Alexia. Vou caminhando pelo o que restou da cidade e, como em Londres, não havia nenhum sinal de vida ali.
Aquele silêncio corroia meus ouvidos e a incerteza esmagava meu coração. Continuei caminhando e finalmente encontrei a casa de Alexia, minha amada Alexia. Um sorriso tomou meu rosto e uma alegria consumiu todo o meu corpo, era como se minhas forças estivessem sido restauradas, uma alegria que era rara — ou impossível — naqueles dias. Vou correndo até a porta. Aquela alegria me fez esquecer por um momento os corpos mutilados pelas ruas, as casas destruídas, era como se eu tivesse esquecido o fim do mundo.
Ninguém atendia a porta, o desespero tomou o lugar da alegria. Quando eu entrei na casa, os meus olhos se recusaram a acreditar no que estavam vendo, Alexia deitada no chão, morta e, naquele momento minhas esperanças morreram junto a ela.
Aquele momento de alegria, que até segundos atrás tomou conta de mim,se foi, deixando só a dor, desespero, angústia, raiva, o desconsolo, a tristeza. Eu ainda não sabia o que havia acontecido com todos. Minha única certeza é de que estavam mortos. E por que eu sobrevivi?
Só me restava cavar um buraco no jardim e ali colocá-la. Sem esperança.
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