Amy!
9 Capítulo 9
"Calma ai, repete de novo, eu ainda não decorei os nomes e esse negócio de funções ainda não faz o menor sentido."
Em poucos minutos na van o que eu mais fiz foi rir, eu sentia minha barriga doer e lágrimas escorrerem pelos meus olhos. Mas isso não importava, ou incomodava é uma sensação boa. As apresentações recomeçaram, pelo motorista cabeludo. " Meu nome é Neto, a minha função é dirigir durante o dia estrela". " Eu sou a Dani, sou a namorada dele e copiloto, escolho as músicas, e indico o caminho. Essas coisas." Falou a moça de cabelo comprido e cacheado sentada no banco do carona. Do meu lado tinham dois caras de riso fácil, um loiro e um negro. O loiro se manifestou primeiro." Sou o Fernando, eu dirijo durante a noite para eles dormir. Ah é pode me chamar de galego." " Você não deveria estar dormindo então?" " Provavelmente, mas me acordaram para abrir a porta para você." " Sou o Alex, sigo a função do leãozinho a noite. Guio esse galego barbeiro ai."Dei um sorriso e olhei para trás onde estavam os últimos três, um rapaz de cabelo raspado uma moça de cabelo liso em um corte meio chanel e um japinha no ultimo banco com o celular na mão. O rapaz se apresentou em seguida." Zé, compro a maconha."" Ju, eu divido os baseado, comida e água."" E o japinha?"" Rui... Ele só fala quando tem blitz ou radar, sabe como é a van é legalizada, mas se os cara da lei para, todo mundo vê o sol nascer quadrado, essa paradinha é boa, mas o povo tem um preconceito doido."Concordei com um gesto com o Zé, e voltei minha atenção para ninguém em especial." Vocês são de onde?" " Trancoso, Bahia... Pelo menos 5 de nós, de onde vocês dois vieram mesmo?" Olhei para trás estranhando a tranquilidade do Neto, ele não conhecia as pessoas que estão viajando com ele e ainda assim mantinha uma tranquilidade inabalável e o riso fácil. Esse homem só pode ser maluco. "Sou de Virgem da Lapa, norte de Minas." Disse a garota como se já tivesse repetido essa pergunta inúmeras vezes e olhou para o careca esperando ele falar. Espera, como assim quem fornece a diversão é um ser desconhecido? Tudo bem que em São Tomé eu não conhecia Ivone, mas e se eles decidirem matar todo mundo? " Eu vim de salvador, mas encontrei eles em algum ponto da estrada perto da divisa do estado não foi?"" Espera, você tem costume de dar carona para desconhecidos assim?"" Sim, qual o problema? A loira ai tava em situação oposta da tua, você dava um passo para frente e dois para trás pela chuva, ela dava um para frente três para o lado, o sol tava de matar aquele dia. E bem, o Zé tava tendo um Treco, o que cê usou aquele dia bicho?"" Nem lembro, só sei que acordei aqui." " Vocês são doidos ou o quê? " " Acho que não é loucura querer ajudar quem precisa, e fora que ter alguém para comprar a maconha é uma vantagem, imagina, ter que sair procurando a próxima cidade, o próximo aviãozinho, e contando os centavos para comprar isso? Ia dar muito trabalho. Somos adeptos da cultura de não se importar. Ficamos de boa e esperamos o destino cumprir seu papel." Neto me respondeu tranquilamente, ele falava comigo como se explicasse a uma criança o quão simples é sorrir. "Você é meio ingrata. Ninguém pararia para pessoas como nós, agradece e fica de boa. Aqui, pega, passa para O tico e teco depois." Traguei o cigarro e fiz o que a loira, Ju, disse. Passei para os meninos e agradeci, realmente ninguém iria parar para mim assim, eles são sim bem loucos, doidões, mas até que são gente boa. Vi Neto pegar o cigarro e dar um tapa na testa em seguida. Como se tivesse esquecido de algo." Como tu chama mesmo bichinha?" "Amy." " Amy? Existe alguem com esse nome?" O galego perguntou rindo com deboche." Existe! Eu!"" Isso é apelido só pode, como é teu nome de verdade?"Por um segundo pensei em responder que era Júlia, mas balançei a cabeça rindo e me abaixei, procurei os documentos e entreguei a identidade para ele, eu estava doida mesmo para mostrar para alguém, e saber o impacto." Amy Lee Moraes? Tu é paulista?"" Amy Lee?" Foi a primeira vez que ouvi a voz do japinha, e no susto virei para trás olhando para ele, os olhos miúdos dele brilhavam e de uma forma estranha isso me assustava, qual é o problema do nome?" Amy Lee. Sim por quê?"" Ele é viciado em evanescence."" Evane... quem?" " Evanescence, uma banda de rock meio gótico americana."" Tá, mas o que isso tem a ver?" " Você tem o nome da vocalista." " Tenho?" " Tem e parece com ela, só tem que deixar o cabelo crescer, meu Deus tira uma foto comigo? Eu olhava assustada para o japonês que pulou os dois bancos que nos separavam com o celular na mão." Hey, calma ai, não vou tirar foto não, não gosto de foto, não conheço você, volta lá para o teu banco e fica de boa, nunca nem ouvi essa banda, nem sei se existe." " Desliga o som leãozinho, o DJ agora sou eu."Dani obedeceu e logo uma melodia dramática começou a tocar, a música com pouco mais de 3 minutos falava sobre ela ser perfeita mas não se sentir nada mais que a tola de todos. O japinha disse ao final o nome, e de um jeito estranho ele grudou em minha mente 'everybody's fool', e então se seguiram uma sequência de músicas dramáticas que constratavam elegantemente com a voz forte da garota. A maioria passou despercebido em comparação com a primeira de uma forma estranha ela dizia um pouco do meu sentimento antes. Em pouco tempo duas ou três músicas depois Dani ligou o som novamente abafando o som que saia do celular de Rui, tocava Maneva, uma semana ouvindo só reggae me deixou enjoada.
" Pode colocar outro tipo de música?"" Não gosta de reggae?" " Enjoei, passei um bom tempo em são Tomé só ouvindo isso."Ela mexeu em alguns botões, e logo uma voz bem conhecida soou. Raul Seixas, de todas qualidades que eu poderia imaginar sobre esse ícone da música brasileira, com toda certeza eu roubaria o "vasto" vocabulário de barata: Esse cara é foda pra caralho. Existe advérbio de intensidade melhor que esse?Tenho certeza que não sou a única que penso isso, pois no segundo seguinte a voz de Raul soar todos na van, sem excessão, começaram a cantar e gritar a bela escolha de ser essa metamorfose ambulante. Eles pareciam mais doidos ao som de uma boa música, cantando, gritando, se balançando e colocando as cabeças para fora mostrando aos outros motoristas como é bom ser livre, por alguns flashes de segundo em que eu conseguia ver a expressão das outras pessoas eu me sentia deliciada em participar desse momento épico da vida. Eu não sou o personagem principal da minha vida agora e essa sensação é libertadora, poder assistir um momento bom da vida passar assim. Você participar e assistir sem se preocupar é a melhor coisa que existe. Observar o riso e a incredulidade de quem me observa de fora e poder sentir o toque suave que a felicidade deixa em nós, meros mortais, conduzidos pelos fios invisíveis do destino, esses fios invisíveis e incorruptíveis que emaranham-se e conectam a novos fios sem nunca se romperem. Não importa quantas voltas demos em volta do nada o destino sempre vai fazer questão de nos deixar onde devemos estar no momento exato. Em um momento de claridade mental gritei por cima da música alta, eu não sabia para onde estava indo afinal. " Para onde estamos indo?" " Santa Catarina, vamos conhecer o frio do sul. Mas vamos parar em varias cidades." Galego respondeu ao meu lado." Não vou até o destino final, tenho minha própria jornada. Qual é a próxima cidade que vamos parar?" " Capitólio, os cânions brasileiros." " Existe isso em minas? Onde fica?" " Aqui em Minas, aliás estamos perto, o Ju, o que tem para comer?" " Resto daquela nojeita do MC Donalds que vc comprou, acabou o resto tudo." " Manda pra cá. Não importa quantos dias passem o lanche vai ter o mesmo gosto e aparência."Ju passou uma sacola sobre a minha cabeça e em poucos segundos o galego já estava devorando um resto de lanche que para mim não parecia nenhum pouco comestível, olhar ele comendo aquele negocio fez meu estômago embrulhar substancialmente. Eu conservava um nojo e repúdio aquele tipo de alimento a quase dois anos, desde que tive que fazer um trabalho de química em que o tema era esse tipo de rede de fast food. Aparentemente apesar de acostumados eu notei uns olhares de lado seguidos de careta, aquele ato estava afetando todo mundo. " Parem de olhar assim, em menos de duas horas vamos parar na cidade e vocês compram comida, eu vou continuar com o meu MC."Uma discussão acalorada começou, me fazendo rir, o assunto que começou por um lanche agora seguia rumos diferentes, eu quase não conseguia entender o que eles falavam e isso afirmava ainda mais a minha perspectiva deles serem completamente loucos, loucos do bem eu admito, mas ainda assim loucos. Um fato engraçado ver como quando duas pessoas ou mais quando passam muito tempo juntos elas começam a se conhecer bem e isso faz as pessoas se suportarem de uma forma interessante ou se odiarem de uma forma insuportável, é como se o jeito que a pessoa mastiga ou encanta ou irrita, nesse caso eu tenho certeza que irrita eles. É compreensível até, não consigo nem me imaginar mais morando em uma casa, imagina viver em uma van com mais seis pessoas. A estrada enlouquece os homens. É a estrada enlouquece, a falta de mais pessoas enlouquece, o excesso de pessoas também enlouquece. Talvez a loucura esteja dentro de nós esperando um motivo banal para escapar. Depois de longos minutos discutindo sobre qualquer coisa Alex parou de falar me olhando, alguma coisa dentro de mim se encolheu em resposta ao perigo iminente naquele olhar." Legal, uma pedra da lua, onde você comprou?" No automático apertei a pedra ainda mais entre meus dedos. Eu nem notei que estava segurando. E espantei a mão que se aproximava em direção a pedra com a outra mão. Um ato quase inconsciente que acabou me surpreendendo. Eu nem acredito nisso, por que diabos estou obedecendo a bruxa que me pediu para não deixar ninguém tocar na pedra?" Desculpa, você não pode tocar. Ganhei de uma bruxa." A ironia era palpável em minha voz, mas por algum motivo todos levaram a sério, eu sentia os olhares em mim em contraste com o silêncio matador que se instalou." Bruxa?"" É, tem uma em São Tomé. Gente boa até, me deu a pedra e pousada por alguns dias."" Na volta temos que achar ela em são Tomé." Dani quase pulava na cadeira em animação. Não contive um revirar de olhos com isso, alguém realmente acredita nisso? O brasileiro tem tendência em acreditar em coisas estranhas apenas por ter algo em que acreditar. A conversa sobre bruxas e crendices se estendeu por todo o resto do caminho, as opiniões divergiam de forma magnífica, incrível como em um grupo tão pequeno de pessoas as opiniões correm de um ponto a outro. Tantas vezes não temos a mínima curiosidade sobre isso apenas por medo de acabar em discussão, medo de se envolver em assuntos polêmicos. Por tantas vezes não acreditamos na nossa própria capacidade de manter o controle e saber argumentar e aceitar a opinião alheia. Não sabemos o minimo sobre respeito, para acreditar que vamos respeitar alguém que não pensa como nós, medo besta de quem cresceu acreditando que religião e política não se discute. Discute sim, discute em um barzinho com a cerveja na mão depois de um jogo de futebol, aliás, por que ninguém aceita discutir futebol com respeito? Extremos bestas e limites tênues de mais para alguém não ter medo de ultrapassar. Talvez fosse isso que Joana queria dizer, uma população de pessoas que gritam tantos ismos, obrigando todos a pensar igual por medo de não se controlar e desrespeitar aqueles que pensam diferentes, queria tanto poder perguntar isso, ter essa conversa a sério com ela, talvez um dia. Quem sabe o destino não me leve de volta a alguns lugares e me deixe reencontrar certas pessoas. Em pouco tempo entramos na cidade e paramos em um super mercado qualquer, a van estacionada e cada um indo comprar o que precisava, comida. Como eles segui meu caminho, precisava de água e pelas minhas contas as minhas regras estavam próximas demais, em três ou quatro dias e eu precisava de algumas coisas. Passei pelo corredor de produtos de higiene e fiz minhas compras, segui os corredores e peguei mais algumas coisas de comer, mesmo na estrada tenho a certeza que não sou imune aos efeitos e desejos que a TPM produz. Aliás, a vontade de comer chocolate anda se aproximando com cada vez mais força desde a chuva, eu tenho certeza que ela vai me fazer ter cólicas horríveis, não quero pensar nisso agora, não agora. Peguei o que achei necessário e fui para o caixa onde encontrei meu conhecidos da van, entre gritos e risadas compartilhadas entre todos nós e sendo estranhados pelos outros clientes retornamos a van. Cada um preso em seu mundo comendo o quanto a fome lhe permitia. Interessante esse poder que a fome exerce sobre nós, muda o comportamento e o universo particular de cada um, comida é vitae, a essência que mantem a alma viva, não apenas o corpo. Em pouco tempo seguimos caminho ao que eu imagino ser a saída da cidade. Animação a flor da pele contagiava, sorrisos se espalhavam a cada metro percorrido ampliando assim a curiosidade, a animação, a excitação por mais uma vez estar adentrando o desconhecido. O cânions americanos são lindo, porém monótonos, depois de dez minutos você enjoa, acho que nunca vi ninguém admitir isso em voz alta, é tão raro alguém criticar os outros países, exceto é claro a argentina, mas isso não é pelo país em si, mas sim por culpa do Maradona e dos outros argentinos. É tão fácil criticar o Brasil, mostrar os defeitos, escancarar para o mundo nossos podres, é divertido. Mas o que ninguém entende é que todo lugar tem defeitos, podres e problemas mas a população quer esconder isso e mostrar o melhor, é fácil gostar do que é bom. A van estacionou em um lugar estranho, diferente do que eu esperava, os meninos desceram rapidamente, antes mesmo de eu pensar em realmente descer Dani pulou para os bancos traseiros e uma bolsa voou por cima da minha cabeça, parecia coisa ensaiada e eu não duvido que fosse realmente.
" Quero usar o azul hoje." Gritou Ju no banco de trás, Dani riu e respondeu." Vou colocar o preto, se importa de usar um rosa?" " Usar o que? O que tá acontecendo mesmo?" " Biquíni, Dã..." " Não é um monte de pedra? Pra quê biquíni?" " Tem cachoeiras aqui, menina. Se não quiser usar um rosa tem um listrado." " Qualquer um." Ela me jogou o rosa e começou a tirar a roupa, jogou um azul para Ju que também tirou a roupa, por um segundo me senti paralisada, não sabia direito o que fazer, mas por fim dei de ombros e tirei a roupa colocando o biquíni rosa pink simples, eu vou me ferrar mesmo daqui a uns dias. Vou aproveitar mais um pouco, elas colocaram shorts e desceram, eu não tinha nenhum short então tirei a camiseta de futebol que roubei de Ricardo, ela ficava como um vestido para mim mesmo. Sai da van a tempo de ver o japinha com um celular na mão indo tirar fotos do grupo de amigos, pode ser coisa da minha cabeça, mania de perseguição, loucura, não sei, mas eu não queria aparecer em nenhuma foto, virei de costas o mais rápido possível tentando esconder ao menos meu rosto, ouvi eles me chamarem para participar dessa cerimônia de chegada como eles mesmo denominavam, mas eu não me sentia nenhum pouco a vontade em ter meu rosto rodando em alguma rede social. Após algumas reclamações eles guardaram o celular e seguiram rumo a um lugar qualquer desconhecido por mim. Me mantive cautelosamente poucos passos atrás deles, se decidissem fotografar mais alguma coisa eu tinha um tempo mínimo de reação, eu podia ouvir Ju, a loira mau-humorada resmungando sobre eu ser estranha e não ser parte do grupo, eu não me preocupei ou qualquer outra coisa, apenas revirei os olhos diante da clara demonstração que ela não vai com a minha cara. Se fosse a algum tempo atrás eu poderia até me preocupar com isso, tentar mudar a opinião dela, mas agora eu simplesmente tenho um lindo "foda-se" estampado na minha testa. Não acho mais que eu tenho a obrigação de agradar e ser agradável com alguém." Não liga para ela, ela consegue ser bem chata as vezes." " Não me importo com a opinião dela. E não planejou seguir viagem com vocês por muito tempo." Disse olhando o japinha, por um segundo me perguntei se ele enxerga apenas uma faixa, igual quando semi serramos os olhos, mas balancei a cabeça diante dessa ideia ridícula. " Não gostou da carona?" " Sou grata por ela na verdade, mas eu preciso seguir meu caminho sozinha, tenho um plano traçado na verdade." " Esse plano inclui fugir de qualquer tipo de foto?" " Com toda certeza." Sorri com a pergunta, o jeito dele de cercar antes de fazer a pergunta que tanto quer é interessante. " Você é algum tipo de fugitiva da polícia internacional, para ter medo de reconhecimento facial, ou coisa do tipo?" " Na verdade sim... Não conta para ninguém, mas eu planejei a morte do papa e do Barack Obama, infelizmente a CIA descobriu meu plano e interceptou meu pacote de maconha argentina contaminado... Morreram alguns agentes no processo e por isso sou uma fugitiva internacional, o mundo todo está me procurando." " Você é muito espertinha, esse sarcasmo vai te levar longe e te deixar sozinha." " Gosto da solidão." " Tanto faz, agora explica o por quê do medo das fotos." " Tribos antigas acreditavam que essas formas de guardar uma imagem eternamente prendia a alma deles, eu acredito nisso, não quero perder minha alma para um aparelho 'made in china'." " Como você é engraçada, eu sou neto de japonês, não de chinês." Ele disse isso enquanto sai me deixando para trás novamente. Talvez isso seja o melhor, realmente ficar sozinha.
Notas finais
Então gente, como então pessoas lindas? Ainda tem alguém ai?
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