Ana e o Espelho do Jardim
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— Mas eu já li todos os meus livros! — Ana reclamou da ideia que a mãe havia lhe dado para matar o tempo, ela não tinha lido todos seus livros na verdade — O único que eu não li é sobre tartarugas marinhas. Mãe, deve ser a coisa mais chata do mundo.
— Então arranja qualquer coisa para fazer, só não me enche o saco.
“Chata’’ a menina pensava ao sair da sala de estar. Qual era a dificuldade de sua mãe em ajudar um pouquinho?
Ela achou melhor colocar em prática o plano de não encher o saco para evitar qualquer briga mesmo, logo, a ideia agora era recorrer ao pai e ver se ele tinha alguma sugestão para matar o tédio que tanto a incomodava.
— Por que você não sai com seus amigos ou com o filho da vizinha aí do lado?— Ele era um cara muito talentoso, conseguia ler e conversar ao mesmo tempo sem nem ter que desviar a atenção e reler tudo depois.
Ana se jogou na poltrona que ficava ao lado da do pai, fazendo isso do modo mais dramático possível, como se fosse simplesmente derreter e evaporar de tão entediada.
— Eles já estão todos na escola, e o filho da Carol é um bobão caçador de sapos que fica reclamando do meu nome não ser com dois “N”
Ela fez sinais de aspas com os dedos das mãos durante a reclamação descarada e soltou diversos suspiros, esperando que alguma ideia brotasse ou saísse oportunamente da boca do pai. Parece que ele estava entretido demais lendo sobre política americana, mas como ela sabia, ele conseguia fazer muitas coisas ao mesmo tempo.
— Então, Aninha, por que você não vai até o jardim e procura alguma flor desconhecida para catalogar pra mim, hein?
Não gostava de quando a chamavam de Aninha, era Ana e só Ana. Ana com um “N” só e não no diminutivo, seu pai era o único que podia falar isso no mundo inteiro quando se referia à ela.
Não tinha nenhuma flor desconhecida no jardim de casa. Rosas já são conhecidas, margaridas também. A única coisa um pouquinho interessante ali era o gato da Carol, a vizinha do lado. Ana gostava do gato, o gato gostava da Ana. Ele era engraçado com seu pelo laranja cheio de listras como se fosse um tigre pequenininho.
O gato ficava sempre se esfregando nas pernas da menina querendo atenção ou carinho, ela sempre dava, afinal os dois eram amigos.
— Olá, gatinho — Ela se sentou no chão pra deixar o gato menos incomodado sobre a diferença de altura dos dois, para as pessoas Ana era baixinha, para o gato ela era um gigante com cabelo engraçado.
“Purrrr” era o barulho que ele fazia sempre que alguém dava carinho, todos os gatos fazem esse barulho? Ana não tinha certeza disso, perto de casa tinham poucos deles e ela só conhecia esse mesmo.
— Você sabe de alguma coisa interessante para eu fazer por aqui?
“Miau” e uma chacoalhada de cabeça, ele com certeza queria dizer que sim. Ana teve essa certeza na hora em que ele saiu correndo para o meio dos arbustos floridos do jardim, ela o seguiu e andou agachada entre os espinhos sem nem se machucar. Era uma ótima exploradora.
“Miau, miaaaaau” ele exclamou, a chamando. Ela continuou o perigoso caminho entre as flores e chegou até o gato finalmente, ao lado dele estava um espelho de mão prateado e muito limpo. O espelho se encaixava perfeitamente na mão dela, parecia até ter sido feito sob medida.
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