Animos
1 Capítulo 1
Acordo com uma brisa no meu rosto, sentindo um frio fora do comum para Springfield, Virgínia. Passo a mão no meu rosto e sinto um forte cheiro de gasolina, mas não dou tanta atenção. Minhas roupas aparentemente parecem estar sujas, tanto com sangue quanto com aquela terra seca em que eu estava deitado. Uma fogueira próxima de mim estava com a brasa ainda acessa, com alguns papéis queimados nela e também minha carteira. Com um graveto, tento recuperar a carteira, mas ela já está queimada o suficiente, fazendo com que eu não consiga retirar os documentos de dentro dela em bom estado. Tento lembrar do que aconteceu e de como fui parar naquele lugar, mas fortes dores de cabeça me fazem parar de vasculhar minha memória. Me levanto e tento ver onde estou. O lugar é um pouco deserto, mas consigo ver as luzes da cidade de longe, ainda não amanheceu. Caminho aproximadamente um quilómetro até chegar em um posto de gasolina. Falo com funcionários do posto e eles dão um copo d’água. Vasculho meus bolsos em busca de algo, mas só encontro 20 dólares. Vejo uma cabine telefônica na entrada do posto, era a minha salvação. Ligo para Julie, com esperança de sair daquele lugar. Uma voz tremula e interrompida com soluços atende ao telefone.
- Alô? — dia a voz feminina do outro lado da linha ao atender o telefone.
Finalmente, Julie. Não poderia sair daquele buraco sem ela. Eu estava sujo, no deserto longe da cidade. Digo que estou em uma cabine telefônica. Onde mais eu estaria agora? Provavelmente no Caribe, se pudesse.
- Erik? É você? Ainda bem que você está vivo! Pensei que você estava morto, não tive notícias suas por dois dias!
Eu não estaria morto. Ela parece não me conhecer, não sou um adolescentes besta, muito menos um homem despreparado. Continue, eu digo.
- É, afinal você deveria ter ficado morto apenas por algumas horas — ela diz, na maior simplicidade da situação. — Eu já localizei o local da sua ligação e mandei um táxi pegar você e leva-lo para o hotel, descanse e depois conversaremos.
Agora eu só tinha que esperar até encontrar Julie. Me sentei em um banco no posto de gasolina e esperei o táxi chegar. Levou em média trinta e seis minutos daquele posto até o hotel em que eu estava hospedado, e por sorte ela já tinha pago a corrida.
Ao chegar em frente ao hotel, fiquei impressionado. Ele tinha dezoito andares, ficava no centro da cidade e tinha uma bela fachada rústica. Fui na recepção para pegar minhas chaves. O quarto estava reservado em meu nome. Com a chave, chamei o elevador e fui para o quarto andar. Quando abri a porta do quarto percebi que estava tudo em ordem. Pelo menos o hotel eles não tinham descoberto. Fui logo pro banheiro tomar uma ducha, me deitei e fui logo dormir. As roupas não prestavam mais. Estavam com um péssimo cheiro e sujas. Ao acordar pela manhã, tive uma forte dor de cabeça, então vou ao banheiro procurar por medicamentos e tomo duas pílulas de um vidro com um rótulo escrito “Tome essas pílulas para evitar o enjoo e as dores de cabeça. — Julie”.Volto para o quarto, visto um roupão e vou em direção a sala.
Ela está lá, sentada na poltrona da sala, impondo sua autoridade com seu olhar e a classe com suas roupas. Roupas caras. Perfume mais caro ainda. Mulher de ação e mulher de lojas. Mulher normal. Não parece tão preocupada, afinal estou vivo, é o que importa. O que importa agora.
- Vejo que você já recuperou fisicamente — Julie diz com um sorriso no rosto.
Eu digo que ela preparou tudo, como sempre. Adiantada. Esperta.
Fiz o meu melhor, como de costume. Sim, tivemos um tom sarcástico. HAHA! Ela ri. Maxwell estava querendo se livrar de você o mais rápido possível — ela continua. — Ele me deu duas opções: ou eu te matava, ou eu morria com você. Como não somos Romeo e Julieta, decidi te matar.Decisão simples, fácil, viável. Romeo não teria gostado da ideia, e muito menos Julieta. Estou vivo, é o que importa. Pergunto se foi fácil, escolher me matar. Ela não leva tão a sério. Ela ri novamente. Não tão fácil, ela diz. Ao invés de mandar te executar, fiz com que te dessem uma injeção a qual eu mesma comprei. Maxwell claramente não ficou sabendo de minha decisão, pois se fosse por ele você estaria agora provavelmente com duas balas na cabeça em Springfield. Talvez essas duas balas seriam melhor, pra fugir dessa confusão. Mas enquanto eu não parasse ele, ninguém estaria seguro.
Essa injeção faz com que seus batimentos cardíacos diminuam e que você respire mais devagar e nem tanto quanto deveria.
Eu praticamente morri para eles. Sou um fantasma contra a Animos. Movo nas sombras, invisível. Ainda não sou percebido. Ainda.
- Ok, Erik, chega de falar disso. Vamos, temos que ir pra Nova York.
Vamos até o carro de Julie, ela sintoniza o rádio em uma estação de música indie e seguimos para o aeroporto. Bons tempos. Pegamos o voo para Nova York logo após o almoço e partimos para o embarque no Terminal 2. Ao chegar em Nova York, ela me diz que a nossa base ainda estava funcionando e que iríamos lá pegar alguns equipamentos. Ao se aproximar do local, uma velha fábrica de tecidos abandonada está em chamas, e era lá onde o esconderijo estava. Enquanto os bombeiros tentam apagar o fogo que se alastra facilmente, posso ver o terror nos olhos de Julie, se perguntando o por que de o esconderijo ter pego fogo, se poderia ter sido Nikolai, mas como ele saberia? Nem mesmo Maxwell teria motivos para isso, já que eu estava morto. O que faremos agora?, eu pergunto, acho que deveríamos sair e procurar um local seguro. Eles não podem me ver aqui.
- Ainda não, precisamos saber o que aconteceu. Eu vou descer e perguntar o que os bombeiros sabem. E quanto a você, fique no carro e tente não chamar atenção.
Julie sai do carro e vai com o chefe dos bombeiros que comandava os homens no local. Aquele cara tava cansado, ele tinha uma esposa esperando ele em casa com uma filha pequena, ele não estava afim de ficar ali o fim da tarde.
- Bom dia, sou a Agente Foster. Gostaria de saber o que aconteceu no local. — O tom dela não deixava com que a pessoa a qual ela estivesse dirigindo a palavra escapasse sem dar resposta, como uma cobra cercando sua presa. Ela focava, prendia, amedrontava, conseguia o que queria.
- Opa, bom dia Agente. A central dos bombeiros recebeu um chamado de uma explosão nesta fábrica abandonada há meia hora atrás, porém não sabemos o por que da explosão. Isso aqui ficou uma bagunça, espero que a gente consiga terminar antes do expediente — diz o homem de bigodes, suando como um cavalo pelas roupas pesadas. -
- Acredito que este assunto seja assunto do governo agora, senhor. Peço que ninguém faça nenhuma busca no local até uma equipe chegar.
Então Julie faz uma ligação para a central e solicita que eles resolvam a situação. Esperamos aproximadamente vinte minutos até que os agentes chegassem. Enquanto ela falava com um agente, orientando sobre o ocorrido e dizendo o que sabia até agora, um outro agente com um terno preto, cabelos castanhos arrumados e óculos escuros se aproximou de nosso carro e discretamente deixou algo no porta-malas. Tive que ir para o banco de trás e se esconder para não ser notado. Apesar de querer saber o que era, não pude agir. Após Julie terminar de dar as instruções, entrou no carro e seguimos para o meu apartamento. Onde eu moro não é o lugar mais luxuoso, mas também não pago aluguel. Eu não recebo mal. Sério. Moro na cobertura, e nos andares abaixo não existem bebes chorando, homens sendo presos ou uma família preocupada com as contas. Eu simplesmente amo a classe média alta.
- Fiquei chocada quando o bombeiro disse que o motivo do fogo tinha sido uma explosão, e suspeito que quem fez a ligação estava envolvido nisso — disse Julie, pensativa.
Agora só nos resta descansar e amanhã iremos atrás de provas, eu respondo. Boa noite. Desço do carro, caminho até o outro lado da rua, aceno para Julie e entro no prédio. Subo até minha cobertura, largo minhas chaves e meus cigarros no aparador próximo a porta, me jogo no sofá e fico assistindo o show de Jimmy Kimmel, porém acabo dormindo alguns minutos depois. Despertei cedo, já eram sete horas da manhã, com um jingle muito chato de abertura de um jornal matinal. Fui pra cozinha atrás de algo comestível, mas só encontrei algumas cervejas e hambúrgueres congelados. Decido colocar uma roupa pra corrida e fui até uma padaria a dez minutos a pé de minha casa para tomar um café da manhã e já fazer um exercício básico. Durante minha caminhada, percebo que um carro escuro andava lentamente a noventa metros atrás de mim na velocidade beirando os quinze quilómetros por hora. Ele com toda certeza não estava na auto-escola. Ao chegar na padaria, pude perceber que o carro tinha estacionado e dele saia um agente federal, que tinha um comunicador na orelha que tentava disfarçar quando recebia alguma mensagem, tendo que por a mão na orelha esquerda. Mesmo tudo isso sendo estranho, decidi ir tomar o café da manhã na padaria mesmo estando desconfiado. Pedi um café preto sem açucar, diabetes nunca é bom. Enquanto eu tomava meu café e comia um misto quente, pude ver que mais dois carros escuros tinham chego no local, e que o primeiro homem que tinha chegado estava vindo em direção a padaria.Quando ele entrou, pude ver que ele procurou por todo o lugar até me encontrar e fixar o olhar em mim.
- Seu nome é Erik Thurman? — perguntou o agente federal, querendo impor uma autoridade a qual não valia nada pra mim.
Pode ser que sim, eu respondo. Que merda, ele vai querer me foder logo de manhã?
Então o senhor tem que vir comigo. — Todos na padaria ficaram olhando pra nós ao invés de cuidar da própria bunda. O cara gordo e barbudo que lavava os pratos na parte de trás da cozinha cochichava com a estagiária enquanto ela secava um copo.E por que eu deveria ir contigo, cara?, eu pergunto. Senta ai, vamos conversar, temos todo o tempo que quisermos! Bom, ele parece não ter gostado do meu convite.
Dei um último gole no meu copo de café, puxei dez dólares do bolso, deixei o dinheiro na mesa e acompanhei o tal agente. Enquanto eu dava meus passos em direção ao carro, fiquei imaginando de que jeito eles iam fazer pra me foder. Eles não iam me matar de primeira. Iriam me torturar, pedir pra que parassem e fazer com que eles soubessem de todos os meus planos. Isso não ia acontecer.
Entramos no carro e eu já estava desconfiado daquele teatro barato. Decido perguntar onde estávamos indo, e o mesmo agente que tinha ido me pegar na padaria me responde
- Isso não lhe diz respeito — ele diz com um tom diferente do que ele tinha usado alguns minutos atrás comigo na padaria, um tom que fizesse ele parecer mais perigoso, mais ameaçador. Só pra ele. Os colegas não ligavam, ele se achava assustador e eu já não sabia de mais nada. Eles vão me ferrar.
Digamos que o senhor está sabendo mais do que a Animos acredita que o senhor deveria saber — ele continua.A risada irônica no fim da fala me deu a situação: eles iriam dar um jeito de desaparecer comigo, me fazer fechar a boca para que não atrapalhasse os futuros projetos da Animos.
Por que se importar em me chamar de senhor quando na verdade eles querem me matar? Não faz sentido, e nem deveria. Será que deveria?
Será que sei mais do que deveria?, eu pergunto. Será que é por que fui o único a tomar alguma atitude racional e não ficar servindo como um idiota pras ações do Maxwell?
- É melhor se você ficar quieto e colaborar, Erik. Acabou. — Ótimo resposta, não?
Para eles estava tudo perdido para o meu lado. Eles tinham ganho, e eu voltado pra garra do cara mau na história. Tentaram dar um jeito, porem não conseguiram. Agora seria pra valer. Tentar fazer com que eu desaparecesse de vez naquele cidade não deu certo. Eu quero ir pra casa. O cara que ta dirigindo está querendo passar no drive-thru do primeiro fast food que ele avistar. O novato aqui do meu lado parecer querer ir ao banheiro. E eu, só quero ir pra casa. Quero subir pelo elevador e passar pelos andares, sentir o poder subir de acordo com eles, e assim chegar no topo. Quero ir pra minha piscina.
Nossa boa conversa é interrompida quando um carro cinza em alta velocidade bate do lado do carro em que eu estou, iniciando um tiroteio entre os dois carros. Baixei a cabeça pra me proteger, mas era inútil. Era Julie dirigindo o outro carro. A veloz, a esperta. Fiquei surpreso por ela ter tomado uma atitude tão rápido. Me deixar morrer seria mais fácil. Mas não, a vingança não tinha nem começado.Já era hora de sair dali. Quero a minha cama king size, meus travesseiros importados do Egito junto com meus lençóis de oitenta fios.
Que agora as aulas de artes marciais valessem a pena. Rápido soco de esquerda. Acerto o agente do meu lado direito. Pego sua arma. Disparo na perna dele, abro sua porta e empurro ele para fora do carro. Mais duas balas saem da arma, uma direto pro peito do agente no meu lado esquerdo que estava de ressaca, e outra no agente do banco do carona. Para não causar um acidente, decido não matar o motorista. Ao invés disso, abro a porta esquerda e grito pra Julie. Abra o teto solar do carro, eu digo. Vou pular.
- Cuidado pra não arrastar esse rostinho bonito no asfalto, Erik! — ela responde — Vou fazer com que ele diminua a velocidade.
O mesmo agente que tinha ido me pegar na padaria para gentilmente me levar à morte agora fala com Julie. Ele diz não acreditar que ela tenha me ajudado, mudado de lado. Blá-blá-blá. Ela apenas olha pra ele. Um olhar de “você sabe que ta fazendo merda, chega”. Por favor Anderson, não deixa eu arrastar minha cara no asfalto. Não hoje, amigão.
Eu quero minha TV de 86’ polegadas.
Abro o teto solar e saio por ele. Eu ia morrer. Se você nunca esteve num teto de um carro em movimento, você não sabe o que esto u dizendo. Tive que me segurar com muita força, por que tinha uma grande chance de eu cair. Uma chance do tamanho do Empire State Building.
Respire.
3.
Você vai morrer. Em alta velocidade, pular de um carro para outros é impossível.
2.
Os Mythbusters já testaram isso, né?
1.
Respire. Respiro fundo. Força nas pernas, tire o suor da mão.
Foque!
Foque!
Foque!
Eu pulo.
Como eu posso estar vivo? Mesmo com muita dificuldade consigo pular e logo entrar no carro. Quero meu sofá de três mil dólares.
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