Como se não bastasse ter que aguentar as asneiras que o Digníssimo Senhor Eduardo (meu pai) está dizendo ultimamente, tenho que suportar calada os burburinhos que os vizinhos comentam.

Hoje mesmo, tivemos uma discussão feia, não que eu fosse respondona ou uma filha ingrata, longe de mim, mas eu era conhecida assim, por apenas pensar em questionar suas ordens.

Bom, hoje eu simples mente não consegui ficar calada e disse coisas no calor da emoção, coisas essas que não me orgulho de ter dito, e coisas essas que o orgulho que tenho, não me permite ir lá e lhe perdir perdão.

Ele insistiu em fazer um jantar amanhã, para me apresentar formalmente para o filho do Sr. Dumas como sua noiva e futura Senhora Dumas.
Eu não quero me casar com ele, na verdade eu não quero me casar com ninguém, até o momento.
Não que o Noah (filho do Sr. Dumas) seja feio, ele até é bem afeiçoado, tem cabelos loiros e uma pele bem pálida, se eu fixar bem meu olhar em alguma parte do seu corpo, sou capaz de ver uma artéria ou uma veia, sério sem exageros. Mas ele me causa medo e uma certa repulsa, toda vez que nos esbarramos sem querer, ele me fuzila com o olhar, se ele possuísse algum super poder, eu já teria virado churrasquinho. E eu acho que ele sabe do meu "pequeno" medo, pois seu olhar medonho é acompanhado com um sorrisinho discreto de deboche.

Meu pai é o tipo de pessoa que não desiste fácil, como se não bastasse eu ter dispensado quatro pretendentes de maneira brusca, ele me arruma um quinto, que eu também logo dispensarei, eu não irei me casar só porque é feio estar solteira na minha idade.

EPA! Eu não tenho trinta, quarenta ou mais anos, eu só tenho vinte e três anos, mais eu sou considerada passada da idade, dá pra acreditar?
Eu moro em um pequeno vilarejo, onde todos conhecem todos, fomos criados como uma grande família, mas assim como toda família, temos nossas desavenças e nossos problemas, meu ÚNICO problema com essas pessoas são as formas que elas são viciadas em falar da vida alheia. Principalmente da minha vida. Aqui no vilarejo é comum meninas estarem casadas a partir dos dezessete anos. Na verdade, alguns casamentos são planejados antes mesmos dos noivos nascerem. Loucura, não é?!

Eu tenho duas irmãs, sendo que uma é do segundo casamento do meu pai, com minha Madrasta Isa. Minhas irmãs estão comprometidas, e elas tem menos de dezessete anos. Amélia, tem quatorze anos, nossa mãe morreu enquanto tentava colocar ela no mundo. Ao contrário de mim, ela não debate com nosso pai. De certa forma, ela se sente culpada pelo falecimento de nossa mãe Mary, por isso, ela faz todas as vontades de Papai, com medo de decepciona lo.
Rebecca tem onze anos, ela é filha da Isa com papai, ela não é contra ou a favor do casamento arranjado, ela só quer poder ler seus livros e comer bastante doce de leite, tendo essas duas coisas, para ela, tudo está ótimo.

Isa é o tipo de mulher submissa, aceita todas as ordens do meu pai, apesar de muitas vezes tentar mudar as decisões dele, conversando amigavelmente e soltando seu charme, porém sempre a última palavra é dele. Ela é uma ótima pessoa. Amo a como se fosse minha própria mãe.

Eu sou a única resmungona da família, enfim, minha revolta toda, é que meu pai insiste nesse casamento com Noah, eu já lhe dei provas suficientes que não casarei só por casar, eu quero casar por amor.

Eu acredito nos amores dos livros da Rebecca, e quero viver um romance desses. Meu pai diz que o amor vem com o tempo, com a convivência, pode até ser, mas eu não me casarei com alguém que me dá náuseas só de vê lo.

— Aí Cristo! Ilumina aquela cabeça dura.

***

Estava tão envolvida com meus pensamentos que não vi o que estava acontecendo ao meu redor, eu estava sentada na pequena praça da cidade, tinha marcado com minha amiga Júlia, para conversamos. Um pouco a minha frente estava uma quantidade pequena de pessoas, curiosa como sou, levantei me e fui de encontro a pequena multidão, ao chegar perto, eu pude ver um papiro com o selo da família nobre.

Diferente dos outros papiros, este estava escrito com letras formosas, aposto que fora a da Condessa. Me aproximei um pouco mais para saber o que estava escrito:

° ° °

O Conde Augusto Henrique Hutchison
Gutemberg III juntamente com a Condesa Claire Marie Hutchison, convida todas as jovens para passar uma tarde com eles no palácio, tarde esta que será depois da terceira lua, após este convite ser colocado na praça do vilarejo.

° ° °

Fiquei intrigada, assim como todas que liam o papiro e saíam com as testas enrugadas de preocupação. Com toda certeza, eu também estou franzino a testa, e pior, deve ter uma inter-rogação tão grande acima da minha cabeça.

— Anastácia! — ouvi alguém me chamar.

Olhei para trás e encontrei Júlia em pé, onde eu estava sentada, até agora pouco.

Caminhei até ela e nos recepcionados com um abraço caloroso. Lhe mostrei um sorriso amigável e começamos a caminhar, enquanto conversávamos, Júlia é baixinha e bonita, cabelos não tão longos e loiros, pele em tom claro e olhos claros, tem vinte anos, e casou se a sete meses atrás, para sua alegria, ela se casou com alguém que ela ama e esse amor é correspondido, eu vejo o amor nos olhos de Tiago quando olha, fala, ou se quer pensa nela. Assim também acontece com ela, porém quando estamos somente nós duas, ela evita falar nele, acho que ela pensa que me ofende em algum ponto, já que eu não sou casada e nunca demonstrei me apaixonar por ninguém.

Quando nos conhecemos tínhamos apenas sete anos de idade. E até hoje nossa amizade é duradoura. Na época que conheci Júlia, conheci também Mariah e Dulce. Mariah se casou e mudou se para Portugal com o esposo, não nos falamos desde então. Dulce, a mais velha de todas nós, desistiu de encontrar o amor e entrou para um convento, o que eu achei triste. A única que mantém contato com ela é Júlia, já que ela é casada e pode visitar a amiga, "sem tentar corrompê la e fazer com que ela volte para sua vida de pecado." Pois é isso que as freiras do convento pensam de mim.
Argh! É cada coisa viu.

Júlia foi a única que me sobrou, além das minhas irmãs, enquanto conversarvamos percebi seu tom triste, essa não era minha amiga, ela era sempre falastrona, se sua boca parasse de pronunciar algum som para ela tomar fôlego, seus cotovelos continuavam falando. Porém hoje, ela estava sendo curtas em suas palavras.

— Amiga? Percebo que estás distante, imersa em seus pensamentos, o que está lhe atormentando? — perguntei diminuindo os passos.

— Não.... Hum... — pareceu pensar um pouco — Nada de muita importância. — suspirou.

— Quer falar sobre? — sorri

— Minha vontade é ficar com a língua dentro da boca, e não lhe falar nada, porém sei que é preciso. — segurou minhas mãos entre as suas — Eu te amo Aninha, já lhe adianto minhas sinceras desculpas pelo que vou lhe dizer. — me lançou um olhar tristonho.

— Misericórdia Júlia, do jeito que estás falando, parece que alguém passou dessa pra melhor. Eu estou ficando com um pouco de medo. — mordi o lábio inferior com o nervosismo.

— O Tiago me pediu para que nos afastassemos. Ele pediu pra que eu não lhe visse mais do que o necessário, ou sem ele estar por perto de nós duas para acompanhar a conversa.

— Mas por que? Qual atitude que eu tomei que o chateou desta forma, ao ponto dele não aprovar nossa amizade? E me poupe, como eu vou falar dos "nossos" assuntos com ele ouvindo.

— Ultimamente no trabalho, ele está sofrendo, tendo que suportar piadinhas indecentes dos colegas, por sua esposa ser melhor amiga de uma mulher solteira. Segundo eles, você pode me influenciar em alguma decisão. Eu sei que ele não deveria ligar para essas asneiras, mas é que faz alguns meses, e ele já não suporta mais. — fungou — Ele disse que você pode nos visitar assim que quiser, mas nós duas não poderemos mais nos encontrar em público, ele também pede sinceras desculpas e que se você ficar chateada com ele, ele irá entender. Eu sinto tanto, eu não quero me afastar de você, mas como uma esposa exemplar, tenho que aceitar e respeitar a decisão dele. — chorou — Vou sentir sua falta. — sorriu.

Nesta altura eu já chorava e fui abraçada por Júlia enquanto nos despediamos, e eu fui embora, voltando pra casa, com a promessa de que em breve nos veríamos, breve esse que eu não saberia quando será.

×××

Ao chegar em casa, encontrei toda família reunida na sala, papai estava sentado no sofá, cumprimento a todo com um boa noite.

— Anastácia, desde já, quero lhe avisar que o Noah virá amanhã cedo para te levar a um passeio a cavalo. Por favor, não invente alguma desculpa, ou me faça passar vergonha com suas atitudes infantis. — meu pai disse enquanto acariciava os cabelos de Isa. — Amélia irá acompanhar vocês.

Pensei em retrucar, mas Isa me lançou um olhar compreensivo e mexeu os lábios pronunciando um "depois", apenas concordei e subi para o quarto. Me joguei na cama e me desabei em lágrimas.

Ser solteira tinha suas vantagens, mas as desvantagens eram maiores. Eu perdera todas as amizades, porque simplesmente não queria me casar por conveniência. Acho que o destino de todos é ser condenado a um amor fajuto e forçado. Meu destino era se casar com Noah.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.