Anatomia de um Corretor de Merda

2 Capítulo 2: O Exame de Anatomia (e de Vergonha)


O sol de meio-dia em Konoha não tinha piedade. Shikadai caminhava pelo pátio da Universidade de Medicina de Konoha (UMK) sentindo que cada fibra do seu ser clamava por uma sombra e um sono de doze horas. Mas o destino — e o grupo de mensagens da faculdade — tinha outros planos.


O incidente da mensagem ("vou passar a língua") havia se espalhado mais rápido que um boato no clã Yamanaka. Enquanto caminhava em direção ao pavilhão de Medicina, Shikadai percebia os olhares. Algumas meninas do curso de Farmácia cochichavam e davam risadinhas quando ele passava; outros veteranos faziam sinal de positivo, gritando: "Aí sim, Nara! Ousadia estratégica!".

— Que saco... — resmungou ele, puxando o rabo de cavalo. — Eu devia ter ficado em casa jogando Shogi com o meu pai.


Ele entrou no Laboratório de Anatomia I, o lugar onde o cheiro de formol e o silêncio deveriam ser a regra. Mas assim que cruzou a porta, o celular no seu bolso vibrou. Era uma notificação de Taene Yama, que estava sentada na primeira fila, rodeada por amigas.

Shikadai sentiu um frio na espinha. Ele precisava se desculpar. Pegou o aparelho para digitar: "Taene, desculpa por mais cedo. Foi o corretor. Não quero causar confusão."


No entanto, o Corretor Preditivo Nin-Tech 5.0 detectou o nervosismo de Shikadai. O algoritmo interpretou o aumento da sua temperatura corporal como "euforia romântica". Antes que ele pudesse conferir, seus dedos trêmulos esbarraram no botão enviar.

A mensagem que chegou no celular de Taene, cujo toque era um sino alto que ecoou por toda a sala, foi:

"Taene, desculpa por ser sedutor. Foi o calor. Quero causar uma explosão."

Taene arregalou os olhos, olhou para o celular e depois para Shikadai, que estava parado na porta com cara de quem tinha acabado de engolir um pergaminho explosivo.

— Shikadai Nara! — exclamou Taene, rindo e balançando o cabelo loiro. — Você sempre foi quieto, dentro do seu clã...quer dizer que o centro de Konoha te deixou bem saidinho, hein?


A sala inteira explodiu em assovios. Shikadai sentiu que seu rosto ia entrar em combustão espontânea. Ele não tentou explicar; sabia que qualquer tentativa de usar tecnologia naquele momento resultaria em um desastre de nível Kage. Ele apenas caminhou para o fundo da sala, procurando a bancada mais isolada possível.


Foi lá que ele a viu

.

Diferente de todos os outros alunos, que estavam com tablets e smartphones abertos comparando o grupo de mensagens com as lâminas de microscópio, aquela moça tinha apenas um caderno de capa dura, um lápis grafite e um livro de anatomia tão grosso que poderia servir de escudo.

Era Hilana.

Seu cabelo estava preso de forma simples, e ela parecia completamente alheia ao caos digital que Shikadai havia provocado. Ela estava concentrada em desenhar um fêmur com uma precisão que deixou Shikadai impressionado.

— Está ocupado aqui? — perguntou ele, a voz saindo mais falha do que pretendia.

Hilana levantou os olhos. Eram olhos calmos, sem a luz artificial das telas. Ela deu um sorriso pequeno e sincero.

— Não, pode sentar. Mas aviso que não gosto de barulho de notificação. Atrapalha a concentração no sistema esquelético.

Shikadai sentiu um alívio tão grande que quase se jogou na banqueta.

— Você é a primeira pessoa sensata que eu conheço hoje — disse ele, guardando o celular no fundo da mochila e desligando-o (ou achando que tinha desligado). — Sou Shikadai Nara.

— Eu sei. Você é o cara que vai "organizar os lábios" — ela deu uma risadinha discreta, mas sem maldade. — Eu não tenho esses aplicativos, mas as meninas da Enfermagem não param de falar disso desde a rodoviária. Sou Hilana.


Shikadai sentiu a timidez bater forte. Cara a cara, sem o escudo de uma tela, ele não sabia onde colocar as mãos. Ele observou Hilana manusear o material de estudo. Ela usava um estetoscópio tradicional, daqueles que exigem um ouvido apurado e silêncio.

— Você não usa o Med-Tab? — ele apontou para os tablets de outros alunos.

— Prefiro o toque — respondeu ela, séria. — Na Enfermagem, a gente aprende que o paciente não é um código. Se eu ficar olhando para uma tela, perco o brilho no olho da pessoa que estou cuidando.

Shikadai ficou em silêncio por um momento, processando aquilo. Era uma lógica perfeita, uma estratégia de vida que ele nunca tinha considerado. Ele, o gênio que planejava tudo, estava sendo ensinado por uma garota que mal sabia onde ficava o botão de "ligar" de um smartphone.

A aula começou. O professor, um homem rigoroso com cicatrizes de batalha, explicava a complexidade dos canais de chakra e sua relação com o sistema nervoso. Shikadai e Hilana formaram uma dupla natural. Enquanto ele analisava as teorias complexas, ela trazia a prática humanizada.

— Nara — ela o chamou, enquanto examinavam um modelo anatômico. — Seu bolso está brilhando.

Shikadai olhou para baixo. Mesmo "desligado", o celular havia reiniciado sozinho para uma "atualização crítica de sistema". A luz da tela atravessava o tecido da calça jeans.

Desesperado para que o aparelho não fizesse mais nenhum barulho, ele enfiou a mão no bolso para forçar o desligamento. No entanto, o sensor de digital reconheceu o toque e, num milagre da má sorte, abriu a câmera e disparou um flash direto para cima.

Flash!

A foto — uma imagem borrada do queixo de Shikadai e do teto do laboratório — foi enviada automaticamente para o grupo da faculdade com a legenda sugerida pela IA: "Observando cada detalhe dessa perfeição ao meu lado."

O celular de metade da sala apitou simultaneamente. Todos olharam para a bancada do fundo.

Hilana olhou para Shikadai. Shikadai olhou para Hilana. O rosto dele estava tão vermelho que parecia que ele tinha usado um Jutsu de Expansão de Sangue.

— Eu juro... que não fui eu — sussurrou ele, querendo que o chão se abrisse e o engolisse até o núcleo da Terra.

Hilana olhou para o celular dele, depois para ele, e soltou uma gargalhada alta e límpida que quebrou todo o gelo da sala.

— Shikadai, você é um gênio na teoria, mas precisa seriamente de umas aulas de "vida real". Deixa esse negócio na mochila. Se quiser me elogiar, tenta usar a voz, não o Wi-Fi.

Shikadai guardou o aparelho, mas desta vez o colocou dentro de uma caixa metálica de instrumentos, criando uma "Gaiola de Faraday" improvisada. Ele olhou para Hilana e, pela primeira vez no dia, não pensou em nenhuma estratégia.

— Tudo bem — disse ele, a voz agora firme. — Você desenha muito bem, Hilana. É muito mais bonito do que as imagens do livro.

Ela corou levemente, um rosa suave que nenhuma tela de retina conseguiria reproduzir. Shikadai sorriu. Pela primeira vez em 22 anos, ele percebeu que a vida offline era muito mais problemática, porém, infinitamente mais interessante