Anarquia
4 Capítulo 4 - Roubo aos Mortos
Depois de ficar alguns minutos sentada e esperando a ânsia passar me levantei e fui até o banheiro da suíte do meu tio. Coloquei a pistola em cima da tampa da privada e apoiei as duas mãos nas bordas da pia, com o olhar direcionado para a pistola. Abri a torneira e enchi minha boca de água, a deixei por um tempo em minha boca e depois a cuspi, fiz este procedimento algumas vezes, até que o gosto de vômito sumisse. Depois levantei o olhar para o espelho. Meu reflexo no escuro me assustava, rapidamente me virei e acendi a luz do banheiro.
Eu voltei meus olhos para o meu rosto. Eu tinha olheiras profundas e meus olhos demonstravam cansaço, minha boca estava pálida em conjunto ao meu rosto que se tornou mais branco em contraste com as gotas de sangue que havia nele. Abri a torneira novamente e posicionei minhas duas mãos em formato de concha e as enchi de água, a joguei no meu rosto e esfreguei-o um pouco. Logo ele estava limpo. Fechei a torneira e fui até o corredor, olhei pelas janelas para a garagem e para o quintal certificando-me que não havia nada lá. Meu corpo não tinha nem um pouco de vontade de descer até lá para conferir.
A casa toda havia sido examinada. Todos estavam mortos... Novamente.
Pensei que se os monstros tivessem ouvido o barulho dos tiros eles viriam até aqui, mas olhei pela janela e nenhum sinal deles. Mesmo assim desci e fechei a porta, sem sair de dentro da casa.
Subi as escadas novamente e fui até o arsenal. Entrei com calma nele e meu pensamento voltou há alguns meses atrás:
"As férias tinham começado havia uma semana, mas eu estava fazendo absolutamente nada em casa, então meu tio, que estava dando uma de turista no Paraná perguntou se eu gostaria de voltar com ele para Porto Alegre e passar alguns dias por lá. Eu aceitei, e foi neste meio-tempo que ele me apresentou o arsenal, me mostrou todas as armas e instrumentos, falou que se eu tivesse interesse ele me ensinaria a usar, mas que eu não tinha autorização para usá-los."
Eu senti saudade daquilo, ele me explicando como destravava as armas e como recarregá-las, eu já não me lembrava de nada, eu havia esquecido tudo que ele me ensinou sobre as armas, afinal, não era muito interessada nisso.
Eu precisava sair dali antes que amanhecesse e encontrar um lugar seguro para ficar por algum tempo. Então peguei algumas armas e enchi duas mochilas com elas. E em outra mochila coloquei munição e outros instrumentos.
Não conseguia me lembrar muito bem do que havia colocado nas mochilas, mas havia metralhadoras, cassetetes, uma besta e algumas armas que eu não lembraria o nome até porque nem sabia. Decidi levá-las até a porta de entrada e largá-las lá até a hora de partir. Desci as escadas com dificuldade e deixei as três mochilas em cima de um tapete vermelho escuro que era utilizado para secar os pés antes de adentrar na casa. Fui até a cozinha em busca de comida e água. Encontrei algumas garrafas de refrigerante no lixo, lavei-as e enchi com a água da torneira. Peguei algumas sacolas de mercado de trás da porta dos fundos, esvaziei os armários e a geladeira. Tentei pegar alimentos que tivessem a durabilidade maior, e depois coloquei tudo ao lado das mochilas que estavam sobre o tapete vermelho.
No armário em cima do fogão havia um pequeno pote transparente com a tampa roxa, puxei uma cadeira da mesa de jantar e a coloquei na frente do fogão, subi na cadeira e peguei o pote, dentro dele havia três cartelas de aspirina, remédio para cólica, três ENO's, uma caixa de band-aids e um xarope para tosse. Pensei "melhor do que nada". Peguei o pote e joguei-o dentro de uma das sacolas.
Abri a porta da casa devagar e olhei por volta, nenhum sinal de aberrações.
Levei as mochilas e as sacolas até o carro com algumas viagens, coloquei todas no porta-malas e observei a pequena pistola na minha mão.
Abri uma das mochilas e peguei uma arma que aparentava ser uma metralhadora, tinha aspecto antigo, mas parecia fácil de utilizar. Joguei a pistola dentro do porta-malas e voltei para dentro da casa.
Eu precisava de roupas. Subi as escadas até o closet. Antes de entrar pude ver o sangue escorrendo pelo carpete. Entrei no cômodo sem olhar para o chão, mesmo o cheiro sendo horrível, e com isso as náuseas voltaram. Tampei a boca e o nariz com a gola da camiseta e abri o guarda-roupa.
Na prateleira mais alta se encontrava uma pequena mala de viagem azul. Peguei-a e joguei qualquer roupa dentro dela, e antes de enchê-la eu a fechei.
Não estava muito pesada, então desci rapidamente as escadas e fui direto para o carro.
Coloquei a mala de viagem nos bancos traseiros e entrei no carro ofegante.
Finalmente meus únicos objetivos tinham se acabado.
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