An Ordinary Life
18 Capítulo 18 - Definições de Status atualizadas.
Notas iniciais
Legenda:
Itálico – pensamentos
Negrito – sonhos/lembranças
By Li Syaoran
... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ... ♥ ...
— Calma, cara. Daqui a pouco ela aparece. – Ouvi a voz de Eriol, mas não prestava atenção nele. – Acabei de responder a mensagem dela. Já deve estar perto. – Tomei mais um gole de cerveja. Foi quando a vi. Sorri involuntariamente.
— Já volto. – Avisei a ele e fui até a garota corada, levemente maquiada, que se destacava das demais, tanto pela roupa quanto pela postura. – Finalmente. – Falei assim que me aproximei. Ela ainda usava a blusa da organização dos jogos, um casaco leve por cima, calça jeans e tênis. Do jeito que me apaixonei. Pensei, me repreendendo logo em seguida.
— Muita coisa para arrumar. – Ela falou um pouco mais alto, quanto mexia os ombros.
— Percebi. – O som alto, não me deixava compreendê-la por completo, precisei fazer leitura labial. Olhei para a pista, onde casais dançavam. Balancei a cabeça, afastando qualquer ideia idiota que pudesse surgir. – Vem.
Voltamos para onde Eriol e Tomoyo nos esperavam. Como sempre, Tomoyo foi a primeira a recepcionar calorosamente Sakura.
— Você chegou! – As duas se abraçaram. – Veio com quem? – Prestei atenção na resposta, pois era exatamente o que eu queria saber.
— Um colega de academia. – Sakura respondeu e eu não gostei quando ouvi o artigo masculino.
— E onde ele está? – Eriol perguntou o que eu também queria saber, mas me recusava a reconhecer.
— Já saiu para caçar. – Sakura sorriu de forma sem graça. Ela veio com um cara e ainda por cima o cara é um pegador? Minha expressão não satisfeita me denunciava. Não, eu não havia gostado em nada da informação. – Ele é do tipo caçador.
— Bela companhia. – Resmunguei. Percebi, pelo comportamento dela, que Sakura não havia ficado satisfeita.
Conversamos por mais alguns minutos e logo Eriol e Tomoyo saíram para a pista.
— Você está bem? – Ouvi Sakura me perguntar. Terminei de engolir o gole de cerveja que havia tomado.
— Estou comemorando a vitória. – Levantei a garrafa na direção dela. Sabia que estava sendo irônico e agindo feito uma criança pirracenta, mas aquele era um desses momentos em que não conseguimos controlar nossas atitudes.
Ela olhou para a pista e depois para mim.
— Vamos dançar? – Ela perguntou.
— Não, obrigado. Não estou a fim. – Respondi, tomando mais um gole. Ela respirou fundo.
— Bom, eu vou então. – Ela guardou o celular no bolso interno do leve casaco que usava e seguiu para o aglomerado de pessoas.
Observei ela partir. A parte racional me falava para ir atrás dela, mas eu era teimoso demais para dar o braço a torcer. Não a perdi de vista e vi a forma como o corpo dela se movimentava junto com a música. Atrativa o suficiente para que um cara chegasse nela, mas não o suficiente para que achassem que era uma presa fácil. O estilo de garota que só quer dançar, apenas se divertir, sem se preocupar em chamar a atenção de ninguém.
Mas errei ao achar que ninguém a notaria. Um cara, aparentemente da minha altura, e com o meu porte, chegou perto dela e eles começaram a dançar juntos, enquanto conversavam próximos um do outro. O álcool nas minhas veias falou mais alto. Deixei a garrafa em cima do balcão e me dirigi a eles, empurrando pessoas, sem a mínima gentileza. Assim que cheguei perto, virei o cara, para que ele ficasse de frente para mim e o soquei.
— O que deu em você? – Sakura me perguntou assustada pela situação. Ela ajudou o cara a se levantar.
— Esse idiota estava se esfregando em você! – Estava puto de ciúmes e levemente bêbado, confesso, e por isso estava agindo que nem um idiota. Atire a primeira pedra quem nunca fez algo que fosse se arrepender depois.
— Ele só estava dançando comigo! – Sakura revidou. Ela segurava o cara pelo braço e aquilo me deixou mais puto. As pessoas ao nosso redor se afastaram para ver a briga de camarote. Sakura falou mais alguma coisa, que não consegui ouvir e saiu com o cara em direção aos lavabos.
Soltei o ar em pura frustração, enquanto passava a mão por meus cabelos. Que merda que eu fiz?! Voltei para o lugar onde estava, joguei o restante da cerveja fora e pedi um copo com água. Tomei de uma vez só assim que fui atendido e respirei fundo.
Sabia que deveria ir atrás deles. Meu orgulho não me permitia, mas era isso ou aceitar que eu era um completo idiota. Além do mais, continuar aqui só dá mais tempo para os dois ficarem juntos.
Segui para onde eles haviam ido e topei com Sakura.
— Sakura... – Comecei a falar, mas ela me interrompeu.
— Agora não. – Ela passou direto por mim. Parei no estreito corredor e olhei de Sakura para a porta do banheiro. Respirei fundo e, depois de relutar, fui atrás do cara.
— Já voltou? – O cara perguntou. Ele me olhou através do espelho. – Ah... Achei que fosse Sakura. – Ele já a chama pelo primeiro nome. Perceber isso foi um soco no meu estômago.
— Como está? – Gesticulei para o rosto dele. A pouca luminosidade, proposital, do local me impedia de ver com clareza o rosto do indivíduo, mas tinha a leve impressão de já tê-lo visto antes. Deve ser da academia. Deduzi devido ao porte dele.
— Inchado. Nenhum sangramento a vista, cara. – Ele voltou a conferir o local lesionado no espelho. Respirei fundo.
— Sinto muito. – Disse. Aquelas palavras saíram com dificuldade, mas sabia que era o certo.
— Hey, eu teria feito o mesmo. – Me surpreendi com as palavras dele.
— Como assim?
— Se visse alguém que tivesse interesse, dançando com outro alguém que não fosse eu, surtaria.
Fiquei sem ter o que dizer. O que ele havia dito era a mais pura verdade, mas ser dito por outra pessoa que nem conhecia, era quase assustador. Está tão na cara assim?
— Nishimura Raiden. – O cara se apresentou, balançando a cabeça levemente.
— Li Syaoran. – Respondi ao cumprimento. – Mais uma vez, foi mal, cara. – Insisti. Ainda estava com peso na consciência pelo olho roxo que ele provavelmente ganharia.
— Já falei que está tudo bem, cara. – Nishimura tentou fazer graça da situação. – Da próxima vez, só se certifique antes, se o cara realmente está dando em cima da sua garota.
— Ela não... – Comecei a retrucar, mas ele me interrompeu.
— Primeiro: ela é sim a sua garota, vocês não me enganam; Segundo: eu só estava de olho nela, para você. Então, de nada. Só não toque no meu rosto novamente, ok?
— Fechado. – Concordei com ele.
— Consegui o ge... – Sakura entrou com tudo no banheiro. Balancei a cabeça minimante para Nishimura e saí do banheiro sem falar nada.
Ela não queria falar comigo naquele momento e eu não a culpava. Segui para o local onde achava que Eriol e Tomoyo estavam, mas antes que chegar lá, senti meu celular vibrar.
"Leve Sakura para o nosso apartamento. As coisas esquentaram, se é que me entende. Estamos indo para o apartamento delas."
Xinguei Eriol. Justo hoje, que eu fui o idiota da vez, ela vai lá para casa. Me xinguei.
"Vocês estão aonde?"
Recebi a mensagem que Sakura havia mandado para o nosso grupo. Carinhosamente apelidado de 'Quarteto Fantástico'. Ideia de quem? Isso aí, Tomoyo. Percebi que ela se aproximava de mim, mas sem realmente me ver. Foi quando agi por impulso, pela segunda vez naquela noite.
Peguei-a pelo braço e nos guiei para os fundos. Eu conhecia aquele lugar. Havia frequentado poucas vezes, com Eriol e conhecia o dono. Abri a porta e o vento frio nos alcançou.
— O que você quer? – Sakura perguntou assim que paramos. O casaco dela era fino, acho, pois ela se abraçou. Me segurei para não puxa-la para poder esquenta-la.
— Tentar entender o que houve. – Respondi, já voltando a ficar nervoso pela postura dela. Passei a mão esquerda pelos cabelos.
— O que houve, foi que eu te chamei para dançar, você não quis. – Ela jogou na minha cara. E ela estava certa. Aquilo realmente havia acontecido e isso me deixava mais puto comigo mesmo, do que já estava. – Fui para a pista sozinha. Encontrei Nishimura, ele resolveu me fazer companhia, aí por fim, você chegou do nada e deu um soco nele. – Meu autocontrole balançou um pouco, ao lembrar da cena.
— Ele estava se esfregando em você.
— Ele estava dançando comigo! Coisa que você não quis fazer. – Ela voltou a tocar no assunto. Me exaltei.
— Então, eu não ir dançar com você, é motivo para você ficar se esfregando com outros caras? – Não conseguia tirar a cena da minha mente e isso não estava me ajudando a pensar com clareza.
— Ele estava me fazendo companhia. E ele é gay! – Ela se exasperou e jogou os braços para cima, como se estivesse cansada de argumentar.
— Ele é gay? – Eu quis confirmar o que havia ouvido. Ela balançou a cabeça confirmando.
— Além do mais, ele é um amigo meu, foi com ele que eu vim para cá. – Então Nishimura é gay e foi ele o 'pegador' que trouxe ela. Não aguentei e soltei uma curta risada seca. Eu sou mesmo um filho da puta ciumento. Sorri e, em um ato de coragem repentino, puxei-a pelo casaco e a beijei.
Sakura ficou tensa, devido a surpresa, mas não por muito tempo. Seu corpo correspondeu ao meu toque e sua boca à minha. Me controlava para ir com calma, para não assusta-la, mas tê-la em meus braços e não ter vontade de tocar e beijar cada centímetro do corpo dela, era quase impossível.
Paramos um tempo depois, quando nos acalmamos. Mexia levemente a mão direita, numa espécie de cafuné em seu couro cabeludo, enquanto a direita estava apoiada nas costas dela, colando nossos corpos. Sakura ainda estava abraçada a mim. De olhos fechados e face corada, seu cheiro viciante me fazia querer enterrar meu rosto na curva de seu pescoço e não mais sair.
— Olha para mim. – Eu sussurrei. Ela fez o que pedi e eu pude encarrar aquelas esmeraldas fascinantes. Sorri. – Pare de fugir de mim. – Falei finalmente.
Sim, eu tinha uma leve desconfiança de que ela estava me evitando, mas a vermelhidão em suas bochechas me confirmou tudo. Ela balançou a cabeça confirmando.
— Me desculpe pelo ataque de ciúmes que dei agora a pouco. – Voltei a falar. – Mas foi impossível não agir de outra forma, principalmente quando vi a cena. – Sakura abriu um pouco mais o sorriso, mas não falou nada. – Não faça isso novamente, por favor.
— E por que eu não faria? – O sorriso simples dela se tornou brincalhão, porém levemente malicioso. – Só assim para você tomar uma atitude. – Levantei as sobrancelhas e entrei no jogo dela.
— Então você fez isso de propósito, para que eu fosse até você? – Ela se afastou um pouco pelo que falei. Por algum motivo conseguir ver Touya naquela reação dela.
— E você queria que eu fosse até você? – Sorri pela expressão dela. Ao mesmo tempo que ela tentava se afastar, eu a puxava para mais perto.
— Queria que eu tivesse entendido o que você queria me dizer. – Ela parou, ainda com a testa franzida.
— Hã? O que eu queria dizer? – A confusão nos olhos dela era um convite para dizer tudo o que esperei semanas.
— Acha que não percebi... – A porta próxima a nós foi escancarada, fazendo com que nossa atenção fosse toda para ela.
Três seguranças estavam segurando um grupo de rapazes, visivelmente alcoolizados, que gritavam xingamentos pesados e se debatiam para serem liberados.
— Hey! Vocês. – Ouvi a voz de um dos seguranças. – O que vocês estão fazendo aqui?
— Já estávamos voltando. – Levantamos nossas pulseiras. Peguei a mão de Sakura e voltamos para onde outras dezenas de pessoas se aglomeravam. – Quer ficar ou ir para casa? – Falei um pouco mais alto para que ela pudesse me ouvir.
— Casa. – Ela me respondeu. – Estou cansada. – Um meio sorriso surgiu cansado nos lábios dela.
— Então vamos. – Antes que chegássemos à porta, Sakura me parou.
— E Tomoyo e Eriol?
— Já foram.
— Mas...? – Tirei o celular do bolso e mostrei a mensagem que Eriol havia me mandado. Sakura continuou em silêncio e eu suspeitei que ela houvesse ficado constrangida.
— Que legal – ela continuou assim que saímos da casa noturna –, nem vou conseguir pegar minhas coisas.
— Bem provável. – Abri o carro, mas antes que entrasse, lembrei que havia bebido. – Você pode levar? – Perguntei. Ela estranhou a pergunta. – Cerveja, lembra?
— Ah sim, verdade. – Ela passou por mim, pegou as chaves das minhas mãos e foi para o banco do motorista.
— Voltando ao assunto da mensagem, Eriol me mandou faz quase meia hora.
— Acho que vou passar a deixar uma muda de roupa no apartamento de vocês. – Ela tentou fazer graça e eu sorri para deixa-la mais a vontade. – Droga. – Ela sussurrou. – Esqueci minha mochila no carro de Nishimura.
Sakura pegou o celular e começou a digitar. Não sei o que ela conseguiu resolver de imediato, mas fizemos o trajeto conversando banalidades, e nos semáforos vermelhos, ela voltava a mexer no celular. Nenhum dos dois tocou no assunto de mais cedo, e eu não queria fazê-lo antes de chegarmos ao apartamento.
— Nishimura falou que ia deixar minha mochila na recepção, poderia pega-la para mim? Vou subir pela escada dos fundos. – Sakura disse assim que fechei o carro. – Nos encontramos lá. – Confirmei com a cabeça e fui para a recepção.
Por conta do horário avançado, Matsumoto-san não estava mais no posto e Hikari não tinha a mesma rigidez que sua chefe.
— Boa noite, Hikari-san. – Cumprimentei a jovem.
— Boa noite, Li-san. – Ela respondeu e voltou a olhar a pequena televisão que ficava em cima das demais telas das câmeras de segurança.
— Kinomoto pediu que eu pegasse uma mochila para ela. Nishimura já passou por aqui?
— Sim. – Ela se levantou e me entregou o objeto. – Saiu faz alguns minutos.
— Obrigado. – Fiz uma leve reverência e segui para o elevador.
Quando estava subindo foi que, pela primeira vez em anos, eu realmente fiquei ansioso e nervoso por ter que ficar a sós com uma garota. Ela não é qualquer garota. Me lembrei.
Tinha consciência que de a probabilidade de que algo fora além do esperado acontecesse era nula, mas mesmo assim aquele pensamento não me deixava tranquilo.
— Nossa... Cheguei primeiro que você. – Sakura me recepcionou, sentada no sofá. Ela já havia tirado os calçados e a blusa de frio. Mexi os ombros.
— Gastei o tempo que sempre gasto, você que já se acostumou a subir as escadas de forma rápida e silenciosa. – Entreguei a ela a mochila e segui para a área de serviço. – Se quiser ir tomar banho, pode ir. Vou ver se faço algo para comermos.
— Ok. – Ouvi a voz dela e, antes de ir fazer a minha parte, fui até o quarto e peguei as menores peças de roupa que havia no meu guarda-roupa. Talvez uma camiseta e uma calça com cordão dê certo. Separei o que consegui achar, deixei na porta do banheiro e fui para a cozinha.
Consegui achar algumas coisas que já estavam prontas na geladeira. Graças a Kami-Sama que deixamos essas marmitas prontas. Separei o que usaria para esquenta-las e depois de algum tempo, escutei o barulho da porta do banheiro.
— Agradeço pelas roupas, mas acho que vou usa-las só quando for deitar. – Sakura apareceu na cozinha, vestindo uma calça legging e uma blusa regata folgada.
— Tudo bem – voltei a me concentrar no que estava fazendo –, espero que sirva.
— Quer ajuda? – Ela se aproximou de mim, olhando para as panelas. Sei que a intenção era boa, um tanto quanto ingênua, mas o cheiro dela era viciante demais.
— Poderia terminar? Vou tomar banho. – Perguntei, já me afastando. Ela confirmou com a cabeça e tomou frente ao fogão. Me afastei e fui direto para o banheiro.
Depois que terminei, fui para a cozinha e ela já havia terminado de preparar. Continuamos a conversar banalidades enquanto jantávamos. Eu não conseguia uma brecha para trazer à tona o assunto novamente e Sakura parecia fazer questão de ligar vários assuntos de forma seguida.
O restante do jantar foi tranquilo. Me ofereci para lavar a louça, mas depois de uma leve discussão, acabamos lavando juntos. De forma rápida, Sakura se despediu e foi para o quarto. Não entendi suas ações, mas respeitei.
A noite estava relativamente quente, então desisti de dormir no sofá e improvisei a cama no chão.
Rolei mais uma vez no tapete. Encarei o teto, pensando nos últimos meses, desde que Sakura havia entrado na minha vida. Eu havia mudado. Todos estavam percebendo, menos eu. Ela me mudou sem que eu percebesse. As pessoas na academia já não me olhavam com medo, os sussurros nos corredores mudaram de tom e algumas garotas da minha sala já tentavam se aproximar. Sendo que antes, com apenas um olhar, elas afastavam. Sorri. É, estou ficando mole.
Ouvi o barulho da porta do meu quarto e apurei mais ainda minha audição. Passos ecoaram pelo corredor e seguiram para a cozinha. E antes que eu pudesse pensar no que estava fazendo, meu corpo já havia levantado e seguido até lá.
Sakura estava parada ao lado da pia, tomando água. Ela havia acendido a luz da área de serviço, fazendo com que pouca luminosidade chegasse ao corredor e à sala, mas iluminando o suficiente a cozinha.
— Então só a blusa deu certo? – Perguntei. Ela tomou um susto e engasgou com a água, além de derrubar um pouco nela mesmo.
— Que susto! – Ela reclamou, enquanto se secava. – Não chegue assim na surdina, por Kami!
— Achei que tivesse me ouvido. – Cruzei os braços e me escorei na entrada do corredor.
— Não, você é silencioso como uma raposa. – Ela olhou para mim, sorriu discretamente e balançou a cabeça de um lado para o outro.
— O quê?
— Estamos combinando? – Olhei para baixo. – Você está só de calça e eu só com a sua camisa. – Levantei uma sobrancelha quando ela disse 'só' e em resposta, Sakura rolou os olhos. Mexi os ombros.
— Tenho esse costume. Não consigo dormir com camisa.
— Você tem o costume de ficar sem camisa basicamente o tempo todo, não somente no treino ou quando vai dormir. – Sakura comentou e depois mexeu os ombros. Me desencostei e comecei a ir até ela.
— Alguém anda reparando demais em mim. – Quando ela viu que eu comecei a me mover, virou de frente para a pia e voltou a beber água. Mal sabia ela que esse movimento expôs mais ainda as pernas dela. E a bunda redondinha que ela tem.
— A culpa não é minha se ando passando muito tempo com você. – Ela tentou desconversar. Parei ao lado dela, esperando enquanto ela arranjava coisa para se distrair. Ela tomou a água devagar, lavou o copo e colocou no escorredor. Sakura olhou para mim de forma desconfiada. – O que foi?
— Nada. – Mexi os ombros e continuei parado. Ela estreitou os olhos.
— Bom – ela foi até o interruptor da área de serviço –, boa noite. – E apagou a luz. Eu continuei parado, mas não evitei um sorriso. Senti quando ela passou por mim e, em um movimento rápido, segurei sua cintura, colando suas costas em meu peito. Senti que ela ficou tensa, mas não se afastou de mim. Virei nossos corpos lentamente, já procurando a boca dela, enquanto prendia-a entre a pia e o meu corpo.
A beijei de forma lenta, um tanto quanto carinhosa, e me forcei a manter as mãos paradas, uma na nuca e outra na metade das costas dela. Tudo nela era um convite, mas aquela não era a hora, nem o momento. Por mais que os meus hormônios e instintos me dissessem o contrário, até eu sentia aquilo. Terminei o beijo, mas mantive nossas testas coladas.
— Impossível ficar longe de você. – Sussurrei e lhe dei um selinho. – Boa noite, minha Flor.
Me afastei. Como meus olhos haviam se ajustaram a pouca luminosidade, vi quando ela abriu os olhos e sorriu.
— Boa noite. – Ela sussurrou. Observei ela se afastar e esperei a porta do quarto ser fechada.
...
Uma semana havia se passado desde os Jogos Universitários. Uma semana em que mal vi ou encostei em Sakura, e uma semana inteira de trabalhos, seminários e provas.
Nossa rotina estava totalmente fora do normal. Tomoyo passava mais tempo no Ateliê do que no apartamento; Eriol se desdobrava entre as monitorias, o Jornal Universitário e o próprio cronograma de seminários e provas. Tanto é que fizemos basicamente todas as refeições fora, pois ninguém tinha tempo para fazê-las.
Eu também não consegui fugir na correria. Minha semana se resumiu às monitorias, treinos de futebol e aulas. Tive provas todos os dias, dois seminários e dois trabalhos para entregar. Estava cansado. Nem consegui treinar pela manhã e meu corpo sentia falta.
Vi Sakura apenas duas vezes e em nenhuma das duas tivemos privacidade para conversarmos. Mal consegui roubar um selinho ou outro, e Sakura, assim como todos nós, passava mais tempo em sala de aula ou fazendo algo relacionado a alguma matéria.
Estávamos exaustos. Física e psicologicamente falando. E foi em um clima de desânimo e cansaço que nos reunimos no sábado a noite.
A noite, assim como os últimos dias, estava quente, fazendo com que usássemos poucas peças de roupas. Eriol estava usando bermuda e uma camisa regata, além de estar descalço. Tomoyo usava um vestido de alça, que batia na metade da coxa e os cabelos presos em uma grossa trança.
Eu estava um pouco mais a vontade. A primeira coisa que fiz quando cheguei ao apartamento delas, foi tirar a camisa. Com isso, estava apenas de calça jeans. Mas Sakura foi a que mais me chamou atenção. Ela estava usando short curto e blusa regata. Nunca havia visto ela daquela forma e devo completar que foi uma visão e tanto.
Me levantei para ir ao banheiro e escutei, alguns minutos depois, Sakura perguntando se alguém queria algo da cozinha. Segui para lá assim que saí do banheiro.
— Você está bem a vontade aqui, não é? – Ouvi a voz de Sakura quando entrei na cozinha. Cheguei perto dela. Ela não estava muito distraída, mexendo na geladeira, pois percebeu minha aproximação.
— E por que não estaria? – Perguntei no momento em que ela fechou a porta e sorriu para mim.
— Idiota. – Ela implicou comigo.
— O idiota que você não resiste e não consegue ficar longe. – Retruquei. Ela rolou os olhos, mas não falou nada. Aproveitei para me aproximar dela. – Então, tenho razão? – Enlacei sua cintura, e sem aguentar mais, encostei meu nariz e boca no pescoço dela. O cheiro dela era realmente inebriante.
— Syaoran. – Ela sussurrou. Antes que eu tivesse qualquer reação ao fato dela ter dito meu nome de forma tão sensual, Sakura ficou de frente para mim e me beijou.
Ficamos alguns minutos ali, e da mesma forma como foi naquela noite na cozinha da Mansão, não tivemos pressa em explorar a boca e pele do outro.
Ouvi Eriol, o pigarro que ele soltou, e me afastei de Sakura. Os olhos dela se abriram lentamente, e quando percebi o conjunto da obra estava completo: olhos de esmeralda levemente arregalados por termos sido pegos, maçãs do rosto coradas, e boca entreaberta, um pouco inchada.
— Precisam de privacidade? – Ouvi a voz do meu colega de quarto. Desviei minha atenção de Sakura e o encarei. Sua expressão facial pendia entre a malícia e o orgulho por estar certo. Apenas confirmei com a cabeça.
Os exatos cinco segundos que Sakura levou para decidir se me acompanhava ou não, foram torturantes, mas senti um pouco de alívio quando ela me acompanhou.
Seguimos em silêncio, escada a baixo, e saímos do apartamento delas. Eu não sabia qual o local exato para aquela situação, então, instintivamente, segui para uma das cerejeiras da área de convivência que ficava na parte de trás dos prédios. Parei embaixo da imponente árvore, ficando de frente para Sakura.
— Sinceramente, não sei o que falar. – Disse. Sakura franziu a testa.
— Achei que você soubesse exatamente o que estava fazendo.
— Gosto de planejar as coisas, mas isso – apontei para nós dois – fugiu totalmente do meu controle. – Me aproximei dela. Ela cruzou os braços, enquanto me encarava com expectativa. – Isso é totalmente novo para mim, Sakura. Não contava, nem queria me apaixonar, e consegui fazer isso por um período inteiro. – A alcancei e segurei seu rosto com a mão direita. – Só que certa garota bastante geniosa, fazia questão de me tirar do sério, chamando minha atenção e fazendo com que eu não conseguisse tira-la da minha cabeça.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dela.
— Então quer dizer que você se apaixonou por mim? – O sorriso dela aumentou, se mostrando um pouco convencido.
— Você é irresistível. – Sussurrei. Me aproximei mais dela, fazendo com que ela erguesse um pouco a cabeça. Os lábios dela se separaram, e antes que eu terminasse de vez com a distância, segurei sua cintura com minha mão esquerda.
E por fim a beijei. Mas aquele foi diferente. Não fisicamente falando, mas sim pelo fato de não mais negarmos o que sentíamos.
— Então isso é um sim. – Ela disse, de forma convencida, depois que nos separamos. Revirei os olhos e a olhei com tédio. – Confesse.
— Sim, eu estou apaixonado por você, Kinomoto Sakura. – O sorriso dela aumentou, na mesma intensidade que suas bochechas ficaram vermelhas.
— E eu também estou apaixonada por você, Li Syaoran.
Fale com o autor