Animago

1 Capítulo 1 - Novata


Notas iniciais
Esta história se passa no ano de 2013.

É uma típica manhã de domingo, para mim. Acordei há cerca de 40 minutos, sem nenhum motivo aparente, sendo que não temos aulas hoje à tarde e já estou entediado.

É incrível como a chatice dos fins de semana não muda mesmo quando se é um bruxo. Não saí da minha cama ainda. Comecei a me vestir cerca de 20 minutos atrás, mas já estou "semi-deitado" novamente usando uma calça escura como todas as outras e meias. Não vejo meu sapo, Gilear, desde ontem à noite, mas, sinceramente, isso não me importa. Já é tarde demais para tomar café da manhã no Grande Salão, então, com muito esforço, termino de me vestir e vou até a sala comunal com alguns feijõezinhos de todos os sabores. Adoro feijõezinhos.

A sala comunal da Corvinal é onde eu me sinto em casa. Apesar da constante movimentação de pessoas. Minha presença, talvez por ser estrangeiro, transferido ainda no primeiro ano de Castelobruxo, no Brasil, causa reações diferentes nas pessoas. Sinto que alguns não gostam de mim, mas, também não me importo com isso. Atravesso a sala com uma xícara de café até perto da lareira, onde tem a menor concentração de pessoas, e me sento em uma das almofadas perto da lareira. Olho em volta e encontro o livro que tinha esquecido de guardar na noite passada, embaixo de um dos sofás. "Accio livro."
Lá vem o livro de poções do Príncipe Mestiço atravessando a sala. Mais olhares. Dou de ombros e continuo a leitura de onde havia parado na noite passada. Agora está tudo em paz. Tenho meu café, meu livro e um bom lugar para aproveitá-los.

Ah não, é ela. Lá vem a novata desse ano. Raissa. Viemos do mesmo país e acabamos na mesma casa. A gente conversa bastante. "Oi Guilher... Isso são feijõezinhos?" Ela diz, apoderando-se do meu pacote de feijõezinhos de todos os sabores.
"Espero que você pegue o pior." Ela dá de ombros e come do mesmo jeito. "Háá! Manga!". Eu já tinha pego terra, sangue e meleca só hoje. "Então — Raissa começa a falar escolhendo, pela cor, outro feijãozinho. — O quê se faz neste lugar nos fins de semana?"
"Come-se feijõezinhos com café à beira da lareira. Que tal?"
"Nah, deixa de ser chato! Vou chamar a Gabs e você vai nos mostrar a escola" disse virando as costas e saindo com meu pacote de feijõezinhos.
Termino meu café em um gole, fecho o livro e volto para o meu quarto. Preciso pegar a capa e o cachecol, pois está nevando lá fora. Raissa parece, de alguma forma, ter me convencido a sair. Talvez ela seja uma bruxa brilhante. Ou eu um idiota.

Encontro Raissa e Gabi descendo a escada que leva ao hall de entrada. Dá pra chegar em qualquer parte de Hogwarts, partindo-se dali. Estamos todos vestidos de forma parecida, sendo que somos todos da Corvinal. Raissa usa um tênis branco, não parece encaixar no nosso uniforme preto, mas tudo bem, não tem muita coisa normal nessa garota.
"Onde a gente vai primeiro? Eu voto pela biblioteca." Gabi é da mesma idade que eu, estudamos juntos. Ela tem problemas com meu sapo. Ou meu sapo tem problemas com ela, não tenho certeza.
"Sem chance! Com toda essa neve a gente vai ficar aqui dentro?" Raissa parece realmente animada.
"Que tal o campo de Quadribol?" Sugiro, pois, é o primeiro lugar que me vem à cabeça.
"Pode ser." As duas garotas concordam e saímos, rumo ao campo de quadribol.

Passamos por muita gente em direção ao campo, conversando sobre coisas aleatórias. Estou me divertindo. Num domingo. Isso é inesperado.

Chegando no campo, não encontramos ninguém na entrada ou em lugar algum. Porém, a neve cobrindo a grama e acumulando-se sobre os aros é um espetáculo a ser visto. "Este lugar é incrível! Olha o tamanho desse campo. Eu poderia voar aqui por horas." Raissa está rodando na neve, admirada com o tamanho do campo.
"Acho que as vassouras de treino do time da Grifinória estão lá dentro." Aponto para um depósito, abaixo de uma das torres onde fica a torcida, em dias de jogo. "Podíamos pegar emprestadas, né?"
"Não me parece boa ideia" Gabi é a pessoa mais responsável que conheço. "Mas seria divertido." Talvez ela goste de voar.
Vamos até o depósito e pegamos 3 vassouras do armário. Saindo do depósito nos deparamos com o time da Grifinória chegando ao campo. Não pode ser. Eles vão mesmo treinar no domingo.
"Ora, ora." o Capitão do time se adianta, tentando parecer um líder, sem sucesso. "O quê está havendo aqui?"
"Nós íamos praticar vôo" Gabi o responde, imediatamente, tentando evitar um embate. "E não trouxemos nossas vassouras. Achei que não faria mal se pegássemos emprestado."
Eu e Raissa estamos para trás, apenas observando. Eles estão em maior número. Um time de Quadribol é composto de sete jogadores, tirando os reservas. A Grifinória tem três reservas.
"Olha, foi uma ideia estúpida." Dou um passo para a frente. "Estávamos mostrando a escola para nossa amiga novata."
"Hum" o Capitão do Time, Eric, diz. Tentando processar a informação com o único par de neurônios que ele deve ter. E é então que as coisas saem de controle. Um dos reservas do time manifesta-se:
"Não vamos deixar os corvinhos pegar nossas coisas assim, certo?" E uma parte do time concorda com ele. A maior parte.
Eric, como o grande idiota que é, deixou-se levar pela situação. "Realmente... São três vassouras. Vocês vão devolvê-las agora e nos dar algo como compensação." O time concorda em voz alta.
Estamos em três pessoas. Eles são dez. Não há escolha.
"Ok. Toma." Entrego-lhe a vassoura e, junto com ela, meu cachecol azul. As cores de minha casa. Gabi entrega em silêncio a vassoura e o pacote de feijõezinhos, que, hoje pela manhã, me pertencia.
Raissa entrega sua vassoura e começa a tirar seu cachecol, mas Eric a manda parar.
"Esta é a novata?" Ele pergunta com aquela voz monótona e irritante de uma pessoa que só consegue pensar em uma coisa por vez. "Você precisa entender que não se invade o território dos leões assim."
Eu teria rido desta tentativa falha de criar uma frase de impacto. Mas nossa situação não era favorável.
"Eu quero seu tênis, novata." Eric falou. "Você não está usando as cores da sua casa."
Raissa olhou para mim e para Gabi, procurando o que fazer. Assentimos com a cabeça. Não havia como reagir de outra forma. As coisas ficariam piores. Então, tirou seu tênis e o entregou para Eric, ficando descalça na neve.
"Espero que isso não volte a se repetir." Eric falou, virando-se de costas com nossas coisas e saindo, seguido por todo o time. Eu estava fervendo de raiva.

A volta ao Castelo foi, quase toda, em silêncio. Carreguei Raissa nos ombros, com os pés envoltos em minha capa. A garota parecia decepcionada. Ou triste pelo par de tênis. Não sei. Chegamos de volta ao castelo e fomos para a sala comunal. Sentados, perto da lareira, começamos a conversar sobre os eventos do dia. Raissa continuava abatida.
"Isso foi uma ofensa à nossa casa." Eu disse. Com o tipo de raiva fria que sempre toma de conta de mim neste tipo de situação. "Não da Grifinória como um todo, mas daquele grupo de idiotas."
Raissa ouvia em silêncio, com os olhos fixos no fogo. "Isso não me cheira bem..." Gabi observou. Ela me conhece.
"Não podemos deixar isto assim. Vou buscar nossas coisas hoje à noite." Decidi, determinado.
"Acho que não preciso dizer que não acho boa ideia." Gabi realmente é muito responsável.
Mudamos de assunto e a tarde passou. Fomos às nossas camas e, finalmente, tudo se apagou. Hogwarts dormia.