Anne Bergerac: As Portas Da Contradição
14 Capítulo 14
Capítulo 14
Após o incidente com Charlotte Craiven, em que ela deixou escapar minha condição, Sherlock Holmes não trocou uma palavra comigo. Sequer se deu ao trabalho de olhar para mim. Lia seu jornal com tamanho interesse, que nunca demonstrou antes. O que estaria pensando? Considerava-me absurda por acreditar que poderia ter tal amor correspondido? Enojava-me?... Contudo, convenhamos... como seria ser amada por Holmes?
_ Importa-se? – quando finalmente resolve falar comigo, é para perguntar se me importa que ele fume seu querido cachimbo?! Isso foi com certeza uma tentativa de começar a falar, afinal ele nunca precisou de minha permissão para fumar.
_ Não. – respondi secamente, todavia ele sorriu. Pensei que ele começaria uma discussão já que Watson não se encontra aqui agora, mas não o fez.
_ Como se sente Anne?
_ O que quer dizer com isso? – não se é uma boa ideia ser indiferente com ele, estando nesta situação delicada, mas não queria que ele notasse que o fato de saber que o amo, me deixa totalmente desconcertada.
_ Ora, você foi a razão de uma série de assassinatos. Responsável por criar uma mente assassina.
_ E certamente não me sinto feliz com isso. Acha que eu estaria vibrando?
_ Sentindo-se importante, na verdade. Posta em um pedestal por um homem além de sua condição social. O tesouro mais importante para um homem que poderia ter qualquer mulher de Londres.
_ Em primeiro lugar, como acha que eu poderia me sentir importante, quando penso que se Stanpleton não tivesse cruzado meu caminho... meus pais ainda poderiam estar vivos! Eu ainda teria uma casa para chamar de minha, não teria que viver pensando que devo favores a você! Não teria que aturar a sua arrogância e presunção egoísta! – eu senti meu rosto arder. Amava Holmes, mas como ele ainda consegue ser tão frio, injusto e terrivelmente cruel, não sei.
_ Pois então, se estiver se sentindo tão mal assim... – nos levantamos ao mesmo tempo. Ele me olhava com raiva. – Saiba que sempre foi livre para deixar Baker Street... eu não impediria. – ele disse com o tom de voz mordaz, mas ao mesmo tempo eu senti que se arrependera de proferir tais palavras. No fundo, parecia implorar para que eu nunca fosse embora de Baker Street. Tarde demais... já estava com o coração partido para pensar em perdoá-lo. Watson voltara.
_ Ainda bem que você chegou... quer tirá-lo da minha frente? – contive minhas lágrimas o máximo que pude, até sair do vagão. Corri para perto da entrada para o bagageiro. Não me impediria?! Ora, então porque nunca disse “Saia da minha casa Bergerac, não a quero mais aqui!”? Ele teve todas as chances possíveis! Não! Tinha que esperar para aquilo acontecer, assim suas palavras fariam com que meu ego afrouxasse mais, meu coração doesse mais.
_ Anne. – não sei como John Watson tem a capacidade de sempre aparecer quando preciso de um ombro amigo. – O que aconteceu?
_ Por que não pede para ele contar?
_ Ele se recusa a conversar. Continua a fumar o cachimbo. – soltei um riso desdenhoso.
_ Sherlock Holmes é o homem mais cruel que já conheci. Sempre tão sarcástico, insensível e se achando o superior. Todavia, eu tinha que me apaixonar por ele. Tinha que ser a tola que um dia acabaria se apaixonando por ele e sofreria todos os maus tratos, toda a ironia e toda a frieza dele.
_ Anne... ele não demonstra. Conhece-o a mais tempo que você e sei que ele a ama. – ri desdenhosamente mais uma vez, dessa vez para certificar-me de que não aumentara por mim mesma minhas esperanças.
_ Então como ele ousa insinuar que tudo isso me deixa cheia de mim? Será que é tão perverso a ponto de pensar que estou adorando? Que não me importa a morte de meus pais... – não disse mais uma palavra. Nem ele. Apenas soltou um suspiro e saiu dali.
Fiquei sozinha. Não é bom ficar só quando se está triste, porém é bastante reconfortante e ajuda a refrescar a cabeça. O campo inglês tem mesmo uma grande coleção de vastas paisagens, mesmo sabendo que nunca trocaria a agitação de Londres por nada, não posso deixar de contemplar. Entretanto, estamos quase chegando a Plymouth e é melhor tentar encarar Holmes a partir de agora. Me virei para voltar ao vagão, quando quase esbarrei de frente com Sherlock.
_ Preciso falar com você.
_ Acho que já deixou bastante clara sua opinião. Não tenho nada para falar com você. – me desvencilhei dele, mas tive minha mão segurada.
_ Por favor Anne, somente me escute.
_ Para ouvir você me humilhar mais? Não obrigada.
_ Eu sei que fui um perfeito imbecil e que não merece o seu perdão. Você sabe a importância que tem neste caso, só piorei a situação. Mas o que eu realmente quero dizer é que...
_ Se repetir que é um imbecil, não precisa dizer mais nada. – ri ironicamente.
_ É que pode e deve considerar Baker Street sua casa Anne. Vive lá há pouco tempo, mas tanto para mim, quanto para o Watson, parece que já vive desde que alugamos a casa. Tornou-se uma companhia indispensável, grande amiga e valiosa oponente. – eu ri. – Esqueça o que eu disse, porque eu não poderia deixá-la partir, mesmo que quisesse. Poderia me perdoar, minha querida Anne?
_ Tenho escolha? – eu o olhei com um olhar curioso. Essas foram, sem a menor sombra de dúvida, as palavras mais gentis que Sherlock Holmes já me disse. Acho que valera a pena discutir somente para ouvi-lo agora.
O trem parara e chegamos a Plymouth.
***
Plymouth é um pequeno povoado nas proximidades de Londres. Está sempre cheio de pessoas das mais variadas localidades e classes sociais. Alguns nobres passam essa época do ano na cidade, mas parece que certa maioria resolveu voltar para suas casas de campo desta vez. Assim que chegamos, procuramos uma hospedaria para passarmos a noite e logo em seguida partimos para a delegacia local, onde expomos nossa situação.
_ O que pretende fazer senhor Holmes? – o inspetor Harrison, não era de longe tão ativo quanto Lestrade, mas parecia mais propenso a acatar com ordens.
_ Acho que deveríamos dar um motivo para fazê-lo se mostrar para nós. Não arriscaria uma segunda fuga.
_ E como pretende fazer isso?
_ Não se preocupe meu caro. Apenas deixe seus homens a postos e eu cuidarei do motivo. – ele olhou para mim descaradamente, o que me preocupou muito. Deixamos a delegacia e Watson se ofereceu para voltar a hospedaria e organizar nossas coisas. Sherlock pareceu bastante satisfeito e assim que nosso amigo apaziguador saiu, sorriu para mim.
_ Acompanhar-me-ia em uma caminhada Anne? – perguntou no tom mais casuavelmente formal que encontrou. Olhei-o desconfiada e dei de ombros.
Passamos pela praça, até chegarmos ao centro da cidade, onde havia os pequenos comércios. Holmes não conversava, o que me deixou terrivelmente nervosa, mas pareceu satisfeito ao ver-me correr em direção a uma vitrine, que era a da loja de instrumentos. Havia violinos expostos e eu os olhava com carinho, lembrando-me do tempo em que ainda tocava. Sherlock parou ao meu lado e olhou dos violinos para mim, sorriu.
_ Por que não compra outro? Se gosta tanto assim... – eu ri.
_ Não. Trabalho e me envolvo demais com as coisas que acontecem em Baker Street, para voltar ao meu antigo hobbie. – seria realmente fantástico poder ter um violino só meu outra vez, mas não sobraria tempo para tocá-lo... trabalho demais para isso.
_ Se insiste. – respondeu ele dando de ombros. Pode parecer impressão, mas acho que ele está tentando mesmo manter-me de bom humor e alguma coisa me diz que tem haver com o “como fazer Stanpleton se mostrar”.
_ Posso saber como pretende fazer Stanpleton se mostrar? Creio que chega a ser impossível, agora que a policia está atrás dele.
_ De que outra maneira, além de usar você como isca.
_ O que?! Eu... Holmes você perdeu o juízo? Está querendo me matar?
_ Não poderia estar mais preocupado com a senhorita. Contudo, devemos pensar no que é melhor para o caso e devo dizer que está fazendo um excelente trabalho. – não entendi o que ele quis dizer, já que eu não estou fazendo absolutamente nada. Contudo, bastou que eu me virasse para descobrir que Hector Stanpleton estava parado junto a um poste, nos observando. Olhava fixadamente para mim.
_ Holmes... acha que ele...?
_ Não em plena luz do dia. A rua está cheia.
_ Estou com a pistola de papai no bolso...
_ Não ouse. Só serviria para colocá-la em maus lençóis. – ele olhou para Stanpleton e fixou o olhar. Até que ele resolveu sair dali, seguindo para a rua acima onde deveria estar escondido. Me virei para segui-lo e descobrir, mas Holmes me segurou pelo braço.
_ O que foi agora? – perguntei nervosa.
_ Não deve segui-lo. Faremos com que ele apareça... – ele parou de falar e olhou para um cartaz colado em uma janela de um prédio do outro lado da rua. O estabelecimento se chamava “The Crownd” e parece que haveria um baile aquela noite. – Ora veja, gostaria de dançar Anne?
_ Mesmo nas circunstâncias atuais?! Bem, não tenho nada a perder... além do pescoço. – disse rindo gostosamente.
Voltamos à hospedaria e esperamos até a noite. Andava de um lado para o outro dentro do meu quarto, preocupada com o que aconteceria. Preocupada e não com medo. Me dirigi até a janela e puis-me a observar a rua e tinha a estranha sensação de ainda estar sendo observada... acho que sabemos por quem. O sol está se pondo e acho que já é hora de começar a me arrumar.
De repente a porta se abriu e a dona da hospedaria entrou, veio para acender as velas. A ignorei por alguns minutos e comecei a vasculhar minhas coisas a procura de um vestido aceitável para um baile. Adivinhem... não achei! Não há nada que eu possa usar. Deixei escapar um suspiro de insatisfação e acho que a mulher ouviu.
_ Alguma coisa errada criança? – eu a olhei enquanto corava.
_ Nada importante. Apenas não tenho ideia do que irei usar para ir a um baile de hoje à noite. No The Crownd.
_ Ora, não se preocupe. Só um instante. – ela disse soltando um risinho. Não entendi o que ela fará em seguida, mas achei melhor não contrariar a pobre senhora. Alguns segundos depois, cá está ela de volta com um lindo embrulho aveludado.
O vestido era a coisa mais bonita que meus olhos já viram. Era de um roxo tão delicado, que parecia cintilar a luz das velas do quarto. Um tecido tão macio, tão fino, com um pequeno decote nas costas.
_ É muita gentileza sua... mas eu não posso...
_ O que é isso menina? É claro que pode. Considere um favor. Eu já tive o seu corpinho um dia. Era bem esguia e acho que não vai precisar ajustar. – agradeci imensamente pelo vestido e acabou que ela também se ofereceu para ajudar-me.
Por um momento, ela chega a parecer a Sra.Hudson com toda a sua gentileza e atenção. E por menos incrível do que possa parecer, conseguiu mudar completamente minha aparência e até mesmo expressão. Organizou meu cabelo em um lindo penteado, deixando boa parte solta e algumas madeixas presas, que deixaram meu rosto mais fino e feminino. O vestido serviu perfeitamente e deixava minha pele ainda mais branca e na falta de jóias, ela colocou duas pequenas pérolas em minha orelha. Confesso... sem modéstia alguma... que nunca me vi tão bonita quanto estou agora.
_ Tenho certeza de que o senhor seu noivo ficará bastante satisfeito com o que irá ver. – a senhora disse toda contente. Eu estava tão espantada que nem sequer reparei quando deixei escapar.
_ Sim... com certeza que sim... – e assim que voltei à realidade, tentei consertar meu erro. – Oh! Não! Não! Não tenho noivo algum... a senhora está enganada. – mas já era tarde demais, a mulher havia me deixado sozinha. Ora, como pode?... Céus!
De repente alguém bateu e a porta se abriu. Sherlock Holmes ficou parado no vão com um olhar de total perplexidade. Não mirava o vestido. Mirava meus olhos, apenas meus olhos, como se nunca os tivessem visto antes. Seus olhos brilhavam e ele sorriu, caminhando até mim com toda a calma do mundo, receoso de que com um passo errado, a imagem se quebraria.
_ Anne... você está... linda. – ele tocou meu rosto e eu senti minha pele formigar.
_ Obrigada. – corei. Ele ainda encarava meus olhos. – Vamos?
_ Não se esqueça...
_ A pistola está dentro da bolsa. – disse mostrando uma pequena bolsa lilás de mão, também da senhora.
_ Estamos prontos então. Poderia...? – ele me ofereceu o braço e eu aceitei. Watson nos esperava ao pé da escada e limitou-se a sorrir quando me viu.
***
O salão estava cheio. Parece que toda a cidade está aqui. A decoração está linda, parece um conto de fadas. Mas não sei se sou a pessoa certa para falar, já que não costumo freqüentar muitos bailes. Sorri cúmplice à Watson e deixei minha bolsa com Holmes, que com certeza não dançaria e iria passar o resto da noite com os velhos jogadores.
John Watson era um excelente dançarino e eu representava bem o papel de boa dançarina. Na verdade, era um desastre. As poucas vezes que tentaram me ensinar, não tive paciência para aprender, contudo estou me esforçando ao máximo agora... pelo menos para tentar esconder isso. Watson pareceu notar e começou a me guiar com mais afinco, como se aquilo me ajudasse a aprender. Mais uma contradança e eu já valsava como uma dançarina nata.
Olhei em volta e não encontrei Sherlock Holmes. Preocupada comecei a andar em volta do salão. O encontrei junto a uma janela, observando o tempo lá fora. Não pude reprimir um riso. Fui até ele e comecei a olhar para fora também.
_ O que faz aqui?
_ Por que pergunta?
_ Nada, nada. Só pensei que gostaria de companhia; parecia tão sozinho aqui. Deixado de lado, esquecido. – ele riu. Pegou duas taças de vinho com um rapaz que passava e virando-se para mim, entregou-me uma.
_ A propósito, vi você dançando. Não dança tão bem se compararmos com a sua mira ao atirar. – disse tomando um gole de vinho. Eu estava tomando um gole do meu e acabei engasgando, por segurar um riso.
_ Ora, ora, você sequer tentou dançar e vem me agredir desta maneira.
_ Com certeza dançaria melhor do que você se quisesse. Nunca disse que não sabia dançar, só não danço.
_ Claro! – e continuei a tomar meu vinho. Watson estava conversando com uma senhorita a alguns metros dali. Não me preocupei porque ela não é de longe tão bonita quanto Mary. Ele reparou em mim e acenou.
_ Venha se juntar a nós Anne! – disse acenando para a pista de dança.
_ Em um minuto! – respondi. Holmes acabara de tomar o vinho de sua taça e sorriu para mim.
_ Com quem irá dançar? – eu sorri e deixei minha taça de lado.
_ Ora, o número de cavalheiros não é escasso e com certeza deve haver alguém disposto a dançar comigo, mesmo sendo uma péssima dançarina. – ele riu da minha péssima tentativa de parecer desolada. Deixou sua taça de lado e estendeu a mão para mim.
_ Gostaria de dançar querida Anne? – eu ri gostosamente. Feliz por saber que o convenci a dançar. Caminhamos até a pista de dança, todos os casais se dirigiram e a música começou a tocar. Era uma Polka, para o meu azar, uma das danças mais difíceis.
Holmes não mentiu ao dizer que era um bom dançarino. Na verdade, era melhor que Watson, enquanto eu sou apenas uma iniciante, mas isso não pareceu intimidá-lo. Ao contrário de John, ele não me guiou com afinco ao perceber minha dificuldade. Deixou que eu o seguisse, tentando aprender sozinha, o que nos renderam boas risadas durante a Polka. Depois nos juntamos a Watson na roda, em que chegara o momento da troca de parceiros. Voltei ao meu antigo par e Holmes ganhou uma nova parceira. Contudo, não parávamos de olhar um para o outro e reprimir risadas quanto a minha habilidade de dançarina.
No fim, voltamos a dançar a Polka. Holmes e eu. Até que a música cessou e aplaudimos a banda.
_ Meu Deus, como sou ruim. – não me lembro de me sentir tão disposta assim em anos. Realmente um exercício revigorante.
_ Só precisa de um pouco mais de prática. Quando voltarmos a Londres, passará menos tempo duelando com espadas e mais tempo dançando com vassouras. – retrucou Holmes sem conter uma risada.
_ Não senhor. Eu nunca mais colocarei meus pés em uma pista de dança. Prefiro discutir com você a ter que passar por isso. Mas claro, você deve estar se cansando disso também. – as palmas cessaram. Sherlock olhou para mim, ainda rindo um pouco.
_ Eu poderia discutir com a senhorita pelo resto de minha vida, sem jamais me cansar.
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