Notas iniciais
Mais um. ÊÊÊ.

Acordei, mais um dia em que eu não queria viver. Esfreguei os olhos e vi que estava num lugar estranho. Forcei a memória e lembrei do dia anterior, mas que merda. Levantei da cama, peguei tudo que era meu, paguei o hotel. Fui pro ponto de ônibus mais próximo, peguei um ônibus e fui pra casa.

Cheguei e entrei em casa. Não na minha casa, mas na casa que eu tenho ficado esse tempo todo, a casa que guarda as minhas memórias e agora as minhas lágrimas. O último lugar que eu esperava ficar no mundo. A antiga casa dos meus pais.

Olhei para ver se o Mikey estava lá, e estava.

- Onde você estava Gee? — Perguntou ele, sua cara de preocupação.

- Por aí. — Respondi.

- Gee... Faz três dias que não te vejo. — Falou ele.

- Mas recebeu notícia, não foi? — Perguntei.

- Gee... E desde quando notícia acalma alguém? Eu tenho medo... — Falou ele.

- Medo de que? Medo que eu faça alguma besteira? Mikes, besteira eu fiz quando me mudei desse lugar, quando deixei o meu baixinho sozinho nessa merda de cidade. — Falei, contendo o choro.

- Gee... — Ele ficou sem o que dizer. Sabia que eu ia continuar me culpando, não adiantaria.

Eu não sabia a hora, mas eu tinha até a tarde pra visitar de novo a escola do Frank e conversar com os alunos.

Tomei uma ducha rápida, vesti uma roupa normal e fui. Andando e tentando não lembrar de qualquer coisa que me machucasse.

Cheguei lá e me deixaram entrar, eles me conheciam bem. Vi uma roda de alunos, acho que me lembro de todos.

- Gee, cara, a quanto tempo. — Falou um dos alunos, me abraçando. Quem era esse?

- Você é? — Perguntei.

- Brian, cara, não lembra? — Perguntou ele.

- Brian, aah. Brian. Me desculpe, a memória está falhando, e muito. — Respondi, me lembrei desse garoto.

- Cara, meus pêsames pelo baixinho. A gente está muito triste, a escola não é a mesma sem ele. — Falou ele.

- É. Também estou muito triste. — Falei.

- Mas, me diz, o que te trás aqui? — Perguntou ele.

- Brian, eu queria saber sobre as agressões que aconteciam com o Frank, me conte o que souber. Por favor. — Implorei.

- Cara, o baixinho era agredido sim, como você sabe, não todos os dias, mas quando alguns valentões achavam ele. Mas depois que você se mudou, a coisa piorou, mudou para todo dia. Ele tinha medo de vim pra escola. Tinha dias que ele me ligava pedindo pra inventar uma desculpa, porque ele não queria vim, e assim foi. Cara, quer uma dica? Pergunta pro Peter, ele sabia de quase tudo que acontecia nessa escola. — Falou ele, apontando ao tal Peter.

- Obrigado cara. — Falei, e fui em direção ao tal Peter.

Cheguei perto do tal Peter, olhei-o de perto, claro que eu conhecia ele, era um amigo meu.

- Peter. Ei, Peter. Se lembra de mim? — Perguntei.

- Gee... Cara, quanto tempo. — Falou ele.

- É... — Falei.

- Eu sei o que faz aqui Gee, sei o que aconteceu, e sei o que quer saber de mim, eu posso te contar tudo. Mas não sei se será de ajuda. — Ele disse.

- Tudo bem Peter, mas conte, por favor... — Implorei.

- Gee, depois que você se mudou, as agressões com o baixinho aumentaram, eram todos os dias, e às vezes era mais de uma vez por dia. Isso doía, eu fiz o que pude, eu e um novo amigo dele, o Bob, que mudou de escola dois dias antes do que aconteceu. As agressões pioraram por esse mês, o baixinho já estava deprimido, aquilo só piorava, e depois aconteceu o que aconteceu. — Contou ele.

- Bob? — Perguntei.

- É, Bob, ele era um aluno novo. Muito misterioso, mas fez amizade fácil com o Frank. Ele ainda está na cidade, mas mudou de escola, talvez estivesse adivinhando o que aconteceria. Não sei. — Falou ele.

- Você tem algum contato dele? — Perguntei.

- Tenho, o telefone dele, a gente sempre se fala. Mas ultimamente ele deixou de me ligar, não sei o que aconteceu. Se souber de algo, me ligue. — Disse ele, e me entregou o numero do telefone do tal Bob, e o dele também.

- Obrigado cara, descobrirei o que aconteceu e te ligarei. Obrigado mesmo. — Falei.

Sai daquela escola, talvez eu tivesse a chave pra descobrir tudo o que aconteceu. Mas e depois? E depois o que eu descobrisse? O que eu iria fazer? Minha vida não tinha nenhum sentido depois do que aconteceu.

Voltei pra casa confuso, Mikey não estava em casa. Sai de casa então, não queria ficar ali sem companhia, naquele lugar vazio, sem alma, sem vida. Que só me fazia ter memórias do meu pequeno. Me machucava.

Sai para um bar, comprei outra bebida. E fui andando até o final da cidade de novo. Não bebi até chegar lá. Novamente me sentei na calçada da rua abandonada e bebi aquela bebida de gosto amargo.

Chorei, chorei de novo. Estava me sufocando aquele choro, olhei pra cima e sussurrei "A culpa foi minha, não foi?". Soquei a calçada e fiquei naquele estado critico até o fim da tarde. Onde peguei um ônibus de volta para a casa.

Voltei para casa e já estava anoitecendo. Mikey ainda não havia chegado. Subi, tomei uma ducha e me deitei. Estava sem sono, então, fiquei olhando as fotos minhas e do baixinho, e chorando, até que o sono me pesou nos olhos. Dormi assim mesmo, com as fotos em cima do meu corpo e o travesseiro encharcado de novo.

Notas finais
Reviews?