Análises
1 Capítulo 1
O frio agradável do aposento contrastando com seu acalorado e aconchegante ninho de lençóis e almofadas macias e... Holmes?? O último detalhe foi que o convenceu a abrir os olhos apenas para constatar que mais uma vez... Acordou nos braços de seu parceiro, mais especificamente embaixo dele. Holmes enlaçava-o em um abraço apertado, como se fosse um daqueles grandes travesseiros infantis. Sua forte respiração a aquecer-lhe ternamente o pescoço; virou levemente o rosto compartilhando-a e encarando o seu amante com um daqueles seus meio sorrisos, em uma agradável frustração.
“Serei o único a pensar que isso ainda é um problema?”.
Das quatro últimas semanas depois do último caso resolvido, todas as noites tinham se passado em seu quarto, em sua cama e com Holmes por cima dele, a abraçá-lo com aquele ar de criança satisfeita. Isso, claro, depois de uma longa e acalorada noite entre amantes.
Não conseguia se lembrar de como aquela situação tinha se iniciado, mas já estava entendendo – e até aceitando – que ela persistiria.
A princípio, médico orgulhoso, respeitosamente noivo e com uma brilhante carreira em desenvolvimento, ficou furioso assim que a primeira noite entre ambos aconteceu. Principalmente porque foi ele a tomar o papel de “sexo frágil” da relação. E o que mais lhe irritava era a lembrança de que estava aturdidamente alcoolizado e Holmes apaixonadamente sóbrio e inventivo. Correspondera aos beijos e afagos com o mesmo ardor e entusiasmo. Mas claro, não admitiria lembrar-se também desses detalhes por nada no mundo.
Apesar da fama de “parceiros” (?) que possuíam, vivia sua rotina de médico e assistente de detetive satisfatoriamente, sem se importar com as picantes opiniões e comentários tecidos pelos seus contemporâneos. Isso pelo menos enquanto eles não passavam disso: falatórios maliciosos inventados por todo tipo de gente desocupada. Até se divertia quando era sutilmente seduzido por algum outro cavalheiro inglês, geralmente de maior idade que a sua. Fazia-se de desentendido. Por que se ofender, afinal? Não tinha nada a provar, bastava-lhe sua consciência.
Tudo mudou drasticamente quando o “romance” entre ambos irrompeu. Foi algo tão repentino que ficava confuso tentando se recordar da origem daquela situação. A partir de então, passou a iniciar sua rotina de trabalho antes mesmo que outros já tivessem acordado, a trocar seu “auxílio” de detetive por plantões médicos extraordinários – por ele próprio arranjados – e a chegar mais tarde em casa. Esse último detalhe é que era um problema, afinal, tanto pela convivência quanto pela astúcia, Holmes sabia exatamente quando ele chegaria e até onde poderia encontrá-lo caso muito se demorasse.
Fora também os olhares que pareciam queimar sobre ele nas ruas. As mesmas pessoas, que sempre ali estiveram com suas vidinhas medíocres, comentários e olhares maldosos; as pessoas pelas quais passava com a indiferença inglesa de que tanto se orgulhava... Agora, sua simples presença era-lhe um tormento mordaz. Trilhar os mesmos caminhos até seu consultório e deste de volta à sua casa era-lhe penoso; sentia-se andar sobre pregos, com um peso nas costas, tendo os pensamentos perturbadoramente lidos em alto e bom tom por aquelas detestáveis pessoas pelas quais passava.
A solução mais prática e óbvia seria livrar-se do mal pela raiz: pedir a Holmes que se mudasse ou mudar-se ele mesmo. Mas passara muito tempo junto a seu amigo, a ponto de importar-se com ele como se fosse um irmão. Morando longe e sozinho... que lhe aconteceria?? Holmes era preguiçoso, desocupado, arruaceiro, irresponsável, inconseqüente, inábil para qualquer tipo de relacionamento... Enfim, não sobreviveria.
Foi então que lhe ocorreu a segunda solução mais prática: casar-se, é claro!! Por que não pensara nisso antes??
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