Anne Bergerac: As Portas Da Contradição
15 Capítulo 15
Capítulo 15
Stanpleton não aparecera. Contudo, foi a noite mais divertida de toda a minha vida. Ainda estou fatigada de tanta alegria. Holmes e eu dançamos o resto da noite, foi ótimo. Assim que cheguei ao hotel, vesti a camisola e me joguei em baixo das cobertas. Mas não consegui dormir. Simplesmente não consegui e não estou com vontade de tentar.
Aquilo que Sherlock disse sobre discutir comigo o resto da vida sem jamais se cansar, não sai da minha cabeça. Não entendo o que ele quis dizer, mas se estou certa, aquelas palavras significaram mais do que deveriam. É incrível como um simples sentimento e uma noite de diversão ao lado do homem que se ama, parecem confundir você. Como mulher, deveria considerar o amor a coisa mais importante, contudo a razão sempre governou meu coração e minha mente... agora não sei qual dos dois está certo. Não sei qual devo seguir e minha mente não está me ajudando a pensar.
Está chovendo lá fora. Até o tempo parece chorar com a minha confusão. Será que estou me apaixonando e perdendo o bom senso? Seria totalmente inadmissível, obstante o fato de que sempre disse a mim mesma de que não deixaria minhas emoções me confundirem. Então porque não estou me importando de estar assim tão confusa? Parece que estou até mais relaxada por estar. Oh Deus... preciso ficar sob a chuva. Talvez venha a adoecer, mas preciso ir lá fora. Coloquei meu hobbie e sai
A rua estava deserta e iluminada apenas pelos lampiões de gás. O nevoeiro se espalhando pela rua e a chuva caindo impiedosa sobre minha cabeça. Ajuda a esquecer os problemas e pensar o quanto somos miseráveis se comparados com as totalidades da vida, a reconhecer nossa própria insignificância em comparação ao resto de tudo. Céus! Pensamentos tão deprimentes para uma mulher que está apaixonada... será que sou mesmo tão estranha assim?
_O que faz acordada aqui fora? – virei e me deparei com Sherlock Holmes, parado na soleira da hospedaria, me fitando. Estava com um sorriso despreocupado no rosto, embora seu tom fosse o de um pai preocupado com a saúde da filha.
_ Não consigo dormir. – respondi sem fitá-lo diretamente. Ele se aproximou de mim, parando ao meu lado. Observava o céu. A chuva caia, mas algumas poucas estrelas conseguiam se destacar em meio a tantas nuvens. – Por que está acordado?
_ Também não consegui dormir. Certas coisas não me deixam dormir. – ele parecia querer fugir daquele assunto, mas eu não.
_ O caso, por exemplo?
_ Sim. – não me pareceu tão confiante assim. Estaria Sherlock Holmes mentindo para mim, sobre o que o afligia? Não dissemos mais nada um para o outro. Calados, apenas observando o céu.
_ Holmes... – eu queria falar. Queria que ele ouvisse de mim que o amava, que o queria. Talvez fosse recíproco. De qualquer maneira, não me culparia por jamais ter tentado.
_ Agradeceria senhor Holmes, se o senhor se afastasse da senhorita. – meu sangue gelou. Parado atrás de nós, a poucos metros, estava Stanpleton com um revólver apontado diretamente para nós. Sherlock me abraçou instintivamente e não parecia que iria soltar. – Eu disse para se afastar dela.
_ Para o senhor fazer o que tem de fazer com essa arma? – Holmes perguntou com a voz carrega de desdém.
_ Fazer mal a senhorita Bergerac não está nos meus planos. Jamais a puniria, por um crime que foi seu. – ele estava louco com certeza. Seus olhos possuíam um brilho sinistro, que me fizeram tremer de alguma forma.
_ Se é crime fazer com que uma mulher se apaixone... então qualquer mortal é um criminoso de alguma forma. – respondi com determinação. Soltei-me de Holmes e fiquei observando Stanpleton.
_ Pois então. Já eliminei dois obstáculos para consegui-la minha cara. Não me importo se tiver de eliminar um terceiro. – o que aconteceu a seguir, para mim, foi em segundos. Holmes e Stanpleton metidos em um duelo corpo a corpo. Corri para perto da entrada da hospedaria.
Entrei. Grande parte dos hóspedes estava acordando por causa do barulho, inclusive os donos. Subi rapidamente as escadas e comecei a procurar a pistola de meu pai. Finalmente havia encontrado e torcia para não ser tarde demais. Assim que desci, todos assistiam ao “espetáculo” do lado de dentro. Avistei Watson, um tanto perdido no meio de um tumulto.
_ Chame o inspetor Harrison. – disse em tom de urgência. Ele me lançou um olhar do gênero “É claro.” Engatilhei a arma e voltei para a rua. Por um momento tive vontade de rir, já que Holmes não sofrera nenhum arranhão, enquanto Stanpleton... digamos que ele estava levando a pior.
_ JÁ CHEGA! – berrei. Até os murmúrios vindos de dentro da hospedaria pararam. Stanpleton engatilhou a arma novamente e agora a apontava diretamente para Holmes, sorrindo sugestivamente para mim. – NÃO OUSE! – a chuva cumpriria o papel das lágrimas que vieram a seguir.
_ Então escolha Bergerac. Compre a liberdade dele com seu amor, recuse e o estará mandando direto ao encontro do criador. De qualquer maneira, não poderá vencer.
Meu coração acelerou. Estava tremendo. Viver sem Holmes, mas sabendo que vive ou viver... mas sabendo que jamais voltaria a discutir com ele, jamais o veria outra vez. Ambas parecem horríveis e inimagináveis.
_ Deixe que ele atire Anne. – as palavras dele cortaram um silêncio mortal. Não pude acreditar que... ele estava me pedindo para que o deixasse morrer.
_ Não! Holmes perdeu o juízo? – as lágrimas mais fortes agora.
_ A partir do momento que disser que ficará com ele... minha vida terá acabado... – vi que a dor, apenas por pensar naquilo acontecendo, impedia que ele continuasse.
_ Eu não vou aguentar vê-lo morrer... – suspirei – eu te amo. – não ouvi mais nada. Apenas as gotas da chuva caindo.
_ Mas poderia amar o homem cuja vida, significa o fim da sua. – olhei para cima, tentando conter as lágrimas que não paravam de vir. – Aconteça o que acontecer... eu a amo minha querida Anne Bergerac.
De repente, uma chama que vinha se apagando dentro de mim, acendeu-se completamente. Eu sorri de lado e deixei uma única lágrima escapar. Baixei um pouco a arma, o que não deveria ter feito. Stanpleton viu, naquele simples sorriso que dei que eu não o aceitaria. Vi em seus olhos o que faria.
_ NÃO! – atirei. Certeiramente no coração. A bala de Stanpleton não acertou Holmes como deveria, já que o susto fez com que ele perde-se a mira.
Hector Stanpleton caiu. Duro e imóvel. Com a mão sobre o lugar que a bala atingira e a expressão de dor que assumira.
Corri para até onde Holmes estava e o abracei. Nada mais importava agora. Poderia ser presa por atirar em um homem, mas sabia que Sherlock estava vivo e que eu poderia ser sua... somente sua.
A polícia chegara. Watson conseguira sair do meio do tumulto e veio ao nosso encontro, enquanto Harrison descia da carruagem da polícia, junto aos oficiais. Ele olhou do cadáver para mim e Holmes, fez um sinal afirmativo com a cabeça e começou a dar ordens aos guardas para retirarem o corpo dali. Watson pousou uma das mãos em meu ombro, tentando consolar o fato de que tremia muito.
_ Leve ela para o quarto Watson. Vou falar com Harrison. – pediu Holmes.
_ Está bem. – John me guiou cuidadosamente para dentro do estabelecimento. Todos os olhares caíram sobre mim. Assim que alcançamos o quarto, ele começou a falar. – Não se preocupe. Como foi em legítima defesa, tenho certeza de que não pegará pena.
_ Pouco me importa se for presa. Ele teve o que merecia. Foi o assassino dos meus pais não é? – ele acenou que sim e eu sorri. – Além disso... ele me ama John!
_ Quem?...
_ Sherlock Holmes é claro! Confirmou que me ama John! Nada poderia estragar minha noite, minha vida agora. – ele sorriu. Comecei a caminhar pelo quarto e parei diante da janela e comecei a rir descontroladamente. A porta se abriu e Holmes apareceu.
_ Vejo que se recuperou rápido. – ele disse em tom de brincadeira.
_ Vou deixá-los a sós. – Watson piscou para mim e saiu. Eu fiquei parada perto da janela. Só esperando. As duas respirações eram os únicos sons que perpetuavam o quarto.
_ Anne sobre o que eu disse lá em baixo...
_ Por favor, não me diga que foi um blefe. Se atirei, foi porque aquelas palavras me deram força. – ele soltou um riso abafado e começou a caminhar em minha direção. Olhava diretamente para os meus olhos.
_ Jamais mentiria para você. Em todo caso, só queria dizer que... só queria saber se está mesmo disposta a tentar... tentar ser a senhora Sherlock Holmes.
_ Ainda vai discutir comigo? Ainda irá me reprovar, dizer que gostaria de dar umas boas palmadas em mim? E ainda haverá cenas iguais a desta noite em nossas vidas? Perigo constante? – perguntei em sussurros.
_ Prometo.
_ Então sim... sim estou disposta a tentar. – estávamos com os rostos próximos demais. Centímetros de distância. – Isso não faz de mim, efetivamente sua esposa, então eu acho... – ele me enlaçou pela cintura tão rapidamente, que não pude continuar.
_ Não quero e nem pretendo, sair deste quarto Anne Bergerac.
O beijo trouxe sensações que eu nunca sentira antes. Um ardor subiu por todo meu corpo, minhas pernas ficaram leves... que fez-me pensar que se ele não estivesse me segurando tão junto a si, eu estaria no chão. Eu não conseguia pensar, minha cabeça estava leve também. Só conseguia pensar em como não queria que ele me soltasse. Cada parte da minha pele que ele tocava, parecia ganhar vida, como se estivesse adormecida até agora.
Não vou descrever aqui o que aconteceu depois. Só vou deixar transparecer o fato de que pela primeira vez em semanas, eu dormi em paz.
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