Angústia
1 Capítulo 1
Então era isso. A jovem se encontrava parada, em pé, a alguns passos da porta da frente da sua nova velha casa. Era uma habitação grande, mas simples. Paredes de madeira definiam o contorno da moradia em um ambiente doce, mergulhado na nostalgia, mas também no recente sofrimento. A grama verde balançava ao vento, incrivelmente bem cuidada, considerando as condições que levaram a moça ali. Não poderia ser um dia mais irônico, visto que o sol brilhava com intensidade, o vento soprava com tranquilidade, e pequenas nuvens se deslocavam lentamente pelo céu azul de um dia de paz.
Ela não era muito alta, aliás, parecia se encolher diante da presença da casa de madeira. Seus cabelos ruivos ondulados caíam às costas, movendo-se no mesmo compasso ritmado das lâminas de capim que resvolavam em seus tornozelos. Sua camisa xadrez parecia desbotada, com quadrados vermelhos e brancos tristes. Suas calças jeans tinham a base enrolada, de forma a expor as canelas para o dia quente. O calçado poderia ter sido novo a um ou dois anos, mas era assim que gostava.
Era ali que deveria estar, e por isso estava ali. Apesar disso, as lembranças do seu passado e suas convivências ocupavam sua mente e a deixavam atônita, encarando a casa. Deve ter ficado ali por algumas horas, meramente saboreando o ar agonizante de uma obrigação que não conseguiria cumprir. Infelizmente, ou não, a porta da frente foi aberta em um movimento nada súbito, mas que assustou a garota tanto quanto se fosse. Seus olhos assustados encararam a abertura enquanto sua mente especulava teorias. Nenhuma delas precisou ser confirmada, pois com a abertura impossível do portal, uma figura que não estava ali antes entrou mansamente, deixando para trás o vislumbre de cabelos úmidos e sem cor, completamente mortos. Era impossível que ela não entrasse agora. A obrigação, que também era um desafio, se tornou um medo. O cheiro da natureza abafada que inundava suas narinas foi rapidamente substituído pelo cheiro de poeira, associado indistintamente com o odor do lugar em que cresceu. Não se importou com isso naquele momento. Avançando leves passos pesados de culpa, a jovem alcançou a sala de estar, apenas para ver uma imagem de costas para ela, sentada em uma delicada cadeira de balanço. Ainda mais delicada que a cadeira parecia a mulher nela sentada. Lívida, sem ar, sem a menor expectativa de fingir serenidade, a jovem ruiva jogou os seus braços ao redor da moça na cadeira, sem a menor preocupação de olhar para o seu rosto. Os joelhos bateram no chão, em proposta de rendição, e seus braços travaram-se em volta do fantasma de alguém que ela sabia ser muito querido. Sua irmã. Seus olhos, como as mais impressionantes depressões, encheram-se de água salgada, que não era de um mar qualquer. A angústia que apertava o seu peito e a impedia de respirar era a mesma que também a impedia de parar de chorar e soltar os seus braços da figura. Não havia necessidade de explicação alguma, pois a tristeza que sentia no seu âmago era a própria resposta para a sua pergunta não formulada. Apesar do calor que recebia, do sorriso que sentia (sem saber como) no rosto da outra, do cheiro puro de hortelã e menta, sabia que abraçava o espírito, fantasma ou qualquer outra forma de aparição de sua irmã, falecida recentemente. Não saberia dizer se realmente estava ali, mas isso não era de importância alguma. Suas lágrimas já eram o pedido de desculpa que pretendia dar, mas ainda assim tentava formular palavras em meio aos soluços, e não conseguia. Chorou por horas, mas não sentiu o sol descer no horizonte, era tão claro quanto antes foi, e tão claro quanto talvez continuasse a ser, mas ainda assim, era triste.
À sua direita, o pequeno corredor e escadas que levavam ao sotão foram atacados pelo som de um objeto sendo atirado. Não demorou mais de um minuto para chegar à sala um pequeno caderno, aberto no que parecia ser uma lista de afazeres. A jovem ignorou o caderno o máximo possível, talvez até inconscientemente, visto que continuava a chorar e abraçar a brilhante imagem do que fora sua irmã em seus mais belos dias, e não da que viu guiá-la para dentro. Por mais algum tempo permaneceu ali, até que acalmou-se o bastante para olhar o pequeno caderno. Não olhou para trás para saber se a figura havia finalmente desaparecido, como é de praxe nos filmes e livros que apreciou (nos quais era incomum ficarem tempo o bastante para sequer serem tocados), mas verificou que a caligrafia na página era recente e doce, moldada em cursivas belas e enfeitadas. Passou mais algum tempo apreciando a forma em que as letras foram escritas, até que finalmente percebeu que deveria ler o que estava ali. Uma lista de afazeres. Sempre chorara muito, mas naquele dia se sobresaía. O primeiro dever da agenda já estava marcado como concluído, e era retornar à casa em que estava. Ela teve a noção de que o segundo dever tinha relação a trabalho ou emprego, mas não leu por completo, visto que seus olhos foram novamente toldados pelas lágrimas. Como poderia aceitar que retornara? Era impossível, ela estava no local, mas em sua perspectiva, ainda não era o suficiente para dizer que retornara. Talvez aquilo fosse considerado uma mera desculpa, mas para ela não faria diferença, não havia aceitado ainda. Encarou a página do livro com os olhos pingando como as torneiras enferrujadas da moradia. Tentou desmanchar a marcação que definia como concluída a tarefa, mas não conseguiu, o que reconheceu como um sinal, mas não quis admitir para si mesma.
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