Angelical
1 Angelical
Notas iniciais
Era o anjo caído sem asas nem auréola a quem fora negado o paraíso. Era aquele que via a todos flutuarem no céu luxuiroso do prazer espiritual e se sentava em um chão duro e mutável.
Areia, pedra, areia. Feliz, triste, feliz. Maleável, mutável, ineterno. Profundamente apagado, sem luz que lhe saísse da pele; esse era o anjo, um anjo da Terra.
Observava calado os outros espíritos celestes que, ignorando a inexistência de Deus, continuavam a servir a que nada mais era além de outro anjo. Se deixavam levar pela grande força que aquela autoridade tinha, sem de fato ter.
Estúpidos, ele pensava. Lhe fora negado o direito de voar, assim como lhe fora negado o direito de ser só mais um. Um daqueles humildes e estúpidos seguidores que se organizavam em filas de luz atrás de uma autoridade inválida para protegê-la com suas vidas imortais, a quem escolheram se submeter.
Oh, aquela maravilhosa ignorância. Se ele pudesse tê-la, talvez ainda sentisse naquele momento o vento bater em seus cabelos ou o calor de uma nuvem que se aproxima, ou o simples contato de outros anjos e seus sorrisos. Mas lhe fora negado o direito de tê-la e de poder resignar-se com esta. Aquela linda dádiva do inferno que permitia aos outros anjos viverem sem buscas, com objetivos já impostos, sem nunca terem que se encontrar, e consequentemente nunca se perderem! Felizes, seguindo naturalmente seus instintos e sensações no nada que sentiam; oh, bela ignorância!
Por que não a desejava?
O anjo caído não tinha asas, auréola, não brilhava, não tinha a mais linda pele. O anjo caído não possuía sedosos cabelos ou olhos azuis que os levassem aos céus, como todos os outros.
E justamente por isso, era inegável que era o mais bonito de todos.
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