Animals
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Manhã seguinte.
— Mãe, acorda! – eu ouvia sussurros ao longe. Parecia ser Henry, mas eu não tinha certeza de nada, minha cabeça era uma confusão completa de imagens e sons, mas principalmente sensações. Eu não lembrava da noite anterior, até certo ponto. – Mãe! Vamos, levanta!
— O quê? Henry? Mas quando... Como você chegou aqui? – como era possível que minha mente estivesse tão nublada que eu simplesmente não conseguisse lembrar da noite anterior? – Você não estava no Rumple? – nem mesmo ao meu filho eu estava conseguindo dar atenção corretamente.
— A Emma veio me trazer de manhã, ela tomou café comigo no Granny's e depois me deixou aqui pra você poder me levar ao festival daqui a pouco – “Emma”... Aquele nome me fez despertar na hora, como um balde de água fria (ou quente demais). Como Henry conseguiu entrar? Eu tinha combinado que iria buscá-lo na casa de seu avô pela manhã para tomarmos café, mas aparentemente sua outra mãe foi mais rápida. – Você está bem? Parece meio cansada.
— Só estou com um pouco de sono, filho. Passei a noite revisando alguns contratos da prefeitura e checando se estava tudo certo para o festival de hoje. Fui dormir muito tarde, mas estou bem, okay? Agora vá tomar um banho, vou me trocar e já desço para irmos ver como anda a produção para o festival – certo, era tudo mentira, eu não tinha sequer encostado num único papel noite passada. “Se bem que seria melhor se eu tivesse certeza disso antes”, pensei.
Será que havia outra maldição na cidade? Mas Henry não pareceu confuso com suas memórias. Talvez a maldição tenha caído somente sobre mim. Rumple podia estar aprontando alguma, ou até algum outro espertinho tentando conseguir algo. Porém depois que Emma deixou de ser DarkOne, nada mais aconteceu, desde então esta cidade está mais pacífica do que nunca. Algo estava errado comigo, e eu tinha que descobrir o quê. Levantei lentamente, sentindo meu corpo dolorido e pesado, com uma certa ardência em alguns lugares específicos. No caminho até o banheiro tive um estalo. “Por que raios estou só de lingerie?”
— Ontem estava muito calor, provavelmente devo tirado a camisola durante o sono... MAS O QUÊ? – foi inevitável não surtar com a imagem no espelho acima do lavatório. Meu corpo... Meu precioso corpo estava marcado, arranhado, com hematomas e agora sim, uma explicação seria totalmente necessária.
Analisei lentamente toda a minha pele. Braços e pernas com alguns arranhões superficiais, porém visíveis. Meu abdômen, coxas, colo e pescoço com hematomas, alguns arroxeados e outros vermelhos. As costas com arranhões mais profundos, marcas de mãos na bunda, como se tivesse levado um tapa. A virilha não tinha machucado algum, apenas estava desconfortável para sentar e cruzar as pernas. Meu cabelo estava terrível, parecia que eu tinha enfrentado uma briga com um animal selvagem e ele havia tido sucesso.
— Hey sis, Henry me disse que você estava estranha e decidi ver por mim... AH MEU RUMPLE AMADO, REGINA! O que aconteceu? – estava tão absorta em pensamentos e tentando lembrar de alguma coisa que mal percebi os passos de Zelena em meu quarto, assustando-me e pegando a toalha próxima da porta e cobrindo meu corpo.
— Droga, Zelena! Está tentando me matar novamente? – seus olhos ainda encontravam-se presos ao meu corpo, agora parcialmente coberto. Bati a porta em sua cara e ela resmungou do outro lado, batendo insistentemente.
— Regina! Diga agora quem te fez isso! Robin está com Henry lá embaixo, vou mandá-lo atrás do patife que aprontou isso neste momento – os chiliques de Zelena às vezes eram irritantes.
Depois de todo o esforço para trazer Emma de volta para nós, fizemos uma trégua. Ela não queria voltar para Oz e deixar sua filha, fora que Robin parecia estar começando a gostar dela, então o acordo era que ela vivesse em paz em Storybrooke, deixando-nos todos em paz também. Neste meio tempo acabamos nos acertando, agora ela acha que é minha irmã mais velha desde sempre e deve proteger sua “sis” de tudo. Não era um sacrifício ter Zelena por perto, só um pouco inconveniente às vezes.
— Não diga nada à ninguém, Zelena! Isto é assunto meu, então eu vou resolver! – depois de dizer isso, ouvi Zelena suspirar e apenas murmurar um “Ok, mas falaremos disso depois” e sair do quarto.
Toda aquela comoção junto ao cansaço físico da noite anterior, deixaram-me exausta logo no começo do dia, e ele seria longo, talvez mais do que eu esperava. Resolvi tomar um banho e me vestir logo, antes que mais alguém quisesse “verificar “ meu corpo. No meio de meus devaneios, lembrei que Henry estava comigo no quarto, me perguntei se ele havia reparado em algo, mas eu estava coberta até o pescoço e meu rosto estava intacto, pelo menos. Coloquei uma saia azul marinho que ia até os joelhos, uma camisa branca de botões até os cotovelos e como prometia fazer calor durante todo o dia, tive que passar maquiagem nos braços e pernas, pois ficar de calça e blazer naquele calor seria ainda mais estranho, não queria chamar ainda mais atenção. Desci para tomar um café leve, visto que se Zelena estava ali, ia ficar para o almoço e eu estava faminta, mas era melhor aguardar até que a refeição estivesse pronta.
— Nossa mãe, você demorou – Henry era esperto demais, disso eu já estava cansada de saber, mas parecia que dessa vez ele estava tentando me sondar. – Podemos ir até o local do festival daqui a pouco? – ele perguntou receoso, com uma ponta de esperança herdada de seus avós biológicos. A verdade era que eu realmente havia demorado no banho, a última lembrança que tive foi de Emma aparecendo em minha porta e uma rápida discussão em meu quarto.
— Vou tomar um café e podemos ir, querido. Imagino que sua tia Zelena queira almoçar conosco, então temos de ser rápidos – a ruiva apenas confirmou com a cabeça e foi para a cozinha, já começando a procurar os ingredientes para um spaghetti à la carbonara, receita que aprendeu durante o tempo em que esteve com Robin. – Preciso passar na delegacia para ver se está tudo certo para a segurança antes, e...
— E que já está tudo pronto, madame prefeita. A segurança está sob meus cuidados e nada sairá do acertado – o susto me fez derrubar a xícara de café na mesa de jantar em que eu e Henry conversávamos, respingando um pouco em minha camisa. Praguejei por toda sua descendência, e assim que levantei o rosto para finalmente olhar para meu atraso de vida, tive um estalo. Como alguém podia ser tão linda, mesmo estando totalmente suja? – Desculpe pelo meu estado, mas Gepeto pediu ajuda com a lenha que vai na fogueira do festival e eu tinha que ajudar.
— Como sempre inconveniente, Miss Swan. Seus pais não ensinaram a bater na porta antes de entrar? – o sarcasmo em minha voz era gigantesco, e por um momento, senti desgosto por tratá-la daquela forma, mas quando a vi entrar em minha casa como se fosse sua, a irritação se apossou de meu ser e novamente a ironia dominou minhas palavras – Está parecendo um animal de rua, toda suja dessa forma, se não for pedir demais, faça o favor de se retirar da minha casa.
— Mãe! Não precisa tratar a Emma assim! – Henry interviu e levantou-se, indo em direção a sua outra mãe. Começaram a falar sobre a comemoração que teríamos mais tarde e que queria ter ajudado a carregar a lenha para Gepeto.
Observando-os, percebi que aquela cena se repetiria até o fim dos meus dias: Henry defendendo a mãe de meus ataques. A loira vestia uma regata branca, que estava manchada de terra e musgo das árvores cortadas, uma das alças estava caída sobre seu braço, dando visão ao sutiã preto de renda. A calça estava suja também, mas apenas nas coxas, apertando seus músculos, que estavam tensos pelo esforço recém feito. Começaram a ir até a cozinha e me pus atrás, para checar se ela não sujaria nada com toda aquela terra nas mãos e botas. Enquanto Henry ia até a geladeira para pegar água, a vi abrindo um armário mais alto que sua cabeça para pegar dois copos. O movimento de levantar o braço e esticar o corpo, fez com que a regata subisse até o umbigo, mostrando a faixa de uma box branca. O barulho a seguir assustou a todos que estavam no recinto. Henry olhou na direção da xícara espatifada aos meus pés, Zelena e Robin surgiram do jardim com a filha nos braços, correndo para checar se havia algo errado. Emma apenas me olhava, havia um sorriso torto em seus lábios, seus olhos se estreitaram, parecia ler minha mente. Minha única reação foi balbuciar o que tinha acabado de lembrar.
— Foi você?
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