Anjo Da Meia Noite
6 Calmaria antes da tempestade.
Notas iniciais
Cap 6
Sentada na beira da cama de Utau, Amu não tinha realmente o que preparar para sair. Afinal sua vida nos últimos dias tem sido um tanto perturbadora. Ela se perguntava como poderia não ter enlouquecido até aquele momento. Se bem que ela tinha a sensação de já ter entrado de cabeça nas profundezas da loucura. Como dizem, os loucos não sabem que são loucos. Amu pensava se o que ela estava fazendo, ou deixando de fazer, era certo. Será que ela poderia confiar em Ikuto e Utau? Será que ela não deveria ter ficado com Kido? Kido... Onde estaria ele? Por que Kido não contou a Amu que era um demônio. Ou que sequer sabia falar! Quanto tempo ela esteve na presença de todos esses seres sem perceber nada? E por que logo agora eles resolveram virar a vida de Amu de cabeça pra baixo? Nada disso fazia sentido pra ela.
Duas batidas na porta. Amu fica em silêncio completamente parada. Ela escuta Ikuto a chamando do outro lado e lembra dos acontecimentos anteriores. “Até quando vai ser assim?” Ela pensa. “Até quando eu terei que ter medo de cada ruído, de cada sombra... Eu não quero viver assim, fugindo sem nem saber do quê!” Antes que percebesse lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ikuto abriu devagar a porta do quarto e, ao ver Amu chorando, correu e sentou ao seu lado. Seus olhos transmitiam preocupação e carinho. Ele não tentou consolá-la ou sequer perguntou o motivo das lágrimas, apenas a tomou em seus braços permitindo que ela aliviasse toda a tensão que a sufocava desde que entrou naquele maldito metrô.
“A partir de que momento exatamente eu passei a confiar nele?” Esse pensamento surgiu entre um soluço e outro. Claro que Amu havia pensado nisso antes. Como ela poderia confiar em alguém que de repente sai pulando com ela de árvore em árvore por aí? Sim ela pensou muito. Mas no final o pensamento era sempre o mesmo. Ele transmite uma sensação de paz pra ela que ela não tem desde que seus pais morreram. Uma sensação de lar. De que estar ali, com ele era algo certo e seguro. Até mesmo o cheiro dele era algo familiar pra ela. Por quê? Ela não sabia. Mesmo quando ela sentia medo de não saber pra onde ir, medo por estarem arrastando ela pra Deus sabe onde, medo por ficar a beira da morte a cada cinco minutos. Mesmo assim ela não fugia. Ela não pulava a janela e saia correndo. Ela sentia que ficar com ele era seguro. Mais que isso. Ela queria ficar com ele. E esse era um sentimento que a assustava mais do que qualquer monstro que já tinha a atacado.
Depois de chorar, soluçar e babar igual um bebê no peito de Ikuto, Amu finalmente cessou o choro e reuniu coragem para encarar Ikuto. Aqueles olhos que mais pareciam o infinito a encaravam com ternura. Amu nunca tinha visto olhos assim. Ela poderia se jogar e se perder neles. Com certeza aquele seria o melhor lugar para estar agora. Porém um som ríspido de alguém arranhando a garganta a tirou do transe que os olhos de Ikuto causavam. Rapidamente ela se afastou do garoto, sabendo que seu rosto devia estar da cor de um tomate.
– D-desculpe. – Ela gaguejou. Então olhou para a porta e percebeu que Utau estava lá com cara de tédio.
– Podemos ir? – Utau perguntou. – Temos que chegar lá entes do pôr do sol. Se anoitecer e ainda estivermos lá fora, não garanto que vamos conseguir protegê-la das merdas que virão.
– An... Utau? – Amu chamou. – Eu sei que é clichê, mas por acaso essas... merdas... ficam mais fortes a noite?
Utau encarou Amu pensando no que responder, porém Kuukai entrou no quarto e respondeu por ela:
– Amu, querida, pense bem. Nós somos demônios, certo? Demônios são seres das trevas, certo? Logicamente eles se dão muito bem com as trevas, certo? Ou seja, a noite em si, certo? – Amu assentiu e completou:
– E você não precisava falar comigo como se eu fosse um bebê, certo?
– Você entendeu.
Kuukai sorriu e saiu do quarto junto com Utau. Amu olhou mais uma vez para Ikuto estranhando seu silêncio. Ele estava olhando para a janela, pensativo. Amu se levantou e pegou a bolsa cheia de roupas que Utau deixou pra ela. Ela caminhou em direção à porta e parou.
– Você não vem? – Perguntou a Ikuto que continuava sentado olhando para a janela. Ele não se moveu. – Ikuto?
Amu soltou a bolsa no chão, foi em direção a ele e tocou seu ombro. Ikuto se virou pra ela e a encarou. Seus olhos estavam frios como vidro. Antes que Amu pudesse reagir, ele puxou seu braço e a jogou na cama, ficando em cima dela e segurando seus braços para que ela não pudesse se mover. Amu se assustou, mas permaneceu firme, encarando aqueles olhos de vidro com a mesma dureza que ele a encarava. Ikuto se aproximou dela, sua boca ficando a milímetros da dela. Amu nem sequer piscou. Ikuto, então, a soltou e deixou que seu corpo caísse em cima do dela, enterrando seu rosto na curva do pescoço da garota.
– Por que você faz isso? – Ikuto falou baixo. – Você sabe que eu posso te matar em questão de segundos, mas mesmo assim... Você continua com esse olhar firme. Como se confiasse em mim.
– Porque eu confio em você Ikuto. Porque eu sei que se você quisesse mesmo me matar não teria me salvado e cuidado e mim como você fez. Se você quisesse mesmo me matar já teria feito isso em questão de segundos, como você mesmo disse. Além disso, eu não tenho muita opção, né? Se não você, em quem mais eu confiaria?
Ikuto suspirou, causando arrepios no pescoço de Amu que ela implorou em silêncio pra que ele não tenha percebido. Do modo como ele falou, parecia que ele estava sofrendo. Amu detestou ouvir esse tom de voz. Detestou pensar que algo fazia Ikuto sofrer. E detestou mais ainda perceber que ela se importava com ele.
– Então... – Ikuto disse. – Já que eu sou tão confiável como você diz... – Ele passou os braços por baixo do corpo de Amu, abraçando-a gentilmente. – Me deixe ficar assim mais um pouco. Não durmo há dias.
Amu suspirou. Ela não ligava que ele ficasse daquele jeito. No fundo, ela se sentia feliz por poder ajudá-lo. Por poder estar mais próxima dele daquela forma. Mesmo que o motivo que esteja o fazendo sofrer daquele jeito possa ser ela mesma. Se houvesse uma forma de amenizar aquilo, ela faria.
Devagar, Amu começou a passar a mão nos cabelos de Ikuto. Ela os acariciava sentindo a maciez. Percebendo como o cabelo dele realmente parecia pelo de gato. Percebeu também que ele fazia cócegas leves no seu pescoço, no ritmo da respiração do rapaz. Ela se sentia em paz daquela forma. Era algo que a tranquilizava. E de repente, nada mais importava pra ela se não aproveitar aquele momento de paz, no meio de todo o caos em que o mundo tinha se transformado.
– NÃO ACREDITO QUE VOCÊS ESTÃO DORMINDO!!
Amu acordou em um pulo, quase jogando o rapaz em seus braços no chão. Olhou desorientada pelo quarto até encontrar uma Utau furiosa na porta. Seu rosto enrubesceu de uma vez quando ela notou a posição em que estavam. Realmente ela e Ikuto tinham caído no sono e assim, ela não percebeu que ele tinha escorregado até ficar com a cara entre os seios dela. Ikuto murmurou alguma coisa como “Não enche o saco”, mas Amu o sacudiu de leve acordando o rapaz. Ele se levantou e olhou ao redor. Quando viu Utau na porta, prestes a explodir de raiva e um Kuukai nervoso tentando acalmar a fera, soltou um suspiro e voltou pra cama, agarrando a cabeça Amu que tinha se sentado, fazendo com que ela deitasse de novo.
– PORRA IKUTO!! VAI SE FODER!! ERA PRA NÓS ESTARMOS NO MEIO DO CAMINHO UMA HORA DESSA!! EU JÁ TE AVISO: SE NÓS CHEGARMOS LÁ DEPOIS DE ANOITECER, NÃO CONTE COMIGO PRA SALVAR A SUA PELE!!
Utau saiu batendo a porta com força. Amu sacudiu Ikuto de novo tentando acordá-lo, mas ele nem se mexeu.
– Vamos Ikuto, por favor. Sua irmã já deve estar querendo sua cabeça na parede. E eu também não quero dar mais trabalho se vocês tiverem que enfrentar monstros por minha causa...
Ikuto abriu os olhos e encarou a garota. Depois de um longo suspiro ele finalmente se levantou, passando a mão nos cabelos bagunçados. Amu se levantou e pegou a bolsa no chão. Olhou pra Ikuto e falou, com o melhor humor possível:
– Então, vamos?
– Até quando vai nos chamar de monstros?
– An? – Amu se virou pra ele com uma cara de interrogação.
– Somos demônios, não monstros.
– Ah, isso. É porque nem todos são iguais. – Ikuto olhou pra ela incentivando-a a continuar. – Quero dizer... Nem todos querem me comer ou estourar meus tímpanos, sério, o que esses troços têm que eles adoram atingir um volume insuportável? – Ikuto sorriu. – Enfim. Tem alguns como você, Utau e, eu espero que o Kuukai também, que querem me ajudar. Eu acho. Bom, eu só não acho justo dizer que todos vocês são iguais.
– Nunca tinha pensado por esse lado.
Amu sorriu. – Faz sentido?
– Não – Ikuto se virou e abriu a porta. – Mas eu gostei.
Amu ouviu um estouro, algo mais como uma explosão. Sabia que era Utau. Ela estava de guarda, voando acima deles, para garantir que nenhum monstro os seguissem. Kuukai foi na frente, desarmando as tais armadilhas que, de acordo com Utau, só ele e os nefilins sabiam encontrar. Ikuto corria junto com Amu, sempre ao seu lado. Por mais que ela tentasse, não conseguia correr tanto quanto ele, o que devia o deixar entediado. Mesmo assim, todas as vezes que ela perdia o fôlego e tinha que parar de correr e começar a caminhar, Ikuto, pacientemente andava ao seu lado. Amu se sentia um estorvo, principalmente porque toda essa “operação” era por causa dela. Porque ela era fraca e indefesa e tinha que ficar igual uma nômade mudando de lugar em lugar para que ficasse segura. Ela odiava isso. Odiava ser fraca e não servir pra nada. Odiava parecer uma criancinha que tinha que ser protegida de qualquer coisa.
Pela primeira vez esses dias todos em que ela esteve fugindo, Amu não sentiu medo dos monstros que a atacavam. Ela sentiu ódio. Ódio por eles estarem fazendo Ikuto, Utau e Kuukai se esforçarem desse jeito. Se machucarem, lutarem por ela. Amu queria ficar forte para que não precisasse ser protegida daquela forma. Para que ao invés de só se esconder, poder se defender. Esse ódio a consumia.
Depois de muitas horas de corrida e algumas pausas, eles finalmente chegaram ao que, para Amu parecia mais o estereótipo de covil do mal do que uma casa. Casa não. Mansão. O lugar era cercado por espinheiros e plantas que Amu não conseguiu reconhecer. O muro da mansão era coberto por esses espinheiros e tinha estacas de ferro nas partes de cima. O portão era trançado por barras de ferro retorcidas que formavam a imagem de dois anjos carregando um rosário. Assim que Kuukai se aproximou do portão, o mesmo se abriu, revelando uma mansão gigantesca feita de pedra no estilo mais rústico que Amu já tinha visto. Parecia algo como a mansão do Drácula. As janelas eram escuras, mesmo em plena luz do dia. Alias. Nem parecia que era dia. As plantas cobriam tanto o lugar que o mais forte raio de luz custava a ultrapassar o mar de folhas e galhos. Amu sentia certa aura sinistra emanando do lugar e, de repente, sentiu saudades da casa quente e confortável de Ikuto e Utau.
De frente para a porta da mansão, Amu sentia que algo os observava. Mesmo olhando em todos os lugares ela não via nada além do muro e das árvores. Kuukai bateu na grande porta duas vezes. Eles esperaram alguns segundos até que elas se abriram, porém Amu não viu ninguém do lado de dentro.
– Nefilins e seus truques baratos... – Kuukai suspirou ao notar a surpresa da garota.
Amu ouviu um barulho de porta sendo aberta e um homem de pele realmente pálida e longos cabelos azuis entrou no grande salão decorado ao estilo vitoriano.
– É com certeza mais do que você pode fazer, cachorro.
O homem tinha olhos dourados e usava uma calça jeans com correntes e uma blusa preta lisa. Estava descalço e tinha um livro de capa preta dura na mão. Ele tinha uma expressão suave ao falar com Kuukai, mas quando Ikuto entrou no seu campo de visão sua expressão se tornou dura e fria.
– O que esse carniça faz aqui? – Ele se dirigiu a Kuukai ainda olhando pra Ikuto. — Você me disse que traria apenas uma humana, não mais dois demônios. Não pense que vou deixar esse pedaço de merda ficar aqui.
Kuukai engoliu em seco.
– Eu imaginei isso... – Disse ele após pensar um pouco. – Mas a humana é protegida dele. Você sabe. E não sabia que você tinha problemas com Utau.
– Não tenho problemas com sua garota, cachorro. — O homem sorriu de leve. – Pelo contrário, minha irmã e eu apreciamos a companhia dela. – Ele fechou a cara novamente. – O problema é esse carniça. Ele fede. Da pra sentir que não se pode confiar só de olhar pra cara desse infeliz. Eu juro Kuukai. – Disse ele em tom de ameaça. – Posso até deixá-lo ficar aqui por causa de você e de Utau, mas não pense que será barato. – Ele olhou novamente pra Ikuto. – E não quero ver você andando livremente por aí, carniça. Fique quieto no quarto em que eu te colocar. E não saia sem minha permissão.
Ikuto assentiu de leve com a cabeça. Estava visivelmente estressado com aquela situação e parecia que estava prestes a arrancar o pescoço do homem com os dentes. O homem se virou para Amu. Parecia analisá-la dos pés a cabeça.
– E você humana? – Ele sorriu. – Venha comigo. Vou te mostrar onde vai dormir e vou preparar algo mais... – Ele olhou a saia e o tomara que caia que a garota usava. – decente para vestir. Acho que também vai querer tomar um banho depois da longa viajem até aqui, estou certo?
Amu afirmou com a cabeça. Realmente ela sentia falta de um banho tranquilo há dias. Não que ela pensava que teria algo assim naquele lugar. Porém quando chegou ao banheiro com a muda de roupas que o homem – cujo nome Amu descobriu que era Nagihiko – deu pra ela, ela viu que o lugar era enorme e surpreendentemente iluminado. Bem diferente dos outros cômodos da mansão. Ela deixou sua muda de roupas em uma bancada e abriu a torneira da banheira. Tirou suas roupas e se olhou no espelho que emoldurava uma das paredes do local. As faixas que Ikuto usara em seus ferimentos estavam bem mais vermelhas que antes. Provavelmente devido ao esforço de ter corrido até ali. Amu nunca imaginou que, mesmo com feridas tão feias e profundas teria forças para correr daquele jeito. Mesmo se estivesse em seu estado normal, ela não era do tipo esportiva. Provavelmente havia algo além de anestésicos no comprimido que Ikuto lhe dera.
Amu retirou as faixas de seus ferimentos bem devagar. Ela mal conseguia se olhar no espelho. Nunca tinha visto feridas daquela forma em alguém vivo. Esse pensamento a assustou por um instante. Como, com machucados daquele tamanho, alguém poderia sobreviver? Esses dias todos só iam surgindo mais perguntas na cabeça de Amu, mas nenhuma era respondida. “Por que?” Ela se perguntava. E era mais uma pergunta sem resposta. Finalmente, a garota terminou de retirar as faixas e fechou a torneira da banheira, agora cheia. Quando colocou o pé dentro da água, Amu sentiu um raio de dor como se algo tivesse estraçalhado sua perna em mil pedaços. Ela berrou de agonia e caiu dentro da banheira. Quando seu corpo tocou a água Amu se sentiu sendo rasgada por trilhões de agulhas. Seu corpo queimava e tudo o que ela conseguia fazer era berrar. A dor era tanta que nem ficar inconsciente Amu conseguia. Tudo o que passava pela mente dela era dor, dor e dor. Agonizando, a garota usou todas as suas forças para se jogar pra fora da banheira. Ela caiu no chão com um baque surdo, como um corpo morto. Tudo girava e a dor parecia só aumentar. Por causa disso, Amu não percebeu quando alguém arrombou a porta do banheiro e entrou até que essa pessoa a pegasse no colo e seu corpo explodisse de vez na mais pura agonia que ela jamais sentiu.
Continua...
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