Anjos Turvos
4 Capítulo 4 - Leve Atentado
Notas iniciais
(...)
- Pode ir para a minha suíte e pegar qualquer roupa no closet. Vou ligar para uns amigos para ver o que temos de bom para hoje. – falou dando uma piscadela.
Gargalhei satisfeito e fui até o quarto. Estava com saudades de meu amigo e o seu tão alto astral. Com tantos problemas em minha vida, já não lembrava o quanto que ele fazia falta.
(...)
Narração — Isabella Swan
Quando deu 20h30min, comecei a me arrumar. Estava verdadeiramente ansiosa para uma boa noitada. Faz séculos que não me lembro mais o que é isso.
Vesti um vestido preto e azul marinho tomara-que-caia leve da grife Armani, exibindo a minha pequena tatuagem de penas acima do peito esquerdo. Fiz uma maquiagem preta com detalhes em azul nos olhos, com muito iluminador. Finalizei a maquiagem com um blush de cor bronze natural e um batom clarinho, cor de boca. Coloquei poucos acessórios e por fim calcei uma Ankle Boot preta.
Suspirei satisfeita com o resultado no espelho. Olhei no relógio e marcavam 21h50min. Fui à cozinha beber um copo d’água e abri a gaveta do balcão. Lá estava o bilhete que recebi há dois dias.
“Deseja saber o que realmente aconteceu com o seu namorado, Srta. Swan? Ou prefere vê-lo com seus próprios olhos?”
Logo abaixo estava o endereço do galpão onde ocorreu o festival ontem à noite, e o horário. Suspirei pesadamente ao reler o bilhete. Não tinha remetente. Era um simples papel pequeno e amassado. Sua letra, impressa. Não havia como saber quem deixou aquela brincadeira de muito mau gosto em frente à porta de meu apartamento. Deixei-me levar novamente pela esperança na noite anterior. Por um momento, realmente acreditei que Jacob poderia estar vivo.
O interfone tocou, tirando-me de meus devaneios, informando a chegada de Edward. Desci rapidamente, e ao sair do prédio logo avistei Edward com outro rapaz, conversando encostados em uma SSC Ultimate Aero prateada. Logo escancarei a boca. Não era expert em carros, mas de velocidade eu entendia, e sabia perfeitamente bem que aquele modelo era um dos mais velozes e mais caros do mundo.
Edward, ao ver-me parada na porta do prédio admirando o carro, logo veio ao meu encontro com um sorriso torto no rosto. Logo minha atenção saiu do carro e foi parar nele. Ele estava lindo, com os cabelos sensualmente bagunçados, uma calça jeans, uma camiseta preta básica, e um tênis verde musgo fechando o look. Seus cabelos molhados me preocuparam.
- Você deveria ter tomado banho lá em casa, assim eu poderia repor os curativos. – repreendi-o.
Ele apenas gargalhou.
- Não esquenta, Bella. Eu e o meu amigo, Tom, nos viramos com as gazes. – falou apontando para o seu amigo, que vinha caminhando lentamente até nós, me encarando meio abobalhado. Corei violentamente. – A propósito, você está absurdamente linda. – falou com um meio sorriso sedutor, beijando a minha mão.
Sorri sem graça.
- Acredite, você também. – deixei sair sem querer, e se for possível, minhas bochechas arderam mais ainda.
Olhei para o chão procurando por um buraco para me enterrar, enquanto Edward ria olhando para mim.
Levantei o olhar para Tom, que vestia uma calça jeans, uma blusa branca básica, um terno e um tênis preto. Ele tinha os cabelos bagunçados como os de Edward, mas sendo pretos. Seus olhos, diferentemente do verde de Edward, eram azuis piscina.
- Oh! Deixe-me apresentá-los. Bella, este é... – começou, mas logo Tom interrompeu-o.
- Pode deixar que eu me apresento, Edward. – disse Tom, batendo levemente no ombro do amigo.
- Eu sou Tom, namorado de Edward. – falou, sorrindo descarado e envolvendo a cintura de Edward com o braço.
- Oh... – soltei praticamente um gemido, de incredulidade.
Tanto desperdício chegava a ser pecado, um crime contra as mulheres.
- Ew! – reclamou Edward, fazendo uma careta para Tom e tirando seu braço envolto de sua cintura.
Tom gargalhou.
- Ele está brincando. – Edward bufou, fuzilando-o com os olhos.
Não pude deixar de rir acompanhando Tom, ao ver a expressão de Edward.
- Tom Sturridge. Muito prazer, Srta. Swan. – Tom se apresentou formalmente, depositando um beijo em minha mão.
Sorri não mais embaraçada, depois de sua brincadeira descontraída. Sentia-me mais à vontade a seu lado agora.
- Então aquele é o seu carro? – apontei para o carrão de luxo, imaginando que seria de Tom, pois Edward chegou a Palm com uma mão na frente e outra atrás.
Ri de meu pensamento. Para falar a verdade, não fazia idéia de sua classe social. Desejei saber com o que Edward trabalha.
- Não, aquele é o meu filho. – assentiu brincando. – Digamos que eu seja um grande fã de velocidade.
Logo me animei, apesar de não praticar mais, ainda amava adrenalina.
- Ah, é? E a potência dele é boa mesmo ou ele é só um rostinho bonito? – perguntei provocando-o.
Tom sorriu sacana e eu ri.
- O que acha de darmos uma corrida reta na praia antes de irmos à boate, para apresentarmos mais adequadamente o meu filho à Bella? Ainda está cedo. – perguntou Tom.
- Eu acho uma ótima idéia! – exclamei animada, respondendo por Edward.
Edward assentiu sorrindo, olhando para minha expressão excitada. Tom abriu a porta do passageiro para mim, dando passagem para eu entrar. Sorri animada ao entrar no conversível. Edward pulou no banco de trás. Tom se inclinou para pegar algo no porta luvas, e logo surgiram três latinhas de energético geladinho, no ponto.
- Acho que hoje vamos precisar de muitas. – falou me oferecendo uma e dando uma piscadela.
Gargalhei atrevida. Estava entrando no clima, e esta noite queria me entregar de corpo e alma a diversão.
Logo que demos partida, Tom seguiu em direção à praia quase vazia que ficava em frente ao meu prédio. Liguei o som sem hesitar ou pedir permissão. Para completar o meu entusiasmo, Aerosmith começou a tocar e Tom aumentou o volume no máximo. Tomei uns goles da bebida e Tom seguiu em linha reta na praia atingindo a alta velocidade máxima de 200 km/h. Eu sentia toda a adrenalina na pele, chicoteada constantemente por meus cabelos soltos, bagunçados incansavelmente pelo vento. Tudo ao meu redor passava como meros borrões, e eu estava bem com isso.
Começamos a cantar a música em alto tom, e completamente tomada pela sensação de liberdade, me levantei no banco, ficando em pé de braços abertos e comecei a cantar o refrão da música alta que enchia meus ouvidos junto com o barulho alto e forte do vento. Não sei de onde surgiu tanto atrevimento e disposição, mas naquele momento me senti viva novamente. Tom guiava o carro dando vários urros de excitação, e Edward gargalhava logo atrás de nós, completamente entretido com a minha animação.
Sorri ainda mais ao olhar para trás e ver seu sorriso sacana me observando. Nossos olhares se encontraram e eu continuei cantando a música o mais alto que pude. Virei-me para frente novamente e vi Tom gargalhando animado. O refrão recomeçou e Edward se levantou junto comigo, destravando o meu banco e vindo para o meu lado. Dessa vez todos cantamos juntos, numa altura censurável.
Edward e eu praticamente gritamos o refrão, em plenos pulmões. Ele passou o braço ao redor de meus ombros e olhamos novamente para frente, maravilhados com a sensação de liberdade que entrava em pequenos choques elétricos por nossos corpos. Quando o refrão acabava, dávamos mais gritos de excitação e logo que recomeçava levantávamos novamente nossas mãos para o alto. Eu dançava, com a ajuda do vento, da forma mais livre que já havia dançado. Não me lembrava mais o quanto amava dançar. Mantivemos nossas posturas assim, até o final da música, quando Tom voltou para a avenida e dirigiu em direção à boate.
(...)
Meus cabelos estavam completamente bagunçados, mas de uma maneira que me agradava. Sorri ao ver que nós três estávamos totalmente assanhados. Mantinha um sorriso alegre em meu rosto, ainda provando da sensação de adrenalina.
Para a minha surpresa, Tom parou o carro em frente à Amnesia Club. A maior boate da Flórida. Também uma das boates mais badaladas e famosas do estado. Mas nenhuma outra fama era maior que a fama de libertinagem dessa boate. Boate GSL, propriamente dita. Olhei para cima, e de acordo com as janelas, a boate deveria ter aproximadamente cinco andares de pista. Mesmo com sua extensão exagerada, estava lotada até do lado de fora.
- Como é possível? Hoje é segunda-feira. – murmurei abobalhada olhando para a multidão de pessoas dançando no exterior da boate.
Edward viu minha expressão incrédula e riu.
- O Tom pediu para escolher o lugar. – me informou, claramente arrependido.
Tom saiu do carro e jogou a chave para um manobrista.
- Ele é sempre assim, tão exagerado? – deixei escapar enquanto Tom andava de um jeito charmoso até umas garotas paradas na frente do recinto.
- Esse é o Tom. – assentiu divertido, dando umas tapinhas na lateral do carro.
Edward desceu do carro e abriu a porta para mim. Ao sair percebi finalmente que todos olhavam para nós. Envergonhada, caminhei rapidamente até a entrada do local, com Edward ao meu lado. Tom saiu de perto das garotas, e veio conosco à bilheteria.
- Me desculpe senhor, mas os bilhetes esgotaram. – informou a mocinha da recepção quando Tom se aproximou dela.
Sem nem ao menos olhar pra ele, continuou mexendo em seus papéis sobre a mesa.
- Não para mim. – falou Tom, debruçando-se sobre a mesa para se aproximar da moça.
Ela tinha os cabelos pretos lisos presos num rabo de cavalo. Sua pele era extremamente branca. Usava óculos e vestia trajes formais. Sua maquiagem era leve, e ela tinha um ar de intelectual, mas era muito bonita. Ao ouvir a voz de Tom, subiu o olhar rapidamente para seu rosto, a centímetros do dela. Ao se deparar com ele, estacou.
- Thomas. – murmurou nervosa.
- Você sabe que eu não gosto desse nome. Não seja uma garota má... Ângela. – sussurrou próximo ao seu ouvido.
- O que está fazendo aqui? – perguntou irritada, sem encará-lo.
- Me divertindo oras! O que mais poderia? – respondeu roçando seus lábios nos dela.
Ângela entrou em transe com o contato, mas logo retomou o foco, se afastando de Tom e levantando da cadeira.
- Você não vai conseguir nada tentando me seduzir! Os ingressos esgotaram! – gritou, mas não alto o suficiente para chamar a atenção das pessoas a nossa volta, pois a música eletrônica na boate estava muito alta.
Tom se aproximou novamente dela, debruçado na mesa.
- Eu não preciso disso para entrar. Você sabe que todas as portas estão abertas para mim, Ang. – afirmou no mesmo tom tranquilo de antes.
- As do inferno tenho certeza. As minhas, não mais. – cuspiu as palavras em sua cara. – E nem as dessa boate, que está LOTADA!
Eu e Edward observávamos a cena ao lado de Tom, sem pronunciar nada.
- Isso nunca me impediu antes Ang. – sussurrou.
- Por que não? – perguntou sarcástica.
- Porque o meu nome é Tom Sturridge. – respondeu dando uma piscadela.
Logo que Tom respondeu, um travesti histérico apareceu ao seu lado.
- MEU DEUS! ORAS SE NÃO É ESSE O TOM STURRIDGE! – gritou escandalosa fazendo um gesto teatral para cima, e logo lhe dando um abraço apertado.
Tom apenas gargalhou, retribuindo.
- Demetria! Eu não poderia morrer sem ver-lhe novamente. Quanto tempo! – falou simpático para o travesti, enquanto sorria.
- O que faz aqui? Finalmente resolveu dar as caras, tigrão! – perguntou Demetria, puxando a mão de Tom e andando ao redor dele, observando seu corpo. – Se é possível, você está ainda mais gostoso. – disse Demetria, descarada.
Tom gargalhou.
- Vim me divertir com meus amigos, e se me permite, acho que precisa selecionar melhor seus funcionários. – afirmou Tom, sorrindo na direção de Ângela. Concluí então que Demetria era a proprietária da boate.
A essa altura, os punhos de Ângela estavam fechados e seu maxilar contraído. Seus olhos exalavam fogo.
- Oh! Perdoe-me Tom, ela é nova aqui. Logo lhe informarei sobre as normas da casa. – disse Demetria fuzilando Ângela com os olhos.
Os olhos de Ângela marejaram, e seu nariz estufou de ódio.
- Acho que não será necessário. – murmurou controlando o ódio em sua voz, olhando para Tom, que ainda possuía o sorriso safado nos lábios, e correu em direção à porta dos fundos.
A bicha ficou indignada, colocando a mão no peito interpretando um enfarto. Logo Tom acalmou-a, e ela mandou nós entrarmos, se desculpando inúmeras vezes a Tom.
- O que foi tudo aquilo? – sussurrei para Edward. Andávamos logo atrás de Tom e Demetria que conversavam animadamente, adentrando a boate.
- Ângela é a ex-namorada de Tom. Eles vieram juntos para Palm, mas não demorou muito para Tom deixá-la.
Adentramos a boate, e a música alta lá fora não era nada comparada ao volume aqui dentro. Sentia meu coração bater de acordo com as batidas da música. Automaticamente, meu corpo começou a se mexer de acordo com as batidas. A boate aqui dentro era muito maior do que eu poderia imaginar. A superlotação era surpreendente. Mal conseguia me mexer. Tinha muita gente ali, e todos pulavam agitados com a música. Seguimos Tom para as escadas e adentramos o segundo andar.
Lá a música parecia ainda mais alta. Tinha metade do tamanho do primeiro andar, sendo a outra metade, um espaço livre com a vista dando acesso ao andar de baixo. Estava um pouco menos lotado. No canto tinha um bar, e do lado umas mesas. Seguimos Tom até uma mesa com aproximadamente umas dez pessoas. Tom se juntou a todos, nos apresentando e esbanjando simpatia. Sentamos a mesa, e começamos todos a conversar. Engajei em um papo animado com Robin, uma das garotas sentadas a mesa. Ela era enfermeira no mesmo hospital que eu, mas nunca chegamos a conversar. Começamos a falar dos pacientes neuróticos que encontrávamos por lá. Depois o papo na mesa chegou a Tom. Todas as garotas chamavam-no de mulherengo, enquanto os rapazes riam. E ele negava tentando conquistar as garotas com sua laia. Todas diziam que não iam cair na lábia dele e nós gargalhávamos. Começaram então a falar do sotaque de Hetcher, um alemão que estava sentado à mesa conosco.
- Não escondo as minhas raízes. – disse Hetcher, se achando quando as garotas disseram que o seu sotaque era lindo.
Desde que havia conhecido Edward, percebi um pouco de sotaque inglês nele, mas algo quase não notável. Hoje quando conheci Tom percebi também seu sotaque, mas muito mais forte que o de Edward. Resolvi tirar uma dúvida.
- Você veio da Inglaterra, Edward? – sussurrei próxima a ele, para que ninguém mais ouvisse.
Ele riu. A conversa na mesa já havia tomado outro rumo.
- Como percebeu? – perguntou arqueando uma sobrancelha.
- Então você veio! – afirmei rindo.
- Mas vim para os EUA ainda jovem, quando meu pai resolveu montar seus negócios no país. – concluiu sorrindo.
- O Tom também é? – perguntei só para saber mais.
- Sim, mas ele só veio na época da faculdade. Conhecíamo-nos em Londres, estudamos juntos uma vez por lá, mas eu tive que vir com o meu pai. Quando ele entrou na faculdade nos reencontramos. – afirmou.
- Então vocês são londrinos... – falei.
Ele gargalhou assentindo.
- E você é eslovaca... Isabella – falou com seu sotaque natural, e pouco mais alto, fazendo Robin que estava ao meu lado, ouvir.
- Você é eslovaca? – perguntou Robin, então todos ouviram.
Esse foi o assunto na mesa por mais alguns minutos, quando todos me perguntavam como é a Eslováquia. Depois mudaram o rumo para comidas típicas do Japão. Logo a conversa voltou ao tópico “Tom”.
- Então você é realmente bissexual? – perguntou Sabrine, uma das garotas sentadas a mesa.
Tom estava flertando com ela, mantinha o braço envolto em seu ombro.
- Claro, estou aberto a qualquer tipo de opção. – falou divertido.
- Não é não. Não caiam garotas, isso é só charme. – disse Edward, apontando para Tom.
- Deixa-me provar que é verdade, vem xuxuzinho... – disse Tom, se escorando na mesa para beijar Edward.
Edward pegou um celular na mesa e fingiu ameaçar Tom.
- Chegue mais perto! Eu tenho um celular e não tenho medo de usá-lo! – falou fazendo careta.
Tom gargalhou e voltou a jogar charme em Sabrine.
- Tudo bem, eu pego ele mais tarde. – completou piscando para Edward.
Edward estava sentado ao meu lado, com o braço apoiado meu ombro.
- Então... Vocês estão juntos? – perguntou Robin, ainda em tom descontraído pelas brincadeiras com Tom.
Fiquei embaraçada e abaixei a cabeça. Edward apenas riu.
- Não, nos conhecemos há pouco. – respondeu.
- Então, o que acha de dançar Edward? – perguntou maliciosa para Edward.
Edward lançou um olhar para Tom que não consegui decifrar.
- Que tal todos dançarmos agora? – perguntou Tom para a mesa inteira.
Já fazia uns cinquenta minutos que estávamos ali conversando. Eu já havia bebido aproximadamente oito dozes de Martini e estava completamente agitada. Concordei com a cabeça e todos nos levantamos. Descemos para o primeiro andar, que estava mais lotado. Não conseguia nem andar direito, e diferente do segundo andar, aqui fazia calor. Mas não me importei. Logo segui no embalo da música, no meio da multidão. As pessoas pulavam agitadas, havia vários casais se beijando, de todos os sexos e idades. Comecei a pular e senti uma mão em meu ombro, me virei e deparei-me com Edward. O som estava muito alto, aproximei-me de seu ouvido.
- Você não deveria estar sentado? O seu peito não dói? – perguntei preocupada.
Ele enlaçou a minha cintura e começou a dançar.
- Estou bem. – falou em meu ouvido.
Assenti e comecei a dançar junto com ele. A música eletrônica altamente agitada foi trocada por uma com a batida mais intensa. Edward colou nossos corpos, então enlacei seu pescoço. Comecei a dançar com a cabeça abaixada, entrando no ritmo. Edward segurou a minha cintura e sincronizou nossos corpos de acordo com a música. Ele dançava muito bem, como um professor, tentando me levar em seu ritmo. O que ele não sabia era que eu poderia dançar melhor do que muitos imaginam. Olhei-o nos olhos, me enchendo de ousadia, então me virei de costas para ele, ainda segurando seu pescoço com a mão. Arrependi-me de tê-lo olhado daquela forma, ele poderia facilmente confundir as minhas intenções, dado pelo jeito que dançávamos juntos.
Sua expressão estava um pouco surpresa antes de eu me virar. Queria saber como estava sua expressão agora. Vacilei um pouco antes de me mover mais intensamente, pois estava seriamente enferrujada. Mas logo comecei a dançar novamente. Estava provando a Edward que eu sabia o que estava fazendo, e eu estava assumindo o comando, então caprichei. Com meu braço levantado acima de minha cabeça, e enroscado em seu pescoço, puxei seus cabelos levemente para não perder o controle ao descer. Juntei nossos quadris o máximo que consegui e comecei a dançar me movendo sensualmente até em baixo. Fiquei com medo de machucar seu peito, mas Edward não reclamou. Ele estava acompanhando o ritmo de meus quadris, mas sem descer. Subi lentamente e virei-me novamente. Sua expressão estava surpresa e sua boca entreaberta. Então ele sorriu aquele sorriso torto que só ele sabe fazer, e eu sorri de volta.
Uma música mais leve começou a tocar, e Edward enlaçou a minha cintura novamente. Só agora havia percebido o quão suado nós estávamos. Ele afastou os meus cabelos do meu rosto, enquanto sussurrava um pedaço da letra, olhando em meus olhos. Estava me sentindo leve naquele momento, alegre. Sorri, passando a ponta de meus dedos em sua barba por fazer. Ele acompanhou o meu sorriso, enquanto me abraçava e apoiava a cabeça no vão do meu pescoço. Dançamos devagarzinho por um tempo, só curtindo o ritmo da música.
- Obrigado. – sussurrou em meu ouvido, depositando um beijo leve em meu ombro logo em seguida.
Assenti, acariciando seus cabelos, sabendo que tinha valido a pena me arriscar naquele galpão na noite anterior para salvá-lo. Edward era capaz de me trazer uma tranquilidade que nenhum homem jamais conseguiu. E eu o conhecia há apenas um dia. Eu sentia como se o conhecesse a minha vida inteira.
Quando a música acabou, foi substituída por uma eletrônica agitada, e Tom se juntos a nós junto com seus amigos. Todos nós dançamos juntos por um bom tempo. Depois de muito pular e gargalhar com Tom, subi até o bar, cansada e com sede. Edward e Tom me acompanharam. Eu e Edward pedimos Martini, e Tom, vodca pura. Era no mínimo sua trigésima dose. Eu estava apenas em minha nona dose. Isso havia me deixado mais extrovertida, menos tímida. A mesa em que estávamos sentados estava lotada com outro grupo de amigos, igualmente às outras mesas do andar. Resolvemos subir para o terceiro andar. Direcionamo-nos às escadas, e quando subimos, relaxei mais. O local, diferente do segundo andar, era fechado. Quatro paredes de veludo preto e várias mesas encostadas em sofás que cobriam toda a extensão do andar. Tinha menos gente aqui, e poucos dançavam. Era um espaço menor e a música estava bem mais baixa. Sentamos numa mesa no canto direito da sala. Acomodei-me no meio dos dois.
- Não acha que está exagerando? – perguntei para Tom, apontando seu copo de vodka.
- O infinito para mim ainda não é exagero, querida Bella. – falou, tomando um gole de sua bebida.
Eu ri junto com Edward, lembrando-me do que ele havia me dito sobre os exageros de Tom.
- Hoje eu dirijo na volta, Tom. – Edward afirmou.
Tom apenas assentiu, tomando outro gole de sua bebida.
- Edward, você precisa mesmo voltar amanhã? – perguntou Tom.
Eu já havia me esquecido sobre a partida de Edward. Entristeci imediatamente. Se ele soubesse há quanto tempo eu não me divertia como hoje. Se ele não tivesse aparecido em minha vida, hoje eu estaria muito provavelmente lendo um livro pela quarta vez ou assistindo a Oprah, de pijamas e pantufas no sofá, tomando um pote de sorvete de dois litros. Sorri amargurada. Antes de Edward aparecer, fazia meses que não conversava com alguém ou saía para me divertir. Fazia meses que eu não executava uma de minhas maiores paixões, a dança. Fiquei me perguntando como seria amanhã, quando Edward não estivesse mais aqui. Eu voltaria para o meu dia-a-dia monótono e apagado. Desejei-me sentir viva mais vezes, como hoje.
- Tom, eu preciso organizar as coisas na editora. Emmett está dando conta de tudo sozinho, não posso sobrecarregar-lhe dessa forma. – respondeu Edward. — Não esquenta, no final do mês você vai voltar a trabalhar na editora e a gente fica junto novamente.
- Eu sabia que você ainda me desejava meu xuxuzinho... – falou Tom, fazendo biquinho e se escorando em Edward por cima de mim, tentando roubar-lhe um beijo.
- Ew! Tom! Não juntos dessa forma! Eca! – resmungou Edward, se esquivando para longe.
Perguntei-me se eles estavam cientes de minha presença no meio dos dois. Então me dei conta do que Edward havia acabado de falar.
- Você trabalha numa editora, Edward? – perguntei curiosa.
- Eu administro uma, na verdade. – falou embaraçado.
- Não brinca!
- Lockhard Publishing Home. Editor e escritor. – falou Tom, sendo fuzilado pelos olhos de Edward. – Que é? É verdade. Não seja tão humilde.
— Você é o dono da Lockhard? – perguntei escandalosa, escancarando a boca. – A maior editora do país?
- Não é pra tanto, eu... – disse Edward, mas interrompi-o.
- Eu pensei que o dono fosse o Matthew Cullen. – falei, e logo a ficha caiu. Sr. Cullen.
- Esse é o meu pai. Ele passou a editora para mim e meu irmão há uns anos e...
Então me lembrei de algumas coisas que vi na TV, sobre Tom. Já não prestava atenção no que Edward falava.
“Não esquenta, no final do mês você vai voltar a trabalhar na editora...”
Por isso ele é tão rico. Tom Sturridge. Escritor, autor de um dos Best-Sellers mais famosos da atualidade. “A Morte de Donna”. Já ouvi falar sobre esse livro antes, definitivamente. Lembro de já ter lido uns pedaços em uma livraria, logo após a morte de Jacob. A capa chamou a minha atenção. Uma imagem de uma garota de aproximadamente dezessete anos, segurando a mão de um homem que não aparece na imagem. A garota tem um largo sorriso no rosto, mas ela não tinha olhos. No lugar dele havia buracos pretos.
O livro é um sucesso no mundo inteiro, fala sobre um romance adolescente que acaba em tragédia. A estória é caracterizada por drama, dado pelo suicídio da garota logo no início do livro. Passa-se nas semanas após a morte dela, quando seu ex-namorado que até então achava que não tinha a ver com seu suicídio, se surpreende com os motivos que a levaram até a morte. Descobre todas as suas desilusões e seu conceito do amor. Não comprei o livro, pois não queria ler sobre um romance trágico, dado que Jacob havia falecido há pouco. Nunca imaginaria que aquele livro foi escrito por Tom. Sei que acabei de conhecer-lo, mas seu sorriso tarado e seu jeito extrovertido, animado, e galinha negariam que ele é um romancista. Nada nele denunciaria a escrita de um romance. Voltei do transe, quando Edward passou a mão em frente ao meu rosto, focando o meu olhar. Olhei para Tom ao meu lado, que ainda bebia sua vodka e sorria para mim.
- Você escreveu “A Morte de Donna”. – deveria ser uma pergunta, mas saiu mais como uma afirmação.
Seu sorriso dobrou.
- Viu Edward? Essa é uma garota de cultura. – falou apontando para mim.
- E você é o dono da Lockhard! – afirmei para Edward. – Não posso acreditar! Sempre quis ser uma escritora, desde pequenina. – falei para Tom.
Também não podia acreditar que estava sentada à frente do filho de Matthew Cullen. Autor do meu livro preferido. Meu, e de mais meio mundo. “Até as Asas Quebrarem”. Sem dúvidas o melhor livro do mundo. Escrito há vinte e quatro anos. Livro mais vendido da época. Talvez tenha sido com ele que Matthew criou a editora. O livro conta a história de um anjo. Uma mulher que se tornou um anjo puro, mas que era apaixonada por um mero humano. Foi um romance trágico. No final, tiveram que se separar para sempre.
- Se queria ser escritora, por que não se tornou uma? – perguntou Edward.
- O sonho de minha mãe era que eu seguisse sua carreira de médica. Não quis desapontá-la. – afirmei envergonhada.
- Você ao menos gosta de ser uma médica? – perguntou Edward, incrédulo.
- Um pouco... – menti, embaraçada.
Não suporto hospitais, não suporto estudar medicina, mas ainda assim fui a aluna mais aplicada na faculdade.
- Bella?... – insistiu.
- Eu quis fazer jornalismo, sempre amei escrever. Mas a minha mãe ameaçou cortar todos os meus custos. Até pensei em trabalhar, mas não consegui nenhum emprego que sustentasse uma faculdade e eu pudesse lidar junto com os estudos.
Tom agora parecia alheio à conversa, apenas observando seu copo.
- Por que você sempre se contenta com tudo o que as pessoas lhe proporcionam? Você nunca quis correr atrás de mais? – perguntou, colocando seu copo na mesa e virando-se para mim.
- Ei! Você nem ao menos, me conhece! – afirmei irritada.
Não pelo fato dele se intrometer em minha vida. Mas sim pelo fato de que ele tinha razão. Eu não costumava ser sempre assim, mas com o tempo eu fui me apagando. Para evitar qualquer tipo de complicação ou até mesmo atenção, me contentava com qualquer coisa que me era proporcionado.
- O suficiente para saber que você desistiu de sua própria vida! – resmungou.
Não respondi. Não respondi, porque ele estava certo. O que eu faria? Protestaria? Não. Porque era verdade. Eu desisti de minha própria vida quando minha mãe se impôs quanto a minha profissão, e desisti quando Jacob se foi.
- Bella, por que você não voltou para Miami quando o seu namorado foi... – hesitou – Quando o seu namorado faleceu? – perguntou. – Digo, se sua vida aqui não era boa para você, por que não voltou para a sua casa? O que espera daqui? Continuar numa profissão que não gosta e permanecer sozinha? Sem amigos? Por que não voltou para Miami, Bella?
Seu pequeno discurso, por mais verdadeiro que fosse me machucou. Machucou porque era verdade. Sei que Edward sentiu minha dor quando deixei um suspiro escapar e olhei para o copo a minha frente. Edward tocou meu queixo delicadamente com a ponta dos dedos e virou meu rosto para encará-lo.
- Desculpe-me por falar essas coisas. Sei que estou me intrometendo em sua vida, mas eu quero te ajudar Bella. Eu preciso te ajudar. Permita-me que eu o faça. – falou, me olhando nos olhos.
Surpresa por sua atitude, e envergonhada por ser tão fraca, dei um pequeno sorriso fechado e desviei seu olhar. Virei-me na cadeira e só então percebi que Tom já não se encontrava mais ali.
- Cadê ele? – perguntei para Edward, apontando para o lugar vazio ao meu lado.
- Também não o vi sair. – falou pensativo. – Estranho... O que será que ele está aprontando? – perguntou mais para ele do que para mim.
Nesse exato momento a música na boate parou.
- O que?... – já ia perguntar, mas fui interrompida pelo som agudo de um microfone mal posicionado, vindo do palco no primeiro piso.
- TOM STURRIDGE ESTÁ DE VOLTA! – gritou Tom, do palco.
Olhei incrédula para Edward e ele levantou, me puxando junto com ele até o primeiro piso. Ouvimos os gritos da multidão, não só de mulheres, como também todos os homens do recinto, excitados por Tom. Estaquei na escada, ao ver instrumentos musicais sendo posicionados atrás dele, no palco.
- Edward, o que ele está?... – ia perguntar o que estava acontecendo, quando fui interrompida pela gargalhada de Edward.
Tom havia pegado uma guitarra no palco, e estava apontando ela na direção de Edward.
- Vamos Bella! – gritou Edward gargalhando, me puxando com ele em direção ao palco.
Chegamos ao palco com dificuldade, por conta da multidão de pessoas. Ao chegarmos olhei incrédula para Edward, que só gargalhou, pegando sua guitarra na mão de Tom, que já se posicionava em frente à bateria.
- É hora de soltar essa voz! – gritou Edward divertido para mim, e me empurrou na frente do microfone.
- O QUÊ? – gritei. Tarde demais.
Os dois futuros defuntos atrás de mim começaram a tocar um rock conhecido. Por sorte, eu sabia a letra, mas estaquei ao ver a quantidade de gente pulando a minha frente.
- Vamos Bella! – gritou Edward se divertindo com minha expressão.
Ele aumentou o volume na guitarra, e eu fechei meus olhos. Senti o palco vibrar quando Edward fez duas notas altas na guitarra. Logo ele começou seu solo. Quase deixei meu queixo cair quando ouvi seu talento na guitarra. Ele repetiu o solo, e depois foi seguido pela bateria de Tom, que por sinal mesmo bêbado estava impressionando na batera. Fizeram o solo que Edward tocara antes, mas agora juntos. Imaginei que estava me dando tempo para criar coragem. Todos na boate davam pulos e urros aproveitando o som dos meninos. Edward deu uma pausa na guitarra e Tom deu últimos toques na bateria antes do vocal começar. Reuni toda a coragem que possuía e comecei a cantar. Edward voltou com a guitarra repetindo uma mesma nota enquanto eu cantava o primeiro verso.
Estava cantando de olhos fechados. Ainda um pouco embaraçada, mas à medida que a música ia aumentando as batidas, fui me soltando. Logo comecei a dançar junto com a música, e abri os olhos. O volume foi aumentando à medida que as pessoas gritavam mais alto. Comecei a balançar a cabeça, jogando o cabelo para frente e para trás junto com a batida da música. Já não sabia mais se estava gritando ou cantando, sei que perdi qualquer indício de timidez e comecei a pular agitada junto com a música. Nos versos mais calmos inclinava o corpo um pouco para frente, cantando junto com as pessoas à minha frente. Olhei em um momento para Edward, e vi que ele me encarava abobalhado, provavelmente surpreso por ter me soltado tanto. Ignorei. Dancei e pulei pelo palco, animada com o incentivo das pessoas. No meio da música, antes do refrão, Tom parou na bateria e Edward foi a minha frente, fazer mais um solo. As garotas e também alguns homens foram à loucura junto comigo, que impressionada, pulei pelo palco rindo, maravilhada com o talento de Edward, que tocava suas maiores notas, fazendo um solo maravilhoso. Edward olhou para mim, sorrindo torto e aumentando as notas. Logo Tom seguiu Edward, e voltaram para a música.
Comecei a cantar novamente pelo refrão, levando a multidão a nossa frente à loucura. Todos cantaram e pularam até o final da música. Quando dei meu último grito, e Edward finalizou com a guitarra. Olhei gargalhando para as pessoas a minha frente. Estava realizada. Sempre amei cantar, e já havia cantado em palco outras vezes. Mas há tanto tempo não conhecia aquela sensação. Era maravilhoso.
Continuei com o microfone na mão, sorrindo para a platéia à minha frente, e tentando uniformizar a minha respiração. Edward se juntou a mim, e Tom apareceu à nossa frente, sem camisa. Não vi quando ele tirou sua roupa lá atrás, mas quando ele voltou, quase enfartei. Que homem! Todos à nossa frente gritaram da forma mais estridente possível, Edward gargalhou alto ao meu lado e começaram a gritar o nome de Tom. Ele levantou as mãos para o alto, incentivando a gritaria e jogou suas baquetas para a platéia. Logo Tom se juntou a nós, e procurei não olhar muito para os seus atributos físicos. Então a platéia gritou por mais. Olhei para Edward, entusiasmada, e ele piscou para mim, andando para trás e pegando sua guitarra novamente. Tom gargalhou e voltou ao seu lugar na bateria. Começamos a tocar novamente, e dessa vez já estava entregue à sensação. Pulei desde o início junto com a platéia até a música acabar.
(...)
Depois de tocarmos mais duas músicas, reunimos a galera de novo e subimos para o segundo piso. Sentamos em uma das mesas, e pedimos nossos drinques. Estava morta de sede depois de tanto cantar. Recebemos elogios de todos na mesa. Tom e Sabrine estavam no terceiro piso. Foram se beijando até lá logo depois que Tom desceu do palco sem camisa. Conversamos entusiasmados por algum tempo e depois todos desceram para dançar.
- Cadê o Tom? – gritou Edward para nós, por conta da música excessivamente alta.
- Afogando o ganso! – respondeu Hetsher.
Tão logo Tom e Sabrina apareceram suados no primeiro piso, se juntaram para dançar conosco. Depois de muito dançar com os meninos, já estava exausta. Chequei a hora no relógio de pulso de Tom. Eram 04h40min. Estávamos todos cansados, então resolvemos ir. Edward assumiu o lugar do motorista e Tom desmaiou no banco de trás. Sentei no banco do passageiro novamente e gargalhei quando ouvi os roncos de Tom. Edward me acompanhou rindo.
- Vai me deixar em casa ou vai me sequestrar? – perguntei atrevida para Edward quando ele virou a direção do carro no caminho oposto ao meu prédio.
- Na verdade, eu queria passar em um lugar por aqui antes de ir. Viajo pela tarde provavelmente e espero não precisar voltar. – afirmou.
Assenti entristecida. Edward notou quando abaixei a cabeça e olhou para frente pensativo. Passamos por trás de meu prédio e subimos algumas ruas. Seguimos em linha reta e em poucos minutos paramos em frente a um mirante. Desci do carro admirando a vista.
- Nunca imaginara que houvesse um lugar tão bonito aqui. – murmurei abobalhada, admirando o mirante e a beleza do horizonte.
- Nunca veio aqui antes? – perguntou Edward incrédulo.
- Não conhecia esse lugar. – falei, sem tirar meu olhar do horizonte.
A noite ainda estava escura, e o céu daqui era bem estrelado. A lua estava cheia, dando uma boa iluminação ao local. O céu estava simplesmente lindo. Olhei para o mar lá embaixo. Estava calmo. Admirei o reflexo da lua em suas águas. Edward se juntou a mim. Olhei para o lado, ele encarava o mar. Procurei por Tom e constatei que ele ainda roncava jogado no banco de trás de seu carro. Sorri. Sentei ao lado de Edward, olhando para a lua e só então me dei conta do quão frio fazia. Abracei meus braços procurando me esquentar. Edward olhou para mim e se sentou ao meu lado, rindo ao ver meus dentes baterem de frio.
- Desculpe-me. – falou, me abraçando apertado e afagando meu braço, no intuito de me esquentar.
Encostei a cabeça em seu peito, e logo me senti aquecida. Inalei seu perfume másculo.
- Não queria que fosse embora. – deixei escapar.
Corei imediatamente. Fiquei agradecida por Edward não poder ver meu rosto agora. Ele voltou a afagar meu braço, e me afastou um pouco para olhar em meus olhos. Sua expressão estava serena, com um pequeno sorriso fechado. Resolvi continuar.
- Você não sabe há quanto tempo não me divertia como eu me diverti esta noite. – falei desviando o olhar do seu, envergonhada. – Não sabe há quanto tempo não danço. Não canto. Não sabe há quanto tempo não sorrio.
Olhei para seu rosto novamente, e seu semblante havia mudado. Não consegui decifrar o que ele estava sentindo. Ficamos por um tempo apenas admirando o horizonte. O lado leste do céu já começara a pintar de tons alaranjados.
- Você vai voltar para Miami, Bella. – afirmou, de repente.
Estaquei, sem entender o que ele dizia. Afastei-me um pouco para ver sua expressão. Ele mantinha um sorriso bobo no rosto. Pisquei os olhos freneticamente, procurando algum indício de zombaria em sua face.
- O quê? – sussurrei.
- Você vai voltar para Miami. Não se preocupe, eu vou lhe ajudar no que precisar. – afirmou, olhando em meus olhos e sorrindo. – Você vai voltar, e vai trabalhar comigo na Lockhard. – concluiu.
- Edward, eu... Eu não posso. – murmurei confusa. – Por que está dizendo isso? Eu tenho um emprego aqui que me sustenta devidamente bem. Eu tenho minha vida aqui Edward. Não posso jogar tudo para o alto assim!
- Não Bella! Você tem um ganha pão aqui. Não é uma vida. Sua vida está lá, não é verdade? Você volta e começa a estudar Jornalismo. Por enquanto você trabalha na Lockhard. Depois de alguns períodos você pode se tornar uma editora Bella! Você não quer isso?
Meus olhos brilharam, só por me imaginar trabalhando na Lockhard. Virar uma editora, e até escritora numa das maiores casas de publicação do país. Era um sonho. Mas era muito. Demais para mudar. Demais para arriscar.
- Edward, eu tenho estabilidade aqui. Posso não amar ser enfermeira, mas eu sou boa no que faço. Sei que posso ir longe. Eu não sei o que aconteceria mudando um curso tão forte de vida. – falei angustiada.
- Arrisque! Como irá saber se não tentar Bella? Você vai mesmo desistir de seu sonho por medo? – perguntou me olhando intensamente. – Não acha que a sorte está ao seu lado? Olha para mim! Você salvou o dono da Lockhard Publishing Home ontem à noite, Bella. Talvez seja o destino, não sei, mas você precisa arriscar.
Perdi-me em suas palavras. Ele estava certo. Eu não podia viver com medo. Eu precisava arriscar, já havia perdido muito tempo aqui em Palm. Viver aqui não ia me ajudar em nada. Não queria passar o resto da vida sozinha, fazendo algo que odeio, e tomando remédios controlados contra depressão. Era o meu sonho, e Edward poderia me ajudar. Tive medo de voltar e ele me dar às costas, pois eu acabei de conhecê-lo. Não sabia nem ao menos o motivo de querer me ajudar, mas eu precisava agarrar essa chance com unhas e dentes. Olhei para Edward, que continuava me encarando como se quisesse penetrar meus olhos. Forcei um sorriso.
- Você está certo. – respondi.
Edward sorriu. Seus olhos brilharam intensos. Recostei minha cabeça em seu peito. Ele voltou a afagar meu braço, e olhei para frente novamente. O sol entrava no céu, pintando-o de diferentes tons de laranja, misturados com o azul atual. A brisa da manhã começou a bater contra minha face, e lentamente fui me entregando ao sono. Fechei os olhos devagar, e senti um beijo em minha testa antes de cair profundamente no inconsciente.
- Você pode contar comigo Bella...
(...)
- Bella... Bella... – mais um cutucão. – Isabella, acorda! – outro cutucão na barriga, me fez cócegas.
- Hm... – gemi, sem saber ao certo se estava ou não consciente.
- Bella, você precisa acordar! – abri meus olhos ao sentir o toque de mãos quentes em ambos os lados de meu rosto.
Estada deitada no sofá de meu apartamento. O dia ainda estava amanhecendo. Edward estava em pé à minha frente.
- O que houve? – resmunguei fechando os olhos novamente.
- Alguém invadiu o apartamento. – na mesma hora em que digeri a informação, levantei em súbito, quase derrubando Edward.
- O quê?! – gritei, sem pensar.
- Quando chegamos, a porta estava escancarada. – respondeu, apontando para a porta ao nosso lado.
- Há quanto tempo estamos aqui? – perguntei assustada.
- Acabamos de chegar Bella, você pegou no sono no mirante. Carreguei-te até aqui e a porta estava aberta. – afirmou.
Olhei assustada para a porta. Voltei o meu olhar para Edward, e sua expressão ficou confusa. Ele vasculhou a sala com os olhos, as sobrancelhas arqueadas. Fiquei parada olhando para ele, tentando entender o que ele estava fazendo. Edward parou ao meu lado e inspirou profundamente. Arregalou os olhos e foi até a cozinha. Levantou a cortina do balcão e procurou por algo.
- Bella, onde está o gás? – perguntou.
Só então entendi aonde ele queria chegar. Inspirei profundamente e senti o cheiro de gás inundar as minhas narinas. Arregalei os olhos instantaneamente.
- Na área de serviço! – falei urgente, apontando para a porta fechada, atrás da cozinha.
Edward foi até lá e tentou abrir a porta.
- Está trancada! – afirmou urgente.
Corri em direção do balcão, onde acima dele havia um pequeno chaveiro com todas as chaves da casa. Não encontrei a chave. Talvez porque estivesse nervosa. Por que o gás estava aberto? Sacudi o molho de chaves novamente, me certificando que a chave da porta da área de serviço não estava ali.
- Eu não sei onde ela está. – afirmei, virando-me para encará-lo.
Edward mantinha sua cabeça encostada á porta, inclinando-se levemente contra a madeira. Seus olhos estavam sem foco. Ele inspirou profundamente e correu para a pequena janela em cima do balcão que dava de encontro à área de serviço. O vidro era granulado e estava travado por fora, por isso não conseguia enxergar muita coisa. Corri para trás de Edward, procurando por alguma reação de sua parte.
– Tem um cigarro aceso lá dentro! – afirmou apontando para a janela.
Entrei em pânico. A minha boca escancarou junto com meus olhos arregalados. Inalei fraco o ar, e senti levemente o cheiro de tabaco. Tabaco e menta. Edward buscou por alguma coisa nos armários e depois nas gavetas do balcão. Tirou um martelo de carne de dentro das gavetas. Corri para impedi-lo.
- Edward, não! Vidros não podem ser quebrados perto do fogo. Só fará aumentar, e se isso acontecer o apartamento vai explodir. – estremeci com o pensamento. – Você precisa arrebentar a porta.
- Tem certeza?
Bufei.
- Eu trabalho em um hospital Edward, confie em mim.
Ele mesmo me olhou, só saiu em disparada até a porta e bateu forte com o martelo nos trincos de ferro. Logo peguei um copo e enchi-o de água. Afastei-me vendo os trincos despedaçarem. Era preciso muita força para fazer um estrago daqueles. Quando os trincos caíram Edward chocou-se contra a porta. Corri atrás dele quando a porta caiu do outro lado. O cigarro estava jogado no chão, queimado até a metade de seu comprimento. O que significa que quem o jogou ali, não o fez há muito tempo.
O fogo se espalhava por baixo do cigarro, queimando uma planta seca. Joguei toda a água de dentro do grande copo, em cima do fogo. Apagou tudo de imediato. Edward já havia fechado a mangueira do gás. Olhei para frente e vi seu olhar endurecido sobre o cigarro no chão à minha frente. Mais alguns minutos, e o apartamento estaria em chamas agora. Imediatamente lembrei-me do sonho que tive essa noite, o fogo que consumia toda a minha casa, e Jacob na janela. A minha respiração estava pesada. Olhei para as janelas da área de serviço, constatando que estavam fechadas. Voltei com urgência para a sala, me deparando com as portas da varanda escancaradas. Quem quer que tenha feito isso, só pode ter tido acesso a casa pela varanda.
- Precisamos acionar a polícia.
Sobressaltei com a voz de Edward atrás de mim. Sua expressão era sombria, fazendo-me questionar quem poderia ter cometido o atentado. Teria relação com o crime que tirou a vida do Jacob?
(...)
Continua...
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