Anjo massacrante
5 A partida
Notas iniciais
A partida
– Vamos?
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Ao chegarem ao orfanato, Dimitri entregou a cesta com todas as frutas que havia colhido aos funcionários que gratos pela gentileza, agradeceram ao padre com vigor, mas logo foram parados pela timidez do mesmo, que recusou os agradecimentos:
– Desculpe, mas não devem nada a mim. Foi Gabriel quem lhes presenteou com as frutas. Ele quem me mostrou onde as colher.
Mais uma vez, o arcanjo se surpreendia com a modéstia do jovem. De certo que havia mostrado, mas a ideia de fazer aquela caridade havia sido exclusiva do maior, mas nada conseguia dizer tamanha vergonha, pois apenas em preces ouvira agradecimentos tão vigorosos.
Chegando à casa, ambos sentaram-se um de frente pro outro e relaxaram antes de que um deles falasse qualquer coisa. Haviam voltado sem fruta alguma, mas estavam felizes.
– Obrigado, Gabriel. Fazia tempos que eu queria fazer algo por eles, mas nada podia além de rezar.
– De nada, eu... — Neste momento, o arcanjo sentiu uma pequena fisgada nas costas e em outras partes do corpo. Algo havia acontecido e suspeitava saber o que. Incomodado, o menor puxou a perna da calça e viu o local que havia antes hematomas por conta da agressão que sofrera, ignorando o olhar curioso do moreno sobre si.
– Dimitri, os hematomas... Eles sumiram! Os dos braços também!
– Será que sua asa também está curada? – Sem perder tempo, o maior levantou da cadeira e fechou as cortinas, ligando a luz do lampião. — Faça, não me importo que suas asas derrubem minhas coisas no chão ou que quebre algo. Precisamos saber!
Assentindo com a cabeça, o menor tirou a blusa e fez com que as asas surgissem, embora nada houvesse derramado além de um quadro da parede. A asa estava cicatrizando em grande velocidade e o sangue que outrora estava seco desaparecera, crescendo lindas penas no local. Estava curado e limpo como se nada houvesse acontecido. O lugar se enchia de luz, que emanava do arcanjo, quase cegando o maior, que cobria os olhos com uma das mãos. Era mais brilhante agora, que estava curado.
– T-Tão rápido... Era disso que havia me dito quando falou estar preocupado por estar demorando demais para cicatrizar?
– Sim. Antes, quando me feria, assim que acontecia.
Um longo silencio se fez enquanto Dimitri tirava as bandagens que havia colocado antes, acarinhando as plumas macias e se enfeitiçando com aquela maravilhosa sensação então, o maior percebeu. Gabriel estava curado e ele deveria voltar ao céu.
– Gabriel, não quero que vá. – Com cuidado, o abraçou, tomando cautela para não o ferir. Aquelas asas embora resistentes, aparentavam imensa fragilidade.
–... Eu sei. – Disse-lhe retribuindo o abraço sem saber ao certo se deveria ou não o fazer.
– Porque agora? Eu queria que você se curasse, claro. Não queria que sofresse mais. Nem pela dor física ou pela dor de ficar longe Dele. Mas... Mas eu queria que ficássemos juntos!
– Acho que cumpri o meu dever, por isso me curei. Acho que Ele queria que eu lhe mostrasse aquelas frutas. Que eu atendesse tuas preces.
– Não tem como você ficar mais tempo?
– Está tarde. Vá dormir. Amanha partirei.
– Durma comigo esta noite.
– O que?
– Durma comigo esta noite. Por favor? – Abraçando-o mais contra si, Dimitri percebeu o que havia dito, mas agora era tarde. Mesmo tendo se envergonhado, não poderia voltar atrás no que havia dito no impulso.
– Só desta vez, farei um capricho teu. Agora vamos pequenino, é hora de dormir.
O maior sorriu enquanto o outro recolhia suas asas e com isso, o brilho se extinguia. Ele era puro demais, para entender aquele pedido egoísta que havia feito, mas era melhor que entendesse errado. Ninguém poderia macular Gabriel, nem mesmo ele.
Ambos foram para a cama de solteiro do padre e abraçados ficaram, acalentado pelos cânticos do menor, que pela primeira vez havia feito ecoar sua voz celeste a outro que não fosse seu Senhor. Até que Dimitri caísse no sono, ficaram se olhando.
Ao amanhecer, acordou sem ter o mesmo consigo e aquilo de imediato o afligiu.
“Onde ele está? Não, ele não pode ter ido sem se despedir. Nem pude dizer que o amo!”
Se condoendo, apertou o peito com força, pois a dor que sentia era maior do que qualquer coisa que lhe machucara antes. Nada havia sido pior do que aquele sentimento. Levantou da cama com os olhos marejados, percebendo tardiamente o que havia pensado e se amaldiçoou por aquilo. Um barulho foi ouvido do cômodo ao lado e aquilo o despertou, o fazendo correr e quase cair ao tropeçar no tapete. Gabriel estava colocando o quadro que havia derrubado na noite anterior no seu lugar devido.
– Oi Dimitri, vejo que já acordou. Dormiu bem?
– Teria dormido melhor se não soubesse que hoje será a ultima vez que o verei.
O olhar do loiro se enuviou por um momento e caminhou até o amigo, lhe acarinhando os cabelos, como se o mesmo fosse uma criança.
– Não se preocupe com isso. Se você continuar sendo a pessoa maravilhosa que é, com certeza voltaremos a nos ver.
Dimitri sabia o que aquilo significava. Uma longa vida de boas ações, esperando ansiosamente pela morte. Quando ele morrer, voltarão a se encontrar.
– Nunca fui muito paciente. – O moreno ria do cruel destino que o esperava e suspirou, aceitando a sina. – Quando pretende partir?
– Ao final da tarde, pouco antes do sol se por. Preciso seguir o caminho dos raios de sol. Não irei agora, porque quero ficar um pouco mais contigo. Irei no ultimo momento.
As doces palavras que Gabriel dizia mexiam com o pobre humano, que sentia o alívio e a alegria por ser querido por ele.
– Obrigado. – Agradecido, o maior pegou as mãos do arcanjo e as beijou com carinho, fazendo o mesmo sorrir pelo afeto.
– O que acha de colhermos algumas outras frutas novamente? Dessa vez, para você levar para sua casa.
– Sim, passar nossos últimos momentos juntos é tudo o que me importa no momento.
Ambos voltaram àquela parte da floresta e após colherem maçãs, peras e limões, resolveram sentar no chão, encostados em uma enorme mangueira. Gabriel estava vestido com a roupa a qual foi encontrado pelos padres e aquilo fazia o maior recear mais ainda a ida do pequeno.
– Vou sentir sua falta. – A voz saía sôfrega, sufocada pelas lagrimas que teimavam em não cair.
– Eu também, Dimitri. – Uma das mãos do loiro foi segurada pela do maior e assim ficaram de mãos dadas, sentados olhando o horizonte.
Mal sabia eles, estar sendo observados.
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O café da manhã e o almoço, ambos haviam sido feitos no mesmo local. Debaixo de uma frondosa mangueira. Dimitri não se importava com mais nada além de estar ao lado do menor, mesmo que nada falassem, apenas ficarem de mãos dadas sentados um do lado do outro lhe bastaria. Não queria gastar um minuto sequer do resto de tempo que lhes restava juntos, longe de Gabriel.
Estava de tarde e aquilo lhe lembrava que tinha pouco tempo. Precisava falar o quanto antes ou se arrependeria para sempre:
– Gabriel, tem algo que preciso te dizer. É muito importante pra mim que escute e que entenda.
Ele não conseguia olhar nos olhos do arcanjo, pois se o fizesse, perderia toda a confiança que tinha acumulado com o passar das horas.
– Pode dizer, estou ouvindo.
– Eu te amo.
Aquelas palavras tinham um grande peso, mas Gabriel não as compreendia, como Dimitri suspeitara de início e assim o loiro sorriu tranquilo, olhando para o moreno, que retribuiu o olhar, mas diferente do arcanjo, não transmitia tranquilidade, mas nervosismo.
– Eu também te amo, Dimitri.
– Não, Gabriel. Nossos amores são diferentes.
– E como poderia ser? – confuso, o menor, desfez o sorriso, sentindo a própria mão ser levada aos lábios do moreno.
– Não é apenas amizade, é mais que isso, muito mais. Eu te amo como um homem ama uma mulher.
O choque fez com que o anjo não tivesse reação de início, mas ao entender as palavras, temeu pelo pobre homem, recolhendo a própria mão e com isso, ferindo o coração de Dimitri.
Ao longe, os que os vigiavam viram a troca de olhares, as mãos dadas e o beijo na mão de Gabriel. Apenas uma conclusão eles poderiam chegar, mesmo não os ouvindo. Algo estava acontecendo entre os dois.
– Dimitri! Sabíamos que havia algo de errado com isso! – A voz familiar de Saulo fez com que os dois se sobressaltassem, se surpreendendo ao ver caminhando na direção deles, o dono da voz junto do padre Estefano, que complementava a entrada do companheiro com escárnio:
– Eu deveria imaginar. Quer dizer que você fez esta menina mentir para poderem morar juntos, não é? Mas eu jamais poderia imaginar que logo você faria algo assim, padre Dimitri.
– Estão enganados! – Gabriel disse sério, levantando-se altivo, enquanto que Dimitri lamentava por terem sido encontrados em um momento tão inoportuno.
– Ora, não minta. Já sabemos da trama. Gabriele será mandada ao orfanato como era originalmente o plano e Dimitri, você será deposto. É uma vergonha ter você na igreja.
Nesse momento, o moreno se ergueu, entendendo enfim o que estava acontecendo. Eles haviam pensado que ele estaria fazendo coisas sujas com uma garota de 16 anos e sequer poderia contestar, pois não sabia fugir com respostas de duplo sentido como Gabriel fazia.
– Vamos, menina. Você virá conosco.
Diante das palavras desferidas contra seu amigo, o arcanjo que até então se mantinha o mais distante de qualquer conflito, resolveu defende-lo e atacar aos que haviam destruído parte da despedida dos dois. Seu olhar e sorrisos serenos, agora eram os de um juiz condenando os réus impuros pelos pecados cometidos.
–Tolos. Tenho aceito vossa falta de respeito para comigo até então em respeito a Dimitri e apenas a ele, não os coloquei em seu devido lugar ainda, mas tudo tem seu limite e vós atingistes o meu.
– Como disse? – Incrédulo, o arrogante Estefano não acreditava na audácia daquelas palavras, mas antes que falasse algo, foi impedido pela língua afiada do loiro.
– Padre Saulo, grande glutão. De domingo a domingo visita casas aproveitando-se por ser um homem de Deus para comer as custas dos outros. Pobres criaturas hipócritas.
Gabriel estava chateado. Era raro que um humano o irritasse de verdade e haviam sido dois que o fizeram ao mesmo tempo. Dimitri percebeu isso não pelo tom que usava, mas pelo olhar e aura que emanava. Quando Saulo ia falando, Gabriel ergueu um pouco a voz, para continuar falando sem ser impedido:
– Padre Estefano, que moral terias tu? Cobra de todos, procura defeito em todos, mas o pior humano tu sois. Falas de Deus dentro e fora da Igreja, mas em sua casa, assedia as empregadas, quebra o sigilo do confessionário e assim, aumentando a fofoca que alguém inicia, adotou crianças mas tudo o que elas absorveram de bom, foi de outro lugar.
Horrorizado, Estefano não conseguia fazer nada além de balbuciar meias palavras. Dimitri não sabia o que esperar daquilo tudo, mas estava apreciando mais do que deveria a pequena exposição dos fatos.
– Grande hipócrita, que busca nos outros os próprios defeitos. Quantas vezes me perguntaste se sou mulher, exclusivamente porque deseja este corpo e aparência que possuo? Sois pobre de espírito. Tua alma é decadente e suja, olha para todos com arrogância, prepotência. Pensas ser superior aos outros por possuir um cargo elevado diante dos olhares humanos.
– Gabriel, tenha calma por favor. – Interrompendo o menor, o moreno punha a mão no ombro do loiro, que o fitou sério ainda.
–Desculpe, Dimitri. Fiquei tão absorvido nos meus próprios pensamentos que sequer percebi estar falando demais. Obrigado por abrir meus olhos.
Saulo, que havia se recuperado do choque inicial, havia perdido a vergonha inicialmente adquirida e proferiu as primeiras palavras, dando assim coragem ao amigo a falar também:
– Como ousa? Somos padres, é claro que comemos nas casas dos fiéis. Isso é normal!
– Não, padre. Normal se você for convidado. Normal se for uma vez por semana no máximo. Mas se for como Gabriel diz, e eu sei que ele falou a verdade, então você realmente se aproveita dos outros e isso é muito feio.
– Cale-se Dimitri! E você, Gabriele? Como sabe disso tudo? Sobre Saulo e sobre mim. Como uma criança como tu poderia entender? Desejar você? Assediar as empregadas? Isso é loucura!
– Já falei que o nome dele é Gabriel e não se dirija a ele dessa forma! Eu tenho nojo de você padre. Eu o respeitava muito, mas desde que Gabriel chegou, eu vi o tipo de pessoa que você é. Agora ouvir isso, me da angústia porque um dia eu quis ser como você.
O sol estava começando a sumir e isso fez com que o loiro ignorasse a confusão que havia iniciado e olhou para Dimitri, tomando as duas mãos do amigo as beijando com carinho, como o outro fizera a ele outrora.
– Meu tempo está no fim e devo partir agora, Dimitri.
O mundo parou para o moreno, que sem se importar com os outros dois espectadores, envolveu o arcanjo em um abraço possesivo, sentindo as lagrimas finalmente molharem a face. Gabriel sentia uma dor pequena no peito, mas não sabia identificar o que seria aquilo.
– Gabriel, sentirei sua falta.
– Dimitri, lhe darei sua resposta agora. A nós, não nos é permitido amar ninguém mais que a Ele. Mas depois Dele, você é quem eu mais amo. Isso lhe é suficiente?
Aquilo pegou o maior desprevenido e com um sorriso, beijou a testa do loiro, respondendo-o enfim:
– Isso é mais do que suficiente.
Ambos haviam se esquecido parcialmente dos dois intrusos, que surpresos e irritados, assistiam a cena sem saber de que forma seria melhor interferir aquilo ou de que estavam falando. Os olhos de ambos brilhavam e foi quando o menor se afastou do abraço do moreno e deixou enfim as asas serem libertas, que o arcanjo iluminou o lugar, causando espanto nos padres hipócritas e cegando Estefano assim que a luz atingiu seus olhos. Sempre ocorria isso aos de alma mais decadente.
– Sentirei sua falta. Não importa quantos anos se passem sempre irei me lembrar de você. E quando você morrer, quem o receberá de braços abertos serei eu, meu amigo.
– Você não é o único que aguarda ansioso o dia da minha morte hahaha.
– Não brinque com isso. – Enxugava as lágrimas do moreno e sorria minimamente, pouco antes de se afastar, correndo e saltar para o vôo, sobrevoando os três, antes de subir até a ponta da árvore e pegar uma folha do topo, voltando até onde o amigo estava, entregou a ele. – Guarde esta folha e lembre de mim, isto não é um adeus. Estarei rezando por você.
– Guardarei. – Dimitri mantinha um sorriso triste nos lábios, vendo o anjo voar enfim para longe, seguindo os raios de luz que o sol produzia apenas para aquele momento. O fim do dia.
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Saulo, não havia ficado cego como Estefano, mas ainda custava a acreditar no que havia acontecido. Mesmo após ter visto, se perguntava se aquilo havia sido real. Perguntou a Dimitri inúmeras vezes e tudo o que conseguia era:
“Ele falou que não era homem, falou que não era mulher, falou que o nome dele era Gabriel. Jamais mentiu, vocês que foram tirando suas conclusões por conta própria. Me deixe em paz.”
Depois daquilo, Dimitri , Saulo e Estefano deixaram de atuar como padres. Saulo por vergonha e Estefano, não apenas pela cegueira, mas por ter sido subjugado e castigado pelo anjo que outrora havia difamado nas ruas pelas costas do mesmo.
Dimitri, largou por decepção. Muita hipocrisia dentro da igreja. Assim, o que fez foi assumir o orfanato e o melhorou como Gabriel queria faze-lo.
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Nos últimos momentos do humano, Gabriel ficou perto dos portões, o esperando ser levado até ele. Dimitri estava velho em corpo e Gabriel nunca mudara. Morreu com a folha de mangueira seca em mãos, debaixo de onde o havia visto pela última vez.
Assim que chegou ao plano espiritual, viu Gabriel e se reconheceram, correndo um ao outro para um abraço cheio de saudades. Ao se abraçarem, o moreno adquiriu a aparência que tinha de quando jovem, se surpreendendo.
– Aqui, você tem a aparência que gostaria de ter. Você deve ter desejado aparentar como quando nos conhecemos.
Assim, os amigos ficaram juntos eternamente.
Fim
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