Anarquia
3 Capítulo 3 - Novo Estilo de Vida

Segui os caminhos que as placas apontavam ser o correto. Até aquele momento, eu pensava que não deveria me preocupar com radares, limites de velocidades, multas, cintos de segurança, documentos, maioridade penal, pedestres ou qualquer outra coisa, afinal, se isso tomasse o rumo como nos filmes que havia assistido até poucos dias atrás, nada disso importaria, todos estariam mortos.
Havia apenas um pedágio no caminho até Porto Alegre, mas nele havia uma placa dizendo "passagem livre", eu estava tão desnorteada e avoada que nem percebi que "free-way" significava isso: caminho sem pedágios. Ou talvez tivesse sido uma coincidência, afinal, eu não entendo muito de trânsito.
Dirigindo o mais rápido que podia e, mesmo sendo previsível, não havia nenhum carro em movimento presente na pista, apenas alguns que estavam parados. Isso com certeza me alertou que aquela coisa doida estava fora da praia também, mas até onde ela fora? Nessa hora soltei uma pequena risada de alívio, por descobrir que essas aberrações não podem dirigir e me seguir.
Depois de mais ou menos uma hora dirigindo e refletindo sobre: como eu conversaria e explicaria tudo para os meus tios, onde era a casa deles e se eles acreditariam em mim; finalmente cheguei a Porto Alegre, passei ao lado do estádio do Grêmio, mas não tinha tempo para admirá-lo, e nem era um bom momento. Logo cheguei a uma rua feita de paralelepípedos, quanto mais esquinas eu dobrava, mais daqueles bichos eu via.
Eu me desanimei totalmente, mas mesmo assim fui até onde meus tios moravam.
Eles decidiram desde pequenos que queriam ser militares, e Porto Alegre era uma cidade perfeita para isso, pois aquela cidade era repleta de locais do governo focados nesta área (quartéis, círculos militares, marinha, aeronáuticas, corpo de bombeiros, prefeituras, etc.), e então, se mudaram para lá assim que puderam. Já eu, minha irmã e meus pais morávamos em Curitiba e todo o restante da nossa família morava no oeste de Santa Catarina ou no sul do Paraná.
A casa dos meus tios era grande, dois andares e uma garagem enorme, depois de procurar um pouco por ela avistei-a de longe.
Dirigi até chegar à frente dela e parei o carro de qualquer jeito em frente ao portão menor. Observei o portão e a porta. Ambos abertos. Logo imaginei que eles teriam fugido e deixado a casa, isso me desesperou um pouco porque se isso fosse real, eu estaria sozinha de novo. Eu precisava do arsenal, mas eles provavelmente teriam levado tudo. Eu precisava da proteção deles, mas eles haviam fugido.
Peguei a pistola do meu tio com a mão direita do banco do passageiro e tomei coragem para sair do carro. Todo silêncio era necessário, e assim, abri a porta do carro e apenas a encostei, passei pelo portão menor, entreaberto, e logo depois pela porta, também entreaberta.
Revistei os cômodos do andar de baixo, nenhum sinal de luta, resistência, sangue ou aberrações. Subi as escadas apontando a pistola para cima como os agentes da CIA faziam nos filmes policiais. Logo que cheguei ao segundo andar me deparei com um local muito bem arrumado e com a porta do arsenal trancada, apenas algumas marcas estranhas estavam no carpete marrom do corredor que dava para as escadas, onde eu me encontrava. Continuei explorando a casa, apontava a arma para onde eu olhava e mantinha os passos calmos e silenciosos.
O quarto do meu tio tinha sua porta branca, totalmente aberta, andei até ela. Fiquei de pé em frente à porta, sem reação, por alguns segundos. Lá estava ele, meu tio, o irmão mais novo, querido, amado, com apenas 37 anos de idade, militar, guerreiro, uma pistola na mão esquerda e uma bala na garganta.
Meus olhos se mantiveram arregalados enquanto chegava perto de seu corpo. Ajoelhei-me aos seus pés e deixei a pistola escorregar de minhas mãos. Ele tinha se matado, mas por quê? Por quê?
Ele era inteligente e forte o bastante para vencer tudo aquilo. Tentei achar uma explicação para aquilo: talvez ele não quisesse morrer pelas mãos destes bichos horrendos, ou talvez fosse preguiça de matar vários, tentar sobreviver e no final morrer por uma infecção no estômago causada por alguma comida estragada. De todas as teorias supostas, nenhuma se encaixava no perfil do meu tio e de tanto pensar já estava enlouquecendo. Minha cabeça não sabia mais diferenciar real do irreal.
A pistola que meu tio usou ainda se equilibrava em sua mão, agora fraca e gélida, tinha um punho de madeira muito velho, escuro e arranhado, e o seu cano que era prata, estava se tornando preto e desgastado.
Algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto inconscientemente. Sentei-me em frente ao seu corpo e fiquei o olhando, lembrando das coisas que fazíamos juntos. Era estranho ver alguém próximo assim estar naquele estado. Fiquei alguns minutos pensando no que faria, ou melhor, se deveria fazer algo. Todas minhas opções haviam sumido. Todas. O que eu iria fazer? Matar o máximo que pudesse? Eu não teria balas o suficiente e nunca havia matado ninguém. Fugir? Mas... Para onde? Acorda! Isso aqui não é um filme sua idiota!
Refleti por muitos minutos enquanto encarava a arma na mão de meu tio. Eu estava pensando em algo que não tinha resposta.
Tirei a arma de sua mão e a coloquei em cima da cômoda. A arma longe dele fazia a cena parecer menos rude. Meu coração sentia uma dor parecida com a que senti há algumas horas, eu estava triste. Nós nos dávamos tão bem. Levantei-me e sentei na ponta da cama, ela era confortável. O sono me pegou. Que horas seriam? 3 horas da madrugada?
Coloquei-me de pé antes que adormecesse. Eu não estava segura, a casa não estava totalmente revistada. Saí do quarto ainda em silêncio, talvez não tanto quanto antes, pois fungava meu nariz a cada 5 segundos.
O quarto que levava ao arsenal estava em frente ao quarto onde eu estava. A senha deveria ser 75832. Eu digitei a senha em um pequeno painel que se assemelhava a uma calculadora. Depois de digitar os números ouvi um barulho de destranca, empurrei a porta com força. Quando tive a visão geral do cômodo encontrei várias mochilas que meus tios levavam quando iam caçar ou treinar, jogadas no chão e todas abertas. Havia algumas armas dentro de uma das mochilas. Quem esteve aqui? Não fazia sentido meu tio se matar e estar de saída também... Teria sido meu outro tio? Ou talvez alguém que invadiu esta casa com a mesma intenção que a minha? Ou talvez... Meu tio não tenha se matado e na verdade alguém o havia matado e teria feito parecer que fora ele quem se matou? Mas o principal... Por que elas ainda estão aqui? Por que a pessoa não às levou?
Eu estava ficando louca, inúmeras possibilidades passavam pela minha cabeça e nenhuma delas me acrescentava em nada. Logo ela começou a doer, coloquei a mão esquerda no lado da minha cabeça e comecei a apertá-la, como se fosse afastar minha dor em algum momento. Em vão.
Sentei-me em uma cadeira de madeira escura que estava ao lado de uma mesa também de madeira, mas esta era mais clara. Fiquei algum tempo encarando o chão até aquela dor passar. Ao perceber que ela diminuíra decidi continuar.
Se ninguém levou as armas, quem as levaria seria eu. Pensei em colocar tudo nas mochilas e me mandar, mas eu ainda não estava segura e isto já estava me incomodando.
O último cômodo da casa finalmente. O closet do meu tio e da minha tia. A porta estava fechada, mas não trancada. Eu a abri devagar, com a respiração pesada, tinha medo do que encontraria. E tinha razão de temer.
Agora foi a vez dela, minha tia. Sentada de costas para mim, devorando com vontade o braço esquerdo do meu outro tio, o irmão mais velho. Naquele momento entendi tudo.
Minha tia, provavelmente, fora atacada enquanto estava fora de casa, deve ter voltado desesperada e meu tio não sabia o que fazer então ela acabou se transformando naquilo. Ele não queria ser morto por sua esposa ou matar ela, e então decidiu se matar. Meu outro tio deve ter chego depois disso tudo e ao ver o corpo do meu tio decidiu levar todas as armas para ele se proteger, mas minha tia deve ter pego ele pelas costas e o arrastado até o closet. Isso explicaria as marcas de antes que estavam no carpete. Talvez tenha sido uma hipótese detalhada demais, mas havia coesão e coerência.
Depois desses milésimos de segundo pensando, minha tia se virou para mim, o barulho da porta se abrindo deve tê-la atraído. Após virar sua cabeça pude confirmar no que ela havia se transformado. Uma expressão horrível, olhos virados, metade de sua face havia caído graças ao calor que fazia dentro do pequeno cômodo.
Ela se levantou e veio na minha direção o mais rápido que pode. Apenas apontei a arma para onde eu olhava, fechei bem os olhos e apertei o gatilho.
Ouvi o barulho de cinco tiros e senti algo molhado tocar em parte do meu rosto.
Quando abri os olhos pude ver o corpo dela a poucos metros do meu. Ela ainda estava de pé, mas estava cambaleando. Dois tiros na cabeça, um na garganta e dois no peito. O corpo tombou para frente, fazendo um barulho enorme e abafado pelo carpete. Estava caído quase em cima dos meus tênis, com o restante do seu crânio e uma caixa torácica totalmente destruída.
Entrei em pânico, meu coração estava batendo muito rápido e minha respiração estava desregulada. Eu consegui ver sua massa encefálica escorregando pelo restante dos ossos de seu crânio, se envolvendo com fios de cabelos louros desidratados que restaram, e tudo escorria para a ponta do meu par de all star bordô. Levantei meu olhar e logo atrás pude ver a situação do corpo do meu tio. Estava destruído, faltavam alguns pedaços do corpo.
O cheiro de sangue e podridão se misturou ao ar. Eu dei dois passos para trás e me apoiei na parede do corredor, me coloquei de joelhos e em seguida uma ânsia tomou meu corpo. Joguei meu braço esquerdo no chão para me apoiar e vomitei.
Era tão nojento, não só o meu vômito, mas todos aqueles cadáveres e tudo isso misturado. Como poderiam gostar de comer aquilo?
Arrastei-me para longe do quarto e do vômito, me sentei perto das escadas.
Se meu tio tivesse passado um pouco de óleo nas dobradiças um dia antes, talvez eu não tivesse me metido nessa morte.
Mas ao final, eu a matei, matei uma pessoa.
Pessoa?
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