An Almost Vampire Human
3 Capítulo 2
Notas iniciais
— Capítulo 2 –
— Alice Mori –
Alice acordou com uma sensação gélida em seu corpo, uma sede terrível ressecava a sua garganta e o estômago embrulhava de fome. Ela precisava se alimentar, mas comida não lhe pareceu muito agradável ou iria satisfazê-la. Precisava de outra coisa para saciar a sua sede e fome.
Percebeu que estava deitada num sofá vermelho e olhando para um teto claro com iluminações fracas, mas o local era iluminado de um jeito agradável. As cortinas cobriam a visão da janela a fora tornado o local onde que estava mais escuro.
Alice se sentou no sofá e colocou a palma da mão na testa. Sentia-se zonza e fraca, a necessidade de saciar a sua fome e sede eram grandes demais. A garganta parecia ter sido arranhada por facas imaginárias e o seu estômago pareceu embrulhar milhões de vezes. Pior que parecia ter girado no mesmo lugar por horas e horas até sentir uma dor de cabeça latejante.
A garota levantou se apoiando no sofá, algumas vezes caindo para o lado, mas conseguia voltar a ficar em pé, sem tirar a mão do móvel. Qualquer coisa à sua frente parecia estar fora de foco e a girar. Não estava se sentindo nada bem.
— Então, finalmente acordou.
Uma garota estava sentada em cima da bancada o que seria a cozinha tomando um copo de vinho. Ela tinha cabelo branco ondulado, olhos vermelhos que nem sangue, a cor de pele muito pálida e vestindo um vestido preto que ia até os joelhos. Pousou o copo vazio em cima da bancada e encarou Alice, que sentiu uma pontada em seu peito.
— Você ficou desacordada apenas um dia e meio. – contou a garota de aparência de 17 anos – Está com fome? É normal sentir sede ou fome ou os dois após...
Ela nem teve tempo de terminar, pois Alice não aguentou as dores em seu corpo e mordeu o pulso levantado da outra garota. Mordeu com suas presas e começou a sugar o sangue, que rapidamente saciava a sua fome e sede de uma vez. Ela se sentia aliviada e ao mesmo tempo horrorizada. Perguntava-se o que diabos estava acontecendo consigo.
A garota de cabelo branco não retirou o pulso e deixou Alice beber o seu sangue, o que irritou a garota mais nova após um tempo em que não sentia mais dores. Ela estava acabada, com medo e horrorizada. Não sabia o que estava acontecendo. Não sabia como isso aconteceu, ter se tornado uma vampira. Não sabia em o que mais acreditar.
— Não precisa chorar. – disse a garota de cabelo branco com suavidade – Eu sei que é horrível, mas é a natureza vampírica. Não pode mudar isso.
Alice se afastou enxugando o rosto com as mãos, o que espalhou o sangue de sua boca para o seu rosto inteiro. A garota de cabelo branco riu e entregou um pano que estava atrás da bancada. Alice limpou o rosto com o pano e o encarou, o sangue manchando aquele tecido.
— Quem é você? – murmurou Alice.
— Eu? Sou Sarah. – respondeu a garota de cabelo branco – Aquela garota que você tentou salvar uma noite dessas.
Alice piscou os olhos e as imagens daquela noite voltaram a sua mente. Quando estava andando na rua para ir embora para casa acabou encontrando uma garota loira de sua idade toda ferida. Os Vampires Haunters apontando suas armas para aquela garota e argumentavam que a garota loira era um vampira. Quando recebeu o tiro de um deles. Depois escuridão.
Suas presas estavam ainda à mostra mesmo depois de ter parado de sugar o sangue de Sarah. Não estava se sentindo nada bem internamente. Não acreditava em vampiros, eles não existiam! Ou será que sempre existiram, mas foram encobertos? Será que as lendas eram todas verdadeiras?
Alice levou uma mão ao pescoço e o ombro e sentiu um curativo. Sarah a mordeu em algum momento, por isso acabou se tornando uma vampira. Quando um vampiro morde um humano, o humano se torna vampiro. As consequências eram: Não podiam ficar ao sol, não podiam pisar em lugares sagrados, não podiam chegar perto de fogo e precisavam matar para ter sangue.
“Droga... Droga!”
— Não vai dizer nada? – perguntou Sarah colocando um pano limpo em sue pulso.
— O que eu tenho a dizer...? – sua voz saiu distante até mesmo para Alice.
Sarah deu de ombros, sem se importar.
— Talvez um agradecimento por salvar a sua vida. – disse Sarah.
Alice sentiu raiva e bateu o pano com sangue na bancada, levantou os olhos para encarar Sarah, que continuou com a sua expressão neutra.
— Salvar a minha vida?! – repetiu Alice rosnando. Sentia suas presas arranharem os lábios – Eu não sabia que salvar vidas agora é transformar pessoas em vampiros! Eu nunca pedi para ser uma vampira!
— Eu também não. – confessou Sarah dando de ombros – Mas fazer o quê? É a vida.
Se Alice não estivesse tão acabada, teria estrangulado a vampira. Ela não estava acreditando nisso. Acreditava que vampiros não existiam, ainda acreditava que eles eram apenas histórias de terror para assustar os outros. Mas agora... Ela estava muito perdida. Não sabia mais o que fazer.
— Qual o seu nome mesmo? – perguntou Sarah.
A garota de cabelo castanho se lembrou que havia falado o seu nome antes.
— Alice... – murmurou Alice encarando o chão – Mori. Alice Mori.
— Mora com quem? – indagou Sarah.
— ... Por que quer saber? – retrucou Alice.
— Para conhecê-la melhor. – respondeu a vampira mais velha.
— Parece com uma das frases do Lobo Mau antes de se revelar para matar a Chapeuzinho Vermelho.
Sarah riu. Uma risada aguda e suave, gostosa de ouvir. Alice pensou que a risada de um vampiro era horrível, temerosa e estranha, mas estava errada. Teria que deixar de lado esse seu “preconceito” contra vampiros para tentar descobrir coisas sobre essa vampira.
— Quanto tempo está viva? – questionou Alice.
Sarah pareceu pensar se deveria contar ou não. A garota compreendeu isso imediatamente. Para um vampiro revelar a sua verdadeira idade era como revelar, por exemplo, a senha do seu cartão de crédito. Isso poderia ir contra você mesmo.
— Não irei revelar a minha verdadeira idade, mas... – Sarah fez uma pausa enquanto encarava a garota à sua frente – Tenho mais de mil anos.
O queixo de Alice caiu.
— Mais de mil anos?!— repetiu Alice incrédula – Você tem menos de dois mil anos, né?!
Um dos cantos da boca de Sarah se ergueu.
— Ou até mais. – respondeu a vampira.
— Como está viva há tanto tempo? – murmurou Alice – Tipo, os Vampires Haunters matam os vampiros que encontram, nenhum consegue viver muito tempo!
Sarah torceu o nariz. Era de se esperar que não gostasse dos Vampires Haunters.
— Alice, eu poderia contar uma coisa a você? – perguntou a vampira.
— O que seria?
— Sobre os Vampires Haunters. A estória verdadeira deles.
Alice ficou tentada em saber a verdade sobre eles, mas ao mesmo tempo ficou com medo sobre o que iria descobrir. Ela já não gostou de saber que vampiros existiam de verdade. Não sabia se gostaria de ouvir a estória sobre os que caçam vampiros.
— Tudo bem. – respondeu Alice, por fim.
Sarah respirou fundo e olhou para baixo, como se essa estória sobre os Vampires Haunters traziam lembranças horríveis.
— Há muitos anos, — começou Sarah – vampiros e humanos viviam pacificamente. Dá para acreditar nisso?
— Não. – respondeu Alice.
— Realmente, não dá, mas viviam pacificamente. Havia um clã de vampiros, eram poucos que existiam naquela época. Não passavam de cinquenta, no máximo. O clã tinha leis que deixavam um limite entre vampiros e humanos, para que ambos vivessem em paz. O vampiro que quebrasse uma das leis seria queimado vivo ou uma punição pior.
— Leis? Que leis?
Sarah pegou a garrafa de vinho e bebeu pelo bico. Pousou a garrafa na bancada e enxugou a boca com as costas da mão. Alice percebeu que contar essa estória incomodava a vampira.
— Vampiros só podiam beber do sangue dos humanos, caso os próprios humanos aceitassem. Não matavam, apenas faziam os humanos seus servos, escravos. Também não viravam vampiros, pois não chegavam a morrer. Outra lei era que um vampiro nunca poderia transformar sem permissão um humano em vampiro ou mata-lo. Todos os vampiros bebiam sangue de animais.
— Era o suficiente para satisfazer os vampiros?
As presas de Sarah desceram e sua expressão contorceu em irritação.
— Claro que não. – respondeu Sarah de maneira ríspida – Sangue de animais não tem as mesmas proteínas que o sangue de humanos. O sangue de animais era só temporário.
— E você bebe?
Alice se sentiu enjoada quando a vampira disse sobre o sangue de animais. Não seria nada gostoso beber esse sangue, ainda mais quando se transformou em vampira há pouco tempo.
Sarah não mudou de expressão. Continuou com a expressão neutra.
— Já teve uma época que sim. – respondeu Sarah – Mas depois de passar quase uma semana tentando me habituar com o sangue animal, desisti. Preferi sofrer que beber mais um pingo daquele negócio.
— Além de não ter as mesmas proteínas, não era gostoso. – concluiu Alice.
— Era horrível. – murmurou Sarah e depois voltou ao assunto principal – Por causa das leis do clã, os humanos não temiam os vampiros e não queriam mata-los.
— Isso por que os vampiros daquela época eram mais... Puros, humanos?
Sarah pensou um pouco antes de responder:
— Exatamente isso. Não eram maldosos e preservavam a parte humana dentro deles. Faziam grandes esforços para não beber impulsivamente o sangue dos humanos e ingeriam o sangue animal a qualquer custo. Mas, como era de se imaginar, nem todos os vampiros conseguiram aguentar por muito tempo.
— Começaram a matar os humanos para conseguir sangue, não é isso? Por isso dos Vampires Haunters existirem? Matar os vampiros para que não matem os humanos?
Sarah assentiu.
— Além de temerem, os humanos ficaram com um grande ódio porque os donos do clã não puniam os responsáveis pelos assassinatos. – continuou Sarah – Com seus conhecimentos sobre os vampiros, os humanos forjaram armas com água benta e sempre carregavam crucifixos nos bolsos. Foi assim que começou a primeira geração dos Vampires Haunters. Com armas banhadas de água benta, seguradas por humanos corajosos e destemidos.
Alice se surpreendeu. Uma vampira elogiando os seus inimigos? Mesmo depois de terem matado vários de suas espécies? Esse mundo confuso e complicado não se aplicava para a garota.
— Se estiver surpresa por eu ter elogiado humanos, — disse Sarah calmamente – saiba que ainda preservo a minha parte humana. Por isso, estou viva até hoje.
— Você se mistura bem com os humanos porque ainda age como um. – adivinhou Alice – Você continua viva porque é a mais habituada para viver na sociedade humana, conseguindo enganar os Vampires Haunters por todo esse tempo... E mais os humanos...
Sarah ergueu levemente as sobrancelhas, parecendo estar um pouco impressionada.
— Acertou em cheio. –afirmou a vampira – Por eu ser a mais habituada para viver junto com os humanos, eu consigo ter certa tolerância à luz solar sem me queimar. Além de que eu desenvolvi uma habilidade única! Consigo me transformar em humana completamente, escondendo as minhas características de vampira.
Alice abriu um pequeno sorriso quando algo passou por sua cabeça.
— Por você ter me transformado em vampira e ainda bebi do seu sangue, — Alice se estremeceu – eu acabei tendo as suas habilidades.
Sarah assentiu com um esboço de um sorriso nos lábios.
— Sim. Você poderá viver junto com os humanos. Boa notícia, não?
Alice quase suspirou de alívio. Poderia continuar a ter a sua vida normal, mesmo sendo uma vampira.
— Mas... – Sarah fez uma pausa — Tenho que te contar outra coisa.
— O que é? – indagou Alice.
Sarah ficou de pé e esfregou uma mão na outra, parecendo estar um pouco nervosa.
— Falando sobre eu ter te transformado em vampira, — começou e abriu um sorrisinho – não são todos os humanos que conseguem sobreviver a mordidas de um vampiro. Por isso que alguns morrem. Os sortudos se tornam vampiros. Então, você poderia ter morrido.
O queixo da garota de olhos verdes caiu quando entendeu rapidamente aquelas palavras.
— Está me dizendo que eu só tinha 50% de chances de sair viva?! – questionou Alice incrédula.
O sorriso nervoso de Sarah permaneceu quando respondeu:
— Menos que isso.
A vontade de estrangular a vampira aumentou muito que chegou a perder o controle. Alice deu um grito de raiva e partiu para cima de Sarah, que nem teve tempo de reagir por conta da surpresa enorme.
— Alice Mori –
— Ainda bem que podemos nos regenerar rapidamente. – disse Sarah colocando três copos na bancada – Porque eu não iria ficar nem um pouco feliz com um machucado em meu pescoço.
Alice suspirou, arrependida. Nunca foi tão impulsiva como foi naquele instante em que quis estrangular a vampira. Sempre pensava duas vezes antes de agir, sempre pensando nas consequências. Teria que aprender a controlar essa impulsividade que obteve e ainda ser prudente como sempre foi.
Não é à toa que era a melhor aluna de sua escola, que tirava nota máxima em tudo e sempre foi um bom exemplo. Nunca partiu para a violência, sempre se manteve nas sombras quando acontecia uma briga. Quando alguém lhe irritava, ignorava e respondia de uma maneira dura e grossa, nunca partiria para cima de ninguém.
Todos de sua escola a respeitavam e gostavam como muitos a odiavam e desrespeitavam, só por ser a “queridinha dos professores e da diretora”, como a chamavam. Os que odiavam tinham muita inveja da garota por ser inteligente e “perfeita”, a querida por todos. Era algo que chegava a ser insuportável.
— Água serve para aliviar a sede e pode beber o quanto quiser se precisar. – disse Sarah mexendo nos armários – Água gelada é mais satisfatória.
Sarah colocou uma garrafa de vinho na bancada e sorriu para Alice, que ficou confusa.
— Vinho é uma das bebidas que satisfaz um vampiro por um período mais longo. – explicou Sarah – Uma vez ao dia é o suficiente, mas como amo vinho, bebo sempre.
— E não fica bêbada? – questionou Alice, desconfiada – Espera. Não tem problema de beber mesmo sendo menor de idade?
— Não e não. São duas das vantagens por eu gostar de ser uma vampira!
Alice respirou fundo. Mesmo depois de ter visto o arranhão – causado pelas unhas (melhor dizer, garras) de Sarah — em seu braço se regenerar e ainda beber sangue, não acreditava que tudo isso era real. Mas prometeu que iria aceitar esse lado d mundo.
E ia tentar ao máximo.
Sarah começou a preparar café e algo também seria achocolatado. Alice se animou um pouquinho após ver as duas coisas. A vampira de cabelo branco havia dito que comidas normais não fariam bem para alguém que se transformou em vampiro recentemente. Ela contou que antigamente, os recém-vampiros ficavam presos num quarto isolado até terem controle sobre si mesmo para não sair matando por aí. Também passavam por testes para aprenderem a ingerir comida humana.
Ainda bem que Sarah não estava fazendo esse tipo de tratamento. Ela estava ensinando Alice os certos líquidos que podia ingerir. O primeiro era vinho, o segundo o café e o terceiro o achocolatado. Para Alice, foi um grande alívio por poder ingerir achocolatado e café. Sarah disse que água era a primeira opção de todas, mas preferia vinho, ao contrário da garota de olhos verdes.
Sarah pousou uma caneca de café e outra de chocolate na bancada. Pegou a garrafa de vinho e bebeu alguns goles.
“Não é à toa que Sarah seja tão desse jeito” pensou Alice ”De tanto beber, os neurônios já estão mortos”.
Apagou esse pensamento quando se deu conta que qualquer parte do corpo de um vampiro não morreria porque já estava morto, e ao mesmo tempo vivo. Era muito confuso para ficar pensando nisso.
Alice bebeu um gole de café e ficou feliz ao perceber o gosto amargo. Bebeu um gole do achocolatado, sentindo o gosto doce da coisa mais maravilhosa do mundo. Sentiu a sede e a fome sumir aos poucos enquanto terminava de beber os líquidos das duas canecas.
— Quanto sobre a comida normal, só poderá ingerir depois de um mês. – contou Sarah – Antes disso, você passará mal e será uma grande suspeita para os humanos e, principalmente, para os Vampires Haunters.
— Como comerei lá na escola? – questionou Alice – Começarei mais um ano escolar daqui uma semana, Sarah. Como comerei na frente dos meus colegas?
Sarah parou de beber e fechou a garrafa, depois encarou a garota em pé à sua frente, apoiada na bancada. Alice com certeza sabia que tinha uma expressão de desamparo no rosto.
— Apenas, beba café ou achocolatado, já que água só alivia a sede. – respondeu Sarah. Fez uma pausa, parecendo pensar em algo, mas não falou o que pensou, apenas continuou com o que dizia: — Se perguntarem por que você não está comendo, apenas dê uma desculpa.
— Tipo, “não eu estou com fome”? – sugeriu Alice.
— Sim.
— E quanto a minha vontade de beber sangue?
— Por isso esteja com um copão de café ou achocolatado, já que bebida alcóolica não é muito “bem-vinda” nas escolas. Caso não tenha nenhum com você, como eu disse antes, água alivia a sede.
Alice suspirou. Teria que fingir até mesmo na frente de suas três melhores amigas e ainda mais para a sua querida tia. Não seria nada fácil.
— Posso lhe fazer duas perguntas? – falou Alice.
— Quais? – perguntou Sarah lavando as canecas.
— Existem mais vampiros?
— Sim. Existe um governo de vampiros em algum lugar do mundo, é composto apenas por vinte homens. Ainda há mais cinquenta vampiros soltos pelo mundo. Já de mulheres, só tem nós duas como vampiras ao redor do mundo.
— Não brinca...
Ter só duas vampiras no mundo inteiro sendo caçadas por Vampires Haunters era puro azar, mas também um pouco de sorte, pois significava que eram sobreviventes de uma guerra sangrenta e horrorosa.
— E quanto a segunda pergunta...? – disse Sarah guardando a garrafa.
— Posso contar para alguém que sou vampira? – perguntou Alice um pouco hesitante.
Sarah fechou a porta do armário e se debruçou na bancada, ficando cara a cara com a garota. Sua expressão era dura e fria, mesmo quando suas palavras eram suaves e calmas. Mas Alice sabia que Sarah não era alguém que se brincava. Por algum motivo, sabia que a vampira poderia matá-la quando a chateasse.
“Nunca aborrecer Sarah”. Esse era o aviso que Alice decidiu ficar marcado para sempre em sua cabeça.
— Se souber em quem confiar, conte. – respondeu Sarah.
Sarah ficou ereta e se dirigiu para o corredor do outro lado do apartamento. Olhou por cima do ombro, para Alice.
— Tem um telefone na parede do lado da porta de saída. – disse a vampira – Telefone para quem é responsável por ti, mas não conte sobre o que aconteceu com você e não revele onde está. Se revelar, xeque-mate para os Vampires Haunters.
Sarah tinha que pensar em um jogo logo isso? Alice não queria saber da resposta.
— Está bem. – disse Alice olhando para o telefone.
— Três amigas sua ligaram para o seu celular. – informou Sarah.
Alice franziu a testa. O seu celular estava escondido por baixo de seu vestido, a vampira não teria... A garota baixou os olhos para olhar a si mesma e viu que estava com uma camisola rosa claro de alcinhas. Sentiu o rosto pegar fogo.
— Q-Quem te deu autorização para tirar a minha roupa?! – gaguejou Alice se abraçando.
Sarah revirou os olhos, como tivesse ouvido milhões de vezes essa frase e não aguentava mais.
— Oh, inocente! – exclamou e depois olhou para frente, para o corredor – Sua roupa e seu celular estão no quarto de hóspede. Deixei uma roupa limpa em cima da cama. Vou tomar um banho e depois descer para a portaria.
— Posso ao menos contar onde estou para as minhas amigas? – perguntou Alice sem se conter – Elas são de confiança! – argumentou.
Sarah suspirou e se virou de uma vez para me olhar.
— Certo. – respondeu – Mandem elas virem para cá e podem conversar à vontade, mas não fazem muita bagunça para não chamar atenção.
— Ninguém daqui sabe que você é uma vampira?
— Moro na cobertura, por isso ninguém suspeita muito de mim. Só me acham uma jovem rica e nada mais, além do que eu sou uma jovem rica. Os únicos que sabem quem eu sou de verdade são os funcionários.
— Sério?
— Sim. O porteiro é vampiro enquanto o resto dos funcionários são seus servos. Ele só está aqui para me proteger dos Vampires Haunters, ordens do governo.
— Então, esse lugar é seguro para você e confortável. Você pode ficar aqui sem se preocupar com os Vampires Haunters porque tem um vampiro do governo com seus servos por perto... Provavelmente, estão com armas.
Sarah confirmou balançando a cabeça e deu às costas deixando Alice sozinha em seus pensamentos.
— Alice Mori –
Depois de Sarah sair do apartamento, Alice tomou um banho rápido, vestiu a roupa deixada pela vampira (uma blusa branca fina, calça jeans escura e tênis branco) e pegou o telefone para começar a ligar para a sua tia.
Alice deu a desculpa de estar na casa da colega ajudando-a em algumas matérias e ficaria por lá mais um tempo, tal desculpa que convenceu sua tia, Magareth. Ela disse que estava tudo bem e acreditava que Alice era responsável o suficiente para decidir o que queria. A garota agradeceu antes de desligar, sentindo-se mal por mentir para a sua adorável tia.
Depois, a garota foi até o quarto de hóspedes e pegou o seu celular. Enviou mensagens para suas amigas revelando onde estava e era para se encontrarem no apartamento. Sarah havia deixado uma folha com o nome do endereço do local em cima da bancada.
Alice se sentou na cama e jogou o celular para o lado. Ficou relembrando da estória que Sarah contou e da estória que ouviu pela vida inteira. Eram parecidas, mas a estória que escutou a vida inteira tinha peças soltas.
“Há muitos anos e muitos anos, a existência de vampiros se tornou real” Alice começou a narrar, silenciosamente, a estória na versão dos Vampires Haunters. “Por serem considerados demônios, não tinham piedade nenhuma em matar uma pessoa e não hesitavam ao fazê-lo. Os vampiros se alimentam do sangue de suas vítimas e transformam elas em vampiros com o maior prazer. Os vampiros matavam vários humanos, que se revoltaram uma época, juntando um grupo forte e destemido, e criaram armas capazes de matar os demônios. Os Vampires Haunters. Graças a eles, os vampiros se tornaram quase extintos e os caçam até hoje, apagando sua existência imperdoável do planeta Terra ou até do Universo e deixando os humanos em paz. Vampiros são, nada mais e nada menos, criaturas demoníacas sem raciocínio nenhuma sobre suas ações”.
Eis ficavam as dúvidas: Como eles não podiam ter raciocínio de seus atos, se um dia foram humanos? Mesmo sendo “demoníacos”, eles ainda pensavam e tinham alguma consciência! Ainda eram humanos, mesmo tendo uma metade vampírica. Será que os vampiros sempre foram maus assim só porque queriam? Ou será que tinha algum motivo que levaram eles a matarem tantos humanos?
Alice esfregou os dois lados da cabeça com dois dedos. Isso tudo era demais para a sua cabeça. Nunca acreditou nessas lendas para “boi dormir”, nunca foi também em acreditar em tudo o que as religiões falavam. Sempre foi muito “pé no chão”, acreditando na Ciência e tirando qualquer coisa “fictícia” de seu caminho.
Mas tinha que parar com essa “exclusão”, se queria aprender a viver como vampira e humana nesse mundo.
Alice checou as horas em seu celular. Perdeu vinte minutos de sua vida só pensando nisso, mas não se preocupou. Ainda tinha uma eternidade longa pela frente se tomasse os cuidados que Sarah a ensinaria, sem dúvidas.
Uma campainha sonora e suave ressoou pelo apartamento. Alice levantou da cama com um suspiro e foi atender a porta, deixando entrar as suas três melhores amigas.
—B-Boa noite, meninas! –balbuciava Alice com um sorriso forçado tomando cuidado para não revelar suas presas.
Alice ficou sem reação por um momento. Ela não saberia o que podia acontecer. A qualquer momento, a qualquer instante, sua sede por sangue a faria atacar uma das coisas mais valiosas que tinha:
Suas amigas.
Respirou fundo. Sentiu-se bem. Estava tudo bem, tinha que se tranquilizar. Alice poderia falar com uma voz normal e natural, era boa nisso.
As figuras se teciam entre a porta em direção ao lado interno da casa. Mesmo com as luzes fracas do apartamento, a pessoa parecia que ainda estava na escuridão.
—Com licença!
Dona das primeiras palavras do trio, seu nome era Yummy. Yummy Sawyer, melhor dizendo. Seus cabelos negros iam até a cintura. Seus olhos, seu vestido largo e seu par de calçados eram todos verdes e tinha a pele branca.
Em passos estrondosos e um abraço exageradamente forte em Alice, a segunda já podia ser vista.
—Ahh, estou com fome!
Fujino Arisawa, com uma entrada gritante. Tinha ombros estreitos e fortes e altura considerável, de 1,70m. A ponta de seu nariz era alta, e bem adequada a sua boca. Seu rosto era considerado muito bonito. Era um rosto que era ao mesmo tempo enérgico pelo otimismo e incrementado com todos os tipos de cosméticos, revestido com a mais alta vaidade da dona, era um rosto cheio de alegria e uma resistente beleza de aço, tanto natural quanto artificial.
Logo em seguida, a última ia se revelando. Sem dizer nenhuma palavra, também ia revelando uma aura negra em sua volta.
Emilly Louise. Tinha cabelos bem loiros ultrapassando a altura dos ombros que quase encobria o seu rosto pequeno. Seu pescoço e braços que se projetavam de sua camisa preta de mangas curtas eram finos. Ela era menor do que Fujino, maior do que Yummy. Seus olhos azuis se destacavam em meio a sua pele branca, aos seus cabelos loiros e a suas roupas, todas pretas. Em seu rosto não havia emoções. Nela mesma não havia emoções. Pra ela, isso era perda de tempo. Qualquer um reclamaria de uma pessoa que entrasse daquele modo em uma casa, mas suas amigas já estavam acostumadas com aquele jeito “dócil” dela ser. Era uma personalidade própria.
Fujino saltava em Alice, enquanto as duas eram observadas por Yummy, que ria sem parar. Emilly sentou-se na cama olhando para o teto.
—Tá bom, tá bom, — disse Alice se separando do abraço — tem salgadinhos no armário!
—Ah, não! Salgadinho engorda. –falava Fujino, virando a cabeça.
—É salgadinho light. Tem refrigerante diet na geladeira também. – respondeu Alice.
—Ebaaa! –comemorou sua amiga enérgica.
Alice quase tinha se esquecido de seu nervosismo e o motivo por tê-las chamado. Quase.
— Fujino, você é tão estú... –dizia Emilly, em palavras incompletas.
—...penda? — cortou Fujino e abriu um sorriso – Eu sei!
—Hihi, acho que ela quis dizer estúpida! – ria Yummy.
Em roda, as três sentaram na cama de Alice após saírem da sala. A cama era espaçosa suficiente para o quarteto, e ainda sobrava um pouquinho de espaço. Enquanto comiam e bebiam, as três conversavam.
—Alice, você desapareceu há alguns dias atrás. O que aconteceu? –perguntou Yummy.
—Ah... Isso...Eu... – Alice demorava para achar uma boa desculpa — Eu tive uma viagem inesperada, sabe, de última hora!
—O quê? Traíra! Como você não me levou junto?! –questionava Fujino.
—Ela estava tirando férias de você, idiota. –respondeu Emilly, dando um soco no ombro da amiga.
—Poxa, Emilly, isso dói! Mas espere! Alice! Uma viagem inesperada... Você arrumou um namorado?!
—Não é nada disso Fujino! – protestou Alice revirando os olhos — Eu nunca arrumei...
—Como ele se chama?! Como ele é?! Bonito?! Romântico?! Trabalha?! Tem quantos anos?! Qual o signo?! Nome da mãe?! A data do casamento de vocês?!
Antes que terminasse, Emilly agilmente a agarrou por trás e a imobilizou. Seus dedos cerraram e deslizaram pelo pescoço de Fujino. Seu olhar continuava fixo, emanando calma como a superfície suave do oceano e ninguém podia ler nenhum sentimento, ou intenção de algo.
—Cale-se. Se me irritar mais uma vez, puxarei seu pé na cama à noite.
—Hum! Hum! – tentava balbuciar Fujino.
Soltou-a e fechou seus olhos. Logo, Fujino já começou a se irritar.
—Como você é cruel, Emilly! –dizia Fujino, fazendo um choro falso.
—Até eu estou com medo agora! –reclamou Yummy.
Alice suspirou. Já estava acostumada com essas coisas.
Entre a refeição e a conversa, o tempo foi passando. Enquanto as três lavavam a louça na cozinha, a pergunta relevante escapou da boca de Alice e a mesma se arrependeu ao fazer:
—Gente... O que vocês acham... de vampiros?
Fujino riu instantaneamente. Suas gargalhadas trovejaram, indo para os quatro cantos da cozinha.
—Que coisa idiota, Alice! Vampiros não existem! Eles só são estorinhas ridículas criadas por pais sem criatividade como modo de assustar seus filhos ainda crianças! Bom, além de ser ridículo, eu realmente morro de medo. Odeio essas coisas... sinto... medo. Nojo. Sei lá.
Alice ficou em silêncio, arregalando os olhos para o nada enquanto lavava a sua louça, sem demonstrar nenhuma expressão. Ao mesmo tempo, uma dor aguda passou pela sua cabeça. A dor veio em ondas. Como uma onda que ia fluxo e refluxo. Seu espírito enfraqueceu. Seus dedos se enrijeceram. Suas pernas tremeram, mas forçou-as a ficarem firmes.
Não era à toa ter ficado assim. Receber aquelas palavras em forma de lâmina de sua própria melhor amiga. Aquelas palavras cortavam o coração e iam se aprofundando até a alma.
—Bom... eu também... tenho um pouco de medo... sim. –afirmava Yummy.
Doía, doía, doía muito. Mas tentava ao máximo não se abalar.
Alice não pensava sobre querer ser salva ou não querer morrer mais. Ela só queria ser libertada dessa dor e sofrimento. Não precisava abrir seus olhos novamente. Não precisava continuar a viver. Não se importava mais. Apenas queria que tudo voltasse a ser como era antes. Apenas queria ser humana, ser normal que nem suas amigas.
—Eu acho legal. – disse Emily sem expressar emoção — São sombrios. Comem sangue. Têm vários filmes, séries e livros com vampiros que gosto. Eles só gostam de sangue humano. Isso é muito bom. Eles poderiam matar a Fujino.
—Que cruel, Emilly! – ria Yummy.
—Está errada, idiota! Aqueles vampiros nojentos são imortais! Se eu virasse uma, você teria que me suportar até morrer! Hahaha! – falava Fujino enquanto jogava água na amiga.
— Eu poderia “tacar” um alho na sua cara, só isso te mataria!
Aquelas palavras martelavam sua cabeça. Perfuravam seu cérebro. Elas vinham de todas as direções. Dentro de si mesma, Alice se contorcia numa dor que nunca tinha sentido antes. Sua vontade de gritar era tanta que a feriam como espinhos. Se ela ainda fosse humana, com certeza estaria rindo e se divertindo com elas. Vampiros? Eram coisas surreais para ela. Até aquela noite...
Gotas pequenas e frias estavam se espalhando por seu corpo. Era fria. Escorregaram em seus lábios. Ao mesmo tempo, sua mente surgiu de volta das trevas. Também significava ser atraída de volta para a dor, em tempo real.
—Alice?! O que aconteceu? –perguntava Yummy, preocupada.
— Você está esquisita hoje. – observou Fujino com misto de curiosidade e preocupação — Não comeu quase nada, fez essa pergunta absurda... Ainda acho que você está namorando.
— É claro que não é isso, idiota. – falou Yummy revirando os olhos e depois encarou Alice — Mas eu também concordo um pouco com a Fujino. E sim, eu não tenho orgulho de dizer isto.
Merda...
—Não é nada disso! – apressou-se a dizer, Alice — Desculpa, estou muito cansada hoje. Realmente. Eu... só fiz essa pergunta porque... eu queria assistir... um filme de vampiros com vocês... para a gente rir da cara deles... comprar uma dentadura de vampiro daquelas que a gente usava quando era criança...e...
Sem aguentar mais, sem resistência para balbuciar uma só palavra, Alice desmoronou em meio à suas palavras, em meio às suas amigas. Chorava dolorosa, profundamente. Contorcia-se no chão, cada vez mais numa dor intensa que parecia nunca acabar. Seus próprios gritos a perfuravam como agulhas em chamas. Suas amigas a ampararam instantaneamente.
“Droga...” pensou Alice com raiva “Não me diga que ficar ressentida ou com raiva de algo faça com que tenha vontade de beber sangue ao ponto de passar mal! Só pode ser piada!”.
Alice se forçou ao máximo para segurar os seus impulsos vampíricos, o que resultou ficar com a visão turva e escurecida. Desmaiaria a qualquer momento e acabaria com isso de uma vez ou... Poderia acabar matando suas amigas por não ter consciência de seus atos...
Um líquido espesso e sem gosto foi forçado em sua boca. A escuridão acabou e pôde enxergar com clareza novamente. Uma dor palpitante passou pela sua cabeça. Em meio ao mar em seus olhos, Alice tentava enxergar suas amigas.
—Delicioso... – murmurou Alice, fracamente.
— É água. –disse Emilly. – Veja só, não vamos te perturbar mais. Te deixamos na cama e vamos embora. Mas amanhã, queremos que nos fale cada detalhe, está certo?
—T-Tudo bem. – concordou Alice.
Yummy a carregou junto com Emilly até a cama. Fujino arrumou-a mais perfeitamente e confortavelmente possível.
—Obrigada... – agradeceu Alice enterrando o rosto no travesseiro — Mesmo...
—Não se preocupe. – tranquilizou-a Yummy — Estamos aqui pra isso. Qualquer coisa, ligue para mim, para Fujino ou Emilly. Boa noite, Alice. Obrigada e desculpe-nos por hoje.
—Não se culpem. – falou Alice — Está tudo bem. Eu explico tudo amanhã...
—Boa noite! –disseram as três juntas.
A porta se fechou como os olhos de Alice. Estava perdendo a consciência da situação. Sabia que seu corpo estava sendo levantado. Não podia desmaiar. Se fizesse isso, provavelmente não ia acordar ou acordaria depois de dias. Ela queria achar a resposta para tudo isso. A resposta para aquela noite, em que seus dias de humana se acabaram. Não tinha base para conclusão nenhuma, mas tinha um forte sentimento sobre isso.
Logo depois se virou de cabeça para cima, olhando para o teto bege com um pequeno lustre de cristal. Imagem de Sarah flutuou pela sua cabeça quando a dor daqueles momentos diminuíram e as lágrimas começaram a secar.
Aquela vampira, que a tinha transformado. A destruidora de sua vida. Mas também, a reconstrutora. Alice abriu um sorriso enquanto seus olhos se fecharam, pensando nela. Parecia que alguém tivesse agarrando seu cabelo na parte detrás da cabeça e foi arrastando-a para a escuridão. Suspirou. Alice ia apenas entrar. Ia ser divertido. Podia finalmente dormir.
— Sarah Rychard –
Sarah voltou ao seu apartamento após esperar as amigas de Mori irem embora. Ficou batendo papo com o porteiro e bebendo café com ele, aproveitando a oportunidade do café, a vampira trouxe consigo um copão cheio para a recém-vampira.
Ela mal pisou na entrada do apartamento e já sentiu algo de errado no ar. Alguma coisa suspeita.
Suspirou, jogando as chaves de sua cobertura em cima da bancada da cozinha. O que aconteceu dentro daquele lugar enquanto estava ausente não era boa coisa. Também, uma pequena presença familiar e desagradável pairava no ar. Aquela sensação que tanto odeiava...
Atravessou a sala e abriu as cortinas das janelas. As estrelas brilhavam fracamente, ao contrário da lua. A vampira deu um giro perfeito e seguiu para o pequeno corredor, abrindo a porta do quarto da Alice. Encontrou a garota deitada em sua cama com o travesseiro na cara, dormindo.
Sarah sentou-se na cama e, com cuidado, balançou o braço de Alice.
— Acorde. Tenho café.
Alice abriu os olhos no mesmo instante e pegou o copo de café para bebê-lo em seguida. A íris de seus olhos estava avermelhada, fazendo sumir quase por completo o verde natural. A vermelhidão nos olhos – um sinal vampírico – sumia aos poucos enquanto tomava cada gole do café, mas seria apenas temporário.
A garota botou o copo na escrivaninha ao lado. Respirou fundo e deitou de lado, ignorando a presença irritada da vampira.
— Alice. – chamou Sarah – Só porque a senhorita não conseguiu contar a verdade para as suas amigas, não precisa descontar a sua frustração em cima de mim!
Alice bufou e se virou para encarar a vampira de cabelo branco. Seus olhos verdes estavam muito vazios, de um modo que Sarah não gostou.
— Quem se importa? – murmurou Alice – Elas realmente vão me odiar se eu contar...
— “Quem se importa?” – repetiu Sarah com desdém afiadíssimo — Eu me importo! Fui eu que transformei você em uma vampira e eu devo me importar com você e suas coisas, pois nunca saberemos se meteremos em sérias encrencas caso cometemos um deslize.
Alice franziu as sobrancelhas. Um pequeno brilho ingênuo reapareceu em seus olhos. Sarah conteve um suspiro de alívio.
— Por que está dizendo isso? – perguntou a garota – Você parece irritada.
— Parece?!
— Agora é você que está descontando em cima de mim! Algo que eu nem sei!
Sarah respirou fundo. Estava se irritando à toa, mas aquela sensação que tanto odiava, por mais que estivesse bem fraca no ar, ela conseguia sentir e isso a irritava.
“Aquela sensação...”
— Esquece. – disse Sarah em seu tom neutro – Você não conseguiu contar para as suas amigas a verdade, certo?
Os olhos de Alice marejaram, o que deixou Sarah meio sem jeito. Não sabia reconfortar pessoas quando choravam.
— Elas odeiam vampiros. – balbuciou Alice. As lágrimas escorreriam – Elas têm medo...
— É normal os humanos terem medo. – argumentou Sarah.
— Você realmente não sabe o que é ter seus amigos de anos de uma hora para outra te odiar por ter se transformado em vampiro. – disse Alice e depois fez uma pausa – Ou sabe?
Sarah sempre desejou que ninguém lhe fizesse esse tipo de pergunta. Não a arrasava mais em se lembrar de suas memórias, mesmo as piores. Na verdade, só uma a destruía. Uma memória dolorosa e torturante, uma memória eterna e rápida, mas terrível. Mesmo que perdesse a memória, uma sempre permaneceria. Era como uma maldição, assombração.
Um sorriso suave e simples se formou no rosto da vampira que viveu muitos anos.
— Não é bom saber muito sobre mim, Alice. – disse Sarah suavemente.
Era mais um aviso que apenas uma frase banal. Alice era muito inteligente para perceber isso, pois se sentou de imediato enquanto enxugava o rosto com as mãos.
— Isso foi um aviso? Por quê? – questionou a garota de olhos verdes ingênuos – Por que não é bom?
— Nunca é bom saber muito sobre um ser que viveu vários anos.
— Mas eu quero saber! Você não é uma má pessoa...
Como aquela garota podia ser tão ingênua?! Sarah não sabia.
A vampira de cabelos brancos se pôs de pé e saía do quarto, andando de costas para responder Alice.
— Não é bom. – repetiu Sarah.
— Sarah...
— Boa noite, Alice.
Sarah fechou a porta do quarto e encostou-se à porta, com o cuidado de não fazer barulho. Uma lembrança escura e rápida passou por seus olhos, mas piscou para afastá-la de imediato. Não gostava de lembranças, não quando elas eram ruins.
Principalmente, da lembrança que mudou sua vida.
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