Anassanduá

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Bem é a primeira vez que post uma história, sejam gentis rsrs. Comentem, isso me deixará imensamente feliz.

Essa é uma história que todos conhecem, tão antiga quanto à palavra falada, e a primeira a ser contada aos jovens em volta da fogueira.

A existência começou através dos sonhos de Aram, a grande luz – o primogênito dos três filhos da eternidade –. Este ao adormecer imaginou um novo reino, cercado de montanhas e árvores, rios e lagos. Sonhando, ele criou o céu, as estrelas, o dia e a noite. E por fim pensou como seria bom se essa terra fosse povoada por seres vivos das mais variadas espécies. Mas quando despertou percebera que os fios da realidade encontravam-se distorcidos, não passavam de meros borrões. Vendo isso, pediu ajuda a Iaê, sua habilidosa e sutil irmã. Coube, então, a ela dar forma e nitidez a criação de Aram. E assim o mundo foi moldado.

Iandé, o mais jovem entre os irmãos, veio observar a labuta, e admirado, falou:

— Grandiosa é a criação. Quão belo se revela o mundo físico diante dos meus olhos – e pela primeira vez Iandé chorou –. Agora, apenas uma dúvida me vem à mente, quem governará estas terras fabulosas, uma vez que a nós, os herdeiros do infindável, isso é vetado, pois nossa essência é contraria a efemeridade pregada pelo tempo.

Aram e Iaê fitaram-se espantados; não haviam se lembrado desse detalhe. Sorrindo, ambos decidiram entregar a Iandé a tarefa de trazer a vida aqueles que reinariam sobre os seres dessa existência. Então, o mais jovem entre os Eternos fez um corte em uma de suas mãos, deixando escorrer o sangue até a terra, e por fim clamou:

— Levantem-se Ibirairas, filhos da terra.

Um grande estrondo foi ouvido, e o solo começou a se mover, abrindo uma fenda; e dela surgiram homens e mulheres de olhos e cabelos negros, com a pele tão vermelha como o sangue de Iandé. Este se aproximou de cada auá, e com seu hálito foi soprando as almas que neles habitariam, dizendo:

— Vós sois os herdeiros deste novo mundo. O livre arbítrio será o meu maior presente a humanidade, vossas existências só a vós pertencem. Estarão apenas sobe o jugo do tempo, assim, quando suas vidas se findarem, deverão retornar ao solo do qual se originaram.

Dito isso, os três pais da realidade regressaram às suas moradas nos lumes celestiais, onde nenhum pensamento mortal poderia alcançar. Contudo os auás ainda contavam com a proteção dos Eternos, que zelavam por eles do firmamento. Assim, é iniciada a caminhada dos homens.

Para os Ibirairas fora deixado o legado de reinar sobre a criação. Todavia, eles nada sabiam da vida ou de seus papeis na trama composta por esta. Quando Iandé soprou-lhes as almas, esqueceu-se de incendiar seus espíritos. Sem essa fagulha, os filhos da terra acabaram tornando-se feras incontroláveis, reféns do desejo e da fúria; não suportavam a presença um dos outros, e muitas vezes acabavam destruindo o que encontravam pela frente; comiam carne crua e matavam os animais sem necessidade. Como poderiam governar se não eram senhores de si mesmos?

Apenas Airumã, a primeira a ser despertada – e por isso, grande dom possuía –, conseguia perceber a brutalidade dos Ibirairas, e triste era seu olhar. Melancólico também se encontrava Iandé, pois percebera a gravidade do próprio erro. Suplicou aos seus irmãos para lhe deixar corrigir essa terrível mácula. Estes negaram, pois não poderiam interferir no livre arbítrio dos auás, por fim os deuses permitiram a Iandé voltar uma vez mais ao mundo dos mortais, na condição do mentor dos filhos da terra. E assim ele o fez, assumindo a forma de um pardal – a mais humilde entre aves –, voou ao encontro dos auás, que com muito menosprezo o tratou. Por fim, a pequena ave avistou a infeliz Airumã. Pousando em seus ombros, dirigiu-lhe a palavra:

— Primogênita dos homens, qual é o motivo de tua infelicidade?

— Oh pequeno ará, como posso sorrir vendo que os meus se encontram em tão profundo abismo? Apenas me resta chorar por suas sortes.

Foi assim que Iandé viu em Airumã a esperança para os Ibirairas. Feliz, sussurrou em seus ouvidos:

— Bondosa aiyra, a floresta é bem mais profunda do que se permite mostrar, muitas são os seus segredos. Talvez nela encontre respostas para teus anseios – calou-se por um tempo, e logo continuou –. Se você permitir, posso te guiar por estas sendas, meu nome é Yacamim.

Airumã concordou, e ambos partiram carregando suas próprias esperanças. Yacamim então falou:

— Ao norte da mata, onde densa é a escuridão, na mais profunda das cavernas, mora Nhanduti Nadi, senhora das aranhas. Imensa é sua sabedoria, talvez nos ajude.

Muitos dias se passaram até chegaram à morada da aranha. Cansada a jovem auá se aproximou da entrada da caverna, e chamou:

— Nhanduti Nadi, mãe de todas as nhandus, sou Airumã, e venho em busca de teus conselhos. Senhora, eu imploro.

Da caverna saiu uma aranha de imensas proporções, tão negra quanto à escuridão na qual se embrenhava. Com uma suavidade improvável, proferiu:

— Filha de Iandé – por um breve momento ela olhou para o pequeno pardal nos ombros da auá –, qual mal incidiu sobre ti, para lhe trazer em um lugar tão frio e remoto?

Airumã começou seu relato sobre o triste signo da tribo dos Ibirairas, e a busca de reposta que pavimenta sua jornada. Nadi refletiu, e com sinceridade respondeu-lhe:

— Nada sei sobre os homens ou seus destinos; sou uma tecelã, se isso de alguma forma foi-lhe útil, te ensinarei de bom grado meu ofício.

— Eu aceito. Posso oferecer algo como pagamento por tão inestimável ajuda? – perguntou a auá.

— Seus cabelos são fortes e negros, com eles poderei fazer o meu mais belo trabalho – Airumã não hesitou, cortou os longos fios e entregou a aranha -. Agora sei o tamanho de sua generosidade, aproxime-se criança, e conheça os segredos da minha espécie – disse Nhanduti.

A jovem Ibiraira, com muito a finco, aprendeu toda a gama de trabalhos manuais, desde tecer e fiar, à modelagem. Nhanduti Nadi ainda mostrou-lhe a simbologia das figuras e sua utilização; e também ensinou a arte de contar histórias, outra criação das nhandus. Por fim a auá se despediu da mãe das aranhas, e quando saiu da caverna Yacamim perguntou:

— Encontrou o que procurava?

— Muito me ensinou Nhanduti Nadi – respondeu cabisbaixa -, mas não acho que os homens estejam prontos para esses conhecimentos; não quando, ainda, encontram-se cegos para tantas outras verdades.

E outra vez o pardal aconselhou:

— Vamos procurar Berabendy, o senhor do fogo, cujo poder da palavra é conhecido e respeitado. Ele mora ao norte, onde a terra termina, e cede lugar as águas.

Airumã e Yacamim partiram em busca de Berabendy, e longa foi à caminhada. Ao se aproximarem do destino, a jovem ficou impressionada com o esplendor daquela região. “Agradável é a casa do senhor do fogo”, pensou. “Brancas são as areias que a cobrem; azul intenso é a coloração do céu; e a água ternamente se lança em direção ao solo, formando uma alva espuma”. Yacamim a tirou de seus devaneios quando voou em direção a uma grande rocha. Ela correu para lá, e com enorme espanto percebeu que aquilo em sua frente não era pedra, e sim uma gigantesca salamandra, que aos poucos passava da coloração cinza para um vermelho vívido.

— Sou Berabendy, soberano do elemento fogo – bradou –, quem se atreve a invadir meus domínios?

— Perdoe nossa intromissão, sou Airumã da tribo dos homens – humildemente falou –, e este pequeno ará é Yacamim, meu guia e amigo. Venho em busca de vossas palavras e conselhos, pois sua sabedoria é célebre, e talvez possas me ajudar a findar com a triste sina que recaí sobre os Ibirairas.

— Filha dos homens, admirável é tua coragem – disse a salamandra –, mas nada conheço acerca dos homens ou de suas sinas. Sou filho e senhor do fogo, e apenas sobre este posso te ensinar, se assim o quiseres.

Airumã aquiesceu, e perguntou se ele queria algo em troca. Berabendy respondeu:

— Criança, a chama da qual nasci, também me privou da visão – era verdade, um pálido véu cobria suas retinas -. Se quiser mesmo me dar algo, então, desejo a luz emanada por teus olhos.

A jovem e o pardal fitaram-se assustados. Airumã refletiu, e por fim aceitou a barganha; e assim seus olhos aos poucos foram se apagando, e os de Berabendy finalmente enxergaram a complexidade do mundo; Yacamim não podia interferir nas decisões dos auás, e tristemente se calou.

O senhor do fogo cumpriu sua promessa, e revelou os atributos do rubro elemento, e alertou, também, sobre seus perigos. Quando Airumã finalmente foi embora, o pardal sussurrou-lhe:

— Minha aiyra, já encontrou o que procurava?

— Pequeno ara, grande é o poder das chamas, e imenso são seus perigos. Os homens não estão preparados para tal sabedoria – respondeu –, nossa jornada ainda não terminou. Agora mais do que nunca preciso de você, gentil abaruna – disse com um sorriso –. Vamos, guie-me!

— Nada é tão grande como vosso coração –respondeu, derrotado, Yacamim –. No centro da floresta vive Tujarandu, o antigo cajueiro. A fama de sua benevolência se espalha aos ventos, a ele pediremos conselhos.

Os dois prosseguiram com a viagem. Quando chegaram ao destino, se silenciaram diante do extraordinário cajueiro: sua copa quase tocava o firmamento; as raízes ocupavam uma vasta parte do solo, e imensa era a circunferência do tronco. Porém havia algo de errado com a árvore, pois suas folhas não possuíam os tons verdejantes; estavam com uma coloração doentia. Tujarandu agonizava.

Airumã aproximou-se do cajueiro, e respeitosamente contou-lhe sua história; e como possuía uma alma gentil, perguntou qual era o mal que sobre ele recaia, e se poderia de alguma forma ajudar. Tujarandu, com dificuldade, respondeu:

— Airumã, luminosa filha da terra, penoso foi seu caminho, e mesmo assim consegue mostrar misericórdia por quem ainda nem conhece. O tempo é meu algoz, e finalmente cobra seu preço. Há algo para remediar isso, mas é tão terrível, que não me atrevo a sequer mencionar – auá insistiu, pois queria ajudar –. Sua força vital – finalmente disse o cajueiro -, me entregue metade dela, isso será minha salvação, contudo, também diminuirá sua vida. Está mesmo disposta a tal sacrifício?

Yacamim voou de forma aflita em torno de Airumã, tentando dissuadi-la. “vamos embora, você fez muito mais do que qualquer um já ousou fazer” repetia. A auá suavemente o afastou, e caminhou em direção a Tujarandu, encostando as mãos e a testa em seu tronco, disse:

— Tome, é sua.

Uma forte luz passou do corpo da jovem para a árvore. Esta pouco a pouco foi recuperando as forças e a antiga aparência, e Airumã, fraca, deixou-se cair.

— Criança, como pôde? – perguntou o pardal, pousando ao seu lado.

— Se aquiete pequeno, essa é minha escolha – respondeu com débil sorriso.

Tujarandu mostrou-se em todo o seu esplendor, e com uma voz que ecoava por toda a floresta, falou:

— Airumã dos Ibirairas, sua generosidade será conhecida e respeitada por todas as gerações. Nem o tempo, por mais implacável, conseguirá obscurecer seu ato de compaixão. Em troca de seus préstimos, te ensinarei todos os arcanos da floresta, desde o cultivo das sementes e mudas, até o poder curativo da ervas. Sente-se herdeira de Iandé.

E assim Tujarandu foi revelando seus mistérios a Airumã, e ela mansamente o escutava. Por fim o cajueiro falou:

— Já lhe transmiti todo o meu conhecimento, contudo compreendo que não é o suficiente para ajudar os Ibirairas. Deixe-me dar um último conselho: ao oeste, entre as montanhas brancas existe um vale com uma cachoeira de águas azul turmalina, é o lar de Nagakuri, a grande serpente. Ele é o guardião de um elixir capaz de desanuviar as tormentas do espírito. Vá até Naga, e leve consigo alguns dos meus frutos, eles possuem poderes curativos. Rogo para os Eternos guiarem seus passos, adeus.

Longo e tortuoso foi o caminho até o lar da serpente, pois a trilha era íngreme e pedregosa; e das montanhas soprava um imponente vento glacial. Quando em fim chegaram, Airumã e Yacamim se depararam com um ensolarado e profundo vale, cercado de delicadas flores brancas, e com uma cachoeira cujas águas se matizavam em infinitas tonalidades de azul. A auá se aproximou do pequeno lago formado pela queda d’água, e com uma voz cansada, porém firme, chamou:

— Senhor das águas, sou Airumã, filha da terra. Muito andei até aqui. Incontáveis foram os perigos por mim enfrentados; tive apenas ajuda de um pequeno ará, meu guia e fiel amigo. Estou em busca do elixir capaz de apaziguar os corações sombrios, ele é a única salvação para meu povo. Em troca, não negarei qualquer pedido tenhas.

As águas, antes calmas, começaram a se turvar, e delas surgiu uma extraordinária serpente.

— Airumã dos Ibirairas, eu nasci com o dom da visão e da profecia. Nada me escapa – Naga falou de forma sombria -. Sei quem és, e mais ainda, sei sobre Yacamim. Amargo é preço de suas escolhas, todavia, admito a grandiosidade do conhecimento adquirido nessa dolorosa senda, imposta por si mesma – nesse momento Naga foi se enroscando em volta da auá –. Pequena, não tens medo do que eu possa lhe pedir?

— Sábia serpente, o medo foi uma sombra presente em todo o caminho por mim trilhado. Mesmo agora, com muita dificuldade fico em pé em vossa presença – respondeu-lhe a jovem –. No entanto, o meu amor pelos Ibirairas é mais intenso.

Satisfeito com a resposta, Nagakuri pediu para a auá descansar, pois o preparo do soro era complexo, e levaria certo tempo. Airumã dirigiu-se para a sombra de uma pequena árvore, e logo adormeceu tamanho era seu cansaço. Então Naga virou-se na direção de Yacamim, e solenemente curvou-se:

— Seja bem-vindo, meu senhor Iandé – disse.

— Agradeço Nagakurin – alegremente respondeu -. Apenas você e a Nhanduti Nadi conseguiram ver além da minha aparência.

— Como eu disse – continuou a serpente –, meus dons permitem enxergar muito além do plausível, dificilmente sou enganado. Nadi, por sua vez, possui extraordinária percepção. Espero não ter lhe ofendido.

— De maneira alguma. Fale-me sobre o fabuloso soro, e se ele realmente é capaz de apagar a mácula deixada sobre meus filhos, por pura negligência minha – nesse momento uma sombra pairou no olhar de Iandé –. Contudo, não posso permitir nenhum outro tormento para minha aiyra. Ela já sofreu em demasia.

— Não se preocupe meu senhor, nada faria para machucar Airumã, pelo contrario eu... – Naga calou-se constrangido, e Iandé, feliz, compreendeu quais eram os sentimentos da serpente.

Quando a jovem despertou, viu Yacamim empoleirado em um galho. Chamou por ele, e perguntou o paradeiro de Naga.

— Ele está ao lado da cachoeira, siga o barulho da queda d’água, e você o encontrará – respondeu o ará –. Vou ficar aqui descansando por mais algum tempo – proferiu com uma fingida indolência –. Vá ao seu encontro.

Airumã cautelosamente seguiu os sons das águas, até finalmente sentir a presença da serpente.

— Perdoe-me se lhe incomodo. – falou a auá –. Caríssimo senhor, preciso saber qual será o preço do inestimável elixir.

— Aproxime-se – respondeu Naga -, e não se preocupe com isso agora. Venha e sente-se ao meu lado.

As horas iam passando sem serem notadas. Nagakuri contou histórias do além-mar; das imensas criaturas aladas, habitantes dos ermos brancos do sul; das terras onde fogo e água eram lançados furiosamente em direção ao céu. A auá ouvia atentamente a serpente, e pensava como era agradável presença de Naga. Essas conversas se repetiram dia após dia, até que o elixir finalmente ficou pronto.

— Tome Airumã, aqui está à salvação de teu povo – Naga entregou para a jovem uma hy’a contendo um líquido de esmeralda cor.

— Nagakuri, diga-me qual é o pagamento por sua generosidade. Realmente quero te recompensar.

-Prometa que após curar os Ibirairas, retornarás, e só então falarei meu desejo – Airumã assentiu –. Antes de ir, vista isso – Naga lhe entregou uma de suas peles –, com ela você possuirá minha velocidade, e conseguirá percorrer grandes distâncias em pouco tempo. Estarei esperando seu regresso.

Airumã e Yacamim partiram, e quando atravessaram a mata, mais pareciam à furiosa marány. Ao avistar os auás, a jovem despiu-se da pele de Naga, reuniu a todos, e a cada um entregou um pouco do verde elixir. Felizes os dois observaram a transformação pelas quais os homens passavam, enfim seus espíritos se incendiaram. Airumã pode, então, transmiti-lhes todo o conhecimento adquirido em sua jornada. Quando não havia mais nada a ser dito ou ensinado, a auá – vestida novamente de serpente – e o pequeno pardal foram ao encontro de Nagakurin.

No entanto o tempo, o denso fardo dos homens, finalmente enlaçou a corajosa filha da terra. Esta, ainda na metade do caminho de volta, deu um profundo suspiro, e sem forças, caiu inconsciente. Yacamin, aflito, assumiu sua forma original, e retirou a jovem da escamosa couraça, reanimando-a com apenas um toque.

— É Yacamin que vejo em minha frente – essas palavras foram ditas com uma intensa fragilidade pela auá.

— Sim minha adorada filha, sou Yacamin e também sou Iandé. Perdoe-me por não poder fazer nada por ti... Quanta dor isso me causa – e pela segunda vez em toda existência, o mais jovem dos Eternos chorou.

Iandé a levou em seus braços até Nagakurin. E Terrível foi o lamento da serpente. Airumã, com um resquício de força, chamou por ele.

— Me diga gentil Nagakurin, o que você deseja como pagamento pelo elixir, diga-me enquanto sou capaz de realizar o seu pedido.

— Teu terno coração – tristemente respondeu.

O rosto da auá iluminou-se por breve instante, e num ultimo esforço respondeu:

— Ah Nagakuri, ele sempre foi seu – calou-se. E nesse momento a chama de sua vida se findou.

Iandé clamou pelos Eternos em nome de Airumã. Seus irmãos comovidos pelos atos da auá permitiram que ela fosse levada para a morada dos deuses; e a serpente, que não conseguiria viver sem a jovem – pois o coração de Nagakurin também é o coração de Airumã –, foi igualmente posta no firmamento. Airumã a partir daquele momento sempre é vista ao nascer e ao por do sol. Sua brilhante luz inspira e guia os Ibirairas. E seu amado Nagakurin corta o céu nas madrugadas, em uma grande explosão luminosa.

A lenda da criação do mundo e da valorosa auá foi contada primeiro por Nhanduti Nadi, que a teceu com os cabelos da própria filha da terra, sendo repassada de geração em geração, de pai para filho como o maior exemplo de amor a humanidade já demonstrado.

Termos

Anassanduá – da mitologia indígena;

Aram – sol;

Iaê – lua;

Iandé – constelação de Órion;

Ibirairas – filhos da terra;

Auá – índio, homem;

Airumã – estrela D’alva, estrela vespertina;

Ará – pássaro;

Aiyra – filha;

Yacamim – ave, gênero. Pai de muitas estrelas.

Nhanduti – teia de aranha;

Nadi – mãe;

Nhandu – que corre ligeira. Ema, mas também significa aranha.

Berabendy – berab = brilha / endy = luz. Luz brilhante.

Abaruna – amigo;

Tujarandu – arandu= sábio / tuja = velho. Velho sábio;

Hy’a – cabaça.

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