Anjo Maculado
1 Capítulo Único
Era uma voz apagada ecoando friamente pela Academia Cross. A canção infantil que poderia aquecer até mesmo os corações congelados chegou à Rima, forçando a vampira a se virar na direção da voz. Um sorriso tomou sua face ao ver a garotinha em roupas brancas. Era como uma boneca ocidental, com aquele rosto de porcelana e o longo cabelo loiro cacheado, com algumas mechas pintadas em vermelho. Os olhos lápis-lazuli fixos em Rima, mesmo que não estivessem olhando para lugar algum naquele mundo.
A jovem vampira sentiu arrepios na espinha quando percebeu para onde aquele olhar assustador estava direcionado; naquele instante teve a sensação de sua alma sendo roubada à força. De fato, ela estava completamente hipnotizada pelos movimentos delicados da garota. E parecia que ela poderia se quebrar com o mais suave dos toques.
— Venha aqui, querida — a garota disse quando a canção parou; e Rima obedeceu, caminhando lentamente na direção dela. Um sorriso travesso se formou no rosto do anjo branco quando suas mãos puxaram Rima para mais perto.
Os olhos da vampira se fecharam paulatinamente e logo era sua consciência indo embora. Tudo o que restou foram a pura escuridão e aquele calor gentil, o mesmo que sentia quando estava nos braços de Shiki. E talvez fosse por isso que ela não sentia medo; como poderia nos braços de seu salvador?
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Shiki acordou assustado procurando por uma pessoa em particular; Rima não estava no jardim. Ele sentiu como se uma parte dele fosse roubada. E quando seu coração começou a bater mais rápido, gritou — Rima!?
A resposta não veio. Culpou-se por ter apagado nos braços dela, mas o que estava feito estava feito, pensar nisto agora não mudaria nada. Mais importante era encontrar Rima. Shiki sabia que ela não iria simplesmente a qualquer lugar sem dizê-lo, seu coração o lembrou; ela estava em perigo. Ele podia sentir a vida de Rima se esvaindo lentamente, como areia levada pelo vento.
O vampiro se levantou enquanto seus olhos percorriam o jardim em que prometeram se encontrar depois do trabalho. Ela não estava ali, podia sentir isso, de alguma forma. O ar estagnante parecia envenenar seus pulmões, tornando a respiração difícil. Era noite, com a lua brilhante iluminando em uma luz azul pálida. Teria o jovem vampiro dormido por tanto tempo? Ou seria o cenário tentando enganar seus olhos? Tinha a sensação de que algo não se encaixava; aquele cenário era muito perfeito para ser real.
— Gah...! — Shiki arfou ao sentir aquele toque congelante em sua mão. Seu rosto se virou um pouco para trás, parando bruscamente. Sentia que se olhasse para trás agora sua alma seria rasgada ao meio.
Um riso silencioso soou em seu ouvido, fazendo-o engolir seco.
— Eu esperei por tanto tempo — era a voz de uma garota que Shiki ligeiramente reconhecia. Mas o tom dela parecia carregar um desejo assassino imensurável, e a respiração débil no pescoço de Shiki estava quase o deixando louco. — Era um lugar escuro, — ela continuou, no mesmo tom vazio e angustiante — frio e solitário. Eu chamei pelo seu nome, mas você nunca me ouviu. Dias se passaram, então semanas, e antes que eu percebesse, anos. E você não me ouvia!
Aquelas palavras fizeram o jovem vampiro sentir-se culpado. Ele ouvira a voz daquela garota no passado. Por um longo tempo aquela voz apagada pediu por ajuda, em um tom ligeiramente assustado no início, que foi ficando cada vez mais desesperado, até parar, finalmente.
— Eu estava tão assustada. Tão assustada de ficar sozinha.
— Quem é você? — Shiki disse em uma voz trêmula. O jovem vampiro não podia ver, mas a expressão da garota era algo entre surpresa e depressão. Ela mordeu o lábio inferior quando as lágrimas começaram a descer por seu rosto.
— Você se esqueceu de mim, — a voz parou, bruscamente, substituída por um riso maníaco — maninho?
Naquele instante o tempo pareceu congelar. Apenas a mente de Shiki não estava sob o efeito do feitiço, inundada pelas antigas e tortuosas memórias. Aquelas que por tanto tempo teve certeza de que foram apagadas, mas estavam apenas escondidas atrás da mais profunda cicatriz em seu coração, que agora sangrava com todas as forças. — Então você se lembrou — a garota disse em um tom vazio que parecia carregar apenas ódio. E Shiki sabia o que viria a seguir, foi por isso que ele se distanciou, virando rapidamente na direção da garota.
Os olhos lápis-lazuli emitiam um brilho lívido. As mechas cacheadas tremulavam com a brisa fria. E a pele de porcelana estava coberta por um vestido vitoriano ainda mais branco. A garota que parecia uma boneca ocidental tinha um sorriso arteiro que podia distorcer o próprio universo. Ela era como uma rosa branca em um jardim de vermelhas. Não, mesmo que ela parecesse mais branca do que a neve, a verdade é que ela era mais como a única rosa manchada em carmesim em um jardim branco.
— Mesmo assim... eu não posso perdoá-lo!
Os olhos azuis profundo brilharam em branco quando ela gritou. Antes que Shiki percebesse, seus pés estavam presos ao chão congelado. Ele cortou a extremidade de seu dedo usando uma das presas; a linha vermelha parecia viva, já que saiu do dedo de Shiki para destruir o gelo que aprisionava seu senhor.
Shiki pulou para trás, desviando-se do ar gélido em sua direção. A garota mordeu o lábio inferior, antes de fixar seus olhos no jovem vampiro novamente. O olhar penetrante não perdia um dos movimentos suaves do vampiro, enquanto ele pulava para os lados, usando seu sangue para bloquear a atmosfera glacial criada pela garota. Mas mesmo que tentasse encurtar a distância entre os dois, os ataques frios do anjo branco cuidavam de mantê-la fora do alcance de Shiki.
O garoto arfava enquanto a menina não mostrava um sinal de cansaço. Ainda com o sorriso travesso em seu rosto enquanto seu olhar atravessava até a alma de Shiki. Ele bufou, então correu na direção da garota com todas as forças, esquivando os ataques gelados. Ela criou uma barreira de gelo ao redor de si, fazendo o vampiro parar subitamente. Então ele pulou pelo ataque dela e a investiu. A linha vermelha em forma de lança atravessou o peito da garota. Ela soltou um suspiro apagado enquanto caia, em câmera lenta. O aliviado Shiki só pôde ver os espinhos brancos crescendo do piso em sua direção, e porcamente conseguiu se desviar deles. Ou foi o que pensou, mas uma dor aguda atacou seu braço esquerdo, forçando um rouco gemido pelos seus lábios. E antes que pudesse escapar, seus pés estavam congelados novamente; o branco frio tomava o corpo de Shiki aos poucos.
— Hisui...! — Ele disse em um tom agressivo, mas a garota com seus, agora, olhos vermelhos apenas riu. Ela caminhou lentamente na direção de Shiki, sorrindo moleca.
— Havia uma garota aqui que parecia gostar de você — ela disse em um tom baixo e aborrecido. Shiki fez a única coisa que podia no momento: mordeu o lábio inferior com todas as forças. — Não pode — a linha vermelha foi congelada antes de alcançar o rosto do anjo maculado. — Você... gosta dela? — Shiki não pôde responder; o ar frio paralisara sua boca. A garota riu silenciosamente. — Então você GOSTA dela. Que pena — ela deu as costas para o jovem vampire. — Se ela morrer... você gostaria de mim então?
Shiki não tinha palavras — e mesmo que tivesse, sua boca congelada não o deixaria dizê-las. Aquela foi a frase mais infantil que já escutara. Mas se algo acontecesse à Rima por causa daquilo, ele não conseguiria se perdoar.
— Por que você não gosta de mim?! Eu não sou boa o suficiente?! — Ela estava chorando; as palavras ditas entre soluços e lágrimas. — Não costumávamos brincar tanto quando crianças? Ou... mesmo então você fingiu tudo? Por quê...? — O mundo branco retomou suas cores lentamentes quando a rainha do gelo perdeu a concentração. Mesmo que Shiki pudesse matar o anjo manchado livremente agora, ele não o fez. Ao invés disso, ele fraternalmente puxou Hisui para um abraço gentil. Ela arquejou, com os olhos lápis-lazuli arregalados em surpresa. — Shi... ki?
— Está tudo bem agora. Tudo ficará bem — ele disse, acariciando o cabelo dela. A garota tinha um tenro no rosto, embora as lágrimas não parassem. — Não precisa mais chorar. Eu sempre estarei aqui por você.
Quando ela ouviu aquelas palavras, os delicados braços de boneca cercaram Shiki, apertando-o com tanta força que dava a impressão que ela o perderia se o soltasse por um instante sequer. E ela sabia que esse era o caso. — Você era aquela pessoa... naquele dia... não era? — Shiki não conseguiu responder. — A pessoa manchada... entendo... — Ela abraçou o vampiro ainda mais forte. — Pode me prometer uma coisa?
— Eu... — Shiki vacilou. Ele não sabia como responder. Mas quando sentiu o abraço da garota afrouxar um pouco se apressou para dizer: — O que é?
— Venha me visitar de vez em quando — a garota sorriu, e desta vez foi pelo rosto de Shiki que as lágrimas desceram. Hisui riu embaraçada, ao sentir as gotas salgadas em seus ombros. — Você não precisa chorar, bobo. Era para ser assim... você... não tinha nada que pudesse ser feito. — O jovem vampiro não conseguiu dizer nada. Mesmo que soubesse que a garota estava errada, sua garganta seca não o deixaria quebrar aquela doce mentira.
— Eu prometo — um sorriso ainda mais tenro tomou o rosto da garota quando aquelas palavras alcançaram seus ouvidos.
— Então é uma promessa, certo? Eu estarei esperando por você, sempre. Quando a hora chegar, não se esqueça, okay? — Ele concordou silenciosamente com a cabeça. A garota caminhou para longe, dando as costas para Shiki. — Então... eu não vou dizer adeus — as palavras vieram em um tom depressivo, como se quisessem discordar delas mesmas.
Shiki continuou calado. Em sua mente a memória do garotinho de cabelos vermelhos apunhalando a frágil garota até a morte se repetia infinitamente.
Notas finais
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Nota aleatória: Hisui é escrito como rainha/princesa das águas (妃水), mas pode ser lido como rainha/princesa do gelo (妃氷) =D
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