Anistia

1 Exílio em um reino púrpura


Notas iniciais
PRÓLOGO. Sem grandes avisos. Desejo a todos uma boa leitura!

(zero)

O Príncipe estava sentado em um banco de ébano, próximo à margem do lago, em meio à paisagem roxa.

Toda a fauna era feita de tons de violeta: do lilás ao framboesa, magenta até ameixa. As copas das árvores refletiam na água escura do lago, que era como um espelho negro, pincelado por filetes púrpuras. As flores pareciam desabrochar em ametistas, brilhantes e delicadas. Arbustos médios e pequenos traziam orquídeas em seu meio, copiando-lhes as cores. Próximo ao Príncipe, uma árvore encabulada, levemente retorcida, dava vida a amoras e suas folhas.

Encarava o lago e esperava.

Suas vestes eram arrojadas, mas não poderia se esperar menos de um dos Treze Lordes. Ele trajava uma túnica de linho escurecido, de mangas compridas, feita pelas melhores tecelãs das fadas. As ombreiras eram altas, indo até abaixo das orelhas, e faziam suas costas parecerem mais largas. Detalhes de pó dourado davam um ar ainda mais majestoso à peça única; sim, sem costuras: o segredo daquela pose estava em como era vestida. No meio do corpo, uma corda roxa de cipó trançado acinturava a vestimenta, tão longa que escondia suas botas negras de couro das profundezas.

Em seu peito, pendia um colar de obsidiana, que possuía um leve brilho branco-perolado, meio opaco.

Ele pegou uma pequena pedra próxima e jogou-a ao centro do lago, criando pequenas ondas circulares a partir do ponto em que ela afundara.

Sem resposta ainda.

Aos poucos, os céus se tingiam do típico tom crepuscular, um róseo particularmente alaranjado. À sua esquerda, o sol ainda se punha, enquanto, do outro lado, o firmamento já adquiria uma coloração azul-marinho, revelando as primeiras estrelas e satélites naturais visíveis. As espaçadas nuvens de algodão sobrevoavam o Reino das Fadas sem formação, distantes umas das outras. E, pelos espaços entre elas, era possível notar o horizonte rosa.

Logo, uma nuvem parou em cima do lago e por lá ficou, embora as outras continuassem se mexendo desorganizadamente, como se várias correntes de ar entrassem em conflito.

O vento lambia-lhe a pele, e o ambiente começava a exalar aquele perfume elétrico. Beija-flores, que se fartavam dos frutos, se assustaram, e todos os pássaros deixaram o local, causando uma revoada das mais variadas espécies. Sempre que ela aparecia, o fazia em grande estilo e, recentemente nos últimos cem anos, tinha se encantado pelos fenômenos naturais.

Dessa vez, era uma tempestade.

A chuva começou a cair, mas nenhuma gota pingava no lago nem na clareira ao seu redor, onde o Príncipe se encontrava. Começou por pingos raros, quase sendo capaz de contá-los individualmente, até que se tornou uma garoa esparsa e, enfim, uma torrente dos céus.

O primeiro raio que caiu foi certeiramente em direção ao centro do lago, no mesmo local em que a pedra que ele jogara tinha afundado, e provocou uma fumaça escura, como o tom das águas. Quando o trovão ressoou, a névoa se dispersou, revelando uma mulher de traços élficos: mais alta que o padrão humano, com belas feições, postura firme e curvas elegantes; olhos feitos noite líquida, combinando com sua pele de tom roxo-escuro; seus cabelos, prateados, caíam em cascata pela frente do corpo desnudo e por trás, até um pouco antes das coxas; ela pisava no lago como quem pisava em um espelho, sem causar nenhum tipo de ondulação nas águas.

O Príncipe se levantou, mais calado que de costume, menos espirituoso. Seus olhos não tinham a mesma segurança de sempre, e o semblante estava abatido, com os lábios razoavelmente tensionados, daquele jeito de quem não sabia se tomava a decisão certa.

— Em dúvida, Meu Príncipe?

Sua voz, como sempre melodiosa, tentava ler as emoções do Príncipe, mas não de forma invasiva; era apenas uma liberdade que tinham depois de tanto tempo de convivência.

— Não — negou, mas o fez baixando o olhar, antes no rosto dela, para o lago escuro. Inspirando demoradamente, soltou o ar em um suspiro contido.

A resposta pareceu divertida, ao menos para ela, que delineou um sorriso na boca esguia. Sua cabeça pendeu de lado, e os olhos semicerraram levemente, como em desafio.

— Então por que não te aproximas?

O Príncipe voltou a olhar para ela, que retribuiu a atenção ao esticar a mão em convite.

Assim, ele pousou uma bota sobre o lago, notando que não afundava nem ao menos se molhava. Consequentemente, caminhou pela superfície da água e parou logo à frente dela, que o encarava com o rosto indecifrável por trás das duas pérolas negras que eram seus olhos, profundos como a imensidão do vazio.

— Sabes que serás sempre bem-vindo — ela confidenciou, quase oferecendo uma oportunidade para que ele prolongasse a estadia, enquanto enlaçava seus dedos esguios na mão dele. — És meu convidado de honra.

Ele vislumbrou o contato dela por um momento, mas logo voltou a encará-la. Abriu um sorriso genuíno, que morreu aos poucos quando olhou para cima, para a nuvem ainda estática.

— Agradeço, Maile — e se ajeitou no próprio corpo, como se estivesse um pouco desacostumado com aquela sensação —, mas já passei tempo demais longe de meus domínios.

Maile, também chamada Princesa Maile dos Elfos Negros, não demonstrou a leve decepção que lhe ocorreu por breves segundos, somente trazendo a mão dele à sua boca e depositando, na pele do Príncipe, um leve selinho, mais um encostar de lábios do que um beijo propriamente dito.

— Cuida-te, Meu Príncipe.

Então, ela soltou dele.

Em pouco tempo, muita coisa aconteceu: o Príncipe começou a afundar ao mesmo tempo em que foi atingido por um novo raio. A última sensação que ele teve foi de se afogar em algum líquido viscoso, que grudava mais em si a cada movimento, enquanto uma descarga de energia percorria seu corpo por inteiro, sobrecarregando-o até fazê-lo desmaiar um pouco.

Como um sussurro, a ninguém, em tom etéreo, ela fitou a nuvem no céu rosa e murmurou:

— Cuida-te, Drak.

Notas finais
Caso tenham qualquer aviso, correção ou só queiram bater papo, os comentários e as mensagens estão sempre aí. A Princesa Maile não deve aparecer tão cedo, mas uma participação especial nunca está fora de questão. E lancem suas apostas: onde Drak vai aparecer? Quem vai conhecer primeiro? Como será que está Erda, e o que aconteceu nesses dez mil anos de exílio? Tá esperando o quê? Leia o próximo capítulo ou começa a acompanhar para não perder nada!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.