Animago
4 Capítulo 4 - Consequências
O silêncio é absoluto. Eu apreciaria este momento se não tivesse a certeza de que algum tipo de punição me espera. Olho ao redor e todos estão me olhando espantados. Exceto aqueles que estão tentando acordar Eric, agora deitado com o rosto em cima do sangue que saiu do próprio nariz quebrado. Tenho uma sensação estranha olhando para isso. Orgulho? Talvez.
"Bom... Foi um bom duelo, não posso negar..." Professor Flint começa, mais calmo do que eu esperava que ele estivesse. "Mas você sabe que podia ter parado ao desarmá-lo. Tenho certeza disso."
"Perd..." Começo a me desculpar, mas sou interrompido por uma gargalhada vinda do fundo da sala.
"Não se desculpe." Sr. Flint não me deixa sequer tentar me desculpar novamente. "Como eu disse... Foi um bom duelo. Afinal de contas, é para isso que estamos aqui! Tenho certeza que o pessoal da enfermaria dará um jeito em nosso capitão." Tenho que admitir que a calma do Sr. Flint me surpreendeu. "No entanto..." Nada é tão bom como você espera que seja. "Preciso que me acompanhe à sala da Diretora Minerva."
Que ótimo. Aposto que minha enorme popularidade vai aumentar muito depois que minha casa for punida por minha causa. "Certo, professor." Levanto a cabeça, enfrentando os olhares assustados e até raivosos de meus colegas de turma e sigo meu instrutor de duelo pela porta que levará ao Hall Principal.
"Guilherme..." Sr. Flint começa. "Você a sentiu?" Ele fala ainda de costas para mim, seguindo seu caminho ao gabinete da Sra. Minerva.
"Senti o quê? Quem?" Pergunto, realmente sem saber do que ele está falando.
É então que meu instrutor para e vira-se para mim, com o mais ardente dos brilhos no olhar. "A Magia! Você a sentiu? Aquele duelo não foi algo comum! Você sabe disso. Estudantes da sua idade não entrelaçam feitiços daquela forma! Você a sentiu, não foi? A loucura do duelo entre bruxos. O êxtase da magia. O momento pelo qual todos os magos duelistas buscam, meu caro aprendiz!"
Essa empolgação toda me assustou um pouco, mas, eu sabia do que ele estava falando. "Não sei do quê o Sr. está falando." Realmente aquilo foi mais que um duelo. "Foi apenas um duelo. Nada mais que isso." Eu senti a magia correndo por mim e foi ótimo, mas, não preciso de um instrutor no meu pé. E ele não precisa saber o quê eu sinto ou não.
"Não menospreze grandes emoções, jovem." O rosto dele foi do fascínio à decepção tão rápido que eu achei que veria o mestre chorar. "Talvez seja cedo demais para que você compreenda."
"Talvez."
"Em todo caso, procure-me, caso se sinta curioso." Ele virou-se novamente, endireitou sua postura e continuou seu caminho ao gabinete da Sra. Minerva em silêncio.
Entramos no gabinete da diretora e não encontramos ninguém no local. Com exceção de um grande gato preto. Um truque pelo qual a Sra. Minerva é conhecida. Ela assume novamente sua "forma humana" e começa o que eu pensei que seria um discurso.
"Um nariz quebrado e o capitão do time de quadribol da Grifinória inconsciente. Esse é o saldo de seus atos inconsequentes, Guilherme." Obviamente ela estaria furiosa. Ainda mais tratando-se dos queridinhos da diretora.
"Ora... Estávamos num clube de duelo, diretora." Sr. Flint tenta amenizar a situação. Por mim, ela pode muito bem falar sozinha tudo o que tem a ser dito e me deixar ir embora logo.
"E desde quando um duelo amistoso entre alunos acaba com ossos quebrados? Pelas barbas de Merlin, que tipo de duelistas você está tentando criar?" Minerva parece realmente furiosa.
Eu realmente não queria que o instrutor e todo o clube de duelos sofressem as consequências pelo que fiz. "Sim, diretora. Perdão, eu perdi o controle." Não sou de pedir desculpas. E, com certeza, faria de novo. "Não irá acontecer de novo."
"Obviamente não acontecerá de novo! E para que a mensagem fique clara, quero que saiba que sua casa será punida." Ela fala olhando dentro de meus olhos como se soubesse que tudo aquilo foi, em partes, pessoal.
Não respondo. Não tenho o que dizer. Baixo a cabeça.
"Está dispensado. O senhor fica, Professor Flint."
Saio da sala, ainda cabisbaixo e encontro meu caminho até a sala comunal da Corvinal. Não encontro ninguém lá. Atravesso a sala e, após passar uma caneca de café, sento no sofá ao centro da sala, próximo à lareira. "Incendio!" Invoco chamas, com minha varinha direcionada aos pedaços de lenha cortada dentro da lareira, acendendo-os. Em pouco tempo, estou deitado no sofá, com a caneca vazia no chão. Não paro de pensar nos eventos do clube de duelo.
Tanto que nem percebo quando Gabi e Raissa entram na sala. Gabi joga minha mochila em cima de mim. "Você esqueceu isso no clube de duelos, Sr. Duelista"
"Obrigado." Sento-me novamente, um pouco tonto e Raissa senta na outra ponta do sofá. "Ah, não foi nada." Gabi vai atrás de seu gato. Ou gata. Acho que nunca saberei. "Aliás, foi um belo show!" Ouço sua voz vindo da entrada do corredor que leva ao dormitório feminino. Ficamos em silêncio novamente, ouvindo somente o crepitar das chamas.
"Fiquei sabendo do que houve hoje..." Raissa quebra o silêncio, parecendo desconfortável em tocar no assunto.
"A Gabi te contou?" Pergunto, de certa forma, envergonhado. Talvez com medo? O quê ela estará pensando de mim agora?
"Ela não precisou" Raissa começa a rir de novo. Como sempre. "Boa parte da escola está falando do garoto da Corvinal que derrubou o Capitão do time de Quadribol da Grifinória... Ouvindo isso eu já imaginava que era você!" Ela ri de novo, despreocupada.
Algo nesse sorriso tira toda a minha preocupação sobre o caso. Começo a sorrir, em silêncio. Depois a rir junto com ela. "Acho que não teremos mais problemas vindos daquele lado." Rimos por mais um tempo.
"Você sabe que vai ter que me ensinar a fazer aquilo, né?" Ela diz, de uma forma divertida.
"Ah, mas é claro! A Corvinal não está ferrada o suficiente com um aluno conseguindo punições."
"Sérioooo? Vamos perder pontos por isso? Que injusto! Ele mereceu!" Ela parece indignada.
"Infelizmente..." Baixo a cabeça, envergonhado. Odeio o fato de que toda a minha casa pagará pelo meu erro.
"Relaxa, vamos conseguir estes pontos de novo." Raissa diz levantando do sofá. "Agora vai guardar essa mochila e vamos descer para o jantar."
"Sim, mamãe." Provoco, mas ela parece ignorar.
"Te encontramos aqui embaixo em meia hora. Eu e a Gabs. Nem pense em ir sozinho!" Raissa ordena, vira as costas e vai ao dormitório feminino.
"Claro que não..." Respondo, meio falando sozinho. Subo ao meu dormitório para trocar de roupa e ir ao grande salão, onde vários olhares acusatórios estarão me esperando. Ao menos elas estarão comigo.
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