Anarquia

2 Capítulo 2 - Podridão Externa


Comecei a desacelerar o passo conforme me aproximava do interior da pousada. Olhei para a área da churrasqueira, onde todos estavam festejando há minutos atrás, e ninguém estava lá; apenas as brasas lutavam para continuar acesas, mas nada além disso. Então me virei e olhei para dentro dos quartos, todas as luzes apagadas e portas fechadas... A não ser a da cozinha. Fui andando devagar até me aproximar da janela e perceber que alguma coisa estava saindo do cômodo. Parei de andar bruscamente e fiquei em silêncio até que a pessoa saísse.

Quando finalmente saiu percebi que era a minha tia, eu sorri aliviada e fui pedir ajuda para ela. Ela se virou bruscamente e soltou um grito agudo abrindo o máximo de sua boca, de onde uma espécie de gosma vermelha e rosada escorria entre seus dentes desgastados, além de seu corpo estar fedendo e as moscas rodearem ela, seus olhos estavam virados e totalmente brancos, idênticos aos dos seres do mercado que havia visto há alguns minutos. Ela tentou correr em minha direção, mas as cadeiras de praias, abertas no meio do caminho, a derrubaram.

Eu estava em choque, virei às costas e fui correndo até o quarto que eu, meu pai, minha mãe e minha irmã estávamos hospedados. Abri a porta rapidamente e me deparei com a pior cena que eu poderia ver.

Meu pai socava a parede, de costas para mim, e seu rosto parecia estar coberto de sangue, a parede estava manchada com marcas de mãos e suas mãos estavam em carne viva; minha mãe, quando me viu arregalou os olhos e gritou meu nome, dos seus olhos escorriam lágrimas, então eu olhei mais para baixo e lá estava minha irmã; ela estava concentrada em comer a perna da minha mãe, o osso de sua perna estava aparecendo e os nervos estavam partidos ao meio e pulavam para fora de sua perna.

Aquela cena foi o máximo que pude aguentar. Olhei na direção de minha tia, e ela estava prestes a se levantar. Dei a última olhada para minha mãe, que me encarava com os olhos arregalados. Movimentei os lábios e sussurrei para ela com um sorriso leve e olhos marejados:

"Eu vou voltar pra buscar vocês, eu prometo... Eu te amo."

Ela me olhou com um olhar triste e mais lágrimas rolaram pelo seu rosto e ela sussurrou:

"Eu te amo mais."

Ela sorriu com esforço e logo depois seus olhos começaram a virar e seu corpo se contorcia mais ainda, como se estivesse entrando em uma espécie de convulsão. Meu sorriso leve sumiu e mais lágrimas surgiram. Sem pensar muito fechei a porta do quarto e encarei minha tia, ela parecia ter esquecido minha existência e estava se dirigindo devagar até a árvore de laranjas perto do muro ao lado esquerdo da pousada.

Aproveitei esse momento e saí em silêncio de perto dela. Eu precisava de algo para me defender, mas não estava conseguindo pensar.

Subi as escadas da pousada para o segundo andar e entrei no quarto da minha tia, que era o primeiro depois de subir os dois pequenos lances de escadas. Os móveis marrons da cama de casal, do criado-mudo e do guarda-roupa deixava o ambiente sombrio. Os lençóis estavam arrumados e ao ver aquela cama, automaticamente lembrei-me do meu tio. Ele estava prestando serviço em Porto Alegre, no círculo militar, junto com meu outro tio, seu irmão mais velho. Ao lembrar que eles estavam de serviço corri até a cama e levantei o colchão rapidamente e lá estava ela, uma pistola de cano longo e prata e seu punhal preto, meu tio dizia que ameaçaria meus namorados com ela. Peguei-a e soltei o colchão, verifiquei quantas balas havia, 6, estava cheia. Joguei-a para a mão direita e saí do quarto. Desci as escadas e estava voltando para o carro que estava a 10 metros de onde eu me encontrava quando me lembrei de que seria bom ter meu celular, mas que ele estava no bolso da bermuda da minha mãe. Ela adorava jogar os aplicativos que eu baixava, isso apertou meu coração mais ainda. Eu deveria ter ajudado ela, mas eu morreria e nunca a salvaria. Tudo estava muito errado, isso não deveria estar acontecendo, parecia um projeto de apocalipse, com uma espécie avançada de vírus que infectava a todos.

Entrei no carro e tranquei as portas. Fiquei batendo a cabeça no volante até algo vir em mente, até perceber que eu havia deixado o portão aberto quando saí para ir ao mercado... E talvez por isso eles estivessem nessa situação... A culpa foi toda minha...

Larguei a pistola no banco do passageiro e comecei a socar o banco entre as minhas pernas alguma vezes, até me cansar e minha respiração pesar. Joguei a cabeça para trás e tentei pensar em algo.

Precisava ir para longe daquele lugar louco, me estabilizar, e talvez, algum dia encontrar a cura para essa coisa e voltar para salvar a todos. Todos... Eu havia perdido todos meus entes mais queridos. Minha mãe, meu pai, minha irmã, minha tia, meu primo e minha prima. Eu não vi os corpos dos meus primos, mas nem gostaria, com certeza estavam mortos.

Lembrei novamente dos meus tios que estavam na capital do Rio Grande do Sul. Pensei que talvez esta coisa doida só estivesse naquela cidade, precisava ir até eles para conversar. Afinal, eles com certeza deveriam estar seguros, eles tinham um arsenal enorme no próprio apartamento.

Liguei o carro e dei marcha ré, minha tia se interessou pelo barulho e olhou na minha direção, gritou e veio correndo até metade do caminho. Antes de ela me alcançar, um grito desesperado chamou sua atenção e sua cabeça virou bruscamente para trás.

Era meu primo e minha prima, vinham correndo na minha direção. Não daria tempo de avisar que minha tia estava ali no escuro e que atacaria eles.

– Ajuda a gente! — Meu primo gritou e vinha correndo na frente. E logo atrás vinha minha prima.

Arregalei os olhos e fiz uma cara de espanto, pensei em abrir a porta do carro e atirar pra cima e chamar a atenção da minha tia. Tarde demais.

Ela pulou no pescoço do meu primo e arrancou um pedaço dele com os dentes, ele gritou e tentou se afastar dela, mas em vão.

Minha prima se escondeu atrás de uma árvore e ficou em silêncio. Nós apenas observamos Alan, meu primo, ser morto violentamente por sua mãe. E minha prima Alana, não durou muito tempo.

O cachorro da raça Akita, chamado Urso, atacou uma de suas pernas e a puxou para o fundo da pousada. Só consegui ouvir pedidos de socorro, e quando ela sumiu de vista, um último grito. Logo concluí que qualquer tipo de ser vivo está incluso nessa matança e pode estar infectado.

Desliguei os faróis do carro e fiquei longos 10 minutos observando minha tia jantar, esperando meu coração parar de bater tão rápido e a respiração desacelerar.

Quando um pouco da minha sanidade voltou, liguei o carro e saí daquele lugar, dirigindo a 15 km/h.

Precisava saber onde ficavam as BR's para ir até Porto Alegre e me lembrei de que há três dias minha tia havia comentado sobre ir até lá pegando uma estrada chamada free-way.

Precisava encontrá-la. Não sabia exatamente o que eu encontraria em outra cidade, mas eu não queria ficar mais nem um minuto naquele lugar.

Olhei para o medidor de gasolina e ele já marcava menos da metade, dirigi até encontrar um posto para abastecer, eu não tinha dinheiro, mas talvez eles entendessem o meu estado, ou não, afinal eu era menor de idade.

Assim que avistei um posto estacionei o carro ao lado da bomba que dizia ser de gasolina comum. Reparei que não havia frentistas no local, então enchi o tanque do carro às pressas, o máximo que pude, e entrei no carro de volta. Assim que girei a chave levantei o olhar para dentro da loja de conveniências, havia sangue nas janelas e no chão próximo a entrada. Por isso não havia frentistas.

Saí rapidamente daquele posto. Dirigi por infinitos 15 minutos, quase entrando em desespero até encontrar uma placa que apontava o caminho de Imbé, Capão da Canoa e a free-way com destino à Porto Alegre.

Aquele pequeno objetivo em mente aliviou uma ponta de meu estresse.

Notas finais
Espero que tenham gostado ♥