André e o Fim do Mundo, Sozinho
1 Nada importa
Notas iniciais
Os estrondos altos explodiam os prédios baixos enquanto raios em chamas atingiam os arranha-céus, as nuvens negras brilhavam uma luz cor de sangue, mas não chovia, os gritos horrorizados pela dor e medo ecoavam dentro dos carros, nas ruas e nas casas. Um grupo pequeno de pessoas se ocupava em ajudar as pessoas feridas e mutiladas jogadas nas calçadas, mas a maioria tentava fugir do fim inevitável, num ato desesperado e esperançoso achando que poderiam salvar suas vidas, mal sabiam que todos já estavam mortos.
E olhando toda aquela destruição no topo da colina, André bebia sua penúltima lata de cerveja, sentado, e apesar de tudo aquilo ser apavorante, era ao mesmo tempo lindo, observava atentamente os raios fortes e barulhentos, as luzes eram belas, mas o que mais chamava sua atenção eram os meteoritos, que destruíam as construções que antes achava indestrutível, viam por toda parte, às vezes atingindo a cidade, às vezes passando bem perto de si, até podia sentir o vento causado pela velocidade das pedras flamejantes bagunçando seu cabelo. Era incrível como tudo estava desmoronando tão rápido, toda sua vida que lutou por todos seus quarenta e sete anos para ter estava ali sendo desmanchada em meio aos destroços, mesmo que sua vida não fosse a melhor, mesmo que trabalhasse num lugar chato com gente chata – ou pra especificar, numa lojinha de decorações – era a sua doce vida, apesar de que isso não parecia o suficiente para querer vive-la.
Agora, olhando tudo aos escombros, André sorria enquanto a constatação de que tudo estava no fim chegava lentamente, como se seu interior nega-se a acreditar que não haveria mais nada depois daquilo, mas queria ao menos estar sentindo medo, não queria se sentir tão vazio. Queria, também, que sua vida tivesse valido mais a pena, veja bem, foi casado por apenas cinco anos, não sabia nem sequer dizer o porquê se casou, quanto mais motivo da separação, não viajava e gostava de gastar seu dinheiro comprando moedas, selos e figurinhas antigas, e tinha uma parede cheia de pôsters de bandas que gostava, mas passou sozinho todos seus melhores momentos e nem sequer falava com seus amigos de escola. Tinha sim alguns amigos, e não se sentia sozinho, talvez tivesse nascido assim. Mas isso realmente não importava, não agora, mesmo que lá no fundo de seu coração, pensava que talvez devesse mandar uma mensagem para sua ex-esposa e dizer a mesma que não a odiava, mas a achava um pé no saco.
Assustava-se vez ou outra por causa dos barulhos altos vindo da cidade que vivia enquanto balançava o rosto no ritmo das músicas antigas que tocava no seu Maverick amarelo de 1976, agora percebia que era realmente uma cor muito feia, igual sua colega de trabalho Laura dizia. Laura era uma boa garota, uma adolescente esperançosa terminando o ensino médio, na verdade ela era incrível, talvez o mais perto de filha que André já chegou a ter em algum momento, ela até mesmo dizia gostar da coleção de selos que guardava em seu baú, aquilo provavelmente era mentira, selos eram chatos. Mas ela era simpática até demais e talvez estivesse morta a essa altura do campeonato, e esse pensamento fez seu sorriso morrer, não sorria por estar feliz ou muito menos por realização, apenas sorria como forma de diminuir a sensação estranha em seu peito, a vida podia não ter nenhum significado para si, mas Laura queria muito ser uma chefe de cozinha, inclusive fazia doces ótimos e entregava-os em caixinhas de papel personalizadas para o "senhor quarentão de bigode", como ela o chamava. Era triste de se pensar que Laura nunca saberia que André também colecionava essas caixinhas, e era sua coleção favorita.
Enquanto a ficha de que realmente era o fim chegava, o homem bebia em goles longos o resto da cerveja que ainda tinha na lata, André pensava em tudo aquilo que devia importar para si, pegando sua última latinha, que era especial, era sua cerveja cara preferida e perfeita para o fim do mundo, e no final das contas, percebeu que nada importava, nem suas moedas, selos, figurinhas, seus pôsters e seus discos de vinil, nem seu amado Maverick 76 amarelo-bosta – como sua ex-esposa chamava – e muito menos as caixas de papel que sua quase filha Laura fazia com tanto carinho e consideração, para o homem de bigode, nada daquilo aquecia lhe a vida, iria morrer e nem sequer ligava para o que devia ser seu bem mais precioso: a própria vida. Podia até mesmo dizer que merecia essa morte, mas pessoas como Laura não mereciam, pessoas como sua ex-esposa não mereciam – mesmo que ela fosse um pé no saco – como André merecia, e com certeza havia mais "ex-Laura-esposas" espalhadas pelo mundo nos corpos de homens, crianças, velhos e moças jovens, todos com um fervor e ânsia de um futuro que não existiria do que "André's" solitários que não ligavam para isso.
Ao fitar o céu que, mesmo com o relógio em seu pulso marcando que eram três e sete da manhã, estava completamente iluminado por um grande meteorito, percebeu que a pedra vinha em uma velocidade cada vez mais rápida, e estava acompanhada por outras de tamanho similar e até mesmo maiores, talvez tivesse cerca de três minutos antes do impacto eminente. Bebeu o resto da cerveja, se deliciando com o gosto amargo pelos últimos instantes antes de ir em direção ao carro para pular algumas músicas até chegar a Raindrops Keep Fallin' on My Head, a música que André considerava perfeita para o momento, aumentou o volume no máximo e pegou um chapéu preto jogado no banco do carona, pondo em sua cabeça em seguida.
Não era uma música de sua época, mas era da época de seu avô, que lhe mostrou quando ainda era um fedelho ranhento que tinha medo de cortar o cabelo e por isso parecia uma menina estranha, e ali observando toda destruição e caos e ouvindo a música alta tocar abafando parcialmente os sons de explosões, raios e gritos, imitava os passos que seu avô fez no mesmo dia que lhe mostrou o disco de vinil do pick up.
Fez questão de usar um chapéu parecido com o que o falecido usou, André quando mais novo sempre quis dançar, então aquele seria seu momento, sapateava animadamente ao ritmo da melodia calma, movia seu quadril e pernas com um pouco de dificuldade, já que não era mais um jovem cheio de energia e juntas saudáveis como antes, por sorte era uma dança simples e lenta. Enquanto dançava, sentia o calor subir gradativamente em sua pele pela proximidade dos meteoritos em chamas, pensava em toda sua vida até o momento, seu primeiro beijo aos dezessete anos, seu casamento aos trinta e quatro, divorcio após cinco anos, até de seu vizinho Carlos, um mexicano, elogiando seu bigode pela primeira vez, nada que fosse realmente interessante, mas era sua vida e se esforçava para focar apenas na sua, pois sua mente lhe traia diversos momentos o fazendo pensar em uma Laura assustada sem saber o que iria acontecer e em uma Fernanda – a ex – desesperada rezando para sobreviver, e aquilo o deixava mal. Não queria ser tão indiferente a vida dessa forma, queria ser como uma pessoa normal com sonhos a se realizar, queria se empolgar com a ideia de um novo amanhã esperando ser preenchido com momentos felizes, ou ao menos querer viver da mesma forma que queria que aquelas duas mulheres sobrevivessem.
Quando a música estava prestes a acabar, André se ajoelhou a beira da colina, com sua respiração ofegante e as bochechas molhadas pelas lagrimas salgadas, que desceram sem sua permissão enquanto pensava nas duas únicas pessoas no qual se importava, o fato de que era o fim doía menos do que se dar conta de que nunca sequer quis estar vivo, mas gostava dos momentos que viveu com elas. E quanto mais a morte se aproximava, mais vivo o homem se sentia.
Aos poucos o instrumental da música ia abaixando, indicando que acabaria em pouquíssimos instantes, André ergueu seu olhar, vislumbrando a grande bola de fogo indo ao seu encontro, destruindo o chão onde tocava, logo a cidade não estava mais lá, nem Fernanda, nem Laura, nem mesmo Carlos. Sua pele ardia pelas queimaduras e a luz ficava cada vez mais forte e insuportável para seus olhos "protegidos" pelo óculos redondo de armação velha, um soluço desprendeu sua garganta, seguido de lagrimas grossas descendo pelo rosto, e então fora consumido pelo brilho.
Aquela foi sua última visão, a mais bela de todas. E ele estava satisfeito, pela primeira vez em sua vida.
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