Anjo massacrante
3 Boatos
Notas iniciais
Boatos
Era manhã na pequena vila e por ser pequena, todos já haviam ouvido falar de dois jovens de beleza rara, sendo a menina, violentada pelo lenhador local, Francisco.
Boatos, claro. Boatos falsos espalhados pelo próprio Francisco, querendo se vangloriar de ter tirado a virgindade de tão bela flor, boatos das enfermeiras, que queriam que todos soubessem da novidade, um belo rapaz que foi ferido na perna por um lenhador na tentativa de salvar sua irmã.
Boatos, criados até pelos próprios padres, que falavam sobre uma bela donzela que foi resgatada e levada ao orfanato como caridade da igreja. Estaria nos jornais se ele existisse naquela época.
A versão original e as várias versões criadas por quase toda a cidade eram absurdamente distintas. Haviam pessoas que diziam ter visto os gêmeos de beleza rara e que haviam até mesmo falado com eles. Alguns diziam estar de casamento marcado com a menina e que ela e o irmão estavam indo para comentar sobre o futuro casamento, mesmo que nunca houvessem a visto.
– Bom dia, Gabriel. – Dimitri acabara de chegar das compras para o café da manhã. – Trouxe frutas, você come frutas?
– Posso tomar suco destas frutas, obrigado. Mas não costumo comer, meu corpo não precisa.
– Mas se pode tomar suco, então tudo bem. – Disse dando uma piscada à ele. – Farei suco de goiaba, tudo bem?
– Sim, claro.
– Escuta, Gabriel... Estamos num lugar onde se acredita que as pessoas possuam um gênero. Precisa escolher ser homem ou mulher, ou pode entrar em apuros, entende? O que você quer que achem que você é?
–...
– Sabe... É difícil ser mulher. Você será cortejada, encontrará homens como o de ontem que querem você pela sua beleza, apenas ter seu corpo e isso pode machucar você.
– Então, quer que eu seja homem? Entendo, serei homem então.
– Ei, espera, não foi isso o que eu quis dizer, eu só me preocupo com seu bem estar e não quero que você sofra novamente. – Dizia preparando o suco.
– Você é um homem bom, Dimitri. – O anjo permanecia sentado no sofá, sorrindo.
– Comprarei roupas para você depois. Por enquanto, vista isso. – Dizia entregando uma sacola com uma roupa dentro.
– Uma roupa de homem?
– Sim, comprei esta hoje pra você. Não sei se vai servir, mas é melhor do que esta que está vestindo. Ela está rasgada atrás, não é?
– Na verdade, não está rasgada. Ela é assim para minhas asas não baterem contra o tecido. Doeria se isso acontecesse.
– Ah, claro. As asas. Eu nem lembrava que você as tinha, acredita?
– Sim. Falando nisso, onde posso revela-las? Preciso limpar o ferimento.
– Hã? – Aquilo havia pegado o pobre rapaz de surpresa. Tudo estava acontecendo rápido demais e as informações demoravam a ser processadas pelo cérebro.
“Ela, quer dizer, ele, é um anjo. Anjos possuem asas, ele feriu a asa durante a briga com o demônio, isso quer dizer que está ferido. Se está ferido, precisa ir ao médico. Não, ele não pode ir ao médico, tem outra anatomia, precisa ir ao veterinário, não é? Mas o que eu tou pensando, meu Deus? Se mostrasse as asas pra alguém é claro que esse alguém diria pra todo mundo. Eu mesmo vou ter de ajuda-lo.”
– É que para cuidar de minhas asas eu preciso expor elas e aqui tem um espaço muito pequeno. Vai bater no teto ou derrubar alguma coisa.
– Ah! Sim, claro, então... Hm.... Que tal a igreja? Os tetos são altíssimos.
– Eu agradeço. Por favor, me leve.
– Sim, mas primeiro seu suco. – Entregava o suco ao “jovem” anjo, que o bebeu até pouco mais que a metade, suspirando visivelmente satisfeito.
– Nossa, que gostoso, pena que não consigo comer mais.
– É. Ontem você comeu bem pouco também. Se fosse humano eu me preocuparia muito, mas sendo quem é, acredito que ficará bem. Enquanto você se troca, eu vou procurar bandagens.
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Na igreja, Dimitri saiu a procura de um local isolado junto ao anjo, e ao encontrarem, respirou aliviado. O lugar era a céu aberto, atrás da igreja existia um belo jardim com uma fonte de água jorrando. Árvores existiam poucas, pois quem projetou o lugar se concentrou mais na fonte, na grama e nas flores.
– Lembrei agora, é o horário da missa e todos estão reunidos ouvindo a bíblia, então acho que ninguém nos verá.
– Folgo em saber. Posso? — Gabriel estava vestindo a roupa que Dimitri havia comprado para ele e se tratava de uma blusa comum, uma calça, um cinto e sapatos, além é claro de uma fina fita de couro que agora amarrava os cabelos loiros.
– Sinta-se a vontade. – E como lhe foi permitido pelo jovem, Gabriel começou a despir-se, retirando a blusa para que pudesse deixar as asas surgirem. Luz encobriu o pequeno anjo dos pés a cabeça, deixando que suas asas surgissem e ficassem abertas para serem vistas pelos olhos atentos e curiosos do amigo.
Aquele ato de tirar a blusa havia deixado Dimitri envergonhado e sequer sabia a razão daquilo, afinal, ele não tinha seios. Da cintura pra cima, era como se fosse homem. Um homem com cintura curvilínea, pele macia, branquinha, sem qualquer músculo definido, nenhum sequer. Se fosse mais novo, fisicamente falando, certamente seria uma mulher. Mas não era.
“Como alguém poderia ser tão lindo? E as asas? Que asas lindas. Opa, ia esquecendo, tenho de cuidar das asas.”
– Suas asas são lindas. Meu Deus! O que aconteceu? – Perguntou ao ver parte da asa direita perfurada. Sangrava e dava para ver que era sério. Não sabia se o que Havia trazido era suficiente ou se era útil, mas tentaria.
– O demônio atravessou minha asa direita com suas garras e quando estava para retira-las de dentro de minha asa, perfurei seu coração com minha lança.
– Nossa. Bem... Deixe-me cuidar. – Se aproximando do menor, o fez sentar-se na beirada da fonte e começou a limpar a ferida, imaginando o quão difícil era sentir aquela dor por tanto tempo.
– Como conseguiu dormir ontem a noite com essa ferida? Você... Deve estar doendo muito, não?
– Está doendo, mas não foi por isso que não dormi. Eu não durmo, nunca dormi. – Dizia fazendo uma expressão de dor ao sentir o álcool e depois a asa ser imobilizada.
– Escuta, não sei fazer mais que isso e não podemos te levar num hospital, então... Me desculpe.
– Tudo bem, você me ajudou muito e a dor diminuiu. Assim que não puder mais mexer a asa. Vou guarda-las.
Assim que as guardou, a luz que emanava de seu corpo desapareceu novamente e Dimitri permaneceu observando aquele corpo de beleza única, tão singelo, até este se virar para ele e pegar a blusa do chão.
– Dimitri? O que houve? – Perguntou enquanto vestia-se.
– Hã? Nada. É que agora pensei... Você... Bem, você poderia morar comigo ou na igreja, não sei, alguma coisa assim. Bastaria você ficar sem blusa na frente do meu superior e ele veria que você é homem.
– E como isso ajudaria? Digo, ficar sem blusa na frente dele.
– Você não tem seios, então ele iria achar que você é homem.
– Oh, entendo. Podemos fazer isso então, se é o que você quer. Por mim, tanto faz.
– Não é porque eu quero, só... Sim, eu quero, mas quero o seu bem, Gabriel. Tenho medo que outros descubram sobre você ou lhe façam mal. Por isso quero ficar perto de você sempre que puder. – Aquelas palavras fizeram o anjo voltar a sorrir e levar a mão até a face do maior, a acarinhando.
– Você é realmente um bom homem, Dimitri. Deus lhe abençoe. – Ele não soube do porque, apenas colocou sua mão sobre a dele, prolongando o contato daquela mão delicada em seu rosto. Queria prolongar quanto tempo lhe fosse permitido.
– Por mim, você ficaria para sempre comigo, Gabriel. – Disse em um sussurro, o abraçando. – Sois tão delicado, tão gentil, tão frágil. Queria lhe proteger de tudo e de todos, sempre.
Talvez porque nunca ninguém quis protege-lo, talvez porque ninguém tenha o abraçado, talvez porque nunca ninguém lhe dissera aquelas palavras e muito menos daquela forma tão carinhosa. Talvez por todos estes agravantes, Gabriel sentiu um sentimento novo brotar, vindo da boca do estômago até o coração, que bateu acelerado.
Não sabia se devia retribuir o abraço e nem o que dizer em resposta, então fez o que seu coração dizia para fazer, o abraçando com cautela. O momento durou cinco minutos, mas era como se tivesse durado menos aos dois, que ao se distanciarem, se surpreendeu cada um por um motivo diferente.
O loiro, por ainda sentir o coração acelerado e o moreno, por ver na expressão do loiro, confusão e um belo tom de vermelho em suas bochechas.
“Tão adorável.” – Mas foi quando ia falar algo sobre aquilo que ouviu passos vindo da porta. Alguém estava vindo e não poderia encontrar aquele sangue no chão ou em suas mãos, então rapidamente ficou sobre o sangue e colocou as mãos nas costas, as escondendo da vista daquele que os interrompia.
– Padre Dimitri? O que faz aqui e esta pessoa? Não é a menina de ontem? O que faz com estas roupas? São de homem! Por Deus!
– Saulo, não sei se percebeu, mas Gabriel tem 16 anos, não tem seios e tem nome masculino. Isso lhe diz algo?
– Quer dizer que é homem? – Disse numa surpresa tão grande que foi quase uma grosseria, pedindo desculpas depois. – Desculpe Gabriel, todos pensamos que fosse uma garota, então o tratamos como uma.
– Sem problema, mas Dimitri disse isso várias vezes ontem a noite para vocês. – Disse num sorriso, achando engraçada aquela situação.
– É que era difícil acreditar em algo assim, sabe? Seus cabelos, aquela roupa, você não tem barba e seu corpo, sua voz, seu rosto... Não ajuda muito, sabe?
– Já está sendo grosseiro, Padre. – Dimitri estava nervoso, pois tudo o que Saulo dissera era verdade e aquilo o perturbava imensamente.
– Desculpe, mas escuta... Aquele cara de ontem, o tal lenhador, ele não fez nada com você, fez?
– Fez. Machucou minha perna e meus braços. – Mostrou os hematomas que até então Dimitri desconhecia. – Não mostro a perna porque está coberta pela calça. Você entende, não é?
– Chegamos antes de algo mais grave acontecer. – Respondeu o moreno, que havia ouvido do médico que nada o outro havia sofrido contra a castidade.
– Ah, sim, claro. – Quando ouvira o menino dizer que o lenhador havia feito algo contra ele, pensou que havia violado o pobre rapaz, mas parece que não. – Acho melhor eu comunicar aos outros sobre o menino.
– Sim. – Respondeu sério o maior, que punha a mão no ombro do loiro, o fazendo acordar. O pequeno anjo estava distraído, olhando um casal de borboletas brincar no ar.
– Oh, então tchau Padre Saulo. – Disse o menino, sorrindo à ele. Aquele sorriso tão inocente, aquele olhar tão puro, a luz batendo contra os cabelos loiros tão macios... Era mesmo um homem? Que mundo injusto. E pensando assim, se foi o Padre.
– Tivemos sorte de ele ter vindo após recolher tuas asas. Seria difícil explicar a situação atual.
Como resposta, o menor lhe sorriu minimamente e pegou uma das mãos do maior, sem se importar com o sangue.
– Você tem sido bom para mim. Eu quem deveria me preocupar e protege-lo, mas você quem faz isso por nós dois. Obrigado.
Aquela sensação voltava a atormentar o moreno. Sentia ela percorrer da ponta dos dedos, subindo até o braço e ficando na face, que esquentara repentinamente. Esse sentimento não deveria ser real. Puxou a mão, afastando-se do menor e lhe deu as costas.
– Quando terminarmos aqui, o que acha de comprar outras roupas pra você?
Aquela atitude era confusa assistida pelo loiro, que sem entender, seguiu a linha da conversa que o outro iniciara:
– Não acho que seja necessário, mas se desejar, não haverá problemas de minha parte.
Ao fim da manhã, ambos foram à cidade e compraram uma sandália, duas blusas e uma calça, sendo elas o mais masculinas que Dimitri encontrara, pois não queria que ninguém mais duvidasse. Elas eram do tamanho certo para Gabriel vestir e portanto, não haveria dúvidas quanto a isso. Nenhuma garota teria o peito plano tendo aquela idade.
Carregado com as compras, Dimitri andava ao lado de Gabriel, em direção à sua moradia. Estava quase na hora do almoço. Os cheiros que deixavam as casas vizinhas despertavam o apetite de um deles, o fazendo inspirar ainda mais o odor agradável de frango assado e feijoada.
– E pensar que ainda tenho de fazer a comida...
– Dimitri, já está com fome?
– Não imagina o quanto. Mas não se preocupe Gabriel. Vou tentar fazer alguma coisa.
– Tentar?
– É que eu não tenho muitos ingredientes lá em casa hoje.
– Hunm, se é este o caso, do que precisa?
– Algumas frutas, vegetais e grãos. Desisti da caça esta semana, não deve haver nenhum nessa temporada.
– Não se deve comer animais, Dimitri. Eles são amigos. Foram feitos para conviverem lado a lado com a humanidade. Nós nunca entendemos o por que os humanos matarem os companheiros que cuidam da natureza. Isso é selvagem, cruel e –
– Ei, ei! Já entendi! Nada de matar ou comer animais. Bem, nos alimentamos deles para obtermos os nutrientes e proteínas deles ou ficaremos fracos e também porque é muito gostoso.
– NÃO! Não se obtém nutrientes e proteínas deles! Isso é um mito! É como acreditar que ao comer um guerreiro forte, você obterá sua inteligência e força. Pode-se adquirir força através de todo o resto que vocês comem e principalmente o que vocês deixam de comer, como verduras, legumes e até mesmo plantas. E não diga que é gostoso! Meu Deus, não diga!
Era visível o nervosismo e frustração do loirinho, que tinha os lábios trêmulos enquanto falava, dando ênfase quando explicava o que devia ou não fazer. Estava horrorizado com o que ouvira do amigo. Amigo este, que acabou recuando um passo a medida que o outro se aproximava com as palavras ditas altas, atraindo um pouco da atenção dos transeuntes.
– Ei, calma, não precisa se exaltar, não se preocupe, de minha parte eu nunca mais vou comer nenhum animal ou seja lá o que for dessas coisas. Tudo bem? Não vou mais matar também.
– Mesmo? Você faria isso?
Em um movimento rápido, o arcanjo tinha as duas mãos do padre capturadas pelas suas e o olhava esperançoso. Foi quando percebeu, ele estava para chorar. Aquilo deveria o afetar mais do que aparentava, pois quando o encontrou, ele estava sendo atacado por aquele homem e mesmo assim não havia demonstrado em momento algum que iria chorar.
– S-Sim, eu prometo que não farei mais isso. Se você diz que é errado, então com certeza é, e eu não quero fazer algo que é considerado um crime aos seus olhos.
– Não somente aos meus olhos, como aos Dele.
– Ah... Sim, Dele também. – Disse afastando as mãos do mais velho, um pouco entristecido. Tudo o que o Arcanjo via, pensava e respirava, tudo era voltado a Deus. — Vamos pra casa.
“Não acredito nisso. Estou mesmo com ciúmes? De Deus?”
Juntos, voltaram para a residência, um mais aliviado, com um sorriso sereno e reluzente nos lábios e o outro, com o olhar voltado ao chão.
Continua...
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