Anarquia

1 Capítulo 1 - O Pão da Vida


18 de janeiro, Brasil.

Nós decidimos passar aquelas férias de final de ano em uma praia pequena no Rio Grande do Sul, chamada Tramandaí.

Era 00h30min, minha família comemorava, através de um churrasco, o aniversário de 11 anos da minha irmã mais nova. Passadas algumas horas eles decidiram que seria bom fazer pão de alho caseiro (pão francês com uma camada de molho de creamcheese com alho, cebolinha e outros temperos verdes recheando seu interior — todos eles grelhados na churrasqueira) para acompanhar a carne, mas o pão tinha acabado graças ao grande café da tarde que foi feito antes do churrasco começar.

A cidade onde estávamos era pequena e o único local que estaria aberto naquele horário era o mercado 24 horas, chamado Nacional.

Perguntei animada se eu poderia comprar o pão, afinal o mercado era longe, precisando ir de carro e todos estavam no mínimo alcoolizados. Agora você se pergunta se eu fui comprar o pão a pé, mas eu te respondo com um breve "não".

Meu pai havia me ensinado a dirigir em uma semana, um carro de câmbio automático é claro. Não tínhamos muito que fazer naquela cidade à noite, a não ser passear no centro; mas ir até lá toda noite, fazer as mesmas coisas e ver um monte de pessoas estranhas e travestis, estava ficando monótono. Então, em uma das noites, meu pai teve a grande ideia de me ensinar a dirigir, aproveitando que as ruas estavam calmas, e assim, acabei pegando gosto pela ação.

Como eu não era maior de idade, então não ingeria bebidas alcoólicas, ou seja, era a única opção por ali. Mas por ser menor de idade talvez a polícia me pegasse.

Contei aos adultos meu plano maquiavélico, sem mencionar seus podres e eles logo aceitaram, sem muito escândalo.

Saí correndo animada antes que percebessem o grande erro que tinham cometido ao me deixar dirigir sozinha pela cidade, e fui até o quarto da minha família, peguei a chave do carro de cima do balcão ao lado da cama de casal e fui correndo até o portão, o abri e voltei para o carro, um SpaceCross branco, ou ao menos deveria ser branco sob a sujeira que envolvia ele.

Coloquei a chave na ignição e respirei fundo. Pisei com força no freio e troquei para a marcha ré. Saí da pousada e deixei o portão aberto, afinal, logo eu estaria de volta.

Fui dirigindo, tentando manter a calma, eu sabia que o mercado ficava a mais ou menos 10 quadras da pousada dos meus tios. Aproveitei que era madrugada e dirigi um pouco mais rápido. Havia algumas pessoas andando pelas ruas e estava muito escuro para observá-las bem.

Quando cheguei ao mercado estacionei o carro em uma vaga perto da porta de entrada, logo percebi que ele estava muito vazio, pois o pessoal de lá era bem noturno em questão de mercados e centros comerciais. Fui em direção da fila do pão, que por sinal, estava vazia, toquei a campainha na esperança de aparecer alguém vestindo uma toquinha de rede para me atender, mas ao invés disso, apareceram diversas coisas... Pareciam que em algum momento eles tiveram a aparência de um humano, mas agora eram simplesmente... Corpos em decomposição? Ou talvez alguma brincadeira de mau gosto.

Entretanto naquele momento nada disso estava justificando aquilo. Eles vinham em minha direção, mas eu estava paralisada pelo medo e dúvida. Talvez fosse um sonho ou uma peça que meu cérebro estava pregando em mim mesma. Aquilo era muito fora do normal para que eu entendesse. Meus olhos estavam arregalados, eu fitava aqueles corpos tentando encontrar uma explicação, mas nada me vinha em mente. Realmente, eram corpos em decomposição, mas estavam vivos e ainda mais, estavam tentando correr, mas por estarem em decomposição e o sangue não circular mais por suas veias, eles estavam duros e isso dificultava sua locomoção.

Eles tentavam pular o balcão que tinha alguma variedade de pães; eles babavam, gritavam, gemiam, soltavam grunhidos e arranhavam tudo. Eu estava assustada e aquela sensação só piorava a cada segundo que se passava, eu parecia ser o último pedaço de carne no meio de uma alcateia.

Meu coração disparou ao ver que aquelas coisas estavam conseguindo pular o balcão e que mais delas saíam da cozinha. Elas ameaçavam me atacar, e aquilo me lembrava um filme apocalíptico.

Comecei a suar frio e quando finalmente percebi que meu lugar era longe dali virei às costas e corri o mais rápido, e desajeitadamente, até o carro. Abri a porta e fiquei lá dentro tremendo e com a respiração ofegante. Liguei-o e fui dirigindo o mais rápido que pude até a pousada. Quando finalmente cheguei, entrei com tudo na pousada e parei com o carro em frente às casas. Desliguei o carro e saí dele, deixando apenas a porta encostada. Queria encontrar minha família, contar tudo a eles e no final, riríamos muito dessa história. Mas havia um problema.

A festa parecia ter acabado.

Notas finais
Espero que tenham gostado. ♥