Ankward: Mundo Guardado
4 Preparação
Analexa e Rowle substituíram os pijamas das crianças por roupas simples, bem rústicas e um pouco folgadas. O tecido era de cor marrom, grosso e não muito confortável. Para Antony, entregaram uma camiseta de mangas curtas, com um decote em V, e uma calça curta amarrada na cintura por um cordão bege. Isabela recebeu uma saia, também amarrada com um cordão, e uma camiseta como a de Antony.
A menina resistia à tentação de falar com Analexa e Rowle, cuidando para que todas as palavras que saíssem de sua boca fossem ríspidas. Considerou seriamente agredir alguma das Mids para conseguir fugir, mas teria de ser muito rápida, coisa que ela não era.
Antony era mais pacífico.
— Aonde o... Rhavid e Horan, falei o nome deles certo? Aonde eles foram?
— Ao outro lado da capital, cuidar dos Mids pequenos. — Rowle respondeu, e prosseguiu: — Crianças da tribo também são escolhidas, apenas duas também. Elas serão preparadas do mesmo jeito que vocês.
— Capital? Isso aqui é a capital?
— É como chamamos — explicou Analexa. — Não é um lugar muito grande, e a maioria do espaço é floresta. No meio da capital, tem uma montanha bem plana em cima...
— Um planalto?
— Se quiser chamar desse jeito. Bem, os nomes não importam. No Monte da Vida é onde realizamos os sacrifícios. De lá, nascem quatro rios, que delimitam as províncias da tribo.
— Tribos têm províncias?!
— Você não ouviu? — interveio Rowle, quase em um tom grosseiro. — Os nomes não importam. Nossa terra é grande demais para apenas uma pessoa cuidar sozinha.
— Como quatro rios podem nascer de um mesmo lugar?
Paciência era algo que Rowle havia adquirido custosamente, ao longo de muitos anos de estudo da magia. No entanto, estava perto de perder todo o seu progresso de uma vez com Antony.
— Qual de vocês dois havia perguntado sobre como temos tanta certeza de nosso deus? Pois bem, aí está a resposta.
Isabela deu uma expressiva revirada de olhos, fazendo a mínima questão de disfarçar.
Analexa e Rowle, ao terminar de vestir as crianças, amarraram-nas nas macas. Antony não tentou resistir, ao contrário de Isabela. Ela, para variar, chutava, socava e gritava como nunca na vida, chegando até a se libertar e correr para a porta, tentando escancará-la. As duas Mids tiveram que trabalhar em equipe para conseguir prendê-la. Quando conseguiram, Analexa se despediu:
— Até amanhã, crianças. Sinto muito por deixá-los em uma posição tão desconfortável, mas infelizmente não temos como garantir que não fugirão durante a noite. Amanhã, bem cedinho, nós viremos aqui de novo, para os últimos preparativos para o sacrifício.
Isabela, cansada de reprimir tudo o que estava com vontade de falar, perguntou:
— Como vai ser isso? Quer dizer, eu gostaria de saber todos os detalhes desse sacrifício idiota. — Ela se encarregou de colocar o máximo de desprezo no tom de voz.
“Gostaria, garota. Espero que vire a noite imaginando, porque eu não vou dizer”, Rowle pensou em retrucar. “Não, não, Rowle... o padrão de seus pensamentos tem caído muito. Pare com essa intolerância com as pessoas.”
— Serão quatro crianças escolhidas, em quatro caminhos que começam perto da fronteira da capital. Cada uma será levada para um dos caminhos, mas todos convergem no Monte da Vida. Vocês andarão com uma procissão pelas avenidas, com centenas de Mids observando das árvores.
— Árvores?
— Sim, árvores. Elas cercam os caminhos, e os Mids sobem nelas para assistir a procissão, se quiserem, descem para acompanhá-la indo até o Monte. O escalam, mas não podem chegar na parte plana, que é sagrada. Apenas as crianças do sacrifício podem pisar lá. Então, eu, Rowle, Rhavid e Horan nos viramos, cada um para o povo de sua província, e falamos para o céu, agradecendo a Rackismid. Quando terminamos, damos o sinal e todos, até os que não estão presentes, começam a usar sua magia para acender o fogo.
— Ainda não deu pra entender muito bem, mas não tem problema — Isabela disse insolentemente. —Quem se importa, não é mesmo?
Rowle não se conteve mais.
— Já que não temos nada mais a falar, vamos logo, Analexa. Essa garota já gastou mais do que deveria do nosso tempo. — E desfez a barreira tradutora bruscamente, indo em direção à porta e destrancando-a com magia. Analexa lançou um olhar constrangido para as crianças, como que pedindo desculpas pelo comportamento da amiga, e esperou que estivesse lá fora para repreendê-la.
— Rowle, tenha paciência! Ela só não entende a importância de sua tarefa. Lembra-se da técnica que Rhavid te passou? Respire fundo e olhe o lado dela.
— Desculpe, Analexa. Mas dessa vez, eu realmente não consegui compreender! — Rowle exclamou, soltando o ar em seguida. — Acho que vou parar de pensar nisso antes que comece a reclamar.
Analexa apreciou a atitude da amiga, e concluiu o diálogo dizendo que ambas deveriam voltar para os alojamentos de suas províncias.
Na capital, havia alojamentos para as pessoas de cada uma das províncias que vinham em decorrência ao sacrifício anual. Rhavid, Analexa, Horan e Rowle eram os líderes de cada uma delas, por ter tanto as qualidades de líderes quanto o domínio da magia. Os quatro haviam dedicado boa parte de suas vidas ao conhecimento, tanto de como dominar a si mesmo como o da energia mágica, duas coisas que estavam profundamente ligadas. Porém, havia algumas características que nem o mais rígido dos estudos apagou da personalidade de cada um.
Amarrada na maca, olhando para o teto de madeira, Isabela começou a refletir, o que trouxe de volta o pânico. De novo, pensava na família, nos sonhos, nos amigos, tudo o que abandonaria. Por quê? Por causa de uns lunáticos que sabiam viajar para outros mundos!
Lágrimas surgiram em seus olhos, ficando cada vez mais gordas, e por fim escorrendo por sua face. Mesmo que tentasse fazer silêncio, não conseguiu evitar. Ao ouvir um baixo e sofrido soluço, Antony compadeceu-se da garota, que sequer sabia o nome.
Sem saber o que dizer, ele ficou quieto e mergulhou nos próprios pensamentos. Seus pais ficariam preocupadíssimos ao acordar, Helena não se atrasaria para a escola, os trabalhos que ele tinha para entregar não seriam feitos. Apesar de não chorar, sentia uma tristeza monumental apoderar-se dele. Era um peso tão esmagador que Antony sentia-se como se estivesse enterrado a quilômetros abaixo da superfície.
Isabela tentava parar de soluçar. Quando conseguiu engolir o choro, perguntou, com a voz ainda embargada, para o garoto deitado na maca ao lado:
— Qual é o seu nome?
Antony foi arrancado de seus devaneios. Virou a cabeça para o lado. Isabela tinha a pele mais ou menos morena, bem bonita, longos cabelos castanho-escuro levemente ondulados e bochechas grandes, que lembravam um esquilo. Um esquilo fofinho.
— Antony. E o seu?
— Isabela. Mas me chame de Isa, se quiser. Quantos anos você tem?
— Onze. E você?
— Dez. Vou fazer onze esse ano. Quer dizer... ia... – A última palavra saiu em um fio de voz.
— Aonde você mora? — Antony tentou mudar de assunto.
— Campinazes, São Paulo. — Isabela, ao responder, virou o rosto para encarar Antony, que ostentava uma expressão de surpresa.
— Eu também! Em qual bairro você mora?
— No Jardim Andrade. E você?
Antony sentiu-se um pouco constrangido ao dizer que morava em um condomínio, pois o Jardim Andrade era um dos bairros mais pobres da cidade. Isabela sentiu uma breve pontada de inveja, que tratou logo de expulsar.
Vendo que a garota não respondera nada mais que um “Hum”, Antony tentou puxar assunto.
— Eles também te pegaram enquanto estava dormindo?
— Não. Eu estava na minha cama, mas não tinha dormido ainda — ela suspirou. — Como será que eles conseguiram entrar dentro de casa? Tipo, o portão da garagem tem grades e não tem como eles passarem. A menos que tenham caído do céu no corredor do lado de fora.
Algo estalou na mente de Antony.
— Lembra de como a moça trancou a porta, que tinha a fechadura do lado de fora, com mágica? Eles devem ter feito isso, só que ao contrário.
Isabela resmungou um “é” desanimado. Agora, nada disso importava mais mesmo.
— Você está com sono, Antony?
— Não. Ainda nem está de noite!
— Eu estou — mentiu. Isabela estava apenas sem vontade de continuar conversando. — Boa noite.
Ela fechou os olhos, o que não aliviava em nada a claridade, e se obrigou a não pensar em mais nada.
/~/~/~/
Isabela encontra-se em um lugar escuro como breu e muito gelado. Um pânico sem motivo cresce dentro dela, deixando-a desesperada e com a respiração pesada. De repente, um calor invade seus pés, subindo pelo seu corpo, aumentando cada vez mais, até doer. Doer muito. Isabela se joga no chão, se contorcendo, como se isso de alguma maneira fosse acabar com aquilo.
Não consegue.
O fogo a queima por dentro.
/~/~/~/
Isabela despertou sobressaltada. Se não estivesse amarrada, teria dado um pulo. Demorou um pouco para que reconhecesse o lugar, e alguns instantes a mais para se acalmar.
Pela luminosidade, deveria ser madrugada. Antony dormia na maca ao lado.
O estômago de Isabela congelou ao lembrar que seria hoje o dia do sacrifício. Todo o desespero que a invadira no sonho retornou mais forte, após ter vivenciado a dor de ser queimada viva, e ela tentou desfazer os nós das cordas. Eles haviam se afrouxado um pouco, porém, antes que pudesse se libertar, Isabela ouviu um ruído. A fechadura da porta estava sendo aberta.
Analexa e Horan adentraram a cabana. A garota congelou, enquanto Antony, ao se mexer e não conseguir, acordou.
A mulher refez a barreira tradutora e carinhosamente cumprimentou as crianças. Horan, seguindo o seu exemplo, fez o mesmo, embora não tão sinceramente. Os dois foram para a prateleira e de lá retiraram três potes, todos contendo estranhos líquidos. O primeiro parecia água suja, o segundo, azeite, e o último as crianças não conseguiram comparar a nada que conhecessem. Era verde e viscoso, como álcool em gel.
Horan deu o pote que pegou para Analexa e foi desamarrar Antony.
— Nós vamos cobrir vocês com esses óleos. Bem, na verdade, este aqui — Analexa explicou e levantou o pote com o verde viscoso — é seiva de árvore. Os óleos são especiais; eles servem como um ímã para a magia das pessoas que estão distantes. A seiva é por causa do fogo, ela ameniza a dor que vocês irão sentir.
Isabela ergueu uma sobrancelha. Nem sequer passou-se pela sua cabeça que os Mids teriam alguma piedade dela. Quer dizer, deles, ela e Antony, e as outras duas crianças.
Analexa e Horan não tiveram problemas em cobrir Antony com os líquidos. Os dois estranhavam, enquanto agradeciam a Rackismid, que o garoto fosse tão obediente e tranquilo. Aparentemente, ele havia se resignado com o seu destino. De fato, isso tinha acontecido, apesar de ter doído muito no coração do garoto.
Enquanto era besuntado, os pensamentos de Antony vagavam. Sequer se incomodava com aquela coisa esquisita, viscosa, sendo espalhada pelo seu corpo inteiro. Ele pensava desde coisas bobas, como nunca saber o final de Harry Potter e a Câmara Secreta, até sobre como sua família e seus amigos deveriam estar preocupados. Involuntariamente, começou a imaginar a mãe chorando, abraçada ao pai, que trazia uma expressão preocupada. Imaginava Helena sofrendo sozinha no seu quarto, sem querer contar aos amigos que o irmão mais novo sumira da noite para o dia. E Júlia e Gabriel, então? Estranhando sua falta na escola, iriam à sua casa perguntar o que aconteceu com Antony. E o que seus pais diriam? Será que diriam que ele estava doente? Ou a verdade? Bem, a verdade, nesse caso é variável, pensou. É verdade que ele sumiu de casa, mas o que não sabiam é que ele foi sequestrado, e que não “evaporou” por conta própria.
Seus pensamentos foram interrompidos com cordas amarrando seus tornozelos e pulsos. Horan o carregou até a maca e depositou-o sentado, reprimido um grunhido que quase escapou ao lembrar que a próxima criança era a menininha rebelde. Ele tentava não detestá-la, mas isso parecia uma missão impossível.
Enquanto esperava a sua vez de ser coberta pelos óleos, Isabela também divagava. O que acontecia no momento não era de seu interesse. Assim como Antony, imaginava a dor de sua família, porém era um pouco mais egoísta: pensava também em tudo o que não viveria. As festinhas de adolescente, o primeiro namoradinho, o seus irmãos mais velhos casando... nada disso existia mais.
Isabela ficou com raiva. Com muita raiva. Quem eram eles para tirarem sua vida? E em nome de um deus idiota com um nome zoado? Isso não era justo. Podia não ser a primeira injustiça com a qual se deparava, mas era impossível deixar passar. A mãe disse uma vez que era necessário engolir alguns sapos. E isso não era um sapo, era o brejo inteiro!
Quando Analexa se aproximou para desamarrá-la da maca, o corpo de Isabela ficou tenso. Parecia que ela estava concentrando toda a sua força para o momento que pudesse usá-la. Então, assim que o pulso direito foi desamarrado, Isabela conseguiu se livrar da mão de Horan, que estava segurando-a, e desferiu um soco contra a barriga de Analexa.
A mulher arquejou e se curvou, mais por surpresa do que dor. Porém, mentalmente ela admitiu que a garota era forte.
Isabela lutou muito mais ferozmente dessa vez do que nas anteriores. Antony observava entretido, enquanto a dupla de Mids custava a segurar a menina, que precisou ter os pulsos atados atrás das costas com muita força, quase cortando sua circulação. Não foi suficiente. Isabela tentava chutá-los ainda.
Foram pelo menos quinze minutos de resistência, até ela ser dominada. Quando a luta terminou, Antony notou que sorria. Sorria de divertimento e admiração, pois, enquanto ele já havia desistido, Isabela continuava lutando.
Analexa e Horan a cobriram de suas gosmas. A Isabela fez cara feia ao ver o corpo todo besuntado, e no instante que os óleos foram despejados sobre sua cabeça, ela fechou com muita força os olhos e a boca. Argh! Fazia um pouco de cócegas. E tinha cheiro de cabelo oleoso, também, como quando fica uma semana sem lavar.
A seiva foi aplicada depois, uma camada mais grossa nos pés e mais fina no resto do corpo. Um pouquinho no rosto... que nojo.
— Ah, finalmente! — exclamou Horan ao ver que as duas crianças estavam prontas. — Acho que já estamos até atrasados, Analexa. — Resistiu à tentação de completar a frase com “graças a essa peste”, mas se conteve.
Ao ouvir isso, os estômagos das crianças deram um salto mortal triplo, ou assim pareceu. No mesmo instante, um virou a cabeça para o outro. O olhar de Antony demonstrava medo e a palavra “adeus” estava praticamente estampada nele. Os olhos castanhos de Isabela também pareciam se despedir, e ao invés de medo, traziam terror e desespero. Ela não queria, mas seria obrigada a aceitar sua morte certa, como um afogado que não consegue mais subir à superfície.
Ela queria chorar. Gritar. Esbravejar. Voltar no tempo. Qualquer coisa.
Antony só queria ter podido falar com a sua família uma última vez. Queria agradecer os pais por tudo o que fizeram por ele, queria dizer a Helena que a amava, apesar de ser tão chata, queria falar aos amigos que as melhores risadas foram com eles...
As crianças apenas poderiam querer. Nunca poderiam realizar esses desejos.
Analexa iria levar Isabela, e Horan, Antony. A Mid reuniu sua energia mágica e envolveu a garota com ela. Sua intenção era que a magia não deixasse os líquidos escorrerem enquanto carregava a menina. Horan fez o mesmo com o garoto, e os dois Mids se despediram cordialmente.
Antes que se distanciassem, Isabela falou:
— Tchau, Antony. Acho que eu te vejo no céu.
— Tchau, Isa. E eu acho que o céu não existe.
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